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sábado, 7 de julho de 2007

Hipnose (Nilto Maciel)


 














Andrew Albee chegou a Palma numa tarde quente. Maleta à mão, desceu do ônibus. Um menino ofereceu ajuda. “O senhor vai para o hotel?” O americano perguntou onde ficava o melhor hotel. “Aqui só tem um. Ali do outro lado da praça. Hotel Canuto.” 
Após o banho, Andrew se dirigiu à sala de jantar. Pediu o menu. O hoteleiro gaguejou, andou pela sala, olhou para a hoteleira, ofereceu água e café ao visitante. “Mulher, você viu o menu?” A arrumadeira saiu em seu socorro. “Já trabalhei num restaurante na capital. Menu, cardápio, relação dos nomes dos pratos. Aqui não tem isso, né?” O hoteleiro sentou-se de novo. Não serviam jantar no hotel. Nem almoço. Porém havia um restaurante na praça. O estrangeiro sorriu. Se a moça não se importasse, poderia fazê-la dormir naquele momento. Ela também sorriu. Ninguém a faria dormir àquele hora. “Eu não sou galinha para dormir tão cedo.” De qualquer forma, aceitou o desafio. “O senhor quer me hipnotizar, não é?”
Cinco minutos depois do início da sessão, Maria dormia, sentada na cadeira, diante de Andrew e sob os olhares de espanto dos donos do hotel. O hóspede dava ordens e a arrumadeira obedecia. Pareceu comer um frango inteiro, lambuzar-se de gordura, lavar as mãos e a cara. O hoteleiro nem sequer piscava. Coisa do demo. Minutos depois, a moça acordou, a um bater de palmas do estrangeiro. Um gato parou à porta e cravou o olhar no mágico.
Dizendo-se faminto, Andrew se dirigiu ao restaurante. Bebeu cerveja e jantou, sem parar de conversar com garçons e fregueses. Quem aceitava ser hipnotizado? Um dos garçons duvidou de seus poderes. Dois minutos depois parecia um robô. A platéia bateu palmas. Um rapazote se apresentou ao visitante. Queria ser hipnotizado. Novo sucesso. “João, você comeu uma barata.”
Feitos amigos, o americano e João saíram para a praça e se puseram a caminhar. As moças olhavam para Andrew e diziam coisas, baixinho: “Bonitão!” “Que louro bonito!” “Valha-me , Deus!”. Ele sorria e andava. João olhava para o alto e conversava. “Vamos tomar uma cerveja, gringo?” Uma das moças da praça aceitou a proposta de hipnotização. E até levantou a saia, sentada num banco.
A cidade se preparava para eleger prefeito e vereadores. Ananias, o prefeito, chamou o estranho ao seu gabinete. “Meu filho é candidato a prefeito.” E apresentou uma proposta a Andrew: mordomias, mulheres, passeios, segurança, tudo, em troca da hipnotização geral dos eleitores no dia da votação. O gringo sorriu. Como era o rapaz? O pai disse maravilhas de Sainan: estudioso, bonito, inteligente. João, Maria e outros eleitores disseram cobras e lagartos do filho do prefeito. Estróina, vagabundo, safado. Se dependesse do votos deles, o novo prefeito seria o candidato da oposição. Ou qualquer outro, menos Sainan. Nunca o filho do prefeito. Preferiam votar num burro, num cachorro, num bode, em nada.
Chamado de novo à Prefeitura, Andrew fez Ananias dormir por alguns minutos. E se retirou pé ante pé. Encontrou João à calçada. “Vamos tomar cerveja.” Jamais o prefeito se deixaria hipnotizar. Sono artificial naquele homem - nunca.
Porém no dia da eleição Sainan e seu pai dormiram muito. E Andrew Albee fugiu da cidade, às pressas.
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