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domingo, 17 de junho de 2007

Aníbal e os livros (Nilto Maciel)

















Bárbara fez uma fogueira de todos os livros de Aníbal, apesar da oposição dos filhos. Melhor vendê-los aos sebos. Doá-los a bibliotecas públicas. Fazer um leilão. Bárbara ainda leu os títulos de alguns livros, antes de lançá-los ao fogo. Talvez descobrisse a causa essencial, primeira, da tragédia de seu marido, nas letras das capas. Ou nos desenhos. Ou nos nomes dos autores. Não, não adiantava descobrir nada. E deu início ao lento esforço de empilhar os volumes no quintal da casa: On The Origin of Species, Charles Darwin; Animal Sharpshooters, Anthony D. Fredericks; The Cannibal, John Hawkes; La Bãete du Gâevaudan: l'innocence des loups, Michel Louis; Cannibal, Terese Svoboda; Viagem ao Brasil, Hans Staden ...
Quando se conheceram, ele já lia livros desse tipo? Bárbara nunca havia se interessado pelas leituras de Aníbal. Se lia romances policiais, biografias de santos, enciclopédias, a Bíblia, o Alcorão, poesias, não sabia. Ler ele lia, e muito, todo dia. E escrever? Não, ele não escrevia nada, a não ser cartas a parentes distantes. Mentia: ultimamente Aníbal andava escrevendo nuns cadernos. Aníbal pode ser considerado um erudito? Talvez sim. Pois conhecia toda a História, as primeiras grandes civilizações, Grécia, Roma, todos os séculos, reis, dinastias, guerras, descobrimentos, invenções, mitologias. Porém a mania de ler essas coisas de índios, de povos primitivos, de antropofagia, canibalismo é muito recente. Primeiro voltou a se interessar pela História do Brasil, relembrando os tempos de estudante. Lia os livros didáticos dos filhos. Participava ativamente das atividades escolares deles. Principalmente da matéria História. Entusiasmava-se, lia em voz alta trechos dos livros. Lia com prazer o capítulo do naufrágio do navio que conduzia o Bispo Sardinha de volta a Portugal e a conseqüente devoração dos náufragos pelos índios caetés. Anotassem o nome completo do apóstolo: Pero Fernandes Sardinha. "Pai, por que os peixes não comeram o bispo Sardinha, tendo ele nome de peixe?" Ria, contava outras histórias, fazia teatro. "Vamos estudar os caetés." Na pressa de ler tudo, adquiriu um Caetés, de Graciliano Ramos. "Na verdade, não gosto muito de romances. Prefiro a verdade dos compêndios de História. O título do livro de Graciliano me enganou. Mas não tanto assim. Há semelhança entre os caetés e João Valério. Ambos devoravam seus semelhantes. Os índios devoravam a carne de outros homens. O personagem de Graciliano devorou, ou supôs devorar, as vidas, os sonhos de seus próximos. O narrador confessa ao final do romance: "Que sou eu senão um selvagem, ligeiramente polido, com uma tênue camada de verniz por fora? Quatrocentos anos de civilização, outras raças, outros costumes." Os filhos cresciam, já não pediam o auxílio do pai para os deveres de casa. Aníbal, no entanto, continuava devorando livros, lendo em voz alta, atrapalhando a vida escolar dos filhos. "Homem, deixe os meninos em paz."

Baribal ainda teve tempo de ler alguns trechos dos livros do pai, assim como os cadernos deixados por ele. "Livros não enlouquecem ninguém. A loucura vem de outras fontes." Não, não concordava com a opinião da mãe. O pai até podia estar louco, porém a sua loucura não havia surgido da leitura dos livros, mesmo daqueles que tratam mais diretamente de canibalismo. Se não falava de outro assunto, se discutia em defesa de suas opiniões, se se irritava com facilidade, se brigava com a mulher e os filhos, se todo dia contava um sonho esquisito, se a toda hora falava de seus medos – nada disso se devia aos livros. O princípio de todos os problemas do pai podia estar no próprio nome: "Aníbal" está dentro de "canibal", faz parte da palavra, embora as origens de uma e de outra sejam bem diversas. Vissem bem os nomes dos filhos, dados por ele e não pela mãe: Baribal e Aníbara. Ambos formados de pedaços dos nomes Aníbal e Bárbara. E quem seria mais canibal? Quanto à mania de ler, tudo deve ter começado pela curiosidade de conhecer as origens do próprio nome. Ao descobrir o primeiro grande Aníbal da História, passou a fazer mais e mais pesquisas, leituras. Afundou na História de Roma, perdeu-se no passado. Quando descobriu Aníbal Barca só faltou ficar doido. Sentiu-se o próprio guerreiro antigo. Copiou em grandes letras um trecho em latim e o expôs na sala de casa: "Missus Hannibal in Hispaniam primo statim adventu omnem exercitum in se convertit. Hamilcarem iuvenem redditum sibi veteres milites credere; eumdem vigorem in vultu, vimque in oculis, habitum oris lineamentaque intueri. Dein brevi effecit ut pater in se minimum momentum ad favorem conciliandum esset. Tito Lívio, Ab Urbe Condita Libri."

A discórdia na família de Aníbal vinha de muitos anos. Bárbara nunca gostou dos nomes dos filhos e sempre se queixou disso. Queria nomes mais comuns, como Aniceto, Anacleto, Ana, Anastácia. O menino chorava quando os colegas o chamavam de Bari, Bariba, Barbal e outros apelidos. Aníbara chorava mais ainda, porque a chamavam de Víbora ou Níbra. E, adolescente, passou a responsabilizar o pai por todos os seus infortúnios. Não conseguia namorado. As colegas fugiam dela.

Bárbara acusava Aníbal de ter trazido a loucura para dentro de casa desde o batizado dos filhos. Ao misturar os nomes Aníbal e Bárbara, para da mistura formar os nomes dos filhos, deu início à própria crise, à própria loucura, ao canibalismo de letras, sons e palavras. E o pior de tudo: não havia solução para aquilo. "Nome dado é nome moldado, ferrão em rês, marca. Para sempre." A pobre menina morreria Aníbara, metade Aníbal, metade Bárbara. E Aníbara, tresloucada, se desgrenhava, arrancava cabelos, babava, rolava no chão.

Leonardo Jaguaribe lamentava o final infeliz do amigo Aníbal. Conheciam-se há muitos anos. Quantas noites juntos nos bares, falando de política, futebol, crime, cinema, música, literatura. Porém nos últimos tempos Aníbal havia se tornado insuportável. Não parava mais de falar, não deixava ninguém abrir a boca. E, pior, o mesmo assunto. Sim, Aníbal não passava um dia sem falar em livros. Porém dos livros passava aos sonhos, ao futuro, delirava, voava. Então a loucura de Aníbal vinha dos livros. Não, não via nos livros a causa principal da demência do amigo. Tudo vinha da bebida, do álcool. Daí os sonhos estapafúrdios, os delírios intermináveis. Quantas vezes contou histórias de autodevoração. Sentia fome e vontade de comer o próprio corpo. Partia dos dedos das mãos, passava aos braços, descia aos pés, às pernas, ao pênis. Sonhava devorando Bárbara. Esquartejava-a, jogava à panela os pedaços. Convidava amigos para a grande ceia. Os filhos perguntavam pela mãe. Ele mentia e os obrigava a se alimentarem da carne da própria mãe. Contava isso como se contasse uma história banal, sem nenhuma cerimônia, porém sem riso de deboche.

Felismina, mulher de Leonardo, também freqüentava a casa de Aníbal e Bárbara. Conhecia Baribal e Aníbara desde pequenos. Conversava horas a fio com Bárbara. Com Aníbal não conversava tanto. Não entendia bem as palavras dele. Não gostava dos assuntos por ele tratados. E ultimamente sentia arrepios e até enjôos quando ele se punha a falar. Porém não via loucura nenhuma nele. Aníbal não passava de um homem estranho, esquisito. "Posso dizer excêntrico?" Talvez nem fosse isso. Possivelmente se fazia assim, se mostrava assim, por exibicionismo. Qualquer pessoa pode ler livros sobre canibais. Qualquer pessoa pode ter sonhos absurdos. Inventaram a loucura de Aníbal. Os objetivos desses "inventores" seriam os mais diversos. Bárbara talvez quisesse se livrar do marido. Viviam brigando. Separação inevitável e necessária. Segundo Bárbara, o marido não a amava mais. Passava dias, semanas, meses sem se aproximar dela. Sentava-se, abria um livro sobre canibais e dormia no sofá. Um dos livros preferidos dele era Viagem ao Brasil. As páginas mais anotadas foram as que descrevem cenas de antropofagia: "Quando trazem para casa os seus inimigos, as mulheres e as crianças os esbofeteiam. Enfeitam-nos depois com penas pardas; cortam-lhes as sobrancelhas; dançam em roda deles, amarrando-os bem, para que não fujam. Dão-lhes uma mulher para os guardar e também Ter relações com eles. Se ela concebe, educam a criança até ficar grande; e depois, quando melhor lhes parece, matam-na a esta e a devoram."

Mesmo quando ia para a cama, levava um livro. Ficava até de madrugada lendo, dormia, acordava assustado, aos gritos. Bárbara também se assustava. "Eles já iam me devorar vivo." Baribal e Aníbara podem ter sido influenciados pela mãe. Leonardo queria afastar Aníbal do álcool.

Há algum tempo Aníbal vinha tendo dificuldades de relacionamento com os colegas de trabalho. Os primeiros problemas surgiram quando passou a ler durante o expediente. O chefe chamou-lhe a atenção diversas vezes. Além de ler, Aníbal falava muito enquanto trabalhava, ou parava de fazer as tarefas para falar dos livros, de seus sonhos e delírios. A qualquer hora abria um de seus livros raros e se punha a ler em voz alta, em inglês, latim e até idiomas menos conhecidos aqui, como a língua d'oc. Às vezes fazia pose, pedia silêncio, atenção, e relia trechos de obras científicas.

Alguns colegas dele riam e, sem que ele ouvisse, chamavam-no de maluco. Outros não lhe davam mais ouvidos, irritavam-se, faziam reclamações ao chefe. Os mais amigos pediram paciência. Aníbal precisava de ajuda médica. César, o chefe, gritou: nada de maluquice, nada de necessidade de tratamento médico. O socou a mesa: preguiça, malandragem, eis o nome da doença desse falso canibal.

No entanto, uma funcionária procurou o médico da repartição. E convenceu Aníbal a ir ao consultório do doutor Osvaldo Cruzado. Atônito, o marido de Bárbara se dirigiu ao clínico. Falou durante mais de uma hora: canibais, relatos de cenas de canibalismo, sonhos estapafúrdios. Osvaldo em nenhum momento deixou de mirar as palavras cruzadas e outros passatempos espalhados sobre a mesa. Súbito quis saber se Aníbal gostava de História. E se pôs a falar das Cruzadas. Império Bizantino, papa Urbano II, Deus vult, Deus assim deseja, libertação de Jerusalém, Terra Santa, Guerra Santa. O paciente passou imediatamente a falar de Amílcar Barca e de seu famoso filho. Ainda pequeno, na presença do pai, Aníbal jurou eterno ódio aos romanos. O médico parecia embasbacado. Tomou veneno, para não se entregar aos inimigos. O médico coçou o queixo. O fato se deu no ano 183 a. C. Ao fim da consulta, encaminhou Aníbal a um psiquiatra.

Recebido com euforia pelo doutor Sigismundo Freudungo, o paciente se manteve calado durante alguns minutos. Talvez a origem da doença estivesse na sua infância. Pode ter presenciado cenas de canibalismo entre animais. Cobra engolindo cobra, rato devorando rato. Como se o médico estivesse ali apenas para ouvi-lo, pôs-se a dizer frases desordenadas, como se colhidas aqui e ali, numa colagem babélica: "Os homens eram comidos em muitas tribos no meio de festas rituais; algumas tribos comiam os inimigos, outras os parentes e amigos." Abriu a pasta cheia de livros e cadernos, meteu a mão e retirou um calhamaço: "Nem nos deve admirar a barbaridade destes povos, quando sabemos que dos descendentes de Tubal e de outras nações políticas com que se povoou Portugal se reduziram muitos dos seus descendentes a tanta brutalidade que matavam e comiam aos que dos povos vizinhos apanhavam ou em guerra ou em ciladas."

Bárbara fez uma fogueira de todos os livros de Aníbal. Nunca mais queria ver livros à sua frente. Por causa deles o coitado do Aníbal havia enlouquecido. Agora a miséria, a vergonha, todos os vexames sociais. Por onde passa ouve um zunzunzum: olha a mulher do doido; tanto orgulho e agora isso...
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