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quarta-feira, 3 de outubro de 2007

O dragão (Anderson Braga Horta)





Eu levo um dragão comigo.


Outros têm um gato, um cão,
um passarinho, um lagarto,
um sapo, uma tartaruga
por bicho de estimação.


Eu,
tenho um dragão.


Se o dragão é meu amigo
não sei: ele me devora
mente, sonhos, coração.
Ele rouba o que eu escrevo
mesmo antes que o tenha escrito,
me embaralha os pensamentos,
faz sentir o que não sinto,
namora a mulher que eu sonho
e inda me chama de irmão.


Carrego um dragão comigo
como quem leva o seu cão.


Uns alimentam no peito,
a vida toda, um poema
ou qualquer outra ilusão:
capa de herói, luz de sábio,
halo de santa paixão.


Eu alimento um dragão.


Ele me esfola, me estripa,
me cospe fogo, me engana,
ah! e diz que é meu irmão.
Ele me mata! e é, no entanto,
quem me permite viver.


Eu tenho um dragão comigo,
meu irmão, meu inimigo,
meu sósia e minha abusão;
e ele sou eu, que sou ele,
e é meu verdugo e meu cão.
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