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domingo, 20 de maio de 2007

Um menino chamado Jesus (Valéria Eik)


A carroça vinha carregada de sal grosso, açúcar mascavo, garrafas de pinga da boa, encomendas de toda sorte, e de quebra, dois porcos que grunhiam sob um calor de quarenta graus.

Antero segurava as rédeas com as mãos calejadas e seu corpo sacolejava, indolente, seguindo o ritmo da carroça. O sono turvava a sua visão da estrada e do céu muito azul, sem nuvens, mas, era impossível dormir; qualquer descuido seria recompensado por dentadas dos porcos que já andavam inquietos com o calor. E o sol inclemente cozinhava os seus miolos, apesar do chapéu de palha encardido a lhe cobrir a cabeça.
Era certo que ganhava dinheiro com as viagens, e juntava centavo por centavo para comprar um pedaço de terra, construir um rancho e encher a Matilde de filhos, todos homens.

Mulher bonita essa Matilde. Bonita e prendada. E cobiçada pelos peões da vila e até da cidade. Mas, ela gostava era dele, Antero, o carroceiro fogoso, de pernas e braços vigorosos, sempre pronto para mais um beijo, mais uma carícia e mais alguma ousadia que Matilde consentisse. Ela, porém, não permitia nada além de afagos que prometiam e não cumpriam, deixando o moço em desespero, quase a ponto de desonrar a noiva ali mesmo, à sombra das bananeiras. Insistia, tentava, pedia, implorava. Chegava a se zangar e ameaçava romper o compromisso, mas, Matilde ria e desandava para casa, deixando no ar um cheiro de cio, e levando consigo a certeza de que seu homem estava preso e enfeitiçado. Com o desejo à flor da pele e dos pelos, saltando pelos olhos e pelos poros, Antero seguia rumo ao puteiro e chamava a Luzinete, ou a Marinete, ou até mesmo a Ivete. Tirava a roupa aos trancos, saltava sobre a escolhida, sussurrava “Matilde, Matilde”, e em segundos urrava e despejava o seu abundante prazer sobre a puta, sobre o lençol, sobre a frustração. Saía do prostíbulo com uma sensação de vazio, de tristeza, de ter perdido tempo e dinheiro. E se atirava em mais uma viagem para apressar o dia em que jogaria Matilde no leito e arrancaria dela todos as safadezas tão esperadas. Comprou o tal pedaço de terra e construiu um barraco. Matilde fez cara de pouco caso. Queria mais. Queria uma casa branquinha, com jardim na frente, horta nos fundos, e até um fogão a gás. E lá se foi Antero ganhar estrada e correr trecho. Parecia nunca alcançar o sonho, que ria e fugia, fazendo jogo, fazendo manha, como Matilde. Quando voltou, a noiva estava diferente. Carinhosa, ela permitiu afagos e ousadias. E ali mesmo, entre as bananeiras, Antero comeu seu sonho, arrotou gemidos e palitou a felicidade.

Pediu a mão de Matilde ao velho Juvêncio. E depois do sim, e depois do casório, e depois da festa singela, levou a esposa para o barraco, e no leito se alimentou de safadezas por muitas horas, por muitos dias, sem querer outra vida que não fosse aquela. Mas, Matilde queria a casa branquinha, queria o jardim e queria a horta, e não abria mão do fogão a gás. Fazia muxoxos, fazia birra e passou a recusar todo aquele despudor. E Antero não teve outro jeito senão atrelar o cavalo à carroça e pegar a estrada novamente. Com o coração apertado dentro do peito e o chapéu de palha enfiado na cabeça, lá se foi o homem em busca dos sonhos da esposa. Ao retornar, depois de poucas semanas, deu de cara com uma barriga crescida e soube que ia ser pai.

– Vai ser o primeiro de muitos moleques, Matilde. O primeiro!

Ela sorriu sem vontade, num tom amarelado e não disse palavra.

De noite, no leito, Antero puxou a mulher para si, cheio de desejo, mas, ela não quis. E ela nunca mais permitiu aqueles descaramentos. Estava em estado de graça, de espera, como se fosse uma santa ou mesmo a Virgem Maria. E o dinheiro para comprar o fogão foi jogado no puteiro, ora com a Marinete, ora com a Ivete, ora com a Luzinete. Mas, Antero queria Matilde, e ali mesmo, em meio às putas, gritava o seu desejo pela esposa que agora era uma santa. As meninas da casa riam e riam.

– Santa só no céu, bobinho!

E tratavam de fazer toda a sorte de safadezas para alegrar o pobre homem e ganhar os seus tostões.

Passou-se um mês, passaram-se mais alguns poucos meses, e o menino, o filho homem do Antero, veio ao mundo. Não tinha os traços fortes da mãe e nem a cabeleira ruiva do pai. Era muito branquinho e tinha os olhos mais azuis que os de Jesus Cristo. Antero olhou e entendeu. E no mesmo instante sorriu para Matilde e disse:

– Vai se chamar Jesus, minha santa. O nosso menino Jesus!

De volta ao casebre, Antero cobriu mãe e filho de mimos. Parecia alegre, parecia feliz. E quando achou que já era tempo, puxou Matilde para si, cheio de desejo, querendo safadezas, e escutou a recusa. Um sorriso gelado e cruel saltou da boca crispada.

Não tinha a menor importância se nenhum anjo a visitara. E muito menos se o pequeno Jesus nem era o outro filho de Deus e muito menos seu. Matilde era sua. E seria sua todas as vezes que ele quisesse e da forma como bem entendesse. E quando se fartasse, enjoasse e até enojasse, teria a Luzinete, a Marinete, e a Ivete, as meninas do puteiro, as Marias Madalenas da vida, desavergonhadas, descaradas, verdadeiras.
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