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sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

A Busca da Paixão – segunda parte (Nilto Maciel)



 
















Antes de partir, escrevi um diário. Não vou transcrevê-lo todo. É enfadonho. Há nele trechos como este: "Meu mundo é o do Gênesis. Minha criação principia. Meu céu e minha terra me esperam longe daqui." Vou jogá-lo fora. Não vale nada.
Na madrugada do décimo sexto dia, Eduardo, Helena e eu estávamos na estação de trens. Nem sequer havíamos dormido. Passamos a noite bebendo e conversando. Eduardo mostrava-se animado. Falava muito, pretendia fazer isto e aquilo, relembrar os tempos de criança.
Sentados num banco, esperamos a hora de partida. Falávamos sem parar, como para espantar o sono. Helena parecia cansada, olhos sonolentos, embora sempre sorrisse. Eu temia o desânimo. Não, não devíamos desistir da viagem.
Pus-me a falar, incontrolavelmente. O trem nos conduziria de volta ao passado, à terra onde nascemos eu e Eduardo. Poderíamos brincar de novo nas calçadas e becos de Palma. Bola, pião, bila. Helena apenas olharia, de longe. Menina não se misturava com meninos. Brincasse de boneca, se quisesse.

Na saída, o trem relinchou, saracoteou. Rumava para o interior, fugindo da madrugada, do mar e seu cheiro de abismo.
Um homem amarelo e de bigodinho tostado de fumo cochilava. Eu queria conversar, porém sem acordá-lo. "Nosso sangue é quase todo americano, nativo dessa terra." Retomei a discussão iniciada no bar, durante a noite.
A fumaça dos cigarros inundava tudo. Homens envelhecidos precocemente. Fome, miséria.
O sol nascia. O trem chegou à primeira estação. Ainda no centro da cidade. Mulheres, meninos, aleijados ofereciam café, chá, bolo, frutas, bilhetes de loteria. Outros pediam esmola.
Se aquelas pessoas se unissem, poderiam fazer uma grande revolução social. Como a chinesa. Em vez de pedir esmolas, mendigar às portas das casas, deviam voltar aos matos.
O vento passava, zunia. O trem apitava e se rebolava. Voltavam as árvores dos lados da estrada. Regressavam postes e fios de alta tensão. Corriam para trás casas e pessoas. O mundo escorria para o passado.
A mata – monstro insaciável – engolia a locomotiva e seus passageiros. Pobres micróbios pensantes. Escravos de utopias.
Meus olhos ardiam de sono. O corpo todo exigia quietude. Helena e Eduardo nem mais falavam. Talvez nem sequer ouvissem minhas palavras. Melhor mesmo era dormir. Muito chão pela frente. E um dia de andanças. Subir e descer ladeiras. Talvez ir a algum sítio.
O trem corria em ritmo monótono. Às vezes parecia estar parado. A zoadeira se interiorizava em mim. Como se aquilo tudo acontecesse dentro de minha cabeça.
Outras vezes, o trem andava para trás, feito brinquedo. Empurrado ou puxado. Não mais ia – voltava. Trenzinho de caixas de fósforo. Repleto de areia, pedras e insetos mortos. Areia que significava arroz e feijão. Pedras que representavam frutas. Formigas chamadas porcos ou bois.
O maquinista era um deus. Conduzia o trem pelos mais impossíveis trilhos. E ora parecia do tamanho de um dedo mindinho, feito de cera, ora podia esmagar todo o comboio com um pé. Gigante enraivecido.
Gritavam. O trem havia parado. Abri os olhos, aturdido. Vendedores exibiam frutas. Gentinha alvoroçada, cabeças de cestos, braços de bandejas, mãos de cordas, pés de frutas. Bonés encardidos vasculhavam os vagões.
– Olha a manga doce!
Um homem de muletas pedia esmola-pelo-amor-de-deus. Chocalhava moedas numa bacia.
Parecia-me ter voltado à primeira estação. As mesmas caras de miséria, a mesma sujeira.
Onde estávamos? O trem não se locomovia? Ou o tempo havia parado?
Olhei para o relógio. Helena e Eduardo dormiam. Ou preferiam não ver nada. Fechei também os olhos. Nenhuma fruta me apetecia. Muito menos aquelas iguarias lambidas pelas moscas.
E o trem vagaroso, sonolento, cansado. Parecia brinquedo. Os vagões e os passageiros seriam minúsculos objetos. Caixas de fósforos unidas umas a outras, e um cordão a puxá-las. Homens e mulheres de cera ou papelão. Viagem quase eterna pelos infinitos trilhos da infância. Passeio perigoso por estreitos caminhos, penhascosos e abissais.
Porém não sei se deva narrar essa viagem, peripécia por peripécia, à maneira dos antigos cronistas, ou apenas falar de seus motivos. Talvez seja melhor cuidar de uma andança há muitos anos. Minha primeira alienação. Minha primeira perdição. Eu e outra ... Não sei se deva dizer pessoa. Quiçá anjo. Anjo feminino. Uma criança, como eu. A menina de meus devaneios intermináveis. História de apenas dois personagens. Porém de incontáveis meandros. Pois nela se contam todos os passos desses pequenos andarilhos. E cada passo continha a eternidade. Embora dados no exíguo espaço de um quintal.
Mas só isso dará um livro? Não será preciso recorrer a outros, às histórias de meus pais, fulano, sicrano? E também a mim mesmo, o outro, o que ficou emaranhado nos cipós do quintal de antigamente?
Ou então é necessário inventar aventuras. Narrar acontecimentos. Basta de narrar o nada. Afinal, sou ou não sou personagem? E por que não lhe dar voz? Sim, um personagem precisa falar.
Se Eduardo quisesse conversar comigo, mesmo para me dissuadir de outras viagens, outras fugas, mesmo assim eu o ouviria. Seus olhos grandes e puros, de menino crescido. Eu até nem falaria mais de passado, antepassados, infância. E ele não me chamaria mais de doido.
Ando tão sem rumo! Nem sei aonde ir. Se descer a rua, irei ter numa grande avenida. Asfalto, carros, velocidade, perigos. Se subir, verei casinholas, miséria, atraso. Porém não busco nem luxo nem lixo. Busco-me, talvez.

Na próxima estação, lá estariam outras mulheres e crianças esmolambadas. E mendigos de todos os tipos. Um cachorro a latir. Um gato cruzaria as linhas de ferro, cheio de pavor, cauda peluda arrepiada, tochas acesas. O cão, tranqüilizado, lamberia um caroço de manga e calaria a boca. As pernas de pau do mendigo sumiriam na esquina da estação.
O sol coroava a cabeça branca de outro mendigo. Abençoado para mais um dia de caridades. Os cães podiam copular livremente. Ninguém para os molestar. Nem mesmo os moleques. Aleijados e suas muletas me enterneciam, mas para mim esmola não valia nada. Meu cristianismo jazia soterrado nas catacumbas de Palma. Já não rezava a deus nenhum. Cristo era apenas uma cruz enfiada à beira dos caminhos. Ou um postal do Rio de Janeiro.
Ao acalanto do trem, eu quase dormia. O ronrom me embalava. Rede a balançar. Rangido de armadores. Mãos maternas a cantar e ninar. Dorme neném que eu tenho o que fazer.
Decerto eu não sonhava. Fazia muito calor, havia um falatório babélico dentro do vagão. Helena talvez dormisse, tão sereno se mostrava seu rosto. Um tanto belo. Eduardo também parecia dominado pelo sono.
Eu queria apenas fazer planos e recordar. Seria o guia naquela aventura. Munido de mapas e apetrechos vários. Como os velhos exploradores.
Helena dormia, quando o trem chegou à estação de Palma. E não acordaria tão cedo, não fosse o barulho feito pelos passageiros em desembarque.
Na calçada, Eduardo olhou para um lado e outro, como a fazer o reconhecimento do lugar. "E agora?"
Acostumados a andar, para que alugar um jipe? A estação distava apenas cerca de dois quilômetros do centro de Palma. Apesar da ladeira. Além do mais, meu desejo era pisar de novo aquele chão. Olhar cada pedaço de muro. Rever casa após casa.
E saímos os três, a passo lento.

O relógio da igreja tocava as horas, regularmente. Hora de acordar, de almoçar, de dormir.
Havia, no entanto, outro marcador do tempo. Mais estridente, alarmante. O apito do trem. Quando chegava à estação e quando partia. Num ou noutro sentido. A soltar fumaça e gritar. Eu subia à janela para vê-lo, acompanhar sua carreira.
Ele sumia, tragado pelo mato. Para onde ia? Por que lugares passava? Que esperanças conduzia?
Depois não se ouvia mais seu apito. E era a hora de almoçar, estudar, brincar. A bola também queria correr, voar, sumir.
E eu dava um chute espetacular.

Na Praça de Santa Luzia paramos para descansar. Velha praça, habitada por seres anônimos, jumentos, cachorros. Povoada dos seres mitológicos das tragédias encenadas todos os dias por mim. Praça de minhas buscas, onde eu me sentia monstro ou vagabundo.
Naquela manhã, porém, encontrei tão-somente um homem sentado num banco, a ciscar o chão, escarrar e cuspir. Formigas se afogavam entre seus sapatos sujos. Uma delas escapuliu para o meio da calçada. Escorria por debaixo dos sapatos do desconhecido um riacho de cuspe. Puxei conversa. O outro alegou precisar de fumo, e esmagou, de uma só pisada, metade da procissão de insetos.
Recendia perfume das flores dos jardins. Ao redor da praça, as mesmas casas de antigamente. Homens e mulheres, de passo tranqüilo e olhar sereno, andavam para lá e para cá. Vida pacata, apesar do calor e da crise social.
Embora dispuséssemos de muito tempo, eu queria procurar logo a casa onde nascemos e passamos a infância. Eduardo não se opunha aos meus desejos. Apenas fazia ligeiras objeções. Não sabíamos quem morava na casa. Melhor nos informarmos primeiro.
Helena concordava com tudo, sem jeito para dar opinião. Melhor mesmo deveria ser um banho e uma cama. Parecia cansadíssima.
Não me dispunha a abrir mão de revisitar a velha casa. Vivesse lá quem vivesse. Explicaria tudo aos moradores. Falaria de saudades, de meu tempo de criança, de nostalgia. Qualquer pessoa compreenderia meu estado emocional. Ninguém me chamaria de louco.

Helena nem me procura mais. Deve andar com algum namorado. Para fartar seus desejos. E com razão. Ora, que posso eu lhe oferecer? Só ilusões, viagens tormentosas, talvez dores.
Onde estará minha mãe? Dormindo, talvez. Cansada de cozinhar, varrer, lavar roupa. E banhar filhos. Mãos de veludo, às vezes ásperas. Voz a cantar cascatas. Águas correntes e o amor de quem lavava a vida. Sabão e sol. Carinho ao meio-dia. Roupa lavada, comida feita. Nenhuma lagartixa surgiria no horizonte dos muros. Só paz. E, depois, sono. O sono dos inocentes – anjos de um paraíso perdido.

Deixamos a cidade por volta de nove da manhã, debaixo de um sol morno, e chegamos ao convento dos jesuítas antes do meio-dia. Andamos pelas hortas, admirados de tanta verdura, a conversar com os moradores. Um deles deixara a batina pelas pernas bonitas de certa matutinha. Contavam a história, já sem graça nem escândalo. Escapou da excomunhão, reparando o pecado. No final das contas, nove filhos amarelos e a mulher cheia de varizes.
O velho casarão perdido entre as árvores mirava do alto a cidade. O sol escondia-se entre as copas das mangueiras e palmeiras. Helena queixava-se de cansaço, pedia para voltar. Eu, porém, queria ir adiante. A única oportunidade de visitar uma velha casa de retiros abandonada.
Ela mencionava outros motivos, além do cansaço. Falava de canguçus voadores que devoravam solitários viajantes, surucucus enormes que picavam de morte os descuidados, caiporas que pediam fumo a criancinhas perdidas. Eu ria, corria e me escondia detrás das mangueiras para assustá-la.
Eu mesmo, no entanto, morria de medo até da água. Anos e anos morando no litoral, a muito custo metia os pés na areia da praia. Conquistador dos mares, sim, mas nada de ouvir sereias. Não ia além de olhar navios.
Passeávamos no meio do mangueiral. Brincávamos de esconde-esconde e de apanhar mangas podres ou verdes e atirá-las para cima. Queríamos derrubar frutas de vez. As mangas lançadas varavam a folhagem e iam cair longe ou se enganchavam nos galhos. Assobiava a mata, chamava visagens, cantava nas bigornas do mundo, tremia de sezão, se arrupiava. Metemo-nos nas brenhas, feito paiacus. Adiante, apoiei-me ao tronco da maçaranduba protetora, espreitei as canguçus, ouvi-lhe os rugidos, caminhei, quicé à frente, pronto a rasgar o bucho do bicho. E era apenas um tamanduá a descansar do repasto das formigas.
Avistamos por fim o casarão. Antes de escurecer, podíamos alcançá-lo, se deixássemos de lado as mangas e caminhássemos mais depressa.
Resolvemos deixar o caminho e varar o mato. Já havíamos decidido regressar, quando começou a chover. Entardecia e nos perdemos a olhar para o chão, com medo de cobras. No alto, a tempestade se preparava. Pegos de surpresa, procuramos um abrigo. Corremos e, antes de encontrar qualquer cabana, a chuva já caía grossa. Só víamos mangueiras. Debaixo de uma delas paramos. Imaginei então uma casinha de taipa. Ao chegarmos à soleira da porta, viria de dentro uma mulherzinha molambuda e assustada. Eu explicaria nosso vexame de civilizados. Pediria para nos enxugarmos, receberia a oferta de um cafezinho adoçado com rapadura. Entre um gole e outro, nova oferta: para esperarmos pelo dia. Falaríamos disso e daquilo.
A mulher não esqueceria de relatar sua vida, dos filhos, do marido. Contaria pedaços de história e eu colheria material suficiente para escrever poemas bucólicos. Agradecido, refeito, o sol despontando, regressaríamos menos infelizes.
Falo de infelicidade e desventuras, mas, na verdade, essa viagem me serviu muito. Como para conhecer mais Helena.

Chegados a um mangueiral, chupamos mangas. Descansamos, brincamos com pintinhos, jogamos caroços aos porcos e às galinhas. Procuramos água para lavar mãos e bocas, cansamos de novo, e nem sinal da cidade. Ninguém para nos dar um rumo.
Empardeceu e ainda a mata. Para piorar, um ventinho frio anunciou chuva. Olhei para o céu. Parecia noite. A zoada da chuva corria para nós. Corremos também, mas nossas pernas eram só quatro e curtas contra as mil pernas finas e compridas da chuva. Refugiamo-nos debaixo de outra mangueira, caladinhos e cansados. Recostados ao tronco da árvore, cochilei e peguei no sono. No sonho, eu me perdia no quintal e tudo se repetia.
Ainda chovia e a menina dormia aninhada ao meu ombro. Olhei para o tempo – o sol nascia encabulado. Arregalei os olhos e avistei, mais adiante, uma cabaninha. Despertei minha amiga e apontei-lhe a casa. Foi alegre aquilo. Podíamos passar a chuva debaixo de um teto.

O lusco-fusco e seus silêncios, a penumbra e seus mistérios, essa ternura foi a Igreja católica quem me abriu suas portas. E não seria noutra hora que eu e Helena, na nossa viagem fantástica, atingiríamos o vértice da vertigem.
A noite nos fizera dormir debaixo da mangueira, apesar da chuva. E, quando só neblinava, a madrugada me despertou. Não havia estrelas no céu. Apenas vagarosas nuvens em passeio. Podia ser a mesma claridade produzida pelos relâmpagos. Também não sabia determinar o tempo decorrido desde o anoitecer. Não me agarrei aos santos; grudei-me ao tronco da maior mangueira, quase em desespero, disposto a morrer. Virei poeta diante da morte – fulminado por um raio, delirante de solidão.
Só depois pude calcular a que distância do dia estávamos e, ainda por suposição, que a chuva havia parado por volta das seis.
Ensopados, mortos de frio, deixamos o abrigo natural e caminhamos pelo aguaceiro. Súbito a visão de uma cabana.
Passado o susto, senti um terrível ódio de mim mesmo. Insultei-me, chamei-me de cego, idiota, doido. Como não vira aquilo antes da chuva e na cabana não fôramos passar a noite? Teríamos nos deitado, dormido, sonhado e estaríamos limpos, enxutos e, quem sabe, felizes. Mas não, ficamos sujeitos a um raio dos diabos, tiritando de frio, encharcados, enquanto a dois passos de nosso tormento erguia-se um abrigo, embora de taipa.
Fechei os olhos por instantes. Neblinava ainda, mas os pássaros já piavam. A folhagem, o chão, tudo molhado. Um mundo vivo e repleto de alegria.
Para a cabana deveríamos nos dirigir e, assim, nos proteger da neblina e do frio. Urgia secar a roupa e esperar pela estiagem. Nada de andar ao léu. Afinal, não tínhamos costume daquilo, não éramos selvagens. Se nos dessem duas redes, melhor ainda. Depois tomaríamos o trem de volta. Durante a viagem eu pensaria no desilusão de para nada me ter servido o passeio. Não conseguiria escrever nada, não encontrara ninguém que pelo menos me contasse umas histórias insólitas e me fornecesse material para minhas inquietações. No máximo, rabiscaria uns versos bucólicos que falassem da noite no mato, de sapos coaxando e doces mangas devolutas. E assim terminaria nossa pequena e desastrosa aventura. Como, porém, encontrar o caminho até Palma? Quem nos guiaria no meio daquele mato?

Chegados à porta, escancarada, fiquei atarantado e parei mudo. Na salinha, acocorado, um velhinho cachimbava. Dei bom-dia e fomos convidados a entrar. Tive medo. Podia ser assombração, alma, o diabo. Helena se agarrou a mim e puxou-me para fora. Eu, porém, não consegui me despregar do chão. Arregalei os olhos: nem um tamborete, só o homenzinho que nos olhava com uns olhos misteriosos. Disse que estávamos perdidos. A chuva da noite passada, a mangueira onde nos abrigamos, o frio... “Tenham medo, não; entrem. O velhinho aqui parece que ainda é deste mundo.”
Helena deu um gritinho de espanto. Correu um passo e parou, como se não tivesse mais forças para erguer os pés. Eu quis recuar. Não imaginava haver alguém dentro da palhoça. “Entrem, entrem.”
A neblina engrossava. Dei um passo à frente, como se pisasse em alçapão. E essa passada durou uma vida. Arrastei Helena pela mão, mas a porta não se abriu. O velho escorava-se numa bengala e suas roupas remendadas e sujas impressionavam. Uma rede estendia-se de uma parede a outra. “Vi quando vosmecês chegaram, se aproximaram da casa, conversaram e foram dormir debaixo da mangueira. Por que não se arrancharam aqui? Posso dizer que isso não é tapera. Eu vivo aqui dentro.” Fez uma pausa, sorriu de novo, olhou para fora. “Mas também é porque sou doutra era, não é?”
De longe, parecera-nos uma casinha de taipa. De perto e no claro não chegava a tanto. Apenas esteios fincados no chão e apoiados em varas, cobertos de folhas de palmeira e amarrados com cipós. Na frente uma porta, onde o medo nos prendeu por segundos. Atrás outra, que ia dar para um terreiro onde galinhas e porcos chafurdavam.
Eu não dizia sim nem não. Helena se amparava em mim, trêmula, a suplicar em murmúrios para voltarmos. Porém já a chuva recomeçava.
Entramos. E não havia nada onde pudéssemos descansar. Só a rede. O velho aconselhou-nos a ficarmos de cócoras. Segundo ele, é melhor para pensar e conversar.
Por um momento, tive a impressão de estar sonhando. E não abri a boca, receoso de ver esfumar-se o sonho, desaparecer meu personagem.
A seguir, pareceu-me ouvir um grito medonho, para além de minha capacidade de ouvir. Helena perguntou-me o que havia acontecido. Talvez nada, pois o velho continuava a falar, a falar. E eu ouvia uma voz sumida, quase sussurrante. “Vivo só aqui. Desde que me deram outro nome. Porém de primeiro me chamavam de Sebastião Guerra, depois de Tião Guerra. Podem me chamar também de Tanguera. Não tenho raiva, não.”
Ajeitei-me sobre as pernas. Padre Cícero debulhava um rosário detrás dos punhos da rede. O dono da casa tossiu.
Contou-nos episódios de sua vida: um dia, caminhava, distraído, no rumo da casa do avô. Cantava uma modinha, arrastava os pés. De repente uma jararacuçu abocanhou sua perna e o dia virou noite. Mostrou-nos a cicatriz. Verguei-me: sua perna esticou-se até minha cara. Um porco passou entre seu pé e minha curiosidade.
Encontraram-no caído no meio do caminho, arranjaram uma rede e o levaram para a cova. À primeira pá de terra, deu um berro e pulou fora do buraco, para espanto dos coveiros.
Nos fundos da casa, porcos revolviam o chão enlameado. Por entre as folhas de palmeira do teto respingava. O vento balançava as varas e os paus das paredes.
Alvoroçadas, as galinhas infestaram a cozinha, se aninharam detrás do pote. Os porcos esbarravam uns nos outros, roçavam o fundo da rede. Eu levantava os pés para me livrar deles. Helena tremia, talvez de frio, agarrada a mim.
Por toda a casa a festa animal. Galinhas e porcos sapateavam e cantavam. A rede rangia nos caibros, embalada pela doidice dos bichos.
Um cururu se anunciou à porta da frente, espiou o fuzuê, deu meia-volta e escapuliu para o lamaçal. O velho acendeu o cachimbo no vai-e-vem da rede. Um porco mordeu a perna de uma galinha, que pediu socorro e voou em círculo pela sala. Tentou pousar na minha cabeça, desequilibrou-se e caiu em cima de outra. A porcarada gargalhou.
“Vosmecês não ouviram gritos de noite? Os espíritos habitam as taperas. De noite eles vêm gritando, fazendo horrores. Assim que vosmecês rumaram para a mangueira, chegou um magote deles.”
Helena estremeceu. Um calafrio percorreu-me a coxa direita, que aos poucos se molhava do suor da mão dela. Sosseguei-a. Apertei-lhe a mão com força. Não era nada. O velho caducava.
Feito uma flecha, um vulto surgiu à porta dos fundos, e desapareceu. “Você viu?”
Ela não respondeu, toda voltada para a boca do velho, que falava de espíritos e mortos. Olhei de novo para a porta. Um clarão iluminou tudo, como se o mundo pegasse fogo. Pelas faces, pelos ombros e por todo o corpo nu do velho escorriam cachoeiras de águas claras. E de novo o vulto. De seus cabelos negros estirados gotejava água. Um colar de continhas brancas amarrado ao pescoço pendia até o umbigo, entre os peitinhos morenos. Uma tira de palha separava-lhe a barriga das coxas. Seus olhos negros pareciam admirados de nossa presença. “Sua neta?” Não respondeu. Falava continuamente. De si mesmo, de seu avô, de seus antepassados indígenas. Com muito esforço, saiu da rede e dirigiu-se à cozinha. Talvez fosse embora. Saísse pela porta dos fundos. E ficaríamos livres da visagem. Sim, aquele velho não existia concretamente. Só podia ser um espírito, produto de nosso medo, de nosso tresvario. Culpa da chuva. Adoecera-nos, dera-nos febre.
Daí a pouco, voltou. O cachimbo soltava mais fumaça. Sentou-se na rede e continuou a falar.
Por que não contava o resto da história de sua ressurreição? Não devia deixar as histórias pela metade. Nem passar de um assunto a outro, sem aviso ou pausa.
Aos poucos a chuva se fez chuvisco. Dava até vontade de deixar a cabana. Helena parecia mais tranqüila. Como se hipnotizada pela voz de Tanguera.
Um galo se espreguiçou e cantou o estio. Bateu as asas e perseguiu uma galinha.
As histórias pareciam não ter fim. Não sei se cochilei, se sonhei, se imaginei a maior parte delas. Se pudesse tirar essa e outras dúvidas com Helena, mas como achá-la? E para que achá-la, para que tirar dúvidas, se não acreditaria em nenhuma palavra dela? Porque duvido até de sua existência. Ou não duvido? Sim, creio em mim, em minhas invenções, nesta invenção absurda que sou eu mesmo.

Impressionado com o velho e suas histórias, ao deixar a tapera, busquei a Gruta dos Morcegos, crente de lá encontrar pelo menos inscrições dos antigos jenipapos. Helena não quis se aventurar a escalar as pedras. Deixou-se ficar a uns dez metros da entrada da caverna. Meti-me entre as rochas.
Logo ao primeiro passo ou rastejo, ouvi vozes, como se nos subterrâneos pessoas estivessem presas.

Sons estranhos se misturavam uns aos outros. Pareciam ecos, ondas de sons. Como se uns se sobrepusessem a outros, infinitamente. Do fundo do tempo emergiam vozes. Como se o tempo fosse um imenso abismo. Como se a caverna fosse um buraco sem fim. A gritos, ais, impropérios, lamentações seguiam-se risos, louvores, hinos, cantos. Esquisitas palavras, jamais ouvidas por mim: ucá, nhurae, ané, dé, inghé, prodonhé, croné, keri, pri, nhado, cri, tidzi, dinhacri, hi, radamy, canghi, sacri, dinateri, dupari, bidzamu, pocu, cru, puru, tçambu, dzu, boronunu, duramã, damã... (*)
Minha cabeça parecia uma caixa de ressonância, como se eu todo ou só ela fosse a própria gruta. Ou a terra. Eu sentia dentro dela o passado, as vozes dos antepassados. O tempo, em confusão, sem qualquer cronologia, rolava dentro de mim. O caos. Como se eu penetrasse no túnel do tempo. Descesse ao fundo do poço das eras. As primeiras vozes falavam de morte, destruição, guerra. Aconteciam batalhas, morticínios. Ais coletivos. Gemidos plurais. Dores absolutas. Bandeirantes furiosos decepavam crianças com suas espadas.
Preciso me desmentir: nada ouvi, nenhuma voz. Só vi os morcegos, em nado veloz nas tormentas da treva, perdidos, doidos. Pressentia-os no vácuo da caverna. Porque entre aquelas pedras ninguém podia viver ou estar.
No entanto quem sussurrava, gemia, chorava? Ou o eco de duzentos, trezentos anos pode permanecer entre paredes de pedra?
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Naquele momento também teorizei que um só ai mil vezes repetido pode engendrar palavras e frases.
Acreditei estar no único recanto da serra onde pudesse encontrar os vestígios de meus ancestrais e suas últimas vozes resguardadas pelas pedras da gruta. E me fiz atento, calado, inerte, pronto a recolher cada uma das palavras perdidas da fala dos jenipapos. Seus lamentos e prantos, seu desespero e sua dor de gente destruída a ferro e fogo. E por que não havia levado um gravador? Mas como imaginar a possibilidade de ouvir os mortos? Devia, então, ter levado lápis e papel. E a memória? Sim, a memória é capaz de tudo, sobremodo na treva.
Louco! – diria Eduardo. Os morcegos me farejavam o sangue.
Gruta é útero. Para ela voltamos. Vivos ou mortos. A terra nos espera.
Por que Eduardo não quis subir a serra? Medo nunca teve. Sempre se mostrou corajoso e aventureiro. Ou queria me deixar a sós com Helena? Ora, não precisava se preocupar tanto com minha libido.
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(*) Palavras cariris que significam, respectivamente: amar, filho, sonho, mãe, criança, além, nu, animais, sangue, morreu, mulher, mortos, eu, sepultura, bom, nasceu, trabalho, matador, feiticeiro, lágrimas, rio, flor, cabeça, água, escravo, inimigo, longe...
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Quero escavar meu chão. Pisar de novo minha terra. Rever a casa onde moramos. Se possível, seu interior, da sala ao quintal. Passar um ou dois dias lá. Dormir até. Eu e Helena. Os proprietários ou inquilinos compreenderão minha angústia. Como da outra vez, quando nos autorizaram a entrar. Não tive, porém, coragem de pedir mais. E a visita durou apenas alguns minutos. Que valeram anos.
Da próxima vez, no entanto, quererei muito mais. É-me imprescindível revisitar o quintal, aquele paraíso onde eu e a menina nos perdemos. Ou o verbo adequado não é este?
Não importa a palavra, interessam o pensamento, o sentido.

Andava farto de aventuras. Conhecia cada palmo da cidade. Minhas noites dariam mil e uma. Mulheres de todos os feitios. Poucos amores, passageiros. Algumas amizades, até certo ponto duradouras. Como a de Helena.
Não sei por que já durava tanto minha relação com ela. Talvez fosse compaixão. Suas dores me doíam. A estupidez de seus pais. A falta de perspectiva no mundo do trabalho. Estudos interrompidos. Uma paixão frustrada. Tudo numa pessoa tão cândida, com um jeito de menina ensimesmada.
Nossas conversas às vezes terminavam em lágrimas. As dela eu enxugava, as minhas eu reprimia.
Helena adorava “filmes românticos”, praias, cerveja, dança. E também estar comigo. Eu atendia quase todos os seus desejos. Quando dispunha de tempo e me sentia dela compadecido. Ou quando não maquinava fugas, durante minhas crises de nostalgia.
Não gostava de falar de mim para ela. Preferia ouvi-la. Ou falarmos dos outros. Apesar disso, não me escondia inteiramente. E ela conhecia um pouquinho de mim.
Quando contei meus devaneios, pela primeira vez, Helena apenas ouviu. E olhava para meus olhos, como se quisesse entender, em toda sua profundidade, minhas palavras. No dia seguinte me pediu para contar mais.
E eu temia não passar da primeira frase. Um riso de deboche a me fazer mudar de assunto.

Embora tenha encontrado uma Palma transfigurada, modernizada, descobri alguns “sítios arqueológicos”. Daí a necessidade de repetir a aventura. Só ou com Helena.
Se ela não fosse tão melindrosa, poderíamos volta à Serra. O velho da tapera talvez nem exista mais. E agora, com esta seca terrível, nenhuma chuva atrapalharia nosso passeio. Iríamos à gruta ouvir as vozes dos jenipapos. Não, isto com certeza a assustaria. Ora, ninguém resiste a tanto. Vozes soterradas, seus ecos, são coisa do outro mundo. Pura fantasmagoria.

Tanguera sou eu. Tanguera não existe. Tanguera é aquele menino que envelheceu e virou fantasma. Tanguera não tem nome. Tanguera é a solidão, a angústia, a dor.

(Continua)
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