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sexta-feira, 27 de julho de 2007

O último troiano (Nilto Maciel)


 
















Quando mais uma pessoa caiu do edifício Tróia, a história das tragédias lá ocorridas voltou à baila. Relembraram repórteres as outras mortes no prédio de vinte andares. Um ano atrás, uma jovem se havia espatifado na calçada, caída do 18.º andar. E ainda não se concluíra o inquérito. Inoperância da polícia – asseguravam jornalistas. Para o delegado, podia se tratar de suicídio, hipótese não aceita pela família da vítima. No ano anterior a esse, um homem voou do 19.º andar. Portava asas de papelão e uma máscara. Disseram ser réplica da face de Cristo. Nos dias anteriores à inauguração do edifício, ainda em obras, um operário escorregou de um andaime do último andar e deu início à série de tragédias acontecidas no lugar. No dia seguinte alguns jornais noticiaram o fato, sem alarde. E ficou nisso.
A morte da moça caída do 17.º andar do Tróia deixou a polícia perplexa. Não se apresentaram parentes nem amigos da vítima. Na bolsa da morta não foram encontrados documentos pessoais. Ninguém no edifício conhecia a jovem. Quem seria ela? Qual o nome dela? De onde viera? O que fora fazer no prédio?
Para alguns jornalistas, estava-se diante de um mistério. Aliás, de mistérios. Por que tantas mortes no edifício? Por que a sucessão de tragédias se dava de ano em ano? Por que as mortes ocorreram de forma tão organizada, seguindo a ordem decrescente dos andares? Por este raciocínio, no próximo ano a vítima cairia do 16.º andar.
Segundo um pesquisador, erigiram o prédio sobre o terreno de um cemitério. E daí? Ora, as fundações...; ora, os mortos antigos...; ora, isso e aquilo. Os mais incrédulos riam do pesquisador maluco. Eu não sou palhaço, não. E maluco é a mãe. Deixavam de rir, mas não de refutar as opiniões do homem. Ora, quase todas as cidades foram construídas sobre cemitérios, sejam de índios, sejam de seus antepassados. Os arqueólogos descobriam a toda hora sítios no Egito, na China, no Piauí. E hajam ossadas de mil, dez mil, quarenta mil anos. Quarenta mil anos antes de Cristo parte de uma tribo teria sido enterrada na praia (antes terra firme) onde o edifício Tróia se erigiu. E tudo se explicava.
Um delegado de polícia não queria conversa fiada. Precisava somente encontrar o assassino, o louco, o “frio e calculista matador”. Não podia dar maiores informações, mas garantia: mais dia, menos dia, apresentaria à imprensa o monstro. Seria um coveiro? Não, talvez um carvoeiro. Um engenheiro? Não, talvez um arteiro. Um jornalista? Talvez um contista.
Quando ninguém mais falava da moça sem nome, um fotógrafo se postou diante do Tróia e apontou a máquina para o alto. Logo cercaram-no dezenas de curiosos. Aconteceu mais uma tragédia? Dizem que o prédio vai desabar. Morreu galego? Um homem vai pular do 16.º andar. O incêndio já começou? Os bombeiros foram chamados. Descobriram o nome da moça? Maria, mãe de Jesus, salvai-nos! O fotógrafo pediu silêncio; a multidão gritou, vaiou, assobiou. Olha para o céu que a estrela vai nascer. Súbito um corpo apareceu entre a parede do edifício e a eternidade, rodopiou no espaço, na direção da terra. O fotógrafo acionou a máquina uma duas três vezes, o povo se calou, voltou a gritar, o corpo descia, aproximava-se do chão, mais fotografias, apupos, gritinhos de pavor e gáudio. Finalmente o homem voador pousou, feito uma nave, aos pés do fotógrafo e das demais pessoas. Silêncio de morte. Mais fotografias, arredem pé, aplausos, risos, palmas. O rapaz abriu os olhos, mexeu-se no chão da calçada e se foi erguendo, para espanto de todos. Estou vivo! Estava tudo escuro. Senti medo, muito medo. Preciso morrer depois. Quem é você? Os mais medrosos se retiraram, embasbacados. Milagre! O fotógrafo fotografava o homem e o povo, o chão limpo, sem uma gota de sangue. Será o assassino das moças e dos rapazes? Será o engenheiro irresponsável? Será o capeta? Um evangelista se aproximou da multidão, Bíblia aberta, e pregou o fim dos tempos. Chamaram o sobrevivente de impostor, enganador do povo, matador de moças e rapazes. O delegado se enfiou no meio da plebe e sorrateiramente se acercou do homem caído. Com visível ódio, juntou as mãos do último troiano e o algemou. Prendi o assassino! Cumpri minha palavra. E arrastou o preso para um carro cheio de luzes e sirenes.
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