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domingo, 17 de junho de 2007

Conversa decisiva (Valéria Nogueira Eik)


O quarto luxuosamente decorado abrigava o homem à beira da morte. Ele estava quieto como um defunto, olhos pregados no lustre suntuoso, e as mãos cruzadas no peito. A sua respiração, no entanto, denunciava ainda um resto de vida, e o ventre volumoso parecia singrar um mar ondulado, ora subindo, ora sumindo. Deu pela presença da moça e olhou-a de alto a baixo, avaliando se era realmente a pessoa certa. Balançou a cabeça numa negativa resignada. Fez sinal para que o enfermeiro deixasse o aposento.
“Estafermo! Não me dá sossego. Mede a temperatura e a pressão várias vezes por dia. Insiste em me fazer tomar os remédios nas horas certas, como se isto fosse importante no ponto em que estou”.
Parou de falar mediante um terrível acesso de tosse. Permaneceu com os olhos fechados, as lágrimas escorrendo pelo rosto contorcido, completamente abandonado sobre o leito. Parecia não querer falar. Estava exausto. Mas voltou à vida uma vez mais.
“Está com pena? Não tenha! Tive uma boa vida. E o caminho para a morte tem sido confortável, dentro do possível. Construí um grande império, você sabe. Tanto sabe que está aqui. Se eu fosse um pobre coitado sem vintém, quem se interessaria em contar a minha história? Ninguém!”
Riu com o canto da boca, num cinismo assustador.
Está chocada com as palavras ácidas de um velho moribundo? Não, não fique! Estou com os pés na cova, e, portanto, tenho o direito de insultar, zombar e pisar em todos os idiotas que se aproximam de mim, sempre visando algum interesse. Tenho o direito de pelo menos morrer em paz, não acha?”
O suor empapava o pijama. Não, ele não queria interromper a conversa. Queria ir até o final.
“Nasci em berço muito pobre, moça. Não sou o filho mais velho, nem o mais novo. Estava entre os muitos da ninhada. História comum. Pais analfabetos. Ela, empregada doméstica. Ele, auxiliar de pedreiro. Moradia? Um barraco caindo de podre, onde dormíamos amontoados em colchões achados no lixo. Vida dura, moça. Muito cedo caí de boca na rua. Esmolava. E, quando tive idade para trabalhar, agarrei o primeiro serviço com unhas e dentes. Entregador de compras de um pequeno mercado. Abandonei a família. Ninguém se preocupou. Uma boca a menos para alimentar. Solução inteligente e sensata. A dona do estabelecimento, viúva sem filhos, tomou-se de amores por mim. Daí pra frente a vida abriu as suas grandes pernas e eu não me fiz de rogado. Trabalhei duro. Estudei. E fiz a viúva feliz. Tão feliz que morreu no meio de um entre tantos gozos que lhe dei. Assumi o mercado. Ampliei os negócios. Eu era o Midas da modernidade. Sim. Construí um grande império”.
A moça escutava as palavras do velho com certo ar de enfado. Realmente, a história era banal. Mas prosseguiu com as perguntas. E esperava ouvir respostas picantes que lhe rendessem uma matéria sensacionalista na primeira página do jornal.
“Honestidade? Não posso dizer que fui honesto. Nem posso dizer que fui um bom homem. Mas usei a inteligência que me foi dada por Deus ou pelo Diabo, quem sabe! E fiz fortuna. Tenho certeza de que um deles ficará satisfeito com os resultados. Afinal, não enterrei meus talentos. Multipliquei-os. Roubar? E quem não roubou nesta vida? Não faça cara de inocente, por favor. Tenho certeza de que você roubou muitas coisas. Deve ter surrupiado uma flor nos jardins públicos, um chocolate no supermercado, um livro na biblioteca. Deve ter flertado com o namorado da sua melhor amiga, ou tido um caso com o seu cunhado. Recebeu dinheiro a mais e ficou calada. Comprou produtos piratas. Sonegou impostos. Assaltou um banco. Existem várias maneiras de roubar. Mas nem por isto deixa de ser roubo”.
A moça ficou muito pálida e teve dificuldade em fazer novas perguntas. O velho abriu um sorriso sarcástico e sorveu, deliciado, a sensação de aniquilar tão facilmente mais um ser humano. E deixou que outra torrente de palavras ásperas inundasse o ambiente.
“Matar? E quem não matou nesta vida? Moça, entenda bem: de uma forma ou de outra sempre matamos pessoas. Pode ser tiro, facada, excesso de velocidade, negligência. Aposto que sua cama é macia e que sua mesa é farta. Mas você ignorou estômagos famintos, feridas purulentas e carências afetivas. Você passou por mendigos e os deixou nas calçadas, tiritando de frio, jogados à própria falta de sorte. Existem inúmeras maneiras de matar. E não acredito que você não tenha matado pelo menos uma pessoa. Não? Ora, pense bem! Se ainda não matou, vai matar. Acredite!
Ela estava visivelmente perturbada com a conversa e queria fugir daquele homem que não poderia ser um filho de Deus. Ele era mau. Era cínico. Era cruel. Seria sugado para o fogo eterno em pouco tempo. Que Deus fizesse justiça!
“Não. Não sou pior que você. A única diferença entre nós é que fui mais ousado e não tive medo. Não sou uma boa criatura, não tenho boa moral, mas tenho duas qualidades positivas. Sou justo. Quem me serviu pode dizer. Premiei e castiguei conforme o merecimento de cada um. A outra virtude? Sou absolutamente franco comigo mesmo. Meus pensamentos são lineares. Não contêm adornos. Sou como sou. Não justifico minhas atitudes”.
A moça, cada vez mais agitada, debatia-se em pensamentos confusos. Começava a assumir culpas. Sabia que depois daquela conversa absurda nunca mais teria sossego. Velho nojento! O hímen da sua inocência fora rompido violentamente por aquele homem maldito. Ele estava calado. Estaria pensando na morte? Talvez estivesse apenas esperando que os pensamentos dela se acomodassem. Talvez.
“Sinto muito estar no fim da vida. Eu poderia lhe ensinar tantas coisas! O toque de Midas, por exemplo. Ou, então, a verdadeira sedução. Mas não há tempo para isto. Sim. Você aprenderia rapidamente. E seria exatamente como eu sou. Não duvide!”
Com o olhar pregado nos sapatos, faltava-lhe coragem para enfrentar o rosto do velho. E do fundo daquele silêncio perturbador ela sussurrou outra pergunta.
“Deus? Não tenho certeza se Deus existe. É possível. Também não sei se existe vida após a morte. Ninguém sabe. Mas creia-me: não importa se estou indo até Deus ou até o Diabo, ou mesmo para lugar nenhum. Assim que eu botar meus pés em algum desses reinos, eles jamais serão os mesmos! Construirei novo império. Seja onde for. Em meio ao tudo. Em meio ao nada”.
O homem riu e seu riso já não era tão cruel. Era somente um gracejo irônico. Ria de si mesmo, do mundo e da moça.
“Ora, veja! Você deseja me matar. Faça. Uns dias a mais ou a menos, que diferença fará? Provei que a semente do mal está em todas as pessoas. Não, mocinha. Não me acuse de ter matado a sua inocência. Você nunca foi inocente. Chegou aqui para me roubar. Sim, moça. Queria roubar segredos escandalosos para a sua mísera matéria de jornal. Queria uma promoção às custas do meu nome. No entanto, vai levar coisa muito melhor que bobagens sensacionalistas. Você está levando a essência da paz. Sim. Quando assimilar esta nossa conversa, vai ver que lhe mostrei a única maneira de encontrar a paz. Vá embora. Não tenho mais nada a lhe dizer. Moça! Um obséquio, por favor: diga ao estafermo, que deve estar escutando a conversa atrás da porta, que ele está atrasado para medir a minha pressão.”
23/maio/2007
Maringá/PR
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