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segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Acerca da revista Caos Portátil nº 5 (Nilto Maciel)




A tradição cearense de publicação de jornais e revistas literárias se enobreceu em 2005 com a criação de Caos Portátil, Um Almanaque de Contos, por iniciativa dos escritores Jorge Pieiro e Pedro Salgueiro. Longe da tradição, porém, o periódico é dedicado exclusivamente ao conto. Sem deixar de lado os clássicos, os mortos e os contistas mais experimentados (alguns com vários livros publicados), os editores dão destaque aos mais jovens, aos principiantes. A edição nº 5, de 2007, exibe minicontos de Dalton Trevisan, “um dos mais importantes escritores brasileiros de todos os tempos”. Presentes outros nomes menos conhecidos, como Ângela Gutiérrez, Carmélia Aragão (apesar de muito jovem, já tem livro publicado e muito bem recebido pelos críticos), Floriano Martins, Genuíno Sales, Inez Figueiredo, Jorge Pieiro, Nilto Maciel, Patrícia Tenório, Paulo Veras (falecido precocemente), Pedro Salgueiro, Raimundo Netto e Ronaldo Correia de Brito. Os demais são muito jovens (à exceção de Alcides Matos, Aldir Brasil Jr., Gilberto Machado, Raimundo Rocha e Ruth de Paula), quase todos inéditos em livro.

sábado, 24 de novembro de 2007

A imortalidade pelas obras (Enéas Athanázio)



Calmon: o homem e a cidade

Miguel Calmon du Pin e Almeida (1879/1935), o sobrinho, nasceu na Bahia e pertenceu a uma família aristocrática de latifundiários e políticos ligados ao Império e à Primeira República. Herdou o nome do tio, o Marquês de Abrantes, figura de expressão na vida nacional da época. Outros membros da família ostentaram, mais tarde, idêntico nome, dizendo-se que existiram vários deles. Sempre me intrigou a razão pela qual a Vila de Calmon, então pertencente ao município de Porto União e hoje comuna independente recebeu esse nome e onde estaria a ligação daquele homem público com nosso Estado, justificando o batismo de uma estação, hoje cidade, à margem da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande, no Vale do Rio do Peixe, com seu nome. Minhas leituras a respeito pouco ou nada esclareceram e, agora, lendo um robusto livro a respeito, anoto aqui as conclusões a que cheguei.
Em 1936, cerca de um ano após o falecimento de Miguel Calmon, sua viúva, Alice da Porciúncula, doava ao Museu Histórico Nacional (MHN), do Rio de Janeiro, considerável quantidade de objetos que pertenceram à família e ornavam o palacete onde vivia o casal, no bairro de Botafogo. As intermediações para a entrega foram feitas pelo historiador Pedro Calmon, sobrinho do falecido e seu biógrafo, mais tarde o magnífico reitor da Universidade do Brasil. O historiador Gustavo Barroso, primeiro diretor do MHN, recebeu com entusiasmo a doação e aceitou de pronto as condições estabelecidas pela viúva. A Coleção consistia em móveis, objetos de casa, jóias, prataria, souvenirs de viagens, fotografias, tapetes e quadros, livros, documentos, obras do próprio marido etc. Pela qualidade e quantidade, recebeu o nome de Coleção Miguel Calmon e foi acomodada em sala própria, onde permaneceu durante trinta anos até que a direção do MHN mudou de orientação e desmontou a Coleção, espalhando-a no acervo e recolhendo em parte à reserva técnica da Casa. Partindo dessa doação, fato pouco comum entre nós e que completou 60 anos em 1996, a antropóloga social Regina Abreu publicou o livro “A Fabricação do Imortal” (Lapa/Rocco – Rio – 1996), onde estuda a memória, a história e as estratégias da consagração no Brasil. Analisando as condições da doação e o conteúdo da Coleção, escolhido com rigor e critério pela doadora, a autora mostra a preocupação em mostrar o lado público da vida de Miguel Calmon, aquela faceta a ser exibida e preservada, sem permitir intromissões e olhares indiscretos na vida privada do casal. Seria, em síntese, uma forma de “fabricar a imortalidade”, construindo a imagem do homem público circunspeto e dedicado ao País, perpetuando assim a sua memória. Sem herdeiros diretos, Alice da Porciúncula pôde realizar a doação sem problemas, merecendo por essa atitude elogios e reconhecimento, inclusive da autora do livro.
Ainda que não seja uma biografia e nem essa foi a intenção de Regina Abreu, o livro fornece inúmeras e importantes informações a respeito desse personagem ligado para sempre ao nosso Estado. Nascido em berço rico, Calmon mereceu esmerada educação. Freqüentou o tradicional Colégio 7 de Setembro, ninho da elite baiana, e depois se diplomou em engenharia civil pela celebrada Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Embora afirme a autora que ele sempre “manteve viva a solidariedade com os colegas”, pouco informa sobre essa fase universitária de sua vida. Nesse ponto, aliás, a obra comete curiosa omissão, uma vez que não faz qualquer referência ao escritor carioca Lima Barreto ou a suas obras. Como se sabe, ele foi colega de Calmon na Escola Politécnica e tinha por ele profunda aversão. Dizia ter sido menosprezado pelo baiano rico, a quem considerava um protegido da sorte e apadrinhado dos poderosos, enquanto ele amargava a mais vil pobreza, à margem da miséria. Seu panfleto “O Ideal de Bel Ami”, comprando Calmon ao personagem de Maupassant, é uma terrível crítica ao colega. Quando embriagado, Lima Barreto afirmava que “compraria uma espada para matar o Bel Ami.” Em sua biografia do escritor, Francisco de Assis Barbosa detalha as manifestações de Lima Barreto contra Calmon, inclusive com base em depoimentos de contemporâneos. Seja como for, parece que Calmon nunca levou em conta as investidas do colega ou fez por ignorá-las. Nada existe indicando que tenha se incomodado com isso.
Tudo indica que Calmon deixou os bancos da Politécnica bem preparado, tendo feito um curso esmerado. Formando-se muito jovem, retornou à Bahia para exibir aos conterrâneos seus talentos de engenheiro e tecnocrata competente. Nessa fase histórica os engenheiros, inclusive militares, desfrutavam de grande prestígio e acreditavam que a eles cabia a criação do Brasil moderno, alinhado com as recentes conquistas da ciência e da técnica. Calmon aliava essa busca da modernidade com a tradição de sua família de homens públicos destacados. Não tardou a conquistar uma cadeira na Politécnica local e iniciar importantes obras de engenharia. Nomeado Secretário de Estado da Agricultura, Viação e Obras Públicas, “seu programa de trabalho consiste em fazer progredir a terra natal.” Correligionário e admirador de Rui Barbosa, contando com a simpatia dele e o apoio poderoso do próprio pai, é eleito Deputado Federal pela Bahia. Mais tarde seria eleito Senador, mas perde o mandato com a Revolução de 30, afastando-se em definitivo da vida pública. Como Gilberto Amado, também Senador, encontrava-se na Europa por ocasião da vitória de Vargas e já retornou à pátria sem mandato, tornado-se um “carcomido” ou um “decaído”, como diziam os revolucionários vitoriosos dos políticos da República Velha.
Miguel Calmon foi duas vezes Ministro de Estado. Na primeira foi titular da pasta da Viação e Obras Públicas no governo de Afonso Pena, considerado “o presidente das ferrovias”, entre 1906 e 1909. Na segunda ocupou a pasta da Agricultura entre 1922 e 1926. O exercício de tantas e tão variadas funções, aliado à observação e ao estudo, lhe conferiu vasta visão do país e de seus problemas, como deixaria registrado em seus escritos. Com efeito, entendia dos temas mais díspares e sobre eles opinava com seguro conhecimento. Sua bibliografia contém ensaios sobre aplicações do álcool, problemas do açúcar, valorização do café, produção e comércio da borracha, o algodão no mundo, a instrução pública, fastos econômicos, pedagogia moderna, problemas do cacau, o homem público e a história, cooperativas de crédito, tendências nacionais e influências estrangeiras, além de conferências sobre temas históricos e discursos. Celebrizou-se como o mais jovem ministro brasileiro, tendo assumido o cargo com apenas 27 anos de idade. Afonso Pena também deu nome a uma das estações ferroviárias no mesmo trecho – Presidente Pena.
Entre suas realizações como ministro alinham-se importantes obras, muitas delas referidas pela autora e outras omitidas. Avultam a Exposição Nacional, realizada na Urca, em 1908, em local amplo e com repercussão internacional; o apoio e a realização da Missão Rondon, com os objetivos de mapear o país, instalar linhas telegráficas e conhecer os indígenas, cuja homogeneização com o povo nacional era perseguida; a implantação de colônias agrícolas e missionárias no hinterland, buscando amansar e educar os indígenas bravios; a implantação do abastecimento de água de Paquetá; a melhoria do abastecimento de água do Rio de Janeiro; o povoamento do solo e o incentivo à entrada de colonos estrangeiros; a construção da estrada de ferro de Alcobaça (BA); a construção da estrada de ferro de Goiás; a construção da estrada de ferro de Mato Grosso; a instalação do telégrafo nas estações ferroviárias, ligando as populações ao sistema nacional de comunicações; realização de obras nos portos; saneamento de regiões insalubres; abertura e melhoramentos de rodovias etc. Como se vê, a ferrovia foi uma constante em suas preocupações, a idéia do trem cortando as matas parecia-lhe “a utilização da ciência em prol da domesticação da natureza” (p. 80). “Os trens – pensava ele, segundo a autora – significavam o poder do maquinismo, o domínio do homem sobre as forças da natureza. Sinalizavam, também, a integração das populações dispersas no território nacional.” Como dizia Machado de Assis, “o Brasil é uma criança que engatinha e só começará a andar quando estiver cortado de estradas de ferro” (p. 103). As ferrovias integravam a permanente busca da modernidade que presidia sempre sua ação como homem público. Esse pensamento, infelizmente, foi esquecido por alguns iluminados do Século XX que optaram pelo estradismo, entregando as ferrovias ao abandono e à sucata em que se transformaram. Investimentos caríssimos e demorados estão hoje entregues à intempérie e ao vandalismo.
É curioso observar que a Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande, no trecho entre Porto União (SC) e Marcelino Ramos (RS), cortando todo o Vale do Rio do Peixe (depois RVPSC e RFF S/A), nem sequer é mencionada. É verdade que Calmon deixou o ministério em 1909 e essa ferrovia só foi concluída em 1910, mas foi justamente nela que mereceu a grande homenagem de nominar uma cidade. Terá ele considerado aquele trecho uma obra menor? Terá ele visitado, em suas andanças ministeriais, aquela região? Terá conhecido o local da cidade que hoje tem seu nome? São perguntas de difícil ou impossível resposta.
Além dessas realizações materiais, assinale-se que foi escritor bastante ativo, tendo deixado ensaios, conferências, discursos, teses e relatórios que bem revelam um erudito muito informado e ligado às coisas de seu tempo. A biblioteca pessoal, integrante da Coleção, indica que muito lia e lia bem.
Concluindo, pode-se dizer que se Miguel Calmon não alcançou a “imortalidade fabricada” através da Coleção doada ao MHN e à postura do homem público e se muitas de suas realizações, em especial as ferrovias, desapareceram ou estão desaparecendo, ele alcançou a imortalidade por outro caminho: o batismo da cidade de Calmon com o seu nome. É uma homenagem imperecível que os calmonenses preservam com ardor e que perpassará os tempos, salvo que algum outro iluminado, algum dia, decida mudar o nome da cidade. Embora seja improvável, isso é possível, pois, como dizia Monteiro Lobato, os brasileiros se impressionam muito com as sonoridades e imaginam que trocando os nomes as coisas se modificam.
Vamos esperar, porém, que nunca aconteça.
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quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Muito antes disso (Nilto Maciel)

























(Meninos brincando, Cândido Portinari)



Joana plantava e colhia verduras no quintal. Comprava estrume e sementes e organizava canteiros, cercados de pedras. Erigiu também canteiros suspensos em estacas, para preservar as plantas da fome de gatos, ratos e galinhas. Convocava os filhos a ajudá-la no revolver a terra e aguar as verduras. As minhocas, retorcendo-se, davam nojo nos meninos. Sobretudo em Juvêncio. Para aumentar o sacrifício, foram obrigados a fazer entregas em domicílios e levar o produto da safra à feira da cidade. Uma vergonha!
Muito antes disso, Joana se escondia na cozinha ou no quintal, a lavar roupas. Juvêncio se arreliava quando ela o impedia de brincar na calçada. Escondia-se de si mesmo durante horas. Parecia dormir em pé ou sentado. Despertava assustado. Não sabia mais por onde andava a mãe. Talvez dormisse também, sofrida. E onde se achavam os irmãos? Talvez matassem lagartixas no quintal. O pai certamente conversava lorotas na mercearia.
De noite, no quarto, havia sempre uma lamparina acesa. Joana dormia numa rede, junto às dos filhos. O pai noutro quarto. Sem sono, ela saía da rede e se punha a matar muriçocas. Não demorou muito, apareceram em seu corpo eczemas. Ela se maldizia continuamente. Coçava-se sem parar. E mandava Juvêncio comprar pomada Minâncora. Fosse à mercearia pedir dinheiro ao pai. O caminho mais curto, uma ruazinha estreita, parecia ao menino o pior dos caminhos, porque de repente saíam dos quintais manadas de bois. Antes de dormir, o menino rezava e pedia a Deus e a todos os santos pela saúde da mãe. Não por medo dos bois, mas para não ver Joana sofrer.
Mais do que dos animais, Ju tinha pavor de tomar banho. Não da água fria, mas da grande caixa-d’água suspensa abaixo do telhado. Às vezes a água saía pelo ladrão. Ju olhava para cima e imaginava a caixa a desabar. Banhava-se às pressas. Joana se irritava: fosse tomar banho direito, tirar a rabugem. Ou queria virar porco?
Chegada a noite, outro medo maior se apossava dele: do escuro, da escuridão. Ir à cozinha, nem pensar. Ao lado dela a despensa cheia de baratas e assombrações. Ir à sala de jantar somente enquanto a mãe por lá estivesse, na cozinha, lavando panelas e pratos, ajeitando uma coisa ou outra, fechando portas e janelas. Se queria beber água, aguentava a sede. Se queria urinar, deixava para mais tarde, na rede, embora o castigo por isso fosse horrível. Almas e outras entidades habitavam as trevas.
Joana também precisava cozinhar. E novamente mandava Juvêncio à mercearia. Tarefa penosa essa de conduzir, nos braços, achas para o fogão. Não somente pelo peso delas, mas, sobretudo, pelo incômodo que causavam. Ora, da mercearia até a casa ia uma distância de mais de quinhentos metros, no mínimo. Os braços se feriam, se enchiam de calombos. E a vergonha de andar pelas ruas feito um burro de carga? Vergonha de que, se você não está roubando?
O pior se dava, porém, quando as baratas, aninhadas entre as madeiras, resolviam passear por seus braços. Não havia outra alternativa senão arremessar tudo ao chão. O pior momento ainda não seria esse, mas o anterior – quando descia ao porão da mercearia, pelos fundos, onde a lenha se amontoava. Uma descida aos infernos! Primeiro um portão de madeira, depois a treva. No meio dela, os paus arrumados horizontalmente junto à parede e, entre eles, toda a sorte de insetos e bichos: sapos, ratos, lagartas, aranhas, lacraias, formigas e as terríveis baratas. Todas enormes, pretas e fedorentas.
Antes de dormir, o menino pedia a bênção à mãe, fechava os olhos e suplicava a Deus e a todos os santos o prêmio maior da loteria para o pai e, para a mãe, a cura das eczemas. Acordava sobressaltado, quando a mãe batia em suas pernas na vã tentativa de livrá-lo dos insetos. O pai roncava no quarto ao lado. Durma, meu filho. Estou matando muriçocas. E ele dormia de novo.
Muito antes disso, porém, Juvêncio apenas brincava e via nos olhos de Joana um sorriso de quem era feliz.
Fortaleza, setembro de 2005.
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terça-feira, 20 de novembro de 2007

Noite com a Poesia de Anderson Braga Horta (Romeu Jobim)


(Anderson Braga Horta)


Meu conhecimento com Anderson Braga Horta data do final da década de 1950, e ele era apenas um jovem de pouco mais de vinte anos. Porfiávamos os dois, na época, po um cargo de redator da Câmara dos Deputados e, como estivéssemos cumprindo a maratona, um dia o notei. Parecia um menino, mas é nos meninos que se encontram os homens. E Anderson já era o grande homem que continuou sendo.
Uma vez em Brasília e trabalhando juntos, nos cargos conquistados, descobri que se tratava também de excelente poeta e que, como poeta, já ganhava prêmios e da melhor categoria. E foi então que, com Altiplano, sobre a nascente Capital, mereceu diversos galardões, sendo esse um poema que, além de marcá-lo e acompanhá-lo em tudo que produziu depois, também se inscreveu entre os mais belos que já se fizeram sobre a nova Capital e a epopéia de sua construção.
Deste modo, pedindo a todos que imaginem Altiplano como um grande pano de fundo colocado neste auditório, rogo licença para deixar de dizê-lo, nas amostras que trouxe. Assim, do livro quase homônimo, já que intitulado Altiplano e Outros Poemas, leio apenas três, a saber: [“Criança Chorando”, “Minha Filha” e “O Legado”].
Por que escolhi esses poemas, entre tantos de igual ou maior beleza, segundo a óstica de quem conhece o livro em tela? Por duas razões muito simples: porque neles faísca o mais refulgente valor estético e porque revelam ainda, em plenitude, o pai e o chefe de família enlevado e envolvido nos cuidados da prole.
Nos dois primeiros poemas, aparecem seus gêmeos, o fruto da união com a companheira que lhe deram os céus – e por isso é que se chama Célia –, gêmeos que outros não são hoje senão a simpátioca Advogada Marília Santos Horta e o conceituado Médico Anderson Santos Horta, a primeira aqui presente, mas o segundo em algum hospital, salvando vidas.
No terceiro poema, além do pai zeloso dos próprios filhos, shá o intelectual do seu e de todos os tempos a excogitar sobre o sono e o despertar de todos os filhos do homem, a continuidade da espécie.
O poema que ora passo a ler é "Celacanto", do livro Marvário: ....
A escolha desse poema, escrito em sextilhas com seis sílabas poéticas em cada verso, eu a fiz não só pela magia do intrigante peixe – fóssil vivo de 300 milhões de anos, cujo mistério o poeta afirma que decifra e cala –, mas porque o poema como que indica uma das faces de sua personalidade, sempre um tanto enigmática, quem sabe em decorrência de sua condição de bom mineiro e bom poeta.
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Na apresentação do livro Incomunicação, informa o escritor Alan Viggiano que contém poemas entre 1957 e 1963, portanto de uma fase coincidente com o fim da estada do poeta no Rio de Janeiro e o começo de sua presença em Brasília, acrescentado que “é um tanto sombria, algo tristonha e angustiosa, porém jamais pessimista e quase sempre lírica”.
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Mas o poeta, que assim transubstancia a angústia e tantos sentimentos e visões em arte, também sabe irromper em protesto e revolta contra as injustiças, consoante se lê em muitos de seus poemas, como neste "O Menino", de Cronoscópio:
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Exímio artista da palavra, capaz de usá-la na medida de sua plasticidade e magia, Anderson Braga Horta conhece, em profundidade, os segredos do ofício que exercita. Sua poética, por isso, no afã de chegar às rutilâncias e culminâncias a que chega, às vezes lança mão de recursos infreqüentes no mister, entre eles disposições visuais e termos com inserções que lhes multiplicam o significado.
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Filho de mãe poetisa e pai poeta, ambos do melhor quilate, creio que nada como este "Retrato Indimensional", de 50 Poemas Escolhidos Pelo Autor, para fechar esta amostragem:
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Por certo que, com os textos lidos, não consegui mostrar o poeta em sua inteireza, tamanha é a quantidade, a diversidade e a qualidade de seus poemas, ao longo de uma vida dedicada à Literatura, sobretudo no gênero da poesia, mas também no da prosa, em que, com igual mestria, se dedica à crônica, ao conto, ao ensaio, à crítica literária e à tradução.
A verdade entretanto é que, se melhor houvesse sabido escolher, para esta amostragem, os poemas acaso mais representativos da arte poética de Anderson, ainda assim dele não teria dado uma visão plena. Troncos de grandes árvores não se estreitam num só abraço. Assim acontece com "O Jequitibá de Carangola", título de um de seus belos poemas (Pulso, 2000). Assim acontece, afinal, com Anderson Braga Horta. Só seus sonetos, por exemplo – e nenhum deles cheguei a dizer – exigiriam mais de uma noitada, como esta.
De qualquer modo, creio haver alcançado meu intento: o de homenagear o grande poeta, ao ensejo de seus setenta anos, a esta altura acrescidos de quase mais um, tantos foram os meses que tive de aguardar, na fila.
Mas um ponto me absolve e reconforta. De tanta constância e equilíbrio é o valor dos textos de Anderson Braga Horta, que todos os seus poemas, como se um apenas, à semelhança da flor tentada explicar por Marcel Proust, são, a rigor e simplesmernte, uma esplendorosa realidade artística. Apenas isso. Apenas isso? Não, tudo isso.
Por fim, como o nosso grande e iluminado poeta – e não me arreceio de afirmar ser este juízo unânime, entre os que o conhecem –, como o nosso grande e iluminado poeta, repito, se acha presente, gostaria de pedir-lhe que, para encerrar essa amostragem, nos honrasse a todos, dizendo, de viva voz, um ou alguns de seus poemas.
(Brasília, 2006.)
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domingo, 18 de novembro de 2007

A bicicleta (Nilto Maciel)




Sorveu Nivaldo a cerveja do copo e olhou para a pracinha. Meninos corriam, brincavam. Homens e mulheres, sentados às mesas do bar, falavam alto. Nas paredes, jovens seminus e esbeltos sorriam e mostravam garrafas coloridas. Mocinhas seminuas posavam em praia. Estirou as pernas debaixo da mesinha e virou a cabeça para a rua. Vendedor de picolés empurrava carrinho e gritava. Garotos atenderam o chamado. No tempo de milho verde o melhor talvez não fosse comer pamonha ou canjica. Às vezes a mãe cozinhava e assava espigas. Das palhas fazia petecas. Nivaldo e outros meninos jogavam nas calçadas e dentro de casa. Nas tardes quentes, irmãs e primas se balançavam em redes, cantavam e comiam batata doce. “Índia, teus cabelos nos ombros caídos...” “Meu primeiro amor foi como uma flor que desabrochou e logo morreu”. Dia de festa quando a mãe decidia assar castanhas de caju. Ora no próprio fogão, ora em braseiros no quintal. Das cascas das castanhas manava um líquido quente. Tostadas, eram retiradas do fogo e descascadas. Nivaldo sorria para os meninos na praça. Eles também riam, mas para eles mesmos. O vendedor de picolés gritava de vez em quando e se abanava com chapéu de palha. Nivaldo lambuzava os beiços de cerveja. Carros passavam entre a calçada e a praça. Na Palma do tempo das irmãs e primas a balançarem-se em redes apenas dois carros assustavam meninos, cachorros, jumentos: um jipe e um caminhão. O trem apitava longe e sumia detrás das matas. Nivaldo corria à janela e só avistava a fumaça. No dia da morte de Vargas (ou terá sido de outro personagem?) a cidade parecia silenciosa. Não, não havia silêncio. Rádios tocavam desde cedo música fúnebre. Nenhum menino na rua, nas calçadas. O sol se escondia atrás das nuvens. Mandaram-no à casa de um vizinho. Um velho, sentado numa cadeira de balanço, escarrava e cuspia numa bacia, a todo instante. A música inundava o ar de melancolia, morte. O chão frio, o silêncio, tudo cinzento. O mundo parecia próximo do fim. As portas da igreja-matriz fechadas. Pombos e passarinhos voavam para lá e para cá. À música fúnebre sucedia-se outra.
Nivaldo bebeu mais e mais. Na praça a vida fervilhava. A vida fervilhou ou fervilhava? E o cheiro de batata doce? Ia à janela, espiava a rua, queria sair, brincar. O sol, entretanto, de tão quente, o impelia a zanzar dentro de casa, descalço, nu da cintura para cima. E ouvir irmãs e primas no balanço das redes: “Índia, teus cabelos nos ombros caídos...” Por onde andava a mãe naquelas tardes? Talvez dormisse, sofrida. E os irmãos? Talvez matassem lagartixas no quintal. O pai certamente conversava lorotas na mercearia.
Homem de cabelos brancos arrastou cadeira e se sentou. Garçom dele se aproximou com lepidez. Uma cerveja bem gelada. Sorriram, como se se conhecessem há muito. Uma agora, outra depois. Nivaldo sorriu também. E levou aos lábios o copo. Nas paredes, mulheres e homens jovens, bonitos, seminus abriam sorrisos de dentes alvos e perfeitos e mostravam bebidas de variados nomes e marcas. Pela rua passavam carros em disparada. No horizonte, luzes e luzes brilhavam em postes, prédios, casas, em infindável tabuleiro de cores. Nivaldo mirou o perfil do homem de cabelos grisalhos. Talvez o conhecesse. De onde? Desde quando? Colega de faculdade, trinta anos atrás? E o nome? Arnaldo. Não. Cesário. Não. Fagundes. Também não. Mas o conhecia, sim, senhor. O outro o viu a observá-lo e franziu o cenho. Ora, ora! Sair para beber cerveja e ter de aturar um estranho a analisá-lo! Era pedir a conta e se retirar. Nivaldo chamou o garçom, em voz alta, e dirigiu-se ao vizinho: Você é de Palma? O homem quis se fazer de desentendido e virou a cabeça para um lado, a olhar para o interior do bar. Nivaldo insistiu na pergunta e só então o outro fitou os olhos nele. No entanto, Nivaldo queria contemplar a praça e ver os meninos. E quase se assustou ao avistar ao longe, como uma aparição, um corpo estranho em movimento. Vinha de longe para perto, no meio da praça. E era somente uma bicicleta e um garoto a se locomoverem lentamente.
***
Nivaldo deu três passos, parou ao lado de Venâncio e encheu de cerveja o copo do conterrâneo. Puxasse cadeira. Agradeceu o convite. Não ia perguntar a idade do outro, mas, pelas aparências, seria uns dez anos mais velho que ele. Venâncio se pôs a falar de Palma e do passado. Quando o pai lhe comprou uma bicicleta, sentiu-se muito importante. Nivaldo sondava os olhos do outro. Semelhantes aos de um rapazinho que um dia apareceu montado numa bicicleta. E nela se deu o seu primeiro passeio na garupa.
Nivaldo pediu licença para se sentar em outra cadeira. Gostava de olhar para a pracinha. Venâncio riu. Também gostava de praças. Sua família o queria padre. A idéia lhe parecia excelente, porque nascido e criado católico, ao lado de uma igreja. Lembrava-se dela? Nivaldo examinava ora a rua, ora os olhos daquele homem que não podia ser outro senão o rapaz de quase meio século atrás. Daquela bicicleta enorme, quase do tamanho de um burro. Coisa nunca vista na cidade. Cheia de adereços, fitinhas, buzina, farol. Quando crescesse, queria ter uma bicicleta como aquela.
Uma noite avistou de longe o rapaz na calçada, agarrado à bicicleta. Depois o viu montar nela e pedalar até a calçada de sua casa. Queria passear de bicicleta? Talvez estivesse caçoando dele. Queria ou não queria? Num minuto subiu à garupa e saíram pela praça. O jovem pedalava com suavidade, como se flutuasse. E conversava. Não falava da bicicleta. Fez a volta na praça, passou diante da igreja e se dirigiu a uma rua pobre. Acendeu o farol. Meninos corriam. Mulheres sentadas às calçadas. A bicicleta entrava em becos e vielas escuras ou semi-escuras. Com lentidão, como se nunca mais fosse parar. Tomasse cuidado para não aproximar os pés das rodas.
***
Venâncio pediu mais cerveja, beberam, conversaram. Nivaldo também chamou o garçom outras vezes. Na pracinha já não se viam os meninos a correr. Casais se agarravam nos bancos. Carros passavam diante do bar em disparada. Venâncio falava sem parar. Após alguns anos no seminário, decidiu seguir outro caminho. Viajou para São Paulo, onde viveu alguns anos. A bicicleta passou aos irmãos mais novos e nunca mais a viu. Os pais morreram velhos. Chamava o garçom, queria beber. Em dado momento, Nivaldo voltou ao sanitário e, ao regressar, não mais viu o outro. Chamou o garçom: Onde andava Venâncio? O rapaz sorriu: Seu Venâncio era assim mesmo; quando se embriagava, saía sem pagar e noutro dia saldava a dívida. Nivaldo permaneceu no bar. Talvez o outro voltasse para completar a história. Se não voltasse, beberia sozinho. Talvez surgisse outro cidadão de Palma. Trouxesse outra cerveja.
Nivaldo olhava para a pracinha. Aonde andavam os meninos? E a bicicleta com o garoto? Talvez dormissem. Sorveu mais uns goles da bebida. Por que Venâncio se tinha retirado, sem uma despedida? Teria se lembrado do passeio de bicicleta? Sentiu no estômago um peso. Não agüentava mais cerveja. Precisava ir para casa. Quis levantar-se, não conseguiu. Uma bicicleta parecia girar ao redor de sua cabeça, ora com sofreguidão, ora muito lentamente.
Fortaleza, maio de 2005.
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sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Carnavalha, algumas impressões (Astrid Cabral)



Por sua complexidade estética, o último livro publicado de Nilto Maciel requereria um alentado estudo. Restrinjo-me, entretanto, às impressões de uma rápida primeira leitura. Quem conhece outros livros do autor não se surpreende pelo alto grau de consciência literária que orienta esta nova produção ficcional.
Em Carnavalha, o projeto literário logo se impõe. Ninguém se iluda com as frases curtas e desataviadas, o ritmo apressado. Assim como os arquitetos trabalham seus edifícios de tijolo e argamassa obedecendo à planta baixa inicial, os criadores de mundos verbais estruturam suas narrativas buscando equilíbrio e harmonia a partir de planos definidos de antemão. Afinal, ficcionistas da categoria de NM não se comportam com o descompromisso ingênuo dos contadores de história embalados pelo simples desenrolar anedótico. Escritores operam se pautando sempre pela construção de um sistema integrado e coeso, a palavra a serviço de um conjunto racionalmente previsto.
O tema do carnaval, tão caro e freqüente em nossa literatura, é desenvolvido neste romance a partir de uma seqüência de painéis, que guardam entre si obsessivo parentesco. A festa do carnaval na pequena cidade Palma vai avançando das tradicionais manifestações lúdicas do Brasil popular para uma carnavalização delirante, culminando com o desenlace de falso assassinato numa delegacia de polícia, a tragicômica morte e ressurreição do bêbado Zuza.
Os múltiplos e breves segmentos componentes do romance mantêm relativa autonomia e representam etapas mais reiterativas que progressivas. Isso imbrica na abolição do tempo narrativo direcionado para um fim, porque o que aí se enfatiza é a duração de um momento especial, o enredo feito à base de modificações bastante sutis. Embora a narrativa seja intensamente dinâmica, seu processo se repete de modo uniforme, sem encadeamento evidente de causa/efeito. Para isso também contribui o quase absoluto espaço público da ação. Note-se que tudo decorre praticamente na rua ou em praças, natural exigência do tema. Os personagens, que permanecem em casa debruçam-se às janelas ou trazem cadeiras para as calçadas, atraídos pelo eletro magnetismo do evento a céu aberto. (Disso se excluem as duas partes centrais do livro, as batalhas que se passam em outros locais e a série elaborada na perspectiva da visão da coruja/estrige, em que ocorre a substituição do espaço exterior pelo interior doméstico, ambos se sobressaindo de modo mais nítido a partir do contraste.)
Observa-se que no desenvolvimento do romance, o autor, arrebatado pela contemporânea hegemonia do visual, faz parcimonioso e conciso uso das palavras. Assim é que nos apresenta uma perspectiva cinematográfica, relatando ocorrências de caráter inteiramente exterior: aquelas que olhos captam, ou que ouvidos testemunham através de diálogos e monólogos. Os personagens surgem, portanto, privados da dimensão introspectiva fornecida pelos pensamentos, e são totalmente arrastados pela euforia carnavalesca, que não deixa disponibilidade à contemplação ou reflexão, tamanha a orgia dos sentidos convocados.
O não aprofundamento dos personagens os torna, em conseqüência, esquemáticos. E uma vez que estamos diante de uma infinidade deles, o enfoque do autor concentra-se no coletivo. Pode-se dizer que não existe hierarquia entre eles, e a habitual distinção entre protagonistas, antagonistas e secundários resulta praticamente imperceptível. Com mão de mestre, NM apresenta-nos um painel social bem desenhado, em que se pode inclusive detectar o conflito estabelecido pelos habitantes locais e o grupo de turistas vindo de Brasília, comunidades timbradas por seus diferentes centros urbanos.
A manipulação dos personagens em Carnavalha traz-me à lembrança outro importante romance brasileiro focalizando o carnaval. Refiro-me à Cidade calabouço, do mineiro Rui Mourão. Há nesse item alguns pontos de semelhança entre eles, pois a grande festa popular contribui para o sufoco das individualidades, dissolvidas que são na presença compacta da massa.
A meu ver, a grande jogada de Nilto Maciel é a introdução dos animais na categoria personagens. Palma, local geográfico da ação, por se constituir num mundo urbano ainda rústico, propicia, em viés realista, a presença e o convívio desses seres da natureza. Estes, porém, comparecem embrulhados pela magia das lendas populares e emblematizam com vigor o lado instintivo e primário do carnaval. A presença dos animais frisa o limiar entre o natural e o urbano e tal ambigüidade impulsiona o fluxo das fantasias pessoais do autor. Vejam-se as sete admiráveis batalhas travadas (com Boi da Cara Preta, Megalinha Choca, Cães Danados, Gato Borralheiro, Cabrão Pretinho, Pangaré Branco e Barrão das Lajes)
É deveras apreciável o intenso intercâmbio promovido pelo escritor entre o plausível e o implausível, o racional e o irracional. Nas partes centrais do livro (quarta e quinta), que poderiam até ser interpretadas como um parêntese de carnavalização na trama fundamental do carnaval propriamente dito, é onde mais se adensam as incríveis ousadias da imaginação emancipada do realismo. Beirando o non-sense, dá-se uma espécie de dança delirante nos fatos aí narrados. (Ressalta-se no meio destes a impressionante questão dos dentes). É como se o leitor tivesse nas mãos um caleidoscópio de cenas originais, eróticas e hilariantes. Cada uma delas introduzida pelo olhar da coruja, a sábia ave noturna, cuja função é revelar o que jaz obscuro e escondido em nossa absurda humanidade.
Antes de finalizar, comento de relance a intencional mestiçagem lingüística à que NM procede na fatura de Carnavalha, em total consangüinidade com o tema escolhido. Se o autor adota de preferência o registro coloquial com vocábulos e expressões populares, lugares-comuns, gírias etc., valorizando a presença do povão personagem, nem por isso abre mão da cultura de elite que lhe pertence como criador urbano. O livro é rico de rastros literários, não só os explícitos nas numerosas epígrafes, mas os que surgem camuflados testemunhando a forte presença bíblica, bem como as heranças cervantina e kafkiana.
Carnavalha é obra que condensa tanto realidade social quanto fantasia pessoal, assim expressando Carnapalma e carnavalma, significativos neologismos do autor.
10/11/07

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Sombra não identificada (Nilto Maciel)








Humberto ligou a televisão e se sentou no sofá. Locutor falava sem pestanejar. Presidente da República viajava mais uma vez. O homem olhou para o ventilador. Pela janela, nenhuma brisa invadia a sala. Levantou-se. Avião caiu nos confins do mundo, com 120 passageiros. Acionou botão para acelerar a rotação das hastes. Vento, vento, vento. Objeto ou inseto não identificado voou nas proximidades da lâmpada presa ao teto. Voltou ao assento. Agricultores invadiam fazenda no Pontal do Paranapanema. Bandeiras vermelhas, gritos, foices. Cruzou perna, coçou nariz. Televisão precisava de limpeza. Poeira até na cara do papa. Sujeira nos quatro cantos da casa, nos quatro pontos cardeais. Cisco intrometeu-se nos seus olhos. Assalto a loja no centro da cidade. Locutor franziu cenho. Cenas de barbárie gravadas pelo circuito interno de televisão. Bandidos entram armados no estabelecimento comercial. Alguns fregueses conseguem fugir. Homem encapuzado aponta arma para consumidor idoso. Por más artes, a arma se dispara na cabeça do freguês, que tomba inerte. Bandidos recolhem em saco dinheiro da loja e fogem. Sombra de objeto ou inseto não identificado passeia aos pés de Humberto. Locutor reaparece para rematar a reportagem: o morto é Humberto Dias Tavares, aposentado, morador do bairro de Fátima, que havia ido ao centro comprar ventilador. Rosto do morto em close. Humberto se pasma. Morto? Como?, se via tudo: a televisão, a poeira acumulada nela, a sombra do objeto ou inseto não identificado, o ventilador, os próprios pés, o sofá, as paredes da sala. Põe-se a rir. Como a vida podia ser tão cheia de coincidências? Corre ao banheiro, mira-se no espelho. O telefone toca. Ajeita-se, alisa o nariz, penteia-se, volta à sala. O locutor falava sem pestanejar. Alô. Pai, você está bem? Muito bem, filha. A Sinfônica apresentará peças de Berlioz, Mendelssohn e Mussorgsky. O homem passa mãos na testa e nos cabelos. Deve ter enlouquecido. De novo a sirena do telefone, feito alarme de incêndio, tragédia. Da casa de Humberto? É ele mesmo. Você foi morto? O vento açoita as pernas do homem. A luz da televisão pisca. Soldados se matam no deserto. Presidente dos Estados Unidos fala de paz. Humberto desliga a televisão, se senta no sofá, alisa o queixo. Como pode ter morrido no assalto?, se via tudo com nitidez: o sofá, os próprios pés, a sombra do objeto ou inseto não identificado, o ventilador com as hastes em rotação acelerada. O que havia entre o teto e o piso? Entre o céu e a terra? Luz, insetos ou objetos não identificados? Sombras em movimento? Batem à porta. Humberto deixa o sofá, espanta a sombra do mosquito invisível e pergunta: quem é?
Fortaleza, abril de 2005

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

“Carnavalha”: Surrealismo e Carnavalização (Aíla Sampaio*)



“Carnavalha” é o 7º romance de Nilto Maciel, recém lançado pela editora Bestiário (Porto Alegre, 2007). O romance agrada o leitor a partir do trabalho gráfico apurado (o mesmo do livro anterior, a coletânea de contos “A leste da morte” (2006)) até a extensão dos capítulos, sempre curtos e nominados. A história se passa na cidade de Palma, no Ceará, espaço (imaginário) recorrente em livros anteriores, e o leitor fica suspenso no questionamento: a rotina foi modificada pela festa momina ou a cidade é um antro de loucos, que vivem o ‘carnaval’ permanentemente? Afinal, como diz o Zuza: “A cidade é cheia da fantasias. O Carnaval é o cotidiano” (p.147).
A narração faz desfilar uma galeria de personagens que surgem, desaparecem e ressurgem como num desfile de carnaval; o ritmo constante e denso dá a impressão da passagem ‘tumultuada’ de blocos carnavalescos, que é o que constitui, de certa forma, cada capítulo. O discurso do narrador, em 3ª pessoa, predominantemente no pretérito imperfeito do indicativo, um tempo que expressa um fato passado contínuo, coloca o leitor diante de acontecimentos passados, mas de incerta localização no tempo: tudo se passou e parece estar ainda se passando. A idéia de simultaneidade está presente, sobretudo, na quinta parte, quando os capítulos enfocam especialmente um personagem (ou um par), o que é reiterado pela alternância de vozes: o narrador fala e faz ecoar a voz dos personagens, por meio da mistura contínua dos discursos indireto e indireto livre.
Embora o Zuza apareça no início e no desfecho da narrativa, o enredo não tem personagem central – todos estão inseridos no mesmo enfoque delirante do narrador onisciente – a protagonista da obra é a própria vida. Os personagens aparecem invariavelmente submetidos a situações que transpõem a racionalidade, imersos num mundo surreal, que tem a sua própria lei: a do absurdo. Não há nenhum questionamento por parte deles sobre o delírio em que vivem; a transgressão da normalidade aparece como natural. Os acontecimentos que fazem o enredo estão, pois, libertos das exigências da lógica e da razão, vão além da consciência cotidiana e se expressam através do desvario: “Montado num dromedário, Aluísio passeava pelas ruas de Palma. Seguiam-nos outros dromendários, cavalgados por seus amigos de Brasília. Iam pela Avenida Dom Bosco, no rumo da matriz /.../ Súbito os animais se punham a correr pelas ruas, em desabalada carreira. “Sou Lawrence da Arábia. Vocês não me acham parecido com Omar Sharif?”. Aos gritos uma multidão de meninos corria atrás da caravana.” (p.125).
De fato, exatamente como preceitua o manifesto surrealista, “Carnavalha” rejeita “a chamada ditadura da razão e os valores burgueses. Humor, sonho e contra-lógica são recursos a serem utilizados para libertar o homem da existência utilitária. Segundo a nova ordem, as idéias de bom gosto e decoro devem ser subvertidas”. Essa filiação não está apenas no conteúdo, mas na própria forma: percebe-se que “o impulso criativo artístico se dá através do fluxo de consciência despejado sobre a obra”. Há uma ‘avalanche’ de situações que se sucedem, literalmente regurgitadas pelo narrador, e nenhuma obedece à lógica referencial. Vejamos outra passagem, quando o sagrado e o profano se colocam lado a lado: “Foliões invadiam a igreja, escancarando as portas laterais e da frente. Fantasiados, de roupas coloridas, pintados e seminus, gritavam, cantavam e pulavam. Maroca leva as mãos à boca horrorizada:”Padre, padre, veja que profanação!”. Porém os fiéis se misturavam aos carnavalescos e se punham a dançar, pular e cantar /.../ E então o pároco, acolitado ainda por Alzira, surgia às suas costas, não mais de batina, porém vestido de uma capa preta, chifres enormes, um rabo a balouçar, língua de fora /.../ Encapetado, o padre buscava Maroca e a encontrava ao lado do altar. Agarrava-a por trás e fazia menção de violentá-la” (pp.100-101).
Na sexta parte, os fatos surreais são interrompidos, e o bêbado Zuza volta às atenções ao perturbar, com a inconveniência e a sinceridade dos ébrios, conterrâneos e visitantes que brincam o carnaval. Durante o tão esperado baile no balneário, seu corpo aparece boiando na piscina. No capítulo “As Cinzas”, simbólico porque marca o fim do carnaval e o fim também do carnavalesco Zuza, todos são interrogados pelo delegado Pedro Cabral. O romance termina com a descrição do baile e a fala do Zuza, em cima do palco: “canalha, carnalha, canaval, canavalha, carnavalha, carnavalma, carvalha, canavialha, carnavialma, bando de canalhas, macacos, cambada de farsantes” (p.173). A orquestra pára, as luzes apagam e sons conexos e desconexos ressoam na multidão. Como no capítulo anterior sabe-se que o Zuza morreu, supõe-se que tenha sido esse o seu momento final. Nenhuma elucidação do crime, entretanto, é dada ao leitor: suicídio? Assassinato? O romance termina.
Além do imenso elenco de personagens, há uma infinidade de bichos e insetos que pululam o universo delirante de Palma: cachorros, dromedários, cavalos, onças, gatos, galinhas, baratas, aranhas, corujas, ratos, abelhas, todos nivelados ao homem na mesma aparente naturalização do irracional: “O gato miava, agigantava-se, fazia-se onça e saltava ao pescoço do estranho” (p.74) ”/.../ “Eu não entendo como pode um homem se entender tão bem com um cão e deixar de lado a cadela”. A da casa brincava: “Você não queria dizer a cadele?"Vicente se levantava e saía para a rua. Guiomar ia a seu encalço. A mulher corria à porta e se punha a imitar latidos" (p.78). /.../ “O cachorro se punha a latir e caminhava em direção à dona da casa, dentes à mostra. “Ou a senhora fica com ele, ou eu o mando morder as suas nádegas”” (p.85). Um mundo fantasioso se instaura e nada é o que aparenta ser.
Muitos intertextos permeiam a voz do narrador e dos personagens. São passagens de obras ou referência à Bíblia sagrada, a Sheakespeare, Hamlet, Dante Alighieri, Cervantes, letras de música, à carta de Pero Vaz de Caminha: “Alguns homens traziam os beiços furados e nos buracos uns espelhos de pau. Entre eles, cinco ou seis moças, bem novinhas e gentis, com cabelos muito pretos e compridos pelas costas. Traziam suas vergonhas tão altas, tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que mais pareciam meninas” (p.75). Aliás, a Carta está em todo o capítulo “As cinzas”. O nome do delegado é Pedro Cabral e o escrivão, ao datilografar os depoimentos, mantém uma cópia ao lado e fica a repetir passagens. O delegado, ironicamente, vive consultando um “Livro de ditados” e a cada depoimento desfere um como uma verdade irrefutável.
Fora das fronteiras do Fantástico, gênero tão bem exercitado em obras anteriores, “Carnavalha” é um romance ousado, subversivo da ordem e dos cânones tradicionais. O irônico se mistura ao trágico e ao cômico e cria um universo simbólico pleno de representações. Nilto Maciel demonstra total domínio do texto ficcional, autonomia e capacidade de brincar com as coisas sérias. Daí ser impossível ler “Carnavalha” e não referir, também, Bakhtin e sua teoria sobre a ‘carnavalização’ na obra literária. Embora na obra do Nilto o cômico esteja ligado ao trágico – há muito sofrimento, num desmascaramento das agruras da própria existência – nela o carnaval representa a festa dos loucos (festum stultorum) e predomina o realismo grotesco de que fala Bakhtin; há muitas imagens deformadas e exagero, há confusão e dissolução de identidades e a total liberdade de transgredir, inclusive a lógica. Entre o Surrealismo e a Carnavalização, Nilto Maciel escreveu um dos romances mais interessantes que li nos últimos tempos. Vale a pena conferir!

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*Aíla Sampaio, professora de Português e Literatura da Unifor e da SEDUC. Poeta, contista e ensaísta com dois livros de poemas: Desesperadamente Nua e Amálgama.
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sábado, 10 de novembro de 2007

Maneco, futebol e cerveja (Nilto Maciel)




















Morreu ontem Maneco, ou Manoel dos Santos Pereira. Há anos fora dos gramados e da mídia, desde a fratura de uma perna, poucas pessoas devem se lembrar do atacante. Aliás, há raríssimos registros de sua passagem pelos clubes cearenses e muitos dirigentes e cronistas chegam a negar a sua existência como jogador de futebol. No entanto, parentes e amigos são testemunhas de sua vida dedicada ao esporte. A viúva, Maria do Socorro Pereira, afirma ter ele vestido a camisa do Ferroviário em 1963, não sendo certo haver jogado no campeonato estadual. Nelson Silva, amigo de Maneco desde o ano anterior, nega as informações prestadas por dona Maria: “Nunca chegou a um time profissional. Jogava em times de bairros, principalmente do Benfica, das Damas, do Jardim América. Apesar disso, dominava a bola como poucos, driblava a torto e a direito, chutava com os dois pés, fazia gols de primeira”. Outro amigo do craque, Jonas Craveiro, mais velho três anos, lembra do dia da apresentação de Maneco ao Fortaleza, por indicação de um veterano do time. Infelizmente não foi aproveitado, motivo de desgosto para o craque. “Chegou a se embriagar durante vários dias, tão decepcionado ficou”. O historiador Rafael Macedo não nega as informações prestadas pelos amigos de Maneco. Pelo contrário, dá notícia da apresentação do jovem ao Ceará (talvez para se vingar da humilhação sofrida no time rival) e de nova decepção, pois nem sequer teria sido recebido pelo treinador. Jair Pereira, um dos filhos de Maneco, sabe de todas essas histórias e de outras. Segundo ele, o pai procurou todos os clubes da capital e por nenhum foi aproveitado. E é esta a razão de seu desgosto pelo esporte. O que fizeram ao seu pai não foi pouco. Segundo Perilo Duarte, outro amigo do falecido, a causa do fracasso do atacante só pode ter sido a bebida. “Desde muito novo o Maneco vivia na boemia. Eu, ele e outros amigos. Muita cerveja e futebol”.
Para Everaldo Silveira, amigo de infância do falecido, desde menino Maneco queria ser goleiro. Aos domingos, após as missas, realizavam-se jogos na Praça da Matriz de Palma. Pois Maneco não nasceu em Fortaleza, como muitos supunham, mas na pequena Palma. O “campo” lhe parecia enorme. No entanto, talvez não passasse de cinqüenta metros de comprimento. Apenas uma parte da praça. Os rapazes vestiam uniformes coloridos, calçavam chuteiras. Os goleiros se paramentavam de joelheiras e camisas de mangas compridas. Muita gente saía à rua para ver o espetáculo. O garoto achava tudo maravilhoso. Vem desse tempo sua paixão pelo futebol. Da noite para o dia, porém, os jogadores sumiram. Não havia mais jogos na praça. O prefeito ou o vigário devem ter proibido tais jogos diante da Prefeitura e da Matriz.
Maria do Socorro lembra detalhes da infância de Maneco, apesar de se terem conhecido quando jovens, em Fortaleza. O menino morou em três casas em Palma. Casas enormes, de tetos muito altos e chão de tijolo. Quando chovia ou o sol esquentava demais, jogava bola, com os irmãos, na sala ou nos quartos. Os chutes desajeitados levavam a bola para o forro de pano da sala. E nem adiantava cutucá-lo com vara. Nunca mais a veriam. A não ser quando algum pedreiro ou pintor fosse trabalhar, levasse escada e atendesse seus rogos. Ou quando o pai resolvesse trocar o forro. Mesmo assim, as bolas estariam endurecidas, mofadas, rasgadas.
A mãe tinha horror a bolas. Menos aquelas das cartilhas. Mesmo quando os filhos confundiam bola com bala. Então vinham castigos físicos ou de proibição. Três dias sem bola e sem bila. Ou três dias lendo bulas. Mas como viver sempre estudando? No quintal não havia lugar para jogos e brincadeiras. Somente árvores, plantas e animais domésticos. O gato caçava borboletas, a correr e saltar entre as bananeiras. As galinhas iam e vinham, a cacarejar, enquanto o galo passeava galante. Os porcos roncavam no meio da lama. As lagartas infestavam a horta.
Everaldo passa horas a falar do passado. Naquele tempo poucos garotos conheciam bolas de couro. Em compensação, todos tinham “bolas-de-meia” ou “bolas-de-pano”. A primeira denominação seria a do gênero; a segunda, a da espécie. De meia, porque o envoltório da bola era essa peça. Meia usada, furada, imprestável para o uso apropriado. O recheio podia ser de algodão, pano ou papel. Essas bolas não serviam para jogos em chão de terra. E menos ainda em dias de chuva. Os meninos jogavam nas calçadas. Quando não o jogo, os simples chutes de um lado para outro da rua. As paredes serviam de anteparo e, ao mesmo tempo, de linhas de gol. Às vezes dois garotos de cada lado. Um chute para cada “time”. Vencia quem fizesse primeiro de­terminado número de gols. Ao vencedor cabia, como “prêmio” (não seria “castigo”?), jogar, em seguida, com outro “time” ou jogador. Maneco se dedicava de corpo e alma ao futebol. Dedicou-se ao esporte como poucos. Apesar disso, há anos fora dos gramados e da mídia, desde a fratura de uma perna, poucas pessoas devem se lembrar do atacante.
Na calçada, o pequeno goleiro quase voava, em busca da bola-de-meia. Os outros garotos o elogiavam. E ele se enchia de amor-próprio. Sim, quando se tornasse rapaz, iria jogar no Fortaleza. Por muito tempo sonhou tornar-se goleiro profissional. Não conhecia ainda estádio. Não sabia o significado de um espetáculo esportivo. O sonho, no entanto, cedo se desfez, e de forma melancólica. Convidado a treinar num time de futebol-de-salão, engoliu numa tarde mais de sete gols. Um fracasso! Maneco não passou do primeiro treino. Chamaram-no de frangueiro, e nunca mais o convidaram a entrar na quadra. Não o convidaram, é certo, porém voltou muitas vezes a ele, para ver a seleção municipal ser derrotada por times de outras cidades. Nelson Silva desconhece o primeiro fracasso do amigo. No entanto, conheceu muito o atacante: “Nunca chegou a um time profissional. Jogava em times de bairros, principalmente do Benfica, das Damas, do Jardim América. Apesar disso, dominava a bola como poucos, driblava a torto e a direito, chutava com os dois pés, fazia gols de primeira”.
Lembra-se Everaldo daquele tempo como se hoje fosse. Às vezes ia à casa do amigo, para tirar dúvidas de português ou matemática. Porém Maneco não estudava muito. Na hora do estudo, recortava fotos de jogadores e times dos jornais e das revistas e as colava num caderno velho. Passou a gostar de outras fotografias: atrizes de cinema, animais, carros, cidades. Adorava fotos de cidades grandes. Os arranha-céus o fascinavam. Passava horas a catar restos de revistas no lixo. Num terreno ao lado das salas de aula do colégio dos Salesianos. Deviam ter pertencido aos alunos internos.
Havia um “muro” a separar os alunos internos dos externos. Aqueles vinham de outras cidades, sobretudo de Fortaleza. De famílias ricas. Os da cidade, eram quase todos pobres, filhos de comerciantes, funcionários públicos. Nunca os dois lados se misturavam. Brincavam em pátios separados. Até na igreja, construção contígua ao colégio, a separação se manifestava. Os bancos destinados aos internos se situavam na parte mais próxima do altar. Apesar disso, por algum tempo os alunos externos foram convidados a participar das brincadeiras e jogos de fim-de-semana no colégio. Entravam por um portão pequeno, que ia dar numa escolinha para crianças carentes, moradoras da periferia. Havia muitas mangueiras e o rio corria bem próximo a uma cerca. Os internos jogavam num campo grande, com traves, rede, uniformes, chuteiras, bola de couro. Os da cidade ficavam ao largo, chutando uma bolinha ou outra, junto aos meninos mais pobres. Para Maneco, a bola parecia excessivamente pesada. Nunca havia chutado uma bola de couro. Os pés só conheciam as bolinhas de meia. O capim molhado e alto feria os dedos.
Todo garoto de Palma jogava bola. E torcia por um time de Fortaleza. Essa torcida se manifestava também no jogo de botões. Futebol de botões. Cada menino possuía dois ou mais times. Os de Maneco chamavam-se Calouros do Ar e Gentilândia. Os irmãos se dividiam entre Ceará, América, Fortaleza, Ferroviário e Usina Ceará. A viúva do craque, Maria do Socorro Pereira, afirma ter ele vestido a camisa do Ferroviário em 1963, não sendo certo que tenha jogado no campeonato estadual. Não importa se vestiu ou não vestiu. Pois os irmãos de Maneco também não se tornaram jogadores profissionais. Quando os times de um deviam se enfrentar, convocavam um dos irmãos para manejar os botões da equipe secundária. Os campeonatos duravam poucos dias. Aconteciam diversos jogos por dia. A mãe gritava: “Vão tomar banho”; “Venham almoçar”. Os garotos perdiam a noção do tempo, entretidos com os botões, quase todos de paletó. De onde vinham, como os adquiriam? Talvez nos armarinhos. Raspavam as bordas a gilete. E cada botão recebia um nome de jogador. Maneco sabia de cor os nomes de todos eles. Servia de campo uma mala de madeira, antiga, de mais de meio metro de altura. E a bola? Ah, a bola não rolava, porque nada tinha de redonda. Deslizava, atingida pelo botão. Ou voava para o gol, levantada pelo toque sutil ou violento do “jogador”. A bola parecia uma miniatura de panela – uma tampinha de creme dental. A meta, a baliza, o gol, a trave media cerca de dez centímetros de largura, cinco ou seis de altura. Feita de madeira, trazia ao fundo um pedaço de véu ou tecido mais resistente, como se fosse a rede. O goleiro equivalia a uma caixa de fósforos, recheada de pedras.
Desde Palma, Maneco acompanhava transmissões de jogos pelo rádio. Ao se mudar para a capital, não perdeu o hábito. Parava diante das lojas, para ouvir as locuções radiofônicas de jogos, quando voltava para casa, à noite, vindo do Liceu. Caminhava até o ponto do ônibus de Joaquim Távora. Às vezes ia e voltava a pé, com os dois irmãos. Quando perdiam o horário do ônibus ou quando os estudantes saíam às ruas em protestos. Arrancavam os paralelepípedos das ruas Liberato Barroso e Guilherme Rocha, para impedir a circulação dos veículos. Com medo, os motoristas recolhiam os ônibus às garagens. Ou por ordem dos patrões. Quase ninguém nas ruas. As luzes dos postes mal iluminavam as vias públicas. Cachorros ladravam.
Em Monte Castelo, onde a família de Maneco morou pela primeira vez em Fortaleza, havia sempre quermesses, festas populares, religiosas ou simplesmente um alto-falante todas as noites a irradiar canções em voga. Nelson Gonçalves, com “A volta do boêmio”, não parava de cantar.
Jonas Craveiro chora quando lembra do dia da apresentação de Maneco ao Fortaleza, por indicação de um veterano do time. Infelizmente não foi aproveitado, motivo de desgosto para o craque. “Chegou a se embriagar durante vários dias, tão decepcionado ficou”.
Maneco foi sepultado no Cemitério Parque da Paz. Ao velório compareceram apenas os parentes mais próximos e dois ou três amigos e vizinhos.
Fortaleza, 9 de março de 2005.
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quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Annelore e Gertrudes (Viegas Fernandes da Costa*)

(Duas mulheres, Diogo de Macedo, Portugal)

Para Ingmar Bergman

terça-feira, 6 de novembro de 2007

domingo, 4 de novembro de 2007

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Nilto Maciel: Próximo da Carne (Carmélia Aragão) [1]

























Ítalo Calvino, profundo conhecedor de “cidades invisíveis”, diz que as cidades, como os sonhos, são construídas por desejos e medos, ainda que o fio condutor de seu discurso seja secreto, que as regras sejam absurdas, as suas perspectivas enganosas, e que todas as coisas escondam uma outra coisa. Dessa forma, Nilto Maciel também edificou Palma no interior do Brasil. Já retratada em diversos contos e romances do autor, como Os varões de Palma (romance, 1994), A Rosa Gótica (romance, 1997), A última noite de Helena (romance, 2003), A leste da morte (contos, 2006) e Os luzeiros do mundo (romance, 2005), a cidade reaparece, nesse ano de 2007, no romance louco e lúcido, Carnavalha.
Agora é carnaval em Palma. A festa pagã, cujo sentido primeiro, após ser resgatada pelos cristãos na Antiguidade, significava carne levare, “afastar da carne”, porque então começava a quaresma, está impregnada na vida e na alma dos habitantes de Palma, unindo a carne e seus prazeres, sendo, ao mesmo tempo, protagonista e antagonista da narrativa, o ponto de convergência entre as histórias que se cruzarão ao longo das oito partes que compõem o romance.
Na primeira parte, intitulada "Palma Gira", o autor nos apresenta Zuza, o bêbado da cidade, que, no entanto, parece ser aquele que tem a visão mais lúcida do efeito da festa sobre as pessoas. “Tudo girava ao redor de Zuza: vira-latas, pessoas, casas, carros, carroças, árvores, passarinhos, nuvens, o Sol, as estrelas”. Os outros personagens se apresentarão na segunda parte, "O Desfile", título que não reporta apenas ao desfile carnavalesco, mas também à vitrine de uma gama de tipos e personalidades que se mostrarão na trama como as irmãs Maroca e Alzira, o médico Juarez e sua esposa Jacinta, Noé, Tavinho, Néo Bento, Rocilda e o marido traído, Viriato. Alguns querem fugir, como a condenar a festa, o comportamento apoteótico das pessoas, porém, ao colocarem suas cadeiras na calçada, ao abrirem as portas ou janelas de suas casas, já não estão mais a salvo do efeito “destrutivo” do carnaval.
A realidade de Palma é descrita em uma linguagem realista, crua, sem pudores: “Enquanto Dalva arrumava a cama, Néo Bento se dirigiu ao banheiro. Entrou, fechou a porta, deixou os chinelos ao pé dela [....] uma barata passeava ao redor dos chinelos... [depois] puxou a cordilha da bomba. A descarga de água provocou um redemoinho de fezes.” Mais adiante, a narrativa atinge um tom apocalíptico, no entanto, as palavras proféticas saem da boca dos animais como nas fábulas. Vale ressaltar que a fabulação faz parte de uma das principais características do absurdo utilizado por Nilto: “Súbito o barrão ergueu as patas dianteiras e se pôs a falar: ‘nada mais sujo do que o mais limpo, nada mais limpo do que o mais sujo’ E, voltando-se para Silveira, sorriu”.
Os paradoxos, como o sagrado e o profano, parecem unir-se em Carnavalha. São claras as intertextualidades bíblicas: a destruição de Sodoma e Gomorra, a tentação de Cristo, as trombetas do Apocalipse. Mas, afinal, as visões de Zuza seriam os prenúncios da desgraça, de sua própria desgraça? Seria um profeta ou um simples bêbado? “Zuza arregalou os olhos. Na torre, a coruja piava [....] corriam e zanzavam cachorros, gatos, galinhas, porcos, bodes... Uma profusão de animais nunca vista [....] e de todos os lados surgiram homens, mulheres e crianças,... furiosos, aos gritos, partiram contra os animais”.
Na contramão desse discurso alucinante, temos um escritor fiel às nossas raízes, fiel às descrições peculiares e psicológicas de uma cidadezinha do interior e seus tipos, assim afirmou Manoel Hygino sobre o universo de Nilto Maciel em seu artigo “Rebelião em Palma”, de dezembro de 2005, em Belo Horizonte: “O mundo imaginário de Nilto Maciel é rico em figuras raras, mas no fundo, localizadas e identificadas aí pelos sertões. É gente como qualquer outra, com as idéias mais comuns ou raras, claras ou birutas”.
Vale destacar que, da quarta à sexta parte, na forma dos antigos romances de fragmentos do século XVIII, o autor passou a colocar sob os títulos epígrafes de outros autores, porém, privilegiando os cearenses como: Francisco Carvalho, Moreira Campos, Carlos Augusto Viana, Dimas Macedo, Sânzio de Azevedo, Juarez Leitão, Natalício Barroso, Adriano Espínola, Batista de Lima, Márcio Catunda, Alcides Pinto, Virgílio Maia, Floriano Martins, Linhares Filho, Pedro Henrique Saraiva Leão e outros.
É importante ressaltar que Nilto Maciel detém uma vasta obra literária e que, há anos, é um dos principais divulgadores de nossa produção por todo o país com a revista Literatura, a revista do escritor brasileiro. Carnavalha, seu novo romance, demonstra também sua visão ácida sobre a nossa realidade, diríamos até, uma visão pessimista, mas que, ao mesmo tempo, retrata nossa essência festeira, como diria Zuza: “Podia ser carnavalma”.


[1] Carmélia Aragão faz mestrado em Literatura na Universidade Federal do Ceará (UFC) e é autora do livro de contos Eu vou esquecer você em Paris, ganhador do III Edital de Incentivo às Artes (Secult).
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