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quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Trapos (Nilto Maciel)



Tomás olhava para os carros em movimento. Trânsito maluco! Os motoristas dirigiam em alta velocidade. Agarrado ao volante, Gilberto nem piscava. Já se tinha acostumado àquilo. Dirigia em Brasília há quase vinte anos. E também no Rio, em São Paulo, outras cidades, estradas. Não apenas acostumado: não sentia nenhuma dificuldade em dirigir. O colega afrouxou o laço da gravata, coçou o queixo e se voltou para ele. Como as pessoas podiam se acostumar ao caos? Carro, o grande mal da humanidade. Se o homem não acabasse com o carro nos próximos dez anos, a vida ia ficar insuportável. Não falava apenas da poluição, porque os combustíveis usados hoje podiam ser substituídos por não poluentes. Falava do excesso de veículos nas ruas, dos engarrafamentos, dos atropelamentos, dos acidentes. Além disso, as pessoas não andavam mais, viviam dentro dos carros. Gilberto tentou falar. O outro aumentou o tom da voz. Sempre mais solidão, o isolamento das pessoas. Gilberto sorriu e levou a mão direita ao boné. Ora, não fossem os carros, seria muito mais difícil viver nas grandes cidades. 
Estacionado o veículo diante do shopping, o motorista trancou as portas. Um rapaz se aproximou. Podia vigiar o carro? Tomás acendeu um cigarro. Os dois se puseram a caminhar. A falta de policiamento na cidade deixava todos inseguros. Se não havia polícia suficiente, os desempregados viravam guardas dos cidadãos. Gilberto contestou o amigo. Vigias davam segurança às pessoas. Portanto o desemprego não significava necessariamente um mal. Quem vigiaria os carros? Duas moças caminhavam à frente dos dois homens. Tomás chamou a atenção do companheiro: a pobreza deixava as mulheres feias. Se se alimentassem bem, se vivessem condignamente, como seriam belas. Gilberto discordava disso: mesmo maltratadas, as brasileiras não deixavam de ser bonitas. O parceiro diminuiu o tom da voz: Mesmo sem dentes, sem carnes, descoradas? O outro gargalhou. Importava apenas o órgão genital. Ou Tomás não apagava a luz quando se deitava com alguma mulher?
Sentaram-se em cadeiras de um bar, na calçada do Conjunto Nacional. Gilberto suspirou e voltou-se para o Teatro Nacional. Há tempos não via uma peça. Um menino se avizinhou deles. Se queriam engraxar os sapatos. Tomás ajeitou a gravata e examinou a cara do garoto. Os olhos do pequeno brilhavam. Um garçom se acercou da mesinha. Cerveja ou chopes? Gilberto arregalou os olhos. O comparsa aceitou a proposta do menino e esticou a perna na direção dele. Outros engraxates passavam ao largo, com suas caixinhas. Tomás encarou o colega: Não gostava daquele lugar, tão perto da Rodoviária, sem sossego. Por outro lado, a infância abandonada, trabalhando duro, sem estudo, sem nada. Gilberto reclamou da demora do garçom: pior na África, onde nem trabalho havia. As coisas estavam melhorando no Brasil, apesar dos governos safados. O garçom se abeirou deles, conduzindo dois copos. Tomás não acreditava mais em mudanças. O sonho socialista tinha acabado. A humanidade não se sentia ainda preparada para grandes mudanças sociais. O menino batia na caixinha. Gilberto sorveu metade da bebida. Concordava, em parte, com o amigo. A humanidade mudaria às custas das invenções, das descobertas, das máquinas. Nova revolução se dava no mundo, graças ao computador. Tomás se voltou para o teatro e lembrou conversa de dias atrás: as salas de cinema amesquinhavam-se nos shoppings ou cediam lugar para templos de seitas messiânicas, as pessoas se trancavam em casa para ver televisão e computador. Quando menino, a maior diversão era ir ao cinema: Tarzan, cow-boys. O garoto não parava de observar os dois homens. Gilberto chamou o garçom. Não deixava de ser interessante ver filmes em casa. Mais sossegado, mais seguro. E o direito de ir ao banheiro, a qualquer lugar, quando bem quisesse. Quanto custava mesmo o serviço? Tomás deu o dobro do pedido. O menino sorriu e agradeceu a ajuda. Gilberto suava: apesar do conforto de ver filmes em casa, preferia o cinema. A tela grande, a sala repleta de espectadores, o som. O amigo acendeu outro cigarro. Importava mais a história do filme. Por isso, preferia filmes dublados. O outro se fez indignado: não, de jeito nenhum. A legenda matava a originalidade do filme. A fala, a voz dos atores: absolutamente fundamental. Tomás se engasgou com a bebida. Quem iria assistir a uma peça de teatro em outra língua? Seu interlocutor arregalou os olhos: ora, impossível colocar legendas em teatro. Passou uma jovem rebolando-se pela calçada. Gilberto olhou de soslaio para ela: Não existiam mais raparigas, mulheres de vida fácil. O companheiro despejou chope na boca. Raparigas eram moças, mulheres de vida fácil não existiam nem tinham existido nunca. Vida difícil para todas. Passavam duas mulheres em requebros pela calçada. Tomás apalpou a carteira de cigarros. O parceiro tinha estado ultimamente com Celina? Gilberto esfregou as costas da mão na testa. Celina, uma pobre coitada. Ele não queria nada com a colega. Ela bebia muito. Sem contar outros defeitos. Como não saber se comportar na cama. Tomás gargalhou. Comportar-se bem ou mal? O outro apanhou o copo. Gostava de mulheres fogosas, criativas. E Tomás gostava de quê tipo de mulher? O comparsa pôs um cigarro nos lábios: De pele branca, se possível alva; cabelos claros ou negros; magra, porém de quadris arrebitados; seios pequenos; estatura baixa ou mediana. Para ele, bastava um simples toque, um olhar demorado, a aproximação dos corpos, e já sentia o início de uma revolução na região pubiana. O garçom corria entre as mesas, atônito. Gilberto retirou os óculos e os esfregou na camisa: O colega tinha lá suas razões, porém ele preferia as gordas, morenas, peitudas. Ao longo da vida havia se deitado com dezenas desse tipo. Tomás não sorriu: Cátia gostava de outro e por ele nunca sentiria nada, a não ser asco. Ao lado, um homem se pôs a vomitar. Muitos outros se levantaram de suas cadeiras, se afastaram, protestando. Gilberto ajeitou o boné. Normal aquilo: muita bebida. O outro arregalou os olhos. O homem vomitava sangue. Um garçom se achegou. Logo, ao redor do homem se formou um grupo de curiosos. O doente caiu no chão, a estrebuchar. O chão se encharcava de sangue e vômito. Um odor forte tomava conta do ambiente. Gilberto suava e limpava os óculos. Talvez água fria resolvesse a situação. O cúmplice anunciava morte. Pouco a pouco o homem se foi paralisando, em estertores lentos. Gilberto levou as mãos ao boné: O bêbado iria descansar, dormir. Tomás acendeu um cigarro: O moribundo se acabava feito um trapo.
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