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sexta-feira, 29 de junho de 2007

Melodias em uníssono (Valéria Nogueira Eik)
























O vento corre pelo canavial provocando um ruído muito parecido com chuva. Olho para a folhagem escura que se agita sob a ventania e desejo sentir felicidade. É bom estar aqui, na quietude do campo, embora o silêncio traga desassossego à minha alma tão acostumada ao movimento frenético da cidade. As lembranças chegam e se deitam aos meus pés criando uma atmosfera irreal, onde passado e presente cantam em uníssono a melodia das horas.

quinta-feira, 28 de junho de 2007

O livro infinito (Nilto Maciel)




















Mensagem
Como costumava fazer durante as manhãs de sábado, Antônio Sollos, em pé, folheava livros desde cedo, numa livraria. Nada de praias, bares, visitas a parentes. Buscava novidades e antigüidades. O novo contista, o romancista esquecido, o escritor de sua predileção. Agarrou com unhas e dentes um volume de contos de Kafka. Queria conhecer “Durante a Construção da Grande Muralha da China”. Cheirou o livro, como se fosse um charuto, admirou a capa e se pôs a ler um trecho: “O imperador – assim consta – enviou-te, a ti, a ti que estás só, tu, o súdito lastimável, a minúscula sombra refugiada na mais remota distância diante do sol imperial, exatamente a ti o imperador enviou do leito de morte uma mensagem.” Desde a chegada, não via freguês. Apenas vendedores. Alguma novidade? Muitas, muitas, Seu Sollos. Ouviu vozes de quem entrava na loja. Voltou ao livro: “Aqui ninguém penetra; muito menos com a mensagem de um morto”. As vozes e o arrastar de pés calçados o fizeram levantar a vista. Não conseguiu distinguir de quem eram. Vozes de mulher e homem. Um casal, certamente. Gostou da voz dela. Até lhe lembrava uma voz doce de uns tempos passados. O som dos passos se aproximaram dele. Sondou os arredores. O casal só podia estar do outro lado da estante. Ergueu-se nas pontas dos pés. Viu uma testa robusta, corada, de homem, e uns fios de cabelos quase louros, lindos. Abaixou-se e, pela brecha da prateleira, viu uns lábios rubros que parecia sorrirem para ele. Descontrolado, largou o livro e se pôs a caminhar lentamente pelo estreito corredor. Ao fim dele, virou para a esquerda e parou. A dois ou três metros, avistou o homem de lado, mãos erguidas na direção da prateleira. Só podia ser o marido de Ana. A mulher ao lado dele seria, então, Ana. Não queria revê-la. E se voltou, para atravessar a sala pelo corredor perpendicular àquele em que o casal se achava. Saiu apressado, disposto a fugir. No entanto, antes de alcançar a porta, se viu frente a frente com Ana. Quis sorrir, olhou para os lados, cumprimentou-a com duas palavras, contemplou os olhos dela e saiu da loja.

Um vulto
Ana e Mino entraram na livraria de braços dados, sem pressa. Olharam para os lados e ele a arrastou para o interior da loja. Soltaram-se e se puseram diante da primeira prateleira. Ela passou à frente e deu dois passos, como se soubesse aonde ia. Ele a seguiu e parou ao seu lado. Ela deu mais dois passos. Desejava Kafka ou Borges. Nunca se mostravam juntos naquela livraria. Sollos sabia onde localizar cada escritor, seguindo a ordem alfabética. Também vivia para ler! Ela, não, não podia viver de livros. Pretendia, sim, escrever um livro. Talvez de poemas, ou de contos. Não teria fôlego para um romance. Quem sabe quando estivesse mais velha? Mino se encostou nela. Procurava que livro? O Castelo. Para que, se em casa havia um? Deram mais dois passos. Falasse baixo. Sabia onde achar Joyce? Semana passada o tinha visto, não lembrava onde. Possivelmente do outro lado. Um funcionário da livraria se aproximou deles. Apertou mão do cronista. A crônica do dia não podia ser mais perfeita. Ana sorriu, como se o elogio fosse para ela. Mino se voltou para o rapaz. Nem lembrava mais o assunto. Ana deu mais dois passos. O funcionário voltou. Mino se acercou da mulher e retirou da prateleira um Neruda. Do outro lado da estante um homem se movimentava, como se quisesse vê-los através das brechas entre uma prateleira e outra. Só podia ser Sollos. Ana se voltou para Mino. Precisavam ir embora. Não havia na bolsa um centavo. O homem não concordou com a retirada. O banco não fechava nunca. Sollos se dirigia para os fundos da loja e Ana rapidamente caminhou para o lado oposto. Não queria estar frente a frente com Sollos, pelo menos quando estivesse ao lado de Mino. Por um instante, o cronista virou a cabeça para a direita. Para onde ia Ana? Empertigou-se e, de relance, viu um vulto ao fundo da loja. Seria Sollos?

Sollos a sós
Para onde se dirigia Sollos? Caminhava a esmo pelas ruas, sem se lembrar do plano de ação traçado na noite passada: ir a uma livraria, comprar um ou dois livros, almoçar num restaurante, voltar para casa, descansar, ler um pouco. Ao chegar à Praça do Ferreira se sentiu cansado e sentou-se num banco. Um homem fumava ao seu lado. Podia apagar o cigarro? Não, não pediria nada ao estranho. Melhor se acalmar, procurar outro banco ou ir almoçar. O homem se retirou, levando a fumaça. Sollos abriu as pernas. Ana teria querido falar mais com ele? Para dizer o quê? Sentia-se feliz ou infeliz? Um menino se ofereceu para engraxar os sapatos dele. Quanto custava? Só um. Engraxasse, sem pressa, mas com capricho. O olhar de Ana aparentava de felicidade. Por quê?

A ver Neruda
Mino abriu a porta do carro, sentou-se no banco e aguardou a mulher se acomodar. Ana ajeitou os cabelos. Estaria o marido aborrecido? Não, não haveria de ter visto ela e Sollos frente a frente. O homem acelerou o carro. Por que Ana o tinha deixado a ver Neruda? Só podia ser em razão da presença de Sollos na livraria. Onde ele se encontrava antes de o vir? Ana, calada, alisava o cabelo. Por pouco Mino não bateu o carro na traseira de outro. Ainda pretendia ir ao banco ou havia desistido? Ela abriu a bolsa e se pôs a revirá-la. Ia ou não ia? Por que não imaginar a possibilidade de se defrontar com Sollos na livraria, se há muito o passatempo dele consistia em passar horas e horas de todos os sábados cercado daqueles livros? E se ele continuasse com a idéia de serem namorados? Não, não podia ser. Sabia de seu casamento. O pior não era isto, mas passar Mino a ter ciúmes. Talvez estivesse exagerando, pois nunca contou a ele detalhes do relacionamento dela com Sollos. O cronista suava. Não havia motivos para pressa. O dia todo pela frente. Por que Ana fugia do escritorzinho? Sabia da amizade deles. Conheciam-se de tanto se verem em livrarias, lançamentos de livros, encontros de escritores. Amigos apenas. Aliás, colegas de profissão. Mino havia gargalhado. Profissão de escritor era medicina, arquitetura, jornalismo. Não, não desconfiava de nada. Desconfiar de quê?

Sinfonias inacabadas
A tarde demorou a passar. Sollos se deitou na cama, fechou os olhos. Tencionava descansar, dormir, esquecer a manhã. Ana lhe aparecia a todo instante. Falava de livros, do marido, do passado, do tempo em que se encontravam e passavam horas a fio no apartamento dele. Levantou-se e deitou-se cinco ou seis vezes. Apanhou na estante um livro, leu duas ou três frases, lavou o rosto, quis telefonar para um amigo. Ana figurava-se mais sedutora do que antes. Abriu uma cerveja e sentou-se no sofá. Pôs-se a ouvir Scarlatti. Onde estaria Ana? Quantas vezes estiveram naquela livraria, a folhear Kafkas, Borges, Joyces! Trocou Scarlatti por Haydn, sem saber quem tocava. Bebeu mais cerveja, esqueceu sonatas, prelúdios, concertos para piano. Os olhos de Ana mais pareciam sinfonias inacabadas. Bebeu mais cerveja e buscou nas gavetas fotos dela. Haydn se confundia com o riso de Ana. No outro dia iria procurá-la. Ou não iria a lugar nenhum? Dirigiu-se ao banheiro e sentiu arrepios, como se ela o abraçasse e o sugasse.

Ana e o Castelo
Quando Mino pegou no sono (estaria mesmo dormindo ou fingindo?), Ana abriu os olhos e se pôs a olhar para o teto. Talvez Sollos fosse um bom amigo. Poderiam, ela e Mino, fazer dele um amigo, de freqüentar a casa um do outro. Com o tempo, Sollos passaria até a jantar na casa deles. Solteiro, seria convidado a dormir uma noite. Um quarto para ele, cama bem arrumada. Quando Mino viajasse... Não, Mino não viajava nunca. Ora, viagens eram como jantares – arranjavam-se, inventavam-se. Observou as costas de Mino. Dormia ou pensava? Sonhava ou urdia planos de detetive? Precisava deixar de falar em Kafka. Mais dia, menos dia, Mino veria Sollos num jornal a falar de Kafka. E se desse O Castelo para uma colega de trabalho? Quem poderia gostar dele na empresa? Todas as moças liam e viam somente revistas de fofocas. Nada de romances, contos. E se dedicasse o seu exemplar a Sollos? Com a amizade de sempre, ofereço-lhe o meu Castelo. Sua admiradora Ana. Ou admiradorana? Ele gostava de invenções desse tipo. E ainda lhe daria um abraço muito apertado.

Romance feito de lavas
Mino acordou no meio da noite. Virou-se para Ana. Dormia o sono das amantes. Não, Sollos não passava de um sonhador. Por que não convidá-lo para jantarem juntos? Falariam de Kafka, Borges, Joyce. Beberiam uísque e o outro liberaria o vulcão adormecido. Precisava anotar aquela imagem. Daria boa crônica. Algum vulcão histórico, o Vesúvio, e as paixões humanas. Ou um livro, um romance sem pé nem cabeça, feito de lavas. Sim, uma estréia de causar inveja a esses contistas de meia-tigela. Deixaria de ser apenas um cronista. Mudaria o nome. Nada de Minotauro.

Na muralha
Antônio Sollos se revirava na cama. Ana o chamava para conhecer de perto a muralha da China. Ele sentia medo de altura, de se aproximar do Sol, queimar-se, morrer. Ela ria. Um sol não deveria ter medo do Sol. Ainda mais sendo um sol duplo. Sollos se ajoelhava. Jurava não ser vaidoso. Milhares de chineses se aproximavam deles. Ana sumia na multidão e ele se punha a bradar por ela, que ria, falava, dizia estar ao lado dele. Sollos pedia socorro, gritava o nome de Ana, que ecoava pela muralha e pelos vales. Ela reaparecia. Ele sabia o significado do Sol? Falava de calendários, dias, meses e anos. Ele a chamava de louca. Por que o tinha abandonado? Porque se chamava Ana, a mulher do ano. E ria, gargalhava. Não brincasse com as palavras. Chineses o cercavam. Uma chuva forte caía sobre a muralha. Trovões e relâmpagos. Antônio Sollos sentia a urina inundar-lhe as pernas.

Com Teseu
Ana se debatia no leito. Sollos a convidava a conhecer um labirinto. Se fosse o de Creta, não desejava nem chegar perto. Tinha medo do minotauro. Deixasse de besteiras. Tudo era mito, apenas mito. Além do mais, a fera há muito não existia. Matou-a a mitologia. E a puxava pelo braço e a chamava de Ariadne. Ela fincava os pés no chão. Mesmo assim, Sollos a arrastava e se dizia o herói Teseu. Ouvia um rugido de fera e se assustava. Não tivesse medo, ele mataria o animal. Escurecia. Os bramidos se faziam mais próximos.

O vulcão
Minos mexia os lábios, como se falasse. Ao longe, vislumbrava o topo de um vulcão adormecido. Sentava-se numa pedra. Sentia calor, suava. Olhava para o vulcão e percebia, distantes, pequeninos, dois vultos humanos. Aguçava a vista e reconhecia neles Ana e Sollos. O que faziam ao pé de um vulcão? Punha-se a bradar os seus nomes. Abandonassem o local. As lavas não tardariam a subir. Gritava, gritava, e nada de ser ouvido. E nunca poderia se aproximar deles. Não conseguiria chegar a tempo de evitar uma tragédia. Desesperava-se. Viessem, correndo. Tinha para eles presentes: todos os livros de Kafka, Borges e Joyce. No entanto, a boca do vulcão já vomitava fogo.

Um livro imenso
Sollos, deitado, ouvia música há horas, dias. Ansiava ouvir a sinfonia do Castelo pelo resto da vida. Quem a compusera? Sabia Ana, sabia Mino? Ou nunca a compuseram? Ana lia trechos de O Castelo. Mino sorria. Ainda seria o grande cronista do Universo. Batiam à porta. Um mensageiro dizia estar ali em nome do imperador da China. No entanto, escondido por máscara, poderia ser Mino? Atrás dele uma mulher jovem e bonita. Seria Ana? Trazia, em nome do monarca, a história da Grande Muralha da China. Lesse, traduzisse para todos os idiomas e divulgasse pelo mundo. Corriam os três pelas ruas de Fortaleza, seguidos de multidão a clamar e cantar. Chegavam à Praça do Ferreira e, diante da Coluna da Hora, se punham a fazer um discurso coletivo. A multidão se calava. Irmanavam-se os três num discurso sem fim e sem sentido E se olhavam e riam. No entanto, toda a cena diante deles se desenrolava numa tela de cinema ou televisão. No sofá, Sollos, Ana e Mino liam um imenso, quase infinito livro aberto diante deles.
(Abril/ 2003)
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segunda-feira, 25 de junho de 2007

A dança simbólica de Luciano Bonfim (Angel Cabeza)



 
Escrever literatura em um país que “quase” não lê literatura é uma tarefa árdua. Muitos ficam pelo caminho. Outros entram na miragem do deserto literário e jamais retornam. Escrever é padecer de suas palavras. Escrever não é um dom, mas um trabalho em que poucos são destacados e muitos são crucificados.

domingo, 24 de junho de 2007

Hora de despertar (Nilto Maciel)

























Filho desnaturado – disseram vizinhos de Bartira.
Num domingo de muita luz, Oliveiros beijou a testa de sua mãe, pôs uma fita no gravador e saiu, pé ante pé. “A qualquer hora o espectro do sono flutuará na penumbra da sala.” Pareceu-lhe ouvir o chamado da doente e voltou. Os olhos dela o fitaram como se o fitassem há tempos, desde o princípio de tudo. “A qualquer hora seremos amputados pelo alfanje do vento.” Ele a beijou de novo e arrastou para mais próximo dela a mesinha com as fitas e o gravador. Quando quisesse ouvir outra fita, bastaria esticar o braço. E garantiu voltar logo.

sexta-feira, 22 de junho de 2007

O menino e o poeta (Nilze Costa e Silva)


(Dimas Macedo)



Querer bem à poesia de um autor. Quase não se fala assim. Pois eu digo que quero muito bem à poesia do Dimas Macedo. Principalmente à poesia do seu lado menino, retratado inicialmente no seu livro “A Distância de Todas as Coisas”, em que traz explícito o desejo de recuperar a criança perdida. Nos ritos emocionais, o gosto de reativar sensações passadas, religar-se, percorrer espaços e alcançar estrelas, em cujo centro se desenrola o renascimento espiritual do homem. Em parte da sua obra poética, o menino Dimas Macedo mergulha nessa sedutora viagem de ritmos, melodias e metáforas, reencantando seus caminhos, suas buscas, suas trilhas, partilhas e até mesmo as incertezas.

quarta-feira, 20 de junho de 2007

Paisagem celeste (Nilto Maciel)

























Pé ante pé, mão a roçar a parede, Luís deixou o quarto, passou pelo corredor e alcançou a ante-sala. Em cada mão um sapato. Parou, conteve a respiração, desceu o primeiro degrau e o segundo. Olhou para trás. Tudo calmo. Levou a mão à porta. Nada de barulho ao retirar a trave. Se Maria ou os filhos acordassem, inventaria alguma desculpa: esquecera de trancar a porta. E voltaria à rede. Sondou de novo a retaguarda: a parca luz da lamparina se infiltrava pela brecha da porta e alumiava uma nesga de chão do corredor. Ninguém tossia nem roncava.

terça-feira, 19 de junho de 2007

Com os pés fora do chão (Aíla Sampaio)



Não sei por quanto tempo fiquei trancada naquela sala. A consciência era um fio de náilon oscilante. Eu a atingia por um ângulo indefinido. Ia e vinha, de modo que o tempo se repartia em pedaços de cenas que eu entrevia na escuridão. Já sabia que a consciência tinha me sobrado. Do resto, nada podia dizer; não sentia o meu sangue ferver nem gelar. Eu era só um corpo sujeito a reparos inevitáveis, centro de urgentes atenções.

Eu tinha um mundo e aquelas pessoas, outro. Elas não conheciam o meu, mas eu tinha noção do delas. A ligação estava naquele ser derramado ali, sem pudor e creio que, na concepção delas, sem um mundo imediato. 

domingo, 17 de junho de 2007

Aníbal e os livros (Nilto Maciel)

















Bárbara fez uma fogueira de todos os livros de Aníbal, apesar da oposição dos filhos. Melhor vendê-los aos sebos. Doá-los a bibliotecas públicas. Fazer um leilão. Bárbara ainda leu os títulos de alguns livros, antes de lançá-los ao fogo. Talvez descobrisse a causa essencial, primeira, da tragédia de seu marido, nas letras das capas. Ou nos desenhos. Ou nos nomes dos autores. Não, não adiantava descobrir nada. E deu início ao lento esforço de empilhar os volumes no quintal da casa: On The Origin of Species, Charles Darwin; Animal Sharpshooters, Anthony D. Fredericks; The Cannibal, John Hawkes; La Bãete du Gâevaudan: l'innocence des loups, Michel Louis; Cannibal, Terese Svoboda; Viagem ao Brasil, Hans Staden ...

Conversa decisiva (Valéria Nogueira Eik)


O quarto luxuosamente decorado abrigava o homem à beira da morte. Ele estava quieto como um defunto, olhos pregados no lustre suntuoso, e as mãos cruzadas no peito. A sua respiração, no entanto, denunciava ainda um resto de vida, e o ventre volumoso parecia singrar um mar ondulado, ora subindo, ora sumindo. Deu pela presença da moça e olhou-a de alto a baixo, avaliando se era realmente a pessoa certa. Balançou a cabeça numa negativa resignada. Fez sinal para que o enfermeiro deixasse o aposento.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

O menino e o lobo (Nilto Maciel)




















Da janela de casa, avistou um menino, à beira do lago, o silêncio da noite. Um lobo se abeirou das águas, olhou para o céu e venerou a Lua. Sedento, abaixou a cabeça e bebeu o claro círculo. Súbito o mundo escurejou. Atônito, o animal se contorceu, gemeu, se pôs a expedir clarões e se arrojou às águas. Banhou-se pelo resto da noite, até que o Sol surgiu enorme, límpido, feito um disco d’ouro. No lago o lobo ainda se debatia, como se garras o puxassem para o fundo. Tentava emergir, respirar, e mais se afogava. Voltava à tona, avistava nesgas de luz e suplicava ao Sol socorro. Em vão, porque nuvens de chuva se ajuntavam. Desesperava-se, sem forças já. Iniciava-se a chuva. O lago se revolvia, inflava. Peixes em festa saltavam em todas as direções. As águas se avolumavam mais e mais. O lago avançava sobre as terras e se confundia com riachos, rios, correntezas. O dilúvio, talvez. O mundo escurecia, repleto de águas. O menino, debruçado à janela, observava tudo com apreensão. Quando as águas desceriam para o mar? Quando o Sol voltaria a aquecer a Terra? Quando reveria as árvores, os animais, as pessoas, o chão? Aos poucos, porém, a chuva se abrandava, as nuvens sumiram, as águas baixaram e o lobo reapareceu à beira do lago, a uivar feito um deus. A Lua brilhava de novo. O animal se abeirou do lago, olhou para o alto e venerou o disco dourado. O menino transpôs a janela, correu na direção do lago e espantou o lobo. À beira da água, avistou a Lua a tremeluzir. Sedento, abaixou-se e bebeu feito um lobo. Súbito o mundo se cobriu de trevas. Apavorado, o menino sentiu náuseas. Como se tivesse engolido todo o fel do mundo. Contorceu-se e se pôs a vomitar restos de luas. No alto da colina, o lobo olhava para ele e o lago, como se entendesse de dores e desejos, como se pudesse impedir a tempestade e o desespero.
Junho de 2005.
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quinta-feira, 14 de junho de 2007

Apresentação de Alberto da Cunha Melo (Urariano Mota)


(Alberto da Cunha Melo)

Pediram-me uma apresentação do poeta Alberto da Cunha Melo. Mas que posso eu fazer de mais eloqüente que copiar, humilde e em silêncio, trechos do seu “Oração pelo poema”?

“A cem quilômetros por hora
solto a direção do automóvel
para escrever alguma coisa
mais urgente que minha vida...

Trem-fantasma (Nilto Maciel)
















O maquinista, logo após o desastre, deu um grito, levou as mãos à cabeça, pôs-se a chorar e recostou-se a um canto da parede, sentando-se. Descuido? Imprudência? A locomotiva partiu da estação primeira já em alta velocidade e, num segundo, alcançou a segunda, a terceira, feito bala, apitando, sem parar em nenhuma estação. Quando o maquinista percebeu o perigo, não havia mais tempo para frear o trem. O precipício abria-se à sua frente, profundo, mortal. O homenzinho fez careta, arregalou os olhos: os vagões resvalaram, despedaçando-se no fundo do abismo. "Ó meu Deus!" Porém havia um consolo: nenhum passageiro havia subido aos vagonetes. E ajudantes ele nunca teve. Assim, nada de vítimas. Mais sossegado, enxugou as lágrimas e engatinhou até o primeiro pedaço do trem. Pôs-se a juntar um a um os restos do veículo. Olhou para cima, para a grande mesa da sala, onde o desastre teve início.
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quarta-feira, 13 de junho de 2007

Medeiros e Albuquerque (Anderson Braga Horta)


(Medeiros e Albuquerque)


De Medeiros e Albuquerque se pode afirmar muita coisa; nada, porém, que induza a idéia de ordinarismo ou acomodação. Responsável por algumas das primeiras sementes do Simbolismo entre nós, não se procure nele o contemplativismo de um Alphonsus; narrador e dramaturgo de talento, erra quem lhe suponha a pacatez de um Machado; cronista e tradutor, longe estava da fixidade geográfica de um Drummond, nada inclinado às viagens. Era um homem dinâmico, não apenas no terreno da criação literária; à sua agitada vida pode-se aplicar, sem exagero, o adjetivo esfuziante. Cheia de lances pitorescos, histórias rocambolescas de amores clandestinos, tramas e tramóias nos bastidores do poder, brigas, tiros de revólver (um deles, consoante suas memórias, após arranhar o braço da vítima... “caiu-lhe no bolso do colete”!), cabe-lhe como a poucos o dito “sua vida daria um romance”, ou “daria um filme”. O romance, ele o escreveu em parte (veja-se, por exemplo, o que diz no capítulo “Uma Ordem bem Obedecida”, de Quando Eu Era Vivo...); o filme, bem que o merecia.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Uma página de Robbe-Grillet (Nilto Maciel)




















Quando Jean Denis Lanson esteve no Brasil, o repórter Guido Mocho foi incumbido de entrevistá-lo para o Diário da Tarde.

Segundo o editor, só Guido poderia realizar uma boa entrevista. “Você sabe francês, e basta”.
O repórter quis se esquivar. Ora, não entendia nada de literatura. Quando estudante, havia lido meia dúzia de romances, sem qualquer prazer. Alencar, um chato. Machado, enfadonho. E sempre confundiu Manoel Antonio de Almeida com Joaquim Manuel de Macedo. A Moreninha e Memórias de um Sargento de Milícias lhe pareciam do mesmo autor. “E quem lhe disse que o homem é literato?”

sábado, 9 de junho de 2007

Falsificadores e canibais (Nilto Maciel)

















Florídio Mandrano deixou apenas um caderno manuscrito. A caligrafia é um primor. Nenhuma rasura. O texto, no entanto, é pura desordem. Como se sua mente estivesse em ebulição. Nas primeiras linhas tentou justificar o não ter escrito nada até então. Fala de medo da mediocridade e da imitação. E cita trecho do livro A Arte da Falsificação, do sueco Vilgot Sucksdorff: “Quem falsificou a Bíblia? Segundo Domitius Tacitus, o primeiro falsificador do Gênesis teria sido o apóstolo Paulo”.

Tacitus escreveu uns comentários ao Gênesis, em latim. O livro permaneceu ignorado durante séculos. Sua primeira tradução se deu em 1785, por Nikolai Tcherenkov. No prefácio, o tradutor russo afirma ter tomado conhecimento da existência dos “comentários”, ao ler uma carta de Karl Thorvaldsen a Hans Staden. Nela, o pesquisador dinamarquês anuncia a publicação de seu Os Canibais da Ilha de Java.

Um dos capítulos mais intrigantes do livro de Thorvaldsen, intitulado "Como devoravam crianças", traz a seguinte descrição: “O matador aproximava-se da vítima e desferia-lhe um golpe na nuca. Logo lançavam o corpo à fogueira. Ainda mal assado, retiravam-no e punham-se a esfolá-lo”.

Acusaram Thorvaldsen de falsificar Staden. Todas as informações constantes de seu livro teriam sido colhidas em Staden. Ou seja, transportou os canibais do Brasil para Java. Criativo, narra minuciosamente diversas cenas de canibalismo.

Ao final do caderno, Florídio cita o livro Fundamentos do Canibalismo, de Sándor Thököly. Nenhuma referência ao livro de Thorvaldsen. Há, porém, diversas citações de Staden.

Uma das idéias centrais do escritor húngaro associa o ato canibal ao ato sexual. Neste, o sujeito passivo da relação estaria sendo devorado pelo outro. Sobretudo nas relações não atinentes à procriação, como o coito anal e a felação. E cita o exemplo clássico da aranha fêmea, que devora o macho após o acasalamento.

É também de Thököly o polêmico ensaio Violência e Morte. Analisa o comportamento violento de animais e do homem. “A inteligência superior — diz — não impediu que o homem continuasse violento. Nesse aspecto, o homem moderno em nada difere do primitivo”.

Sándor Thököly foi vítima da violência humana. Assassinaram-no a facadas numa rua de Budapeste. A polícia nunca descobriu o homicida. Ou os homicidas. Já Florídio Mandrano foi devorado por um leão de zoológico.
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quinta-feira, 7 de junho de 2007

O corpo (Silas Corrêa Leite)



Ligaram da Santa Casa de Misericórdia de Itapeva. Que fossem buscar o corpo do Pai. Ele tinha morrido de madrugada, na véspera do dia em que iria ter alta médica. Ligaram e o mundo desmoronou. Estava morto o Pai: morremos um pouco também naquela hora. Deveríamos arrumar um carro com um amigo da família. O corpo do Pai músico estava inerte para sempre. O irmão caçula chamou logo um táxi. Romperam-se as lágrimas e uma saudade ainda não tocada. Minha irmã mais velha, Erzita, chefiou a operação de resgate e pranto e dor. E esperamos para velar o corpo.

terça-feira, 5 de junho de 2007

Concórdia na órbita da Terra (Nilto Maciel)























(Quadro de Frans Post)



Salomão Morais foi o primeiro brasileiro a traduzir o De Orbis Terrae Concordia, de Guillaume Postel. Aliás, contam-se às dezenas suas traduções de obras antigas. Entre outras, citam-se O Mistério de Eva, Canção dos Nibelungos e A Morte do Rei Artur.

O homem como todo dia (Clodomir Monteiro)


(A cama, Toulouse Lautrec)


O homem que matou o diabo
dorme comigo como toda noite
pela manhã acordo de lado
lado esquerdo da cama me chama


antes e depois de mim amado
pelada a pele podas açoites
sem chifre e garfos fita me frita
falo direito beijo abandonado


carmim espelha por todo lado
menarca espalha sobras nas frontes
sem lucifer é o que mais grita
calo e bico bicos da mama


depois dois por fim ato macabro
ménage lobas rinocerontes
sem calda e caldo vindo me agita
falo caido sua dor derrama


se daimônia tem lugar na mesa
sobem comigo toda manhã
homenagem é ménage à trois
lado direito da cama me aninha




diatribe que o homem matou
dorme comigo como todo dia
hominida salva a inocência
lado torto que o lençol alinha

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segunda-feira, 4 de junho de 2007

Vers sans rimes (Nilto Maciel)
























Gaspar Barbacena conheceu Laurent Tailhade numa noite de 1894. Dias depois, um atentado anarquista quase matou o poeta francês. No ano anterior, Laurent havia defendido Vaillant da acusação de ter lançado uma bomba contra a Câmara. 

A ação de Farquhar em Santa Catarina (Enéas Athanázio)




 




Caminho longo e tortuoso

Embora publicado em 1964 nos Estados Unidos, depois de mais de quatro décadas de marchas e contramarchas, saiu no Brasil, em tradução de Eliana Nogueira do Vale, o livro “Farquhar, o último titã”, de autoria do historiador e brasilianista avant la lettre norte-americano Charles Anderson Gauld (1911/1977). Trata-se, segundo a crítica, da mais longa e minuciosa biografia do empreendedor norte-americano, nascido em York, Percival Farquhar (1864/1953), cuja vida está estreitamente ligada ao Brasil em geral e ao nosso Estado em particular, onde sua ação teve sérias conseqüências, até hoje sentidas em algumas regiões. O volume tem mais de 500 páginas, custou ao autor ingentes esforços e se fundamenta em bibliografia imensa, como costuma acontecer com ensaios biográficos americanos que esmiúçam o tema até o limite. Para chegar às mãos dos leitores brasileiros o livro percorreu longo e tortuoso caminho, merecedor de explicações minuciosas da editora e da tradutora. Publicado pela Editora de Cultura (S. Paulo – 2006), o livro contém interessantes fotografias e vários anexos que o atualizam e trazem novas informações sobre fatos posteriores, além de colocar um ponto final em algumas dúvidas existentes. Ainda que o autor não veja com simpatia nosso País, antes pelo contrário, é incrível que um livro dessa importância para nossa história só agora seja acessível ao pesquisador nacional.

domingo, 3 de junho de 2007

Rato sonâmbulo (Nilto Maciel)














O compositor Francisco Vitória viveu entre 1731 e 1800. Deixou pouquíssimas composições. Algumas sonatas, meia dúzia de árias, cantatas, concertos, fugas, fantasias, serenatas e uma sinfonia inacabada. A mais conhecida é a Sonata Sonâmbula para Violino.

A última consoada (Robson Ramos)

























Caía a tarde, entrava a noite. Ele permanecia sentado na cadeira de balanço, quieto, embriagado pelas lembranças, vagando pelos pensamentos. Acompanhava o cair do Sol e o correr de um pequeno rio. O fiel cachorro, que nunca o deixara só, permanecia deitado, igualmente quieto, apenas as orelhas se mexiam, vez por outra, para espantar os mosquitos.

sábado, 2 de junho de 2007

Pintando o sete na Bélgica (Nilto Maciel)





















(Esboço a lápis d'Os Pastores da Arcádia, de 1630, de Nicolas Poussin)




Há na “Casa de Benedito Moreira” uma escultura de Constantin Meunier. Consta, porém, ser do brasileiro a peça. Chama-se Homem cansado, e deve ser de 1891.

Na “Casa”, dirigida por Heloísa Moreira, bisneta do escultor cearense, estão alguns utensílios domésticos e objetos de trabalho usados e utilizados por Benedito. Sem contar esculturas e quadros tidos como de sua autoria. Os mais valiosos seriam uma estátua de Napoleão, um retrato de Darwin, máscara de Brahms. Os quadros parecem imitações de obras famosas. O mais estranho é copiarem pintores de todas as épocas: Hugo van der Goes e Grant Wood, Adriaen van Ostade e Toulousse-Lautrec, Hans Holbein e Paul Cézanne, numa miscelânea dos diabos.

O vinho branco (Belvedere Bruno*)



















Sentado na cadeira que pertenceu a várias gerações da família, faço o inventário de minha vida. O que fiz com ela? Percorri os caminhos que deveria, ou preferi atalhos? Aos noventa anos, já não tenho como modificar meus traçados, equívocos, rezas tortas...
Sozinho, miro o firmamento. O ser humano envelhece, se encarquilha, mas, se não houver a mão do homem, os cenários da natureza nunca se desfiguram.