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sábado, 15 de dezembro de 2007

Águas de Badu (Nilto Maciel)



















Moscas voejavam ao redor do cadáver. Choravam filhos e amigos, noras e netos, vizinhos e filhas, genros e netas. A mulher, se chorava, só Deus sabe. Nos olhos do cachorro Chué, no entanto, não se viam lágrimas. Quiçá ainda não soubesse do fim do seu protetor. Eu não chorei. Para que chorar, se o choro não conta histórias? Cabia a mim acompanhar os últimos momentos daquele ser entre os vivos. Retribuir, de alguma forma, o muito que dele ouvi. Pois de sua boca saíram dezenas e dezenas de crônicas sertanejas, todas elas por mim transformadas em contos. Consolar os seus parentes e, até, pagar as despesas do sepultamento. Antes, porém, devíamos velar o corpo mirrado do velho Balduino. Não, Balduino não, Badu, como gostava de ser chamado. Quem quisesse ser seu amigo não o chamasse pelo nome de batismo. Isso vinha desde os tempos de rapaz. Ora, se até o major Saulo o tratava por Badu, não ia permitir cerimônias de outros.
De vez em quando alguém espantava moscas da cara enrugada do finado. E dos olhos cerrados, da boca murcha, da testa franzida. Badu parecia imagem de museu. Como se estivesse apenas a dormir. A qualquer momento se sentaria na rede, pediria uma caneca d’água e passaria a contar histórias. No sertão... Não, eu não tinha vontade de chorar. Talvez porque acostumado a fins e fins e a ver nele, o velho vaqueiro, apenas mais um homem que conheci e de quem colhi histórias.
Cerca de sessenta anos atrás vivia Badu na Fazenda da Tampa, vale do Rio das Velhas, Minas Gerais. Montava cavalo e cuidava de gado, como tantos outros nas terras do major Saulo. Quem sabe fosse melhor dizer “viveu”, “montou” e “cuidou”, porque apenas dois meses durou sua estada naquele lugar, de dezembro a janeiro. Tempo suficiente para conhecer Ritinha e por ela se engraçar. Para Ritinha dele se aproximar e desprezar Silvino. Para Silvino se encher de ódio e prometer vingança. Pois esse Silvino passou, então, a dizer a uns e a outros que não tardava a hora de meter uma faca nos peitos do rival. Pretendia matá-lo na primeira oportunidade. Sangrá-lo como se sangra porco. Badu, no entanto, não queria briga. Nada de porfiar com o sujeito.
Conheci o antigo vaqueiro por acaso. Entrei num boteco do Pirambu, em Fortaleza, perto da praia, para matar a sede. Pedi água mineral. Três ou quatro velhos conversavam na calçada, sentados em tamboretes. O sotaque de um deles me pareceu estranho. Demorei-me com a água, a escutar a conversa. Ao perceber minha curiosidade, ele se calou. O que tanto eu assuntava? Pedi mais uma garrafinha. Ele falava de um burrinho heróico que atravessava uma correnteza, em noite escura. Dele mesmo nada dizia. Não se pabulava de nada. Na história só havia um herói: o burro. Dias depois pude saber o motivo do seu receio. Eu talvez fosse espião do major Saulo ou de quem o tivesse sucedido no comando da fazenda. Aquilo podia ser uma arapuca. Se não me conhecia, não podia confiar em mim.
Tudo mudou quando me apresentei como professor, pesquisador, jornalista, folclorista, o levei ao meu apartamento, apresentei-lhe minha família, meus livros, escancarei minha vida. Do alto do edifício, no Meireles, mostrei-lhe o mar. A princípio, como se em êxtase, ele não disse uma só palavra, olhos afundados nas águas azuis. Ou verdes. Nos verdes mares bravios. Súbito, sem piscar, sem tirar os olhos da vasta pintura, e como se eu fosse sábio, quis saber de onde vinham e para onde iam tantas águas. Tentei uma explicação científica. Ele então compreendeu que eu não sabia tudo. Aquilo era muito bonito, mas preferia o chão, o sertão. O homem não fora feito para as alturas. Quem vivia pendurado em galhos era macaco. E nas águas viviam os peixes. Perguntei se queria ouvir umas histórias. Só se fossem de matutos. Serviram sorvete de graviola. Corri às minhas gavetas, trouxe uns cadernos e passei à leitura. Às vezes ria; outras, se entristecia. E não deixava de mirar o mar.
Com ele saí a passeios pela cidade, como se turistas fôssemos. Caminhamos pelo calçadão da Beira-Mar, pela Ponte dos Ingleses, fomos à Barra do Ceará, ao Mucuripe, à Praça do Ferreira, vasculhamos toda a cidade. Ele não conhecia esses lugares ou os conhecia de relance. Um dia, ao voltarmos de um desses passeios, estacionei o carro diante de sua casinha e me despedia, quando ele me convidou a conhecer sua família. Mandou eu me abancar. Mostrou um banquinho de madeira. Deixou a sala e entrou pela casa. Morava com um filho, a nora e alguns netos. Falou dos outros familiares, de onde moravam, do que faziam. E se pôs a contar a sua vida ou parte dela. Sobretudo a partir do dia da grande desgraça acontecida num rio, quando ele, bêbado, montado num burro velho, em fins de vida, se salvou da correnteza, enquanto os seus companheiros de jornada morreram afogados. Cavaleiros e cavalos arrastados pelas águas. A custo o burrico alcançou a casa da fazenda. Mais morto do que vivo. Badu encharcado de água e cachaça. Apeou e se recostou na parede. Atordoado, com medo, sem rumo, resolveu arribar, fugir daquele lugar o mais cedo possível. Montou de novo o animal e enveredou para o norte. Mas o burrico, de tão velho, não suportou tanto peso, tantas veredas. Diante do cadáver, Badu chorou. Retirou o cabresto, porque disso ele não carecia mais. Nunca mais. Beijou-lhe a testa, abraçou-lhe o pescoço, ajoelhou-se diante do corpo e agradeceu por estar vivo. Abriu uma cova rasa e nela o enterrou. Fez uma cruz de paus, fincou-a sobre a terra e seguiu em frente. Sempre a pé. Pois desse dia em diante nunca mais montou burro ou cavalo. Fez a jura. Andou por veredas, matas, dias e noites de fome e sede. Para sobreviver, topava qualquer serviço. E assim aprendeu de quase tudo um pouco. Um dia cavava cacimba, uma semana apanhava feijão, um mês cuidava de porcos. Areou-se todo o tempo, sem saber se ia para cima ou para baixo. Meteu-se nas brenhas, sem avistar vivalma durante dias e noites. E, por acaso, se viu diante de muitas águas. Seria o Velho Chico? Esperou, esperou, até avistar um barco. Mas dessas peripécias ele não quis falar muito. Sem saber onde se achava, sem atinar com geografias, fugia do passado e de Minas. Queria atravessar o São Francisco e seguir em frente.
Cerca de um ano depois alcançava o sul do Ceará. Entretanto as histórias de cangaço e de lutas entre grupos políticos o empurraram do Cariri. Não queria conhecer padre Cícero? Não, não e não. Queria conhecer sossego. E se enfiou de novo pelo sertão, até alcançar a serra de Baturité. Arranchou-se num sítio nas proximidades de Mulungu. Precisava de descanso e, se não fosse pedir demais, um pouco de comida. Falava quase nada, com receio de se enrascar nas conversas. Arranjou serviço de capinar. E outros e outros serviços. Trabalhava do nascer do sol ao escurecer. Sempre calado e obediente. Precisava se aprumar na vida e esquecer pelo menos aquele dia de mortes. E conheceu a cabocla Joana, com quem se casou um ano depois. Disso também contou pouco. O tempo passava devagar. Às vezes pensava em voltar, rever os pais e irmãos. Com certeza o tinham por morto. Ora, e se não conseguisse acertar o caminho de volta? Melhor mesmo virar cearense de vez e esquecer o passado. Aprendia aos poucos a fala do povo da serra. Nascido o primeiro filho, perdeu a vontade de voltar. Joana não fazia perguntas. Só falava do ontem dela. E do hoje do menino. Badu gostava disso. O tempo andava lerdo. Outros meninos nasciam e cresciam. Joana não fazia perguntas. Só falava de seus meninos, rapazes e moças. Badu gostava muito disso. E criava bodes, cabras, galinhas, porcos. O tempo corria. O primeiro filho inventou de morar na capital. Queria ser chofer. Na serra não se viam caminhões nem jipes. Só em Mulungu, Baturité, Guaramiranga. Um tempo Badu olhou para trás, para o sítio, para os matos, para a mulher e não viu mais os filhos. Todos tinham arribado para Fortaleza. Um dia o mais velho chegou com jeito de lorde. Queria levar pai e mãe para a cidade. E levou.
Esses enredos se alongaram, sempre pacíficos, sem correntezas e sem secas. Para contar tudo, porém, seriam precisos dias e noites de fala. Até o último dia, até aquele momento de despedida: Badu deitado numa rede, sem vida. Seu povo triste, choroso. O cachorro Chué a vadiar entre as pernas das pessoas. Badu, por que esse nome Chué? O velho não ria nunca, mas sabia fazer rirem os outros. Mais chué do que este vira-lata só o mais chué dos cachorros. E Mais Chué existe? Devia existir. Em razão da idade, quem sabe, o velho vaqueiro muitas vezes confundia a natureza do animal com a de outro. Com voz sumida, chamava Chué de “meu burrinho”. Num desses momentos de afago ouvi – creiam – a promessa: “Chué, não vou deixar ninguém montar você”.
E o burrinho pedrês? O vaqueiro pouco sabia dele. E, se sabia muito, pouco dele falou. Não lhe lembrava o nome nem as características. Recordava tão-somente a sua bravura naquele dia de angústia e mortes. E quiçá nem lembrasse muito, porque a cachaça escureceu-lhe a mente durante algum tempo.
Parecia coisa do destino ou o avesso dele. Pois quem imaginava que um jegue velho, miúdo, magricela, quase cego, pudesse salvar uma vida? Que um homem bêbado sobrevivesse à travessia de um rio em rebuliço, após a chuva? E que cavalos bonitos, de estirpe, naufragassem, como pedras, e com eles levassem tantos vaqueiros valentes no roldão das águas?
A partir daquele dia Badu nunca mais foi o mesmo. Nunca mais tomou suas bicadas. Parou de beber, numa ojeriza sem par de aguardente. Não por isso, passou a ter sonhos esquisitos. Num deles, vagava no mar montado num burro. As ondas vinham, gigantescas, e os jogavam para o alto. Logo não havia mais burro. Badu montava, então, enorme peixe, porventura um peixe-boi. E mergulhava no abismo. Fazia frio, faltava ar. No fim do pesadelo, Badu não sabia mais de burro nem de peixe: agarrava-se a um pedaço de pau, um galho de árvore. E a correnteza os levava para os confins do mundo. Ancorava numa ilha. No entanto, cobras na praia não o deixavam pisar a terra.
Tudo começou quando o major determinou o ajuntamento de uns bois para serem levados à estação do arraial distante quatro léguas da fazenda, onde seriam embarcados em trens. Coisa corriqueira. Entretanto, o dia começou com chuva. Não fazia mal. Precisava, para tanto, de todos os vaqueiros, dos onze da fazenda. Mas faltava um cavalo. Sendo assim, que o burrico servisse de montaria a um dos homens. E a viagem se começou. Badu num velho poldro pampa; os outros nos seus cavalos e no burro; o major no seu cardão. Não fosse tanto boi para tão poucos cavalos, talvez Saulo não se lembrasse do jumento. Não fossem de Ritinha o amor e de Silvino o ódio, possivelmente Badu não tivesse bebido tanta cachaça. Não fosse a bebedeira, certamente Badu tivesse voltado no velho poldro. E assim teria morrido como tantos outros levados pela correnteza.
Deixados os bois nos trens, despediu-se o fazendeiro dos vaqueiros. Precisava pernoitar no arraial. Para seu lugar nomeou um deles. Conduzisse os homens em paz. Ficasse de olho em Silvino e Badu. Impedisse briga, discussão, muita conversa. Não queria saber de morte. Voltassem para a fazenda. Antes, porém, foram os homens comer e beber. Após o que, cada um pegou a sua montaria. Menos o vaqueiro do burrinho, que se engraçou do poldro de Badu. Restou o jegue, a um canto, solitário. Bêbado demais, o último a chegar ao telheiro onde os cavalos descansavam, Badu se irritou. Como voltar naquele burro sem serventia? Ora, se não quisesse o muar, que seguisse a pé. Passou a perna sobre o animal, equilibrou-se como pôde e saiu no encalço dos outros. Tudo escuro ao redor. E a chuvinha insistente. No fim da rua, os cavaleiros se haviam ajuntado para confabular sobre a situação. Quem sabe fosse melhor esperar o amanhecer. Ou o estiar. Se o córrego tivesse enchido, seria perigoso tentar atravessá-lo. Ao deixar para trás os cavalos, no passo lerdo do jumento, Badu ouviu risadas. Caçoavam dele. Não se importou com aquilo. Queria voltar para a fazenda e dormir. Mesmo debaixo de chuva e escuridão. E se deixou levar pelo animal. Seguiram-no os cavaleiros pelos caminhos molhados, aos pares. E a chuva engrossou. Pouco a pouco, tudo ao redor se transformou num aguaceiro medonho. Um balcedo só, as patas dos animais afundavam, enquanto o breu da noite envolvia o mundo.
Na sala do casebre o choro ia e voltava. Lamentavam a morte inesperada do velho Badu. Tão cheio de saúde! Deus o tivesse em bom lugar. Chué entrava e saía, desconfiado da novidade. O seu protetor jazia numa rede, calado e inerte. Nunca mais o chamaria para passear. Nunca mais passaria a mão em sua cabeça. Badu, você gosta muito de Chué? Ora se gostava. Como não gostar dos brutos, se dos homens só recebiam maldades em troca de trabalho, companhia, amizade? Por acaso algum homem é capaz de servir de montaria? De conduzir um homem bêbado de um lado a outro do rio? Chué passava horas aos pés de Badu. Ouvia-lhe histórias de burros, cavalos e bois, compenetrado, sisudo, sem um riso de deboche.
Naquela noite de breu, depois de muita chuva, o mundo parecia um alagadiço só. Mas os homens precisavam voltar para a fazenda e não havia onde se arrancharem. Galoparam, galoparam e, ao se aproximarem da margem do córrego, sofrearam os cavalos. As águas tinham inundado tudo. Então deixassem o burro ir à frente. Se conseguisse atravessar o rio... “Burro não se mete em lugar de onde ele não sabe sair!” Como se não temesse as águas, a correnteza, a escuridão, o burro meteu as patas no córrego. Chapinhou, chapinhou, alcançou o meio, afundou-se até a barriga, seguiu. Badu agarrava-se ao seu pescoço, equilibrava-se. Os cavalos se viram obrigados pelos vaqueiros a tentar a travessia. As águas, porém, aumentavam de volume e tomavam mais ímpeto.
Encerradas as rezas, as mulheres se retiraram para a cozinha. Os homens sentiram vontade de beber uns goles. A meninada andava há muito pela calçada, a correr e rir. Apenas Chué permaneceu na sala. Súbito deu alguns passos e se postou ao lado da rede. Olhou para os lados, retesou as orelhas, ergueu-se, levantou as patas e as pousou no peito do morto. A rede balançou. Badu se despedia da vida como se ninado. Despedia-se de nós, parentes e amigos, daqueles que gostavam de ouvir suas histórias do sertão, de bichos e gentes. Sua derradeira história ele me contou numa tarde muito quente. À noite, dormindo, ele se finou. Parece ter sido um sonho. Ou invenção. Ele via do alto, como se flutuasse nas nuvens, as águas saindo do mar pelos caminhos dos rios e correndo para o sertão. Ao mesmo tempo, ele caminhava pelo chão, ao lado de um burrinho que às vezes latia. Molhava os pés na beira do rio, banhavam-se, alegres como meninos em brincadeira.
Um menino entrou no recinto e viu o cão a lamber o rosto de Badu. Mas não lhe pareceu um cão como os outros. Semelhava, antes, outro tipo de animal. Talvez um burrinho. Pois nas faces do defunto aflorava um tímido sorriso, como se agradecesse o carinho. Chué se pôs a relinchar baixinho, como se dissesse ao amigo palavras de consolação. Ou como se rezasse e dele se despedisse. Como se dissesse: eu fiz o que pude, cumpri o meu dever. Cumprimos nossas sinas. O menino levou as mãos à cabeça e quis gritar. O cachorro lambeu de novo o rosto do homem e saiu cabisbaixo no rumo da rua. E Badu voltou a ser morto.
Fortaleza, junho/julho de 2005.

(Recriação de “O burrinho pedrês”, de Guimarães Rosa, para Quartas Histórias – Contos Baseados em Narrativas de Guimarães Rosa, org. por Rinaldo de Fernandes (Ed. Garamond, Rio de Janeiro, 2006)