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domingo, 21 de outubro de 2007

Livre-arbítrio (Nilto Maciel)










Um homem prenderam ontem. Acusam-no de violentar, matar e esquartejar meninos. Para o delegado, um caso sem precedentes, de horror. Familiares das vítimas choram e pedem pena de morte. Um dos pais anunciou vingança. Por outro lado, a mãe do monstro disse não ter mais como perdoar o filho. Da primeira vez a mãe o perdoou. José Pereira dos Santos, o assassino, havia sido condenado e preso por crime semelhante há alguns anos, tendo obtido liberdade recentemente. Ele pôs a culpa na fraqueza, na cachaça, na loucura, se disse arrependido e pediu perdão a ela. Agora, diante de tantas barbaridades, ela chora e afirma não poder mais dar perdão ao filho.
Quase sempre da mesma maneira agia o homem para atrair as crianças. A primeira vítima o criminoso encontrou próximo a uma padaria. Conduzia um pacote de pães. Saiu de casa, a mando da mãe, dez minutos antes. O homem o viu e o chamou. Convenceu a criança a segui-lo. Meia hora depois, a mãe se dirigiu à padaria e não obteve nenhuma informação do menino. O pacote de pães terminou em outras bocas, certamente. O corpo nunca localizaram. Por que José pratica tais crimes? O delegado faz discurso. Alguém fala de livre-arbítrio. Abre a Bíblia, lê salmos, provérbios, crônicas. “Não olharás com piedade, antes exterminarás de Israel a culpa do sangue inocente, para que te vá bem.” Agiu assim porque quis, por vontade própria. O delegado já decidiu: entregará o criminoso às feras, isto é, aos outros presos, para que também pratiquem o livre-arbítrio. Louvaram os pais das crianças assassinadas a decisão policial. Assim, o homem será violentado, morto e esquartejado na prisão, para que o livre-arbítrio se volte contra ele e tudo se explique e se justifique.
8/2/2005