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segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Seca: A estação do inferno (Dimas Macedo)


(Teoberto Landim)

A formação de um escritor de talento está ligada, indissoluvelmente, à capacidade por ele demonstrada de reduzir, ao plano literário, de forma continuada, obsessiva e sempre com ânsias de perfeição e aprimoramento, a dispersão do seu imaginário, dando-lhe unidade e sentido morfológico e polifônico.

Todo escritor que se preza é resultado desse desafio e dessa intermitência que se alojam nos recessos da sua vida interior. Já sustentei que a inspiração é um elemento secundário na perspectiva de um produtor cultural de estofo. Ela configura, às vezes, apenas um sinal ou pode expressar também um signo que o movimento das forças sociais coloca diante da realidade que se quer mutante em face de um mundo conturbado.
A compreensão do ser no mundo será sempre um problema de difícil solução, tendo-se em vista, essencialmente, a mutação das linguagens que o homem armazena no seu inconsciente e vai destilando no choque da comunicação com os seus iguais. O homem é um ser absoluto demais no plano da sua consciência e é um ser relativo demais na interface que mantém com os jogos da alteridade, da sedução e das expressões culturais que vai arquitetando.

Para muito além da administração desse intrincado labirinto, ao escritor estaria reservada uma missão bastante singular e tormentosa: assumir a outridade que o persegue de forma voraz e indiscriminada. Falo em outridade numa alusão velada ao pensamento de Otávio Paz, para me referir ao outro, para me repor às vozes e aos silêncios todos que o escritor está obrigado a escutar e a assumir como projeto da sua paz interior.

O escritor reverbera contra o mundo e em defesa do mundo. E reverbera porque deseja viver nos limites da sua contingência, porque busca a imanência e a permanência do real e não a fantasia delirante do seu imaginário. A obra de arte literária é, neste sentido, um momento epifânico cujo simbolismo somente a ele é dado conhecer.

Os críticos, os leitores, os consumidores dos seus artefatos e da beleza que ele nos transmite, são escritores apenas no sentido da recepção da sua obra, mas não no sentido de assumir a mediunidade e de filtrar a essência da linguagem que ao escritor (e somente a ele) é permitido assimilar.

O exercício da longa ficção, a pesquisa de formação acadêmica, o ensaio literário de qualidade estética relevante, o conto e a produção da crítica literária têm ocupado a argúcia e os impulsos criativos de Teoberto Landim e tem firmado o seu nome como um dos nossos melhores escritores.

Teoberto é um produtor cultural de pouca ou quase nenhuma militância no circuito social da sua Província. O nicho da Universidade o fascina de uma forma muito especial e aí ele tem demonstrado uma liderança inconteste. É um escritor que sabe propagar a boa convivência e que edificou um projeto de vida baseado na disciplina e no cultivo do imaginário como resposta para a sua sede de formas e de intercâmbio com o meio.

Professor Titular do Curso de Letras da UFC, integrante da Academia Cearense de Letras, doutor em literatura e professor-conferencista, pesquisador ou visitante em várias universidades, tanto no Brasil quanto na Europa, Teoberto Landim é um dos intelectuais de produção cultural das mais qualificadas e de recorte teórico dos mais acentuados nos escaninhos da literatura da sua geração.

Sabe refletir com acerto sobre os mais variados assuntos, conhece como poucos o romance brasileiro de fatura moderna e pós-moderna, conviveu com a melhor elite literária no Rio de Janeiro na época da sua pós-graduação em literatura (mestrado e doutorado), é um romancista e um contista de fôlego (antenado com as novas tendências da linguagem e dos recursos lingüísticos neste campo), mas é um homem voltado para a sua ancestralidade e os seus valores sertanejos, pois sabe o quanto custa no Ceará ser um Mello Mourão ou um Mourão Landim.

A botija enterrada nas estórias de trancoso e na história real dos seus antepassados já lhe rendeu argumento para um belo romance. E a pós-modernidade com a estética da fragmentação recortando os seus campos de pouso, já o conduziu a uma nova estação literária.

A abordagem dos assuntos que lhe são afetos, na construção dos seus dois romances até agora publicados: Busca (1985) e A Próxima Estação (2000), tem colocado a sua ficção no centro do movimento criativo que oscila entre a tradição e a modernidade. Se Busca é uma novela que se vale dos objetos da memória que se quer pulsante e restaurada, A Próxima Estação é um romance que se infiltra nos labirintos da cultura e da consciência reificada que o modo de produção capitalista colocou na ordem do dia.

A fusão da consciência e da memória, a junção do velho com o novo, o recurso à estética da fragmentação e da libido, como caminhos para uma síntese plural das várias tendências que a arte vem assumindo, são argumentos de que lança mão Teoberto Landim para nos legar os recursos da sua visão de escritor.

A conversa fiada da curta ficção e dos causos que nunca se contam por inteiro ajudou a Teoberto a consolidar entre nós uma literatura sem fronteiras. Mas é o ensaio, acredito, o gênero que nos traz Teoberto de volta para os grandes momentos de reflexão e de busca da sua maturidade de esteta.

Se trocarmos aqui em miúdos a sua contribuição ao processo de investigação e de análise da nova e da velha literatura do Brasil, veremos que a sua produção nesse campo é das mais densas que se ergueram nos entremuros da UFC. Basta aqui tão-somente referir os seus últimos livros de ensaios: Colheita Tropical (2000) e Escritos do Cotidiano (2002) e, bem assim, o instigante Idéia, Pra Que Te Quero, publicado este último em 2001.

No âmbito da temática plural e diversificada, que alimenta o vigor da sua obra, destaca-se, a meu juízo, de forma equilibrada, a sua tese de doutoramento – Seca: A Estação do Inferno, publicada originalmente em 1992 e agora reeditada pela Editora da UFC.

Este livro, que ora tenho a honra de apresentar, constitui uma análise criteriosa dos romances que tematizam a seca, feita com acuidade e esmero, a partir da perspectiva do narrador. Trata-se de um processo de investigação e de hermenêutica literária que funde, inteligentemente, texto e contexto numa mesma visão integradora.

Tomando o texto como matéria prima da sua atividade literária, Teoberto o analisa a partir das suas raízes sociais. A estrutura social, subjacente à montagem do texto, e o sistema literário e lingüístico que o absorve, são abordados pelo autor como elementos que retroalimentam um mesmo universo semântico.

Demonstrando transitar com segurança nos diversos campos do saber, como lembra Celina Fontenelle Garcia, no seu livro Seca: A Estação do Inferno Teoberto Landim “se caracteriza e se afirma” como pesquisador e hermeneuta. A sua experiência, a sua paixão de ordem literária, a pertinência da sua temática, a sua linguagem clara e a lucidez dos seus argumentos, fazem do seu livro um dos momentos altos da nossa atividade acadêmica.

Em Seca: A Estação do Inferno Teoberto Landim toma o fenômeno das grandes estiagens do Ceará e do Nordeste, vistas a partir do enfoque de vários narradores, como pontos de partida para a compreensão da totalidade social que esses escritores colocam em discussão. De referência, apenas, nos primeiros romances contemplados, a seca passa à condição de personagem (e de objeto central da pesquisa) nos últimos romances que o autor traz ao movimento do debate.

O regionalismo, a imagem trágica da emigração, o mundo das crendices e adivinhações, a problemática da indústria da seca, o banditismo, o misticismo, a prostituição e o cangaço, o espaço geográfico da região do semi-árido, o conflito ideológico e o choque entre a cultura do latifundiário e a miséria dos trabalhadores rurais espoliados, estão no livro de Teoberto como em nenhum momento da nossa cultura letrada.

A genealogia da pesquisa inclui romances como A Fome (1890) e O Paroara (1899), de Rodolfo Teófilo; Dona Guidinha do Poço (1891), de Oliveira Paiva; Luzia-Homem (1903), de Domingos Olímpio; Aves de Arribação (1913), de Antônio Sales; A Bagaceira (1928), de José Américo de Almeida; O Quinze (1930), de Rachel de Queiroz; Os Corumbas (1933), de Amando Fontes; Vidas Secas (1938), de Graciliano Ramos; Seara Vermelha (1946) e Gabriela Cravo e Canela (1958), de Jorge Amado; e Os Cangaceiros (1953), de José Lins do Rego.

O que fica de proveitoso para o leitor, além da repaginação e da leitura crítica dos romances acima referidos, é uma incrível sensação de utilidade e de satisfação que a pesquisa de Teoberto nos proporciona.

O cuidadoso artesanato da linguagem, a metodologia da pesquisa, a precisão terminológica que recorta as suas entrelinhas e a leveza significante do discurso teórico utilizado, fazem de Seca: A Estação do Inferno um dos melhores livros editados, de último, no Brasil, no campo da pesquisa de pós-graduação.

Louva-se, pois, com esmero, a Editora da UFC, em resgatar essa tese de pós-graduação de Teoberto. E nos louvamos todos nós, seus leitores e admiradores, com as marcas inconfundíveis do seu talento de esteta, pois que Seca: A Estação do Inferno é a confirmação da argúcia cultural e acadêmica desse escritor maior do Ceará e desse romancista que o Brasil precisa conhecer.
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