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quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Annelore e Gertrudes (Viegas Fernandes da Costa*)

(Duas mulheres, Diogo de Macedo, Portugal)

Para Ingmar Bergman

Há muitas maneiras de se começar uma história. Esta começa com Annelore, mas poderia começar também com Gertrudes, daria no mesmo. Não porque proclamamos o destino, céticos que somos, mas porque conhecemos o final, tão somente. Assim, esta história começa com Annelore, sem que esta o saiba, porque já derreada em sua poltrona cativa, no alto dos seus oitenta e cinco anos. Sozinha, o velho clichê, entregue à velhice e à horta, sua única ocupação além do remoer de um passado que nunca houve. O plantar de nabos e repolhos seria seu legado mais importante. Assim, não há tempo para começos, melhor creria se lhe disséssemos “Frau Annelore, és o final da história”. Ponto. Mas sabemos que não há de ser assim porque nos foi confiado este poder de narrar, e assim decretamos por definitivo “Annelore, és o princípio, porque terreno fértil.” Ponto.


Não bastava a lã em suas meias e todo o agasalho que lhe cobria o corpo. Sentia frio. Este frio úmido do Vale. Este frio de varanda ao final da tarde. O corpo suplicando o calor da cozinha, do café quente, do aconchego da televisão e da carícia da cama. Mas insistia-se na varanda, exposta aos açoites do vento, enroscada ao seu cobertor, esperando, esperando, esperando. O coração mandava esperar e ela não pedia resposta. Freitas, ah, o bom Freitas, sempre tão preocupado, já lhe convidara a entrar, alertara dos perigos de uma pneumonia, de um vento encanado, das pernas que se aleijariam. “Ainda sei o que faço, ainda tenho vontades! Vou-me quando achar que devo ir!” – e não haveria Freitas algum que lhe convencesse do contrário. E assim ficou, em seu silêncio de sempre, sentindo o frio e aquela angústia nova no peito, aquele desejo de sair correndo, arrancar os botões do vestido, expor os seios à vida e se lançar sem tento! Sim, e se lançar sem tento! E quando Gertrudes chegou, já início de noite, com seu passo vivo e seu sorriso tão bonito, Annelore sentiu vergonha deste seu desatino de correr e de arrancar botões e de expor seus seios, abaixou a cabeça e soltou um “boa noite” mau humorado. Gertrudes respondeu, feliz, cruzou a varanda e entrou. Havia a sopa, o café e a novela. Annelore se convenceu e, ainda ruborizada, sentou-se à mesa, tomou a sopa em silêncio e foi dormir.

 
Logo que chegou àquela casa, sentiu-se incomodada com a presença de Gertrudes. Toda aquela independência e popularidade, todas aquelas liberalidades da outra eram tão contrárias a sua moral de mulher velha, que não podia se sentir à vontade. A simples presença de Gertrudes já lhe parecia algo imoral, luxurioso. Mas desaprovava em silêncio, sem fuxicos, sem palavras, sem as picuinhas que aquela velharia caduca repetia todos os dias a sua volta. “Um bando de velhos!” – exclamava Annelore em pensamento, sozinha no seu canto, arrastando-se na vida porque a morte parecia esquecida dela. E assim, esquecida pela morte, acordava todas as manhãs para cuidar da sua horta e para sentar-se à varanda, grave e inutilmente, esperando a noite chegar. Conversa mesmo, só com o Freitas, a quem dava as hortaliças e um pouco da sua história. Bom Freitas, tão respeitoso! Claudicante, sempre chegava com aquele seu jeito manso, para escutar, e seus olhos de afeto inspiravam confiança. Foi ele quem a comunicou que iriam transferi-la da enfermaria para um quarto, onde teria mais privacidade e um banheiro quase exclusivo; e apenas ele soube do suspiro de alívio que a amiga compôs na modorra daquela tarde, quando a par da notícia. Poderia ela dormir sem ter que ouvir tantas tosses e gemidos, sem ter que aturar as sandices daqueles que, insones, encontravam-se com seus medos em meio à madrugada. “Um quarto!” – repetiu, e surpreendentemente seus lábios se abriram em um sorriso. O único sorriso que Freitas conheceu no rosto de Annelore.


Depois da sopa, deitara-se, já o dissemos, mas nos calamos quanto ao desespero do seu corpo. É verdade que Annelore encontrara o calor do seu antigo cobertor de penas, mas não é verdade que encontrara o alento do sono. Apesar do frio, seu corpo queimava, e algo dentro de si queria empurrá-la a fazer mil coisas, falar mil discursos, dançar mil valsas. Era o calor de agora e a angústia de antes que a estavam preocupando. E foi neste estado que ouviu a porta e os passos leves de Gertrudes, que chegava para dormir. Andava com cuidado, para não fazer barulho, e na parede do quarto projetava a sombra dos seus gestos. Annelore acompanhava os movimentos da sombra com a atenção e o espanto de quem assiste ao cinema pela primeira vez, e, ansiosa, viu quando a amiga soltou os cabelos e se despiu. O corpo se reclinando para o tirar da saia, os braços levantados e as mãos puxando para cima a blusa, os dedos abotoando a camisola. Depois, o vazio da parede e a quase inaudível respiração da amiga.
Dividiam o quarto, as duas, mas nunca conversavam. No começo Gertrudes até manteve alguns monólogos na esperança de incentivar o diálogo, mas em vão. O máximo que conseguiu foi arrancar algum “sim” ou algum “não” de Annelore, e depois o constrangimento do silêncio. Ainda assim, tinha pela outra um carinho especial e uma necessidade de estar próxima, de olhar-lhe nos olhos, de velar-lhe o sono. E foi assim, fingindo-se adormecida, que Gertrudes percebeu a insônia da amiga e ouviu quando esta declamou o seu nome com a eloqüência de um poema.


Por toda a vida que não vivera, aquela calma insossa, aquelas horas sempre preenchidas como a freira no convento que reza para não pecar; o trabalho de fiar compondo seu réquiem; a igreja nas manhãs de domingo dando-lhe um sentido. Oitenta e cinco anos! Oitenta e cinco anos... e agora Gertrudes, com aqueles seus olhos azuis, aquelas suas mechas brancas, a bulir na sua história, a revirar seu coração. Por quê?
Desde que chegou à casa, Annelore reparou Gertrudes, quinze anos mais moça, viúva e feliz, sempre passeando, visitando amigas, comprando flores. Reparo e a inexplicável mágoa desde então. Comentou com Freitas, quis saber quem era, o que fazia. “Gertrudes é do capeta!”- riu o velho, mas não disse mais nada. Calou-se curioso observando a amiga irritada que partia pequenos gravetos com as mãos, taciturna, sem ousar perguntar a Freitas por que havia dito aquilo. Nunca se interessara pela vida de ninguém, antes. As pessoas existiam, simplesmente, e a ela cabia fiar, tão somente. No entanto estava ali, aquela angústia no peito, aqueles gravetos na mão e os olhos de Freitas sobre si. Os olhos de Freitas e a lembrança de Gertrudes se despindo no escuro do quarto. Os braços levantados, o contorno dos seios, a camisola que caía sobre o corpo... e o perfume suave incitando-lhe o desejo. O desejo, e uma inédita e absurda necessidade de se tocar tão intimamente, que toda sua pessoa começou a lutar com o choro silencioso e com o nome da amiga que os lábios ousaram suspirar.


Gertrudes tem também a sua história, relatada nos cadernos de variedades da imprensa local, atriz de teatro que fora. Casou-se, desquitou-se, casou-se novamente, viúva. Nos anos setenta vestiu-se riponga e fumou maconha, escreveu poemas e tocou violão. Tinha quarenta anos, então. Depois, a voz perdeu o vigor e a ribalta lhe apagou as luzes. Foi dar aula, não agüentou. Vendeu casa, doou os livros e recolheu-se a este asilo, cenário deste enredo. Desde então leva esta vida solta de doar flores e dar os passos que a idade lhe permite. De dar os passos que a idade lhe permite, e a idade não proíbe o desejo e o amor. Por isso o coração vivo quando viu Annelore chegando com seu jeito cansado, com os olhos assustados de quem escolhe o lugar onde vai morrer, subindo os degraus amparada nos braços do velho Freitas, ainda galanteador. Desfiou bons-dias, puxou conversa, recebeu enfado e grunhidos. Soube então que não seria fácil este último amor, este desejo neste corpo murcho e enrugado. Insistiu. Da enfermaria, sugeriu que transferissem Annelore para o seu quarto. Estranharam todos essa esquisitice; “que importa que dormisse na enfermaria?” – argumentavam. Tropeçou nos verbos, rodeou mil razões, encabulou silêncios e convenceu a enfermeira que não havia motivos para não quererem lhe conceder a companhia da nova asilada. Que ela, Gertrudes, já se cansara de deitar sem ter a quem dar seu boa-noite e de não ter com quem comentar o sol pela manhã. Carecia de se responsabilizar por alguém, que era disto que precisava para se dar um sentido à existência e, por fim, que não fazia sentido aquela cama vazia em seu quarto.


Difícil contar este tempo, já que ao poder de narrar não nos concederam a ampulheta à mão. Dito assim, nestas poucas páginas, fica-nos impossível perceber que tudo andou a passos indecisos, sem a pressa que a situação impunha. Ah o desafogo, o nó que não se desatava! Tanto o tempo, que Gertrudes já recolhera seus tentos ao silêncio! Limitava-se a suspirar enquanto Annelore definhava nas carnes desaparecendo em si, envelhecendo como se mais ainda pudesse envelhecer. Era tanta a pele em tão pouco corpo, que já assuntavam todos o funeral. Ao cabo de alguns dias, já não se levantava mais da cama. Passava as horas deitada, de costas, o cabelo esparramado no travesseiro, os olhos buscando rever no teto do quarto as cenas de uma vida que nunca experimentou. E tudo velava Gertrudes: a febre que encharcava o corpo em suor, os lábios que se abriam para silenciar os desejos. Era tanto o velar que também ela, extenuada, entregava-se ao sono para despertar assustada em horas há muito anoitecidas, a conferir o respirar no peito de Annelore. Freitas ainda vinha titubear palavras e arriscar graças, todas as tardes, na esperança de conhecer um segundo sorriso no rosto da amiga. Em vão, Annelore enfadava-se às primeiras piadas, e dormia seu sono de angústia.
Não foram poucos os dias assim arrastados, maiores ainda as horas. A Gertrudes o tempo se estendendo por muitas vidas. A adolescência reencontrada quando as mãos magras e grandes de Annelore romperam a inércia do preconceito e procuraram as suas naquela manhã de muitos calores, e assim se deixaram ficar, como que se duas namoradas no banco do jardim, palma a palma, pele a pele. Gertrudes aceitou o convite dos dedos sem grande surpresa, naturalmente, como o rio que desce lento a planície e se mistura ao mar. A vida é inevitável, afinal! E assim, de mãos entrelaçadas, encontraram a surpresa da enfermeira que todos os dias chegava para trocar o soro. Pediu Gertrudes que lhe trouxessem uma bacia de água morna, um pano limpo e a escova para cabelos que estava sobre a cômoda do seu quarto. “Anne precisa de um banho” – justificou; e assim se fez, como todas as manhãs se fazia. Despiu a camisola da amiga, e carinhosamente foi lhe lavando o corpo nu, cada ruga, cada dobra, virgem das mãos alheias. Como teria sido? – ficamos aqui pensando, você e eu, se não houvesse tanto medo, tanto pecado e tanta tradição na história de Annelore. Pudesse agora voltar, teria já no primeiro parágrafo inventado um sutil olhar de desejo, uma piscadela de folhetim vulgar, mas chega o momento em que não mais nos pertencem estas almas, nossos dedos plantam as palavras que os personagens impõem, e somos tomados de grande surpresa quando nos deparamos com uma Annelore de forças exauridas clamando em si o corpo de Gertrudes. Estão tão próximas agora! Os corpos, os lábios... A necessidade deste toque de carinho que há tanto tempo acalenta e nega. A vida é inevitável, afinal, há de se repetir. E neste imperativo da vida, neste último gesto de mulher, Annelore sussurra por Gertrudes. Não há pecado neste sussurro, apenas prece....
... que Gertrudes atende.

*Viegas Fernandes da Costa, historiador e escritor. Autor do livro Sob a luz do Farol (Crônicas, 2005). Escreve no Alpharrábio, http://viegasdacosta.blogspot.com/ .
Permitida a reprodução, desde que citado o autor e o texto mantido na íntegra.
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