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segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Sobre contos de Emanuel Medeiros Vieira: “Nunca mais voltaremos para casa” e “Amor aos vinte anos” (Hamilton Alves*)

(Emanuel Medeiros Vieira)


Emanuel Medeiros Vieira com o conto “Nunca Mais Voltaremos para Casa” (publicado no Jornal da ANE, edição de agosto de 2007) revela-se como um dos grandes nomes da literatura catarinense da atualidade. 
Aliás, temos um punhado de bons escritores pululando por aí. Quando não em jornais, aparecem em revistas ou folhetins que circulam gratuitamente, como é o caso do “Livro na Rua”, editado em Brasília pela Thesaurus Editora, que vem a publicar um dos melhores contos produzidos por Emanuel Medeiros Vieira, que já merecera publicação nas antologias “Esse Amor Catarina”, organizada por Salim Miguel, Silveira de Souza e Flávio José Cardozo (reunindo uma plêiade de bons escritores do Estado de Santa Catarina), e na “Antologia do Conto Brasiliense”, organizada por Ronaldo Cagiano.
O problema é que tais escritores atuam fora do eixo Rio-São Paulo, que constitui (e sempre constituiu) uma “panela” na qual poucos conseguem entrar.
Até hoje, desconhece-se o processo pelo qual se obtém acesso a ela.
Paulo Coelho e escritores do padrão dele o conseguiram (até entrar na Academia Brasileira de Letras foi possível, sabe-se lá como). A política das editoras (a maioria delas) é puramente de caráter comercial.
Dane-se o valor do livro – isso fica em segundo plano.
É sabido que Paulo é um escritor de fancaria. Uma editora, não faz muito, comprou por quinhentos mil reais o seu passe. Ou seja: ter exclusividade na edição de seus livros. Qual a resposta para esse enigma (não há, na verdade, bem vistas as coisas). O cara vende. Fatura alto. E seu nome, como se sabe, extrapolou nossas fronteiras. Faz sucesso a nível mundial.
Um escritor (só para citar um de real valor) como Emanuel Medeiros Vieira, que é superior ao Coelho mil vezes, não tem chance de aparecer ou ser editado por uma dessas casas editoriais de alta circulação ou aceitação na praça. Por que? O editor não tem segredo. Já ouvi a mesma cantilena.
– O seu livro não vende.
Lembro-me que isso me ocorreu quando mandei uma novela para consideração de uma editora de projeção nacional. Disse ao editor: “Se vocês publicaram o livro de François Truffaut (tratava-se de “O Homem que Amava as Mulheres”, uma história marota de um sujeito obcecado por mulheres, que rendeu um bom filme, faça-se justiça a Truffaut), por que não editam minha novela que tem, modéstia à parte, mais peso literário?”
A resposta foi lacônica (igual à precedente):
– Truffaut vende.
Emanuel tem um conto recentemente publicado pelo Jornal da ANE. O conto tem o título de “Nunca Mais Voltaremos para Casa.” É um conto muito bem estruturado, bem escrito, bem bolado, que nos pega desde a primeira frase pelo rabo da curiosidade. Já em “Este Amor Catarina”, Emanuel publicou um conto igualmente magistral, “Amor aos Vinte Anos”, sobre o qual já escrevi uma resenha, publicada no jornal “A Notícia”, de Santa Catarina, em junho de 1996.
Nesses dois trabalhos excelentes, Emanuel revela-se um escritor detentor de um estilo, de uma maneira própria de expressão, o que não é fácil nem muito comum encontrar-se.
No conto divulgado no Jornal da ANE, trata-se de um de uma história de dois amantes em conflito. Ela cobra dele o tipo de escritura que vem produzindo. A primeira frase o desencadeia:
– És um escritor do passado, diz a ex-namorada.
O diálogo cresce a cada lance até o desenlace, quando ela o deixa sozinho e ele paga a despesa de ambos num bar, em que “o frango está frito e cru. Ela reclama que a coca-cola está quente.”
“Ela foi embora, sem despedida, sem outras palavras duras. Enquanto se afastava, eu lembrei que já havíamos rido, brincado, feito acampamentos, viagens, planos. Amor.”
Caindo em si mesmo, o personagem reage a tais lembranças:
“Pára com a autopiedade”, pede uma irritada voz interior.
O desfecho do conto segue esse mesmo clima.
Nos dois contos (“Amor aos Vinte Anos” e “Nunca Mais Voltaremos para Casa”) nota-se que a linha de ação se assemelha muito. Emanuel se utiliza da linguagem comum, dos lugares-comuns (no sentido de que se vale do que normalmente acontece no dia a dia das pessoas comuns ou dos dramas cotidianos).
É o puro retrato da vida, muito prezado por escritores como Nelson Rodrigues. Só que Emanuel o utiliza com mais riqueza de detalhes ou com mais senso psicológico.
“Fui para casa, fiquei olhando pela janela, não chovia, ouvindo no mais alto volume, se isso fosse possível em se tratando de Wagner, ‘Tannhãuser’ (e um vizinho berrou: ‘baixa essa merda, baixa essa merda’). Baixei para não ter incômodos com o zelador, com o síndico.”
Qual o escritor que desceria a tais detalhes triviais?
Já em “Amor aos Vinte Anos” é o mesmo interesse pelas coisas banais que lhe fazem a fortuna literária. Dir-se-á que Emanuel os preza e os prefere à sofisticação ou a ficar lustrando em demasia. Hemingway (diz-se) não gostava de filosofices. Ia direto ao assunto. Emanuel vai ao rebotalho: que se dane a preciosidade. Ou que é tido como tal.
Como tantos outros de nossos escritores (acho que ele não está nem aí), se tentar uma dessas grandes editoras, que publicam Paulo Coelho ou Sarney e outros que tais, lhe baterão com a porta no nariz.
– Você não vende – é o mínimo que ouvirá.
Em grandes jornais (na grande imprensa ou revistas de grande circulação), o fenômeno é idêntico: portas fechadas. Mas enquanto essa discriminação, para não lhe dar outro nome, acontece, nossos escritores vão sendo lidos aqui e ali, gerando a pergunta inescapável: por que o Paulo Coelho, por que o Sarney? Que preferência imbecil é essa?
“Nunca Mais Voltaremos para Casa” é desses contos que se voltam sempre a ler porque nele o que aflora destacadamente é a vida tal qual é. Sem nenhuma frescura.

*Hamilton Alves é jornalista e escritor.
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