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sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Calma, Meritíssimo! (Joanyr de Oliveira)

 
 
 
Ao Nilto Maciel

Dois destinos paralelos, a fluir no mesmo palco, cada qual com suas bem definidas características. Um puxando para a esquerda, o segundo para o outro extremo; um para o vermelho dos dramas e tragédias, da revolta e da dor, o seu oposto para o pleno azul em que a paz e a vitória predominam. Para que a distinção seja bem posta, sem nenhuma dúvida.

Paulino sonhava com muito pouco. Sonhava ser foguista, a mourejar junto à caldeira da locomotiva, noite e dia ao longo do Vale do Rio Doce. Trabalho para brutos, missão de broncos, tarefa de quase animal? Que fosse. Paulino não deixava por menos. Ou... nunca aspirou por mais. O pai, varejista a que muitos recorriam com suas cadernetas, comerciante de bons estoques e consolidado conceito na praça, coçava a cabeça. Arrancava, nervoso, os remanescentes cabelos, sem entender aquilo. Não é que o seu menino obstinava em crescer como rabo de cavalo, em crescer para baixo? Várias foram as opções sugeridas. Que tal ser professor do Ginásio Pan-Americano (educandário combatido com fúria medieval por frei Afonso Jordá, porque dos protestantes, mas aplaudido pelos meninos pobres que, assim, podiam dar continuidade aos estudos)? Que tal alto funcionário, por concurso, honrosamente, no Rio ou em BH? Que tal advogado, um dia até Juiz de Direito? As sugestões variavam de acordo com a lua, ou seja, os humores de “seu” Giuseppe Pavesi, o Bépi. Mas eram as sugestões, uma por uma, descartadas. O cabeça-dura do Paulino era mesmo empedernido. Nada lhe adentrava a pétrea cachola. Geografia? Nunca logrou êxito na tentativa de memorizar os acidentes geográficos. As capitais do mundo, nem pensar... No exame final do quarto ano, faltou-lhe pouco (rara façanha!) para deslizar de Norte a Sul, triunfante, com os estados. Amazonas, (Amapá como tal ainda não existia), Pará, Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe... Foi descendo, firme. Transposto o glorioso São Paulo, o rapaz empacou. Mularmente. Súbito, apagaram-se de sua memória os três estados sulinos. Não faltou tolerância do mestre, e foi bem mais que a habitual. Nada pôde salvá-lo. Por essa e outras, Paulino acabou reprovado. E a língua pátria? Não se mostrava apto na redação do mais lacônico e singelo recado. Concordância e regência chegavam-lhe às narinas com odores do inferno. Nem sequer conseguia identificar o momento de entrarem na frase as maiúsculas. Nome próprio? Orações intercaladas? Silepse? Que vem a ser aquilo, que diabo vem a ser isso? Jamais pôde dominar qualquer matéria.
Decorridos alguns anos de acumuladas notas vermelhas, de fastidiosas segundas-épocas e reprovações, como era de se prever, Paulino, por fim, proclamou a desistência. Bastava de confrontos com verbos, equações, pontos culminantes, expoentes da política, da cultura, da história. A essa altura, os 18 já haviam chegado, e, para desgosto de pai, mãe, irmãos, parentes consangüíneos e afins, conseguiu “realizar-se”: entrava “gloriosamente” uniformizado nas dependências da Estrada de Ferro Vitória-Minas, na condição de foguista.
Sérgio, o contraponto nesta modesta partitura bem interiorana, veio ao mundo em um barraco do bairro mais pobre da mesma cidade em que Paulino traquinava na via principal. Mas – coisas da vida, que a razão não alcança –, desde cedo encasquetou que seria doutor. O descrédito da vizinhança – carroceiros, porteiros, parteiras, chacareiros, entregadores de leite, empregadas domésticas, operários da ferrovia, cavadores de fossa, mulheres da vida, biscateiros vários –, dos calejados e sofridos cidadãos da mais mínima e parca cidadania, as estranhezas e a descrença contra ele se erguiam, mas nada lhe abalava os ânimos. Seria doutor, sim senhor, não apenas pelas reiteradas sugestões do pai, mas porque haveria de ser assim... Algo lhe dizia, bem no fundo da alma, que seus muros de Jericó seriam todos derribados. Ele proclamava, reiteradamente, que isso de castas era para indianos e outros orientais, essa gente esquisita. O seu imaginado caminho foi assim ditando, fiel, sutil e irreversivelmente, a configuração e a concretização de todos os seus sonhos.
Uma década depois – quem diria? – reencontraram-se na metrópole. Para Sérgio, foi algo chocante. Paulino estendia-lhe a carente manopla, cabisbaixo, quando o reconheceu. E então abriu-lhe o mendigo – mendigo... –, sem pressa, em doloridas palavras, o cenário que se iniciou com uma greve na Estrada de Ferro e a patronal retaliação, e logo se seguiram o desemprego, as provações, privações, a definitiva impossibilidade de romper o cerco das carências, da miséria. Por fim, a fuga envergonhada, para longe.
Na segunda vez que se viram, na cidade grande, Paulino estava sendo recolhido por dois truculentos policiais. Os muitos curiosos, a mancha de sangue na calçada e o corpo estendido junto ao meio-fio dispensavam palavras.
Sérgio pôs-se logo como defensor do conterrâneo.
A imprensa se fez presente, a ferocidade com que Paulino golpeara o outro repercutiu intensamente, ninguém falava de outra coisa.
Comentava-se que a vítima, também coetâneo e contemporâneo, dezenas de vezes bradara aos ouvidos do homicida o seu apelido de infância. Era um nome feio, sujo, que lhe reabria largas feridas. Ostentava-lhe na testa os estigmas de sua vida, pesava-lhe insuportavelmente com a marca de seus fracassos, de suas desilusões, de seu abandono.
Lembrando-se de um episódio certa vez referido no banco universitário, Sérgio começou:
– Meritíssimo Senhor Juiz!
Por duas vezes proferiu a mesmíssima saudação. Quatro vezes. A ladainha, maior que um refrão indigesto, logo se tornou definitivamente incômoda. Dir-se-ia abusiva.
Lá pela quinta vez, o magistrado perdeu a paciência:
– Exijo respeito! Res-pei-to! Agirei com rigor se a defesa não se comportar condignamente!
– Calma, meritíssimo! por favor – foi a resposta. Permita-me assim de novo tratar Vossa Excelência, por quem nutro o devido respeito e a quem acato com toda a reverência. Ora, Senhor Juiz, na quinta vez que o saudei, com os termos de praxe, sua impaciência tornou-se dura e implacável. In-con-tro-lá-vel. Que diremos do estado de espírito do meu ultrajado constituinte? Por quanto tempo a vítima o feriu de maneira covarde, tornando-o objeto da zombaria de todas as pessoas! Por meses e anos. Nefanda alcunha rasgava-lhe a alma, expunha aos circunstantes uma tenebrosa biografia, de malogro e miséria. Jamais alguém o tratou por Excelência, como se faz aqui, neste Fórum. Paulino Pavesi sempre suportou, em silêncio, o peso de todos os pés e as pedras de todas as mãos cruéis e inclementes. Até que não mais conseguiu resistir... Ele não é sequer um magistrado, como o preclaro homem que nos preside; muito menos se trata de um deus nas intangíveis alturas do Olimpo: é apenas um ser humano, como qualquer um de nós...
Voltando-se para os jurados, Doutor Sérgio liberou, tranqüilo, a sua forte voz:
– Peço a absolvição do réu!
Surpresos, atônitos, todos se consultaram, significativamente, com a eloqüente mudez do olhar.
Pouco depois, diante do veredicto, Paulino sorriu, leve, puro, quase angelical, após tantos anos de dor.
Pela primeira vez o mundo parecia compreendê-lo e, assim, ele experimentou algo de todo inusitado: sentiu-se muito amado pelos seus semelhantes.
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