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domingo, 30 de setembro de 2007

Poesia (Caio Porfírio Carneiro)




– Leu a minha poesia?
– Li. Leu a minha?
– Li. Linda, linda.
– Linda é a tua. Eu quase choro.
– Eu também senti um nó na garganta quando li a tua.
– Deixa eu te dar um beijo de agradecimento.
– Deixa eu também dar um em você.
– Quando é que a gente troca de novo outra poesia?
– Vou fazer outra pra você no fim da semana.
– Eu também.
– Então tchau.
– Tchau.
Caminharam, em sentido contrário, ao longo do quarteirão. Ela conduzindo a sacola de livros e cadernos do colégio. Ele também.
Ele chegou na esquina de cá, ela na de lá. Viraram-se. Ele deu sinal de adeus. Ela também.
O quarteirão ficou deserto.
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quinta-feira, 27 de setembro de 2007

A fila (Nilto Maciel)









Esbaforido, Luís se aproximou do fim da fila e se postou atrás de um homem. Ah! Se tivesse chegado antes! Mas o ônibus rodou devagar pelas ruas, repleto de passageiros. Meia hora atrás talvez encontrasse apenas vinte pessoas na fila. Tentou contar as cabeças: uma, duas, três... Homens e mulheres, cabelos negros, loiros e até brancos. Ora, o que faziam aquelas pessoas idosas numa fila para emprego? Melhor assim. Seriam eliminadas de pronto. A empresa não trocaria um jovem saudável e disposto a trabalhar dia e noite por um senhor grisalho, já sem forças, talvez doente, cheio de catarro, pernas bambas. Boa idéia para trocar com o homem à sua frente. Quem teria mais chance de ganhar a vaga: ele ou aqueles senhores de cabelos brancos? O homem virou a cabeça para trás: vaga de quê? Ora, do emprego de encarregado de distribuição de senhas. Não era isto que constava do anúncio no jornal? O homem não sabia de anúncio nenhum. E estava ali pensando tratar-se de quê? Luís olhou para trás. Mais de dez pessoas atrás dele. O mais próximo quis saber se a fila não andava. Queixou-se da demora do ônibus. Carros passavam diante da calçada. Luís coçava a orelha. Aquele barulho contínuo o deixava impaciente, nervoso. Nem sabia mais por que se chamava Luís. Às vezes pensava besteiras. As pessoas dentro dos automóveis olhavam para as filas como quem olha para as pernas das moças. O rapaz sorriu. Também se chamava Luís. Poderiam chamar aquilo de fila dos luíses. Eu sou o Luís I e você o Luís II. Quem seria o terceiro? E os outros também se chamavam Luís? E se fizessem a pergunta a cada um? Besteira! Luís II sorriu de novo. Carros passavam em disparada. Ao pé do meio-fio acumulavam-se pontas de cigarro, papéis rasgados e sujos, latas. Se o emprego fosse para gari? Luís I quis saber se o outro sabia distribuir senhas. A moça atrás de Luís II olhava atentamente para ele e para Luís I. Não havia tarefa mais fácil do que distribuir senhas, mas preferia não fazer nada. Como se chamava? Luzia da Silva. A mãe fizera promessa a Santa Luzia: se ela, a menina, nunca ficasse cega, a mãe jamais olharia para o Sol. Ela pagou a promessa? Não, e já morreu, a coitadinha. E você sabe distribuir senhas? Não sabia e não queria saber. Quando lhe entregassem a senha, entraria correndo no teatro. Há dias só pensava naquela peça. Quando chegava a vez dela, as portas se fechavam. Sempre assim. Mas hoje contava com a sorte. O homem à frente de Luís I se irritou. Parassem com tanta conversa besta. E saiu da fila, a gesticular. Pareciam doidos. Os luíses e a moça riram. Fosse então embora, deixasse a vaga para quem queria trabalhar. Fosse embora, deixasse a vaga para quem gostava de teatro. Luís II esfregou os olhos com as mãos. Por que a fila não andava? Ou o velório já tinha se encerrado? Quem morreu? O governador. Luís I arregalou os olhos e se retirou. Ia averiguar direito aquilo. Atrás de Luiza um rapaz falou em exposição de fotografias. Os jornais falavam em fotos de guerra. Luís se dirigiu a outro. Queria jogar numa loteria. Ou aquela não era a fila da loteria? Luís II e Luiza conversavam animadamente. Todos mentiam. Ou inventavam histórias para engabelar os idiotas. Riram de novo. Outros também riram. Luís I voltou para perto de Luís II. Sentia fome. Guardassem o seu lugar. Em quinze minutos estaria de volta. A moça falava de teatro e parecia num palco: To be or not to be, that is the question. Os carros passavam em disparada pela rua. A fila andava lentamente. Homens e mulheres pediam licença e furavam a fila: precisavam entrar na loja cuja porta não conseguiam ver. Luiza repetia Hamlet: Vamos, vamos, sentai-vos: não vos movereis, nem saireis daqui, sem que eu vos ponha aos olhos um espelho onde vejais o fundo de vossa alma. Houve vaias e aplausos. Luís I apareceu no meio da rua, entre os carros. Procurava Luís II e Luiza. Andava para lá e para cá, a fazer perguntas irrespondíveis. Onde se achava a moça do teatro? Riam dele. Correu em busca do início da fila. À porta um guarda impedia a entrada de quem não fosse chamado. Por favor, é preciso preencher alguma ficha? O guarda se irritou: procurasse o final da fila. Luís se exasperou e correu pela calçada. Chegou ao fim da fila. Quem viu Luís II e Luíza? Riam, respondiam com gestos, chamavam-no de doido. Voltou devagar, a olhar demoradamente para os rostos. Fila para comprar ingressos para o jogo de futebol. Andou, andou, andou, voltou ao guarda, recebeu ameaças. Fila para marcar consulta médica. Coçava a cabeça, puxava as orelhas, amassava o nariz. Ia ser entregador de senhas. Luiza surgiu do outro lado da calçada. Gritou por ela. Os carros passavam entre ele e ela. Luís quis atravessar a rua. Gritou por Luiza. Depois não a viu mais. Voltou-se de novo para a fila. E se fosse para o fim?
4/8/2004
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domingo, 23 de setembro de 2007

Os dez dias de Raimundo (Nilto Maciel)

















Meu único filho viveu apenas dez dias. Cheguei do laboratório há pouco. A morte dele ocorreu ontem. Os médicos da equipe científica responsável pela experiência exigiram de mim absoluto sigilo. Eu, no entanto, não cumprirei a promessa. Muita gente me chama de louco, mentiroso. Quase ninguém acredita na história desses dez dias. Mesmo quem viu de perto Raimundo. Mesmo quem acompanhou o seu desenvolvimento físico e mental em tão pouco tempo. Quem foi a mãe? Não houve mãe. Ele nasceu em laboratório. Ao nascer, deram-lhe leite e mo entregaram. Leve-o para casa e cuide bem dele – aconselhou o dr. Ângelo. Traga-o amanhã, para avaliação. Entregou-me também um manual de instruções. No capítulo relativo a unhas e cabelos lia-se: Cortar unhas e cabelos, três ou quatro vezes, somente no primeiro dia. A partir daí, unhas e cabelos crescerão tão pouco que somente no último dia de vida da criatura será preciso chamar barbeiro e manicura. Criatura é o nome dado pelos cientistas ao meu filho, o ser criado em laboratório. Deitei-o no banco do carro e corri para casa. Durante o percurso, jogou fora os panos e se pôs a pular no banco e balbuciar palavras. Coloquei-o no berço, fui tomar banho e almoçar. Durante este tempo não parou de gritar. Ao meio-dia se arrastava pelo chão da casa. Algumas horas depois, falava sem parar, corria para lá e para cá, chutava bolas, gritava. Pediu-me para ir à praia. Prevenido pelos médicos, havia comprado roupas e calçados de diversos tamanhos. Fomos ver o mar. Ele parecia acostumado às ondas. Nadou como um peixe. Regressamos no início da noite. Falava tudo, conversava sem parar. Vasculhou minha biblioteca e leu, em meia hora, alguns livros. Cansado, dormiu cedo. Também dormi cedo, preocupado com o rápido desenvolvimento de Raimundo. Cedinho voltamos ao laboratório. O dr. Ângelo nos recebeu sorridente, abraçou o menino e o conduziu ao consultório. Está muito bem – assegurou, após os primeiros exames. É como se tivesse dez anos de idade. Prepare-se para a adolescência, ainda hoje. No carro, o menino olhava através do vidro para as meninas nas ruas. Ria, piscava, mandava beijos. Seria aquele meu pior dia? Chegados à casa, o garoto abriu a geladeira diversas vezes. Sentia muita fome. Recebi um telefonema e passei quase uma hora em conversa. Dr. Ângelo me dava conselhos: saísse a passeio com o menino, viajasse para o campo. Para me libertar do médico, chamei Raimundo. Nada de resposta. Corri a casa em busca dele. Por onde andava o safadinho? Cansado de perambular pelas ruas, busquei o apoio do dr. Ângelo. Ele me deu sossego. O rapazinho andaria à cata de mocinhas. Voltasse para casa e aguardasse Raimundo. À noite ele voltou. Ele e uma garota muito bonita. Falavam sem parar, de paixão instantânea, amor sem fim. A barba dava-lhe ares de maturidade. A mocinha parecia não perceber nada, nenhuma mudança no corpo dele. Como se estivesse cega. Chegada a noite, dormi no sofá. Eles tomaram conta de um quarto. De manhã ele me contou, em segredo, ter passado a noite em conúbio com a moça. Hoje ela ainda chora a morte prematura do seu grande amor. Disse estar grávida. Será meu primeiro neto. E eu só tenho vinte e poucos anos de idade. Ao fim do terceiro dia ele saiu de casa. Não suportava mais aquela prisão. A jovem chorou muito. Tentei impedir tal aventura. Regressou dois dias depois, cabelos grisalhos, cansado, sujo, maltrapilho. Fui conhecer o sertão. A mocinha se apavorou. Não acreditou no que viu. Aquele homem envelhecido não poderia ser o seu belo Raimundinho. Deveria ser o nosso pai. Para ela, eu e Raimundo éramos irmãos, pois parecíamos ter ambos vinte anos, quando nos conhecemos, os três. Conduzi-a à biblioteca e contei-lhe a verdade. Ela riu de mim, chamou-me de louco, mentiroso. Só voltou a me ver no dia da morte de meu filho. No sexto dia levei-o ao consultório do dr. Ângelo. Sentia dores na cabeça. O médico não se mostrou preocupado. É assim mesmo. No dia seguinte levei o velho Raimundo para casa. Lia sem parar, falava esquisitices, andava pela casa, ia às ruas. No nono dia percebi a loucura instalada nele. Não me conhecia, não se lembrava de quase nada. Conduzi-o de novo ao doutor. Ele me segredou: Hoje ou amanhã a criatura morrerá. É como se tivesse cerca de cem anos de idade. Deixe-o comigo. A experiência está apenas começando. Eu me retirei e à noite fui vê-lo pela última vez. Já não vivia o meu filho. Eu, no entanto, não poderia retirar o cadáver. Raimundo não existira para o mundo. Nem nascimento, nem óbito. Uma experiência, apenas.
Fortaleza, 21/6/2004.
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sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Os mistérios de Barcelona (Adelto Gonçalves)




Em Março, Barcelona surpreendeu-se com o lançamento do romance La ciudad sin tiempo, de Enrique Moriel. Em poucos meses, o livro vendeu cerca de 60 mil exemplares. E quem era Enrique Moriel? Na sobrecapa do livro, a editora informava que Moriel havia nascido no século passado em Barcelona e era autor de reconhecida trajetória, que havia cultivado os mais diversos géneros literários. E que, a exemplo do protagonista de La ciudad sin tiempo, havia preferido ocultar sua verdadeira identidade, mas que, à diferença daquele, não pretendia fazê-lo indefinidamente.
Logo, os meios culturais da cidade descobriram que se tratava de um veterano escritor disfarçado atrás de um pseudónimo. Francisco González Ledesma (1927) era esse escritor, um jornalista que começara a escrever romances de Far West para Editorial Bruguera com o pseudónimo Silver Kane ainda na década de 40, para custear seus estudos de Direito. E que havia construído uma respeitável carreira literária ligada ao gênero policial, ou melhor, ao "romance negro", à boa maneira norte-americana, dividindo a preferência entre os amantes do género com Manuel Vázquez Montalbán (1939-2003) e Eduardo Mendoza (1943).
A exemplo de Montalbán com seu detective privado Pepe Carvalho e Mendoza com o seu detective-louco, Ledesma criou o comissário Ricardo Méndez, protagonista de seis de seus romances negros, policial capaz de usar apenas o tirocínio para desvendar crimes aparentemente insolúveis ou grandes falcatruas no mundo das altas finanças. Acostumado a escrever de um jacto desde jovem, quando para cumprir um exíguo prazo de uma semana ou pouco mais ajudava a editora a aproveitar a sofreguidão com que os leitores espanhóis do final da década de 40 acorriam às bancas de revistas e livrarias em busca daqueles livrinhos de bolso, Ledesma nem por isso sacrificou a qualidade literária. Tanto que, aos 21 anos de idade, ganhou o Premio Internacional de Novela com Sombras viejas.
Formado em Direito, dedicou-se primeiro à advocacia, mas, depois, optou mesmo pelo jornalismo, dando vazão à sua vocação. Trabalhou em jornais como o Correo Catalán e, em seguida, no tradicional diário La Vanguardia, onde ficou por 25 anos e chegou a redactor-chefe. Ambas as profissões acabaram por lhe proporcionar um conhecimento profundo de Barcelona, de seus segredos, suas personagens, suas ruas, edifícios, seus políticos e seu mundo empresarial.
Em 1977, publicou Los napoleones, romance que fora proibido pela censura do regime do general Francisco Franco Bahamonde (1892-1975). E, à época de transição do franquismo para a democracia, quando a Espanha não deixou de flertar com o retrocesso político, ganhou em 1984 o Prémio Planeta com Crónica sentimental en rojo, em que Méndez aparece como protagonista.Tendo o comissário ainda como personagem principal, escreveu mais cinco romances: Expediente Barcelona (1983), Las calles de nuestros padres (1984), La dama de Cachemira (1986), Historia de Dios en una esquina (1991) e El pecado o algo parecido (2002), além de Historia de mis calles (2006). Expediente Barcelona foi traduzido para o francês e publicado pela famosa Editora Gallimard, de Paris, conquistando um êxito na França considerado mais estrondoso do que aquele que registrara na Espanha Com um currículo desses, obviamente, Ledesma não tinha por que se esconder atrás de um pseudónimo. Mas, por alguma razão, deixou que o editor inventasse Enrique Moriel como autor de La ciudad sin tiempo, talvez por uma questão de marketing - o que, de certo modo, foi uma opção vitoriosa porque ajudou a chamar mais atenção para o livro - ou por que não queria que sua nova obra fosse confundida com o género policial. Até porque La ciudad sin tiempo, embora tenha traços de "romance negro" e trate de uma investigação que começa a partir da misteriosa morte de Guillermo Clavé, destacado prócer da sociedade barcelonesa actual, vai muito além dos limites em que, habitualmente, os críticos enquadram o género.
Seja o que for, a verdade é que Ledesma aprovou o pseudónimo, artifício a que, a rigor, já estava bastante acostumado, diga-se de passagem. O seu novo romance também remete o leitor para essa época, pois diz que concebeu a sua trama há mais de trinta anos, quando escrevia novelas de aventuras proibidas pela censura. De facto, o romance trai um pouco o gosto desse tempo, quando o realismo mágico começou a se formar como género literário, alcançando o ápice em 1967 com o lançamento de Cem anos de solidão, do colombiano Gabriel García Márquez (1928).
Afinal, em La ciudad sin tiempo, o que o leitor vai encontrar é a história de um vampiro que, como tal, não morre nunca e, por isso, conhece a fundo os mistérios que cercam Barcelona desde os tempos medievais, suas personagens duvidosas, os segredos de seu submundo, os cafés, os prostíbulos, os políticos e até os verdugos. Em resumo, conta a história de Marta Vives, jovem ajudante do advogado Marcos Solana, que, habituado a defender os interesses das famílias mais ricas da cidade, trabalha no esclarecimento da morte de Clavé.
Durante a investigação, Marta não apenas lida com forças ocultas e que têm muito a ver com o sinistro, como acaba por se envolver numa luta de séculos que a sua família mantém com outra estirpe muito antiga da cidade, os Masdéu. Ao seu encontro, para ajudá-la a desvendar o crime, irá o vampiro, na verdade, um inquietante narrador surgido da Barcelona medieval, perseguido pela Inquisição, cujo rosto sempre aparece em momentos decisivos da história da cidade. Com esse artifício literário, portanto, Moriel (ou Ledesma) consegue reescrever, praticamente, toda a história de Barcelona.Marta e este espírito maldito vão seguir, em capítulos intercalados e marcados por uma mudança de fonte na letra que facilita a vida do leitor, por uma fascinante busca, em meio a luzes e sombras, em que se discute uma questão que atormenta a Humanidade há séculos: que provas há de que no combate entre o Bem e o Mal, entre Deus e o Diabo, ganhou o primeiro? Afinal, basta abrir as páginas do jornal desta manhã para se encontrar provas abundantes que indicam exactamente o contrário daquilo que as religiões pregam por séculos.
Nascido num prostíbulo, filho de uma prostituta, o vampiro segue uma trajectória clássica na literatura espanhola, que remonta à segunda metade do século XVI e a primeira do XVII, a época de Lazarillo de Tormes, Guzmán de Alfarache e de El Buscón. Não por acaso, como Lázaro, o vampiro também vira ajudante de um sacerdote que perdeu a fé e exerce muitos outros ofícios, inclusive, o de ajudante de verdugo à época da Inquisição. Mas transmuta-se em várias personagens ao longo dos anos por uma questão muito simples: um vampiro nunca envelhece, mantêm sempre a mesma cara, como descobre, intrigado, o advogado Solana, que se espanta com um rosto que se mostra invariavelmente o mesmo, em épocas distintas, ainda que assumindo outras personalidades.
Escrito em linguagem vibrante, que, praticamente, impede o leitor de saltar páginas em busca do desenlace da trama, La ciudad sin tiempo é também um hino de amor e ódio a Barcelona, pois resgata várias das personagens que construíram a cidade, inclusive, o arquitecto Antoni Gaudí (1852-1926), construtor da ainda inacabada igreja da Sagrada Família - hoje ameaçada na sua estrutura por obras de um túnel subterrâneo para o comboio de alta velocidade –, que aparece como fornecedor do rico antiquário Masdéu. Para o vampiro, Gaudí diz algumas frases antológicas, que merecem registro, ainda que em tradução: "Já não tenho amores - disse-me -, perdi os amigos e nem tenho nem poderei ter filhos. Mas desaparecerei e tudo isso não significará nada. Imagino, em compensação, o que deve ser a eternidade, vendo morrer tudo o que se amou: as sucessivas mulheres, os sucessivos filhos, os artistas que admirei e deram sentido a minha vida, as casas que guardam as minhas recordações... Ver tudo isso convertido em cinza. Essa é a sua desgraça, amigo. (...) Creia-me, a morte é piedosa porque não deixa ver os horrores da vida, nem os horrores de nossa própria obra. A imortalidade é o pior castigo que se nos podem impor, e me compadeço de Deus porque também a sofre". "(...) Não sei se Deus está satisfeito com sua própria obra. Crê que a deu por terminada alguma vez?" Por aqui se vê que esta é obra que merece ser traduzida para o português o mais rápido possível. Afinal, se estiver certa a previsão de José Saramago (1922) de que, em breve, iremos todos os luso-falantes viver num país chamado Grande Ibéria, a nossa Meca literária será, então, Barcelona.

(La Ciudad Sin Tiempo, de Enriquel Moriel. Barcelona: Ediciones Destino, 2007, 459 págs., 20 euros. http://www.edestino.es/)
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quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Para escrever a caminho do nada (Nilto Maciel)

























A pequena obra de Tácito Bonifante, intitulada “A caminho do nada”, pode ser considerada conto, embora alguns críticos tenham falado em novela, conto-novela, novo-conto e quase-conto. O drama principal envolve dois personagens: Agnelo e Beatriz. No entanto Agnelo se confunde com Beatriz, como se fossem um só personagem: “Agnelo saiu de casa ao meio-dia. Vestia paletó preto. Subia os primeiros degraus do patamar da igreja, parou subitamente, ajoelhou-se e gritou: Sou pecadora!” Segundo um professor de literatura, ocorreu aí um erro editorial ou um cochilo do escritor. Para outro estudioso, Agnelo é, na verdade, a própria Beatriz. Lembra este trecho do conto: “Nas noites de sábado ele se transforma. Não bebe álcool, não fuma maconha, mas em seus olhos se vê o brilho das estrelas novas.” Isto é, Agnelo, o cordeirinho, se veste de Beatriz, a que faz feliz alguém.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Sobre contos de Emanuel Medeiros Vieira: “Nunca mais voltaremos para casa” e “Amor aos vinte anos” (Hamilton Alves*)

(Emanuel Medeiros Vieira)


Emanuel Medeiros Vieira com o conto “Nunca Mais Voltaremos para Casa” (publicado no Jornal da ANE, edição de agosto de 2007) revela-se como um dos grandes nomes da literatura catarinense da atualidade. 

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

O invisível Isaías (Nilto Maciel)

























Nunca vimos Isaías e muito menos o seu coelho. Um vizinho nosso nos disse: Isaías mora num sítio, cercado de galinhas, perus, porcos, cabras, bodes. Tenho muita vontade de falar com ele, conversar. Se isto não for possível, quero vê-lo. Imagino-o de barba branca, chapéu velho, mas bem cuidado, roupas limpas, sandálias ou alpercatas, um cajado. E, se não for assim, não vou me decepcionar. Papai anda aborrecido ultimamente. Talvez porque Isaías não aparece. Perguntei-lhe se Isaías ainda será menino. Ele olhou para mim com espanto e saiu resmungando. Fiquei mais triste ainda porque Natália riu na minha cara, como se eu fosse um bobo ou papai não gostasse mais de mim. 

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

“Ave, Palavra”, de Guimarães Rosa: os pássaros e o Sul de Minas(Chico Lopes)



 
“Ave, Palavra”, deve-se dizer de início, é para fãs de Guimarães Rosa. Dificilmente alguém que não tenha freqüentado um tanto do universo do escritor e amado cada momento de, por exemplo, “Grande Sertão: Veredas”, poderá gostar do livro e aceitar as brincadeiras de Rosa com a palavra.

domingo, 9 de setembro de 2007

Menino insone (Nilto Maciel)




















Vontade de falar com a mãe: não conseguia dormir. As sombras das redes nas paredes, nas portas, no guarda-roupa, no chão escondiam almas. A luz da lamparina bruxuleava. Súbito uma novidade: o irmão menor bota as pernas fora da rede, senta-se, levanta-se e caminha em direção a uma das portas. Para onde irá? Abre a porta e some no corredor. O menino quer falar com a mãe. Ela dorme e poderá se assustar. Melhor ir atrás do outro. E se ele também estiver dormindo? Muitas vezes lhe disseram: não se deve acordar quem anda durante o sono. Pode morrer. O menino permanece de olhos bem abertos, atento à luz da lamparina, às sombras, aos pequenos ruídos. Por onde andará o irmão? Terá ido ao banheiro? Possivelmente não, pois não abriu a porta para o quintal. Um ratinho corre pelo canto da parede. O pai ronca no quarto ao lado. Um cachorro late longe. Outros dão resposta. Será nos quintais ou no meio das ruas? O dia está para chegar ou falta muito tempo para clarear? Nenhum galo cantou ainda. E o irmão? Estará dormindo no chão do corredor, da cozinha, junto às baratas? O menino fecha os olhos. O rato deve ter sumido num buraco. Será profundo, raso, estreito, largo? Outros ratos habitarão aquele mundo de trevas. Lá não deve haver lamparinas. Quem as acenderia? Quem compraria querosene? E o perigo de incêndio! Não, não há perigo. Tudo é calmo, tudo é calmaria. Bichinhos são lindos. Coelhos correm pelo chão gramado da praça. Todos muito brancos, olhinhos arregalados, focinhos trêmulos. Queremos comer cenoura, seu menino. Onde vou arranjar cenouras, meus amigos? Então vamos brincar de correr. Não havia mais ninguém na praça, um ventinho soprava as folhas das árvores, os cabelos do menino. Chovia fininho. Um arco-íris enorme cobria a praça, a cidade, a serra, o mundo. Tudo colorido. O sol se escondia atrás de um monte alto. Passarinhos voavam e piavam no céu. Outros meninos corriam e brincavam na praça. O menino abriu os olhos. A luz da lamparina parecia se apagar. Silêncio absoluto no quarto. O pai não roncava mais. Na rede ao lado o outro menino dormia. Pareceu-lhe ouvir um galo cantar.
Fortaleza, 3/6/2004.
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sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Calma, Meritíssimo! (Joanyr de Oliveira)

 
 
 
Ao Nilto Maciel

Dois destinos paralelos, a fluir no mesmo palco, cada qual com suas bem definidas características. Um puxando para a esquerda, o segundo para o outro extremo; um para o vermelho dos dramas e tragédias, da revolta e da dor, o seu oposto para o pleno azul em que a paz e a vitória predominam. Para que a distinção seja bem posta, sem nenhuma dúvida.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

O sonho esquecido (Nilto Maciel)

























Numa grande cidade viveram, há alguns anos, Moisés, Salomão e Daniel. Suas histórias estão registradas na memória coletiva de seus descendentes. E também nos subterrâneos, nas galerias de esgotos, nas catacumbas, no submundo em que viviam e onde vivem seus filhos e netos. 

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Brasília nasceu no mar (Emanuel Medeiros Vieira)



Documentos revelam que Brasília nasceu no mar. No final de 1956, Lúcio Costa (1902-1998) viajara para Nova Iorque para participar de um evento. Foi na volta, a bordo do navio argentino Rio Jachal, que Lúcio fez o que é considerado o primeiro esboço do Plano Piloto. Sim, pensou a cidade no mar. No dia 11 de março de 2007 fez 50 anos que o urbanista e arquiteto entregou o trabalho à comissão julgadora que avaliaria os projetos apresentados. Ele venceu o concurso do plano urbano de Brasília, "com um trabalho de feição amadora, sem um único cálculo.” Para muitos, "nascia ali o maior mito do urbanismo brasileiro". (Ver suplemento "Mais", da Folha de São Paulo, 11 de fevereiro de 2007).

domingo, 2 de setembro de 2007

Meu filho Matias Beck (Nilto Maciel)

























Estive em Amsterdã durante três dias. Na bagagem levei um dicionário inglês-português, português-inglês. Em Paris procurei dicionário holandês-português, português-holandês. Não o encontrei e viajei preocupado. No entanto, ao me encontrar com Jacob Komrij, meu tradutor e futuro cicerone, voltei a sorrir. Mal nos conhecemos pessoalmente (durante um ano trocamos cartas e conversamos por telefone), ele me presenteou um pequeno livro, um dicionário holandês-português, português-holandês, de sua autoria. Porém avisou logo: eu não iria precisar do dicionário em nenhum momento. Ele estaria comigo durante os três dias de minha estada em seu país. E já havia programado todos os minutos de minha vida: livrarias, jornais, televisões, as igrejas góticas Oude Kerk e Nieuwe Kerk, a Casa de Rembrandt, o Museu Van Gogh, os canais da cidade etc. Ao nos despedirmos à noite, após o jantar no hotel, combinamos encontro na manhã seguinte, às dez horas. Iria ao hotel. Dormi logo, embora pensando naquela aventura. Ora, quem diria, conhecer quase toda a Europa, em dois meses. E ainda ver de perto alguns de meus livros em inglês, francês, espanhol e até holandês. Sentia-me o verdadeiro escritor satisfeito consigo mesmo. Não digo orgulhoso, vaidoso, que isto não tenho sentido quase nunca.