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terça-feira, 4 de setembro de 2007

Brasília nasceu no mar (Emanuel Medeiros Vieira)



Documentos revelam que Brasília nasceu no mar. No final de 1956, Lúcio Costa (1902-1998) viajara para Nova Iorque para participar de um evento. Foi na volta, a bordo do navio argentino Rio Jachal, que Lúcio fez o que é considerado o primeiro esboço do Plano Piloto. Sim, pensou a cidade no mar. No dia 11 de março de 2007 fez 50 anos que o urbanista e arquiteto entregou o trabalho à comissão julgadora que avaliaria os projetos apresentados. Ele venceu o concurso do plano urbano de Brasília, "com um trabalho de feição amadora, sem um único cálculo.” Para muitos, "nascia ali o maior mito do urbanismo brasileiro". (Ver suplemento "Mais", da Folha de São Paulo, 11 de fevereiro de 2007).

"A pergunta óbvia, que desafia explicadores há 50 anos, é: como um plano despretensioso na sua aparência mudou a história do urbanismo?", indaga Mario Cesar Carvalho. "Em Brasília, Lúcio acabou com duas das tradições mais caras das cidades brasileiras: a rua como espaço de convívio (a socialização em Brasília ocorre nas superquadras) e as esquinas "existem" na entrada dos conjuntos de quadras, e nas quadras comerciais onde estão os bares e restaurantes.

Em verdade quem vive na Brasília "real" sabe que o convívio existe na entrada de cada quadra, nas bancas, e também em botecos das superquadras, nos pilotis dos blocos. Falo do Plano Piloto. Eu pessoalmente desisti de explicar aos "outros", aos que não vivem aqui: no "inconsciente coletivo", e trabalhado pela grande mídia, na TV e nos jornais, a cidade é só o lugar dos podres poderes, das tenebrosas transações, das falcatruas, da corrupção, capital que vampiriza o resto do Brasil. Sim, isso existe, mas na Brasília "oficial", nos três poderes. Precisarei ser mais explícito, falando das boates luxuosas, das entranhas palacianas, congressuais, judiciais e ministeriais?

Mas a cidade real é outra, dos verdes, das mangueiras, do céu límpido, sem mediação, das flores retorcidas e belas do Cerrado. É a urbe onde nasceram Clarice, minha filha, e o Lucas, filho do coração, dos meus caros e honrados amigos. Mesmo que a gente diga que a maioria do velhacos, patifes, corruptos veio de fora, não adianta. Eu sei, aqui também tem. Alguns deterioraram de maneira irreversível o padrão de vida da cidade, maculando o projeto humanista dos doutores Lúcio e Oscar, com seu populismo desenfreado, com sua prática de dar lotes, com seu desamor à cidade, gerando pólos de violência, trazendo a escória de regiões do Brasil, impondo uma crueldade que banalizou o Mal, e que não havia aqui quando cheguei aqui há 30 anos. É a cidade real que eu amo. Por tais razões, optei viver nesta cidade de linhas retas (ótima para se caminhar e andar de bicicleta). Falem com as pessoas nascidas aqui. Brasília foi inaugurada em 21 de abril de 1960. Se viajamos por um período que se torna longo – mesmo que seja para cidades amadas – sentimos a comichão de voltar. Dialoguem com as pessoas reais. Por amor de Deus, não só entrevistem figuras que entristecem o Brasil que só conhecem o Congresso, ministérios, tribunais superiores, restaurantes de luxo ou moças de vida airada, donas de "barrigas de aluguel" e que praticam a prostituição de luxo. E que só sabem o caminho do o aeroporto. Não conhecem uma padaria de quadra, um sapateiro, um chaveiro, um marceneiro. E o mar? Bate saudade? Bate. O mar me aproxima de Deus. Quando posso, vou para a Bahia sagrada do meu coração, e para a nossa Ilha Santa Catarina (mais longe). Só escrevo o que sinto. Para fazer que alguém creia em mim, é preciso que eu creia primeiro. Isso é Bachelard. Mas "sinto" que não conseguirei convencer "afetivamente" muitas pessoas. Mas amo essa cidade, na qual iria ficar só dois anos. No começo, era muito ruim. Tudo parecia igual, sentia uma agonia misturada com tédio. Agora não. Para escrever, não há cidade melhor. Mas, é claro, é preciso estar bem internamente, saber conviver consigo mesmo. Sem precisar, compulsoriamente, da presença alheia, de festinhas, de badalações, de multidões, de visitinhas de compadre ou de bares. Como alguém já disse, envelhecer não é para frouxos. Conviver bem consigo mesmo também não.

Brasília: amo teus verdes, teus espaços (lógico, não a juventude que mata índios, mas a desgraça da violência é nacional), a luz que emana de ti, os candangos e os "fundadores da utopia". Houve um sonho expurgado pelo Golpe de 64. E gosto muito da arquitetura branca e "escultural" do Dr. Oscar. Creio que a Praça dos Três Poderes é uma das 10 mais belas do mundo, Lógico, a de São Marcos, em Veneza, está em primeiro lugar.

Dando os trâmites por findos, lembro do final de um belo poema de Mário Quintana: "Cidade de meu andar/(Deste já tão longo andar!)/ e talvez de meu repouso..."

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*Emanuel Medeiros Vieira, nascido em Florianópolis, SC, é escritor.
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