Pesquisar este blog

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Acerca da revista Caos Portátil nº 5 (Nilto Maciel)




A tradição cearense de publicação de jornais e revistas literárias se enobreceu em 2005 com a criação de Caos Portátil, Um Almanaque de Contos, por iniciativa dos escritores Jorge Pieiro e Pedro Salgueiro. Longe da tradição, porém, o periódico é dedicado exclusivamente ao conto. Sem deixar de lado os clássicos, os mortos e os contistas mais experimentados (alguns com vários livros publicados), os editores dão destaque aos mais jovens, aos principiantes. A edição nº 5, de 2007, exibe minicontos de Dalton Trevisan, “um dos mais importantes escritores brasileiros de todos os tempos”. Presentes outros nomes menos conhecidos, como Ângela Gutiérrez, Carmélia Aragão (apesar de muito jovem, já tem livro publicado e muito bem recebido pelos críticos), Floriano Martins, Genuíno Sales, Inez Figueiredo, Jorge Pieiro, Nilto Maciel, Patrícia Tenório, Paulo Veras (falecido precocemente), Pedro Salgueiro, Raimundo Netto e Ronaldo Correia de Brito. Os demais são muito jovens (à exceção de Alcides Matos, Aldir Brasil Jr., Gilberto Machado, Raimundo Rocha e Ruth de Paula), quase todos inéditos em livro.
As peças apresentadas no almanaque são curtas, quase sumárias: biquínis, calcinhas, cuecas, minissaias. Nada de vestidos longos, calças compridas, paletós. “Frustração”, de David Cid, ocupa meia página, breve como um relâmpago. Sem deixar de ser enigmático. Nada de nomes explícitos, com uma única fala (“– Droga!”), seco, bem elaborado. Um pouco mais longo é “Desejo de Escrever”, de Gilberto Machado. Escrito na primeira pessoa, o narrador anônimo rememora passeio a um açude com amigos. Pela concisão, o leitor é levado também a se emaranhar em teias psicológicas.
A revista abre espaço também para estrangeiros e contistas de outros Estados, embora dê prioridade a cearenses. O angolano Ondjaki oferece ao leitor “Menina no caminho”, talvez a mais bela composição desta quinta edição. Obra primorosa, de mestre. Há outras narrativas de temática social no conjunto. Entretanto, a maioria delas caminha pelos amplos espaços da introspecção. “Um pedacinho de papel rabiscado”, de Caio Marinho, trata da solidão e do fracasso social de um poeta. Curtinho, ainda assim merece alguns remendos no tecido. Caio Montenegro, em “Espera infinda”, revela Dona Célia, uma dona-de-casa comum, pobre, à espera do marido. Mas essa espera demora uma infinidade. Caio manipula o tempo de forma incomum. Tem tudo para se tornar um contista fora do comum. Camila Marcelo, em “Pétalas inesperadas” (pouco mais de meia página), conta a historinha de um amor desfeito: mãe, filha (a narradora) e César. Tão jovem (adolescente ainda), não poderia escrever melhor. Carlos Eduardo Bezerra dá a conhecer “As solteironas”, um dos mais longos da revista. Repleta de personagens femininas, desenvolve-se jocosamente. “Pequeno burguês”, de Cláudio Portella, é crônica quase conto. Se ler mais, se se exercitar mais na escrita, poderá escrever boas obras de ficção. Cris Nobre, em “O lírio entorpecido”, faz um passeio pelos tormentos da alma de um homem, em narrativa em primeira pessoa. Jéssica Fontenele, com “Tragédia às cinco e vinte”, também envereda pelos atalhos da loucura, do transtorno. Como a maioria dos seus pares, aprendeu cedo as novas técnicas de narrar e conduz a história com serenidade, sem invencionices e sem se amarrar aos troncos das velhas mangueiras. Joana d’Arc Araújo, com “Sobre saltos”, tece o poético em narrativa na terceira pessoa. Com “Inascíveis”, Leo Mackellene, segue trilha semelhante a esta. Lia Terceiro, com “Sobre o leito frio cortante”, em composição mais longa, afunda num mundo estranho. Christine e Nathan “vivem” um amor pós-morte. Estanha também é a vida da contista, assassinada em 2007. “Cinabre”, de Lucíola Limaverde, também toca o tema da solidão e seus enigmas. O ambiente é sombrio ou de sonho. Marília Passos, com “O grito”, faz de um violino personagem e cria uma aura de mistério. Em “O velho gramático”, o catarinense Nílbio Thé realiza conto de personagem, como o próprio título sugere. Espécie de biografia resumida do protagonista. O amazonense Pedro Fontenele, com “Efeito estranhamento”, narra em terceira pessoa as sensações de um ser fictício sem nome explícito. Quanto à linguagem, percebe-se o uso exagerado de adjetivos e advérbios em mente. Priscila Peres, com “Meio amargo”, cuida de embates de casal, em narração contínua, sem diálogos, em frases curtas. Com “A última consoada”, Robson Ramos se vale destes mesmos recursos, porém desviando-se do puro conflito para o tema da morte e da solidão. Urik Paiva, com “A máquina”, na primeira pessoa do masculino, também mergulha nesse clima de tensão e morte. Em “Dessoramento”, Wesley Lyeverton expõe um narrador solitário, num sanatório.
Portanto, Caos Portátil mostra jovens em busca do fazer literário, com seriedade, e lhes dá incentivo, ao apresentá-los ao lado de nomes consagrados (Dalton Trevisan) e de outros que demonstraram talento nos livros publicados. E, se fosse apenas isso, a revista já estaria cumprindo um grande papel.
Fortaleza, 22 de novembro de 2007.
/////