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sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Belíssima Cangalha (Reynaldo Domingos Ferreira)



É difícil ficar indiferente ante o lirismo da prosa de José Humberto Henriques, em CANGALHA, romance dedicado ao varal dos ventos ou das ventanias, que narra a saga familiar dos Assunção, desde seu patriarca – Major Fernão Zulião – bandeirante deixado no caminho, porque atacado de febres, em terras confluentes de Minas e Goiás, até Jerome da Cangalha. Este narrou ao autor como foi que o pai, Prospério Coladino Assunção, deixou-lhe a vida de certa forma madrasta, de certa forma até que doce, de certa forma nada.
Escrito, como se vê, em estilo barroco, com fortes inclinações para o fantástico, CANGALHA mostra nosso homem do interior, dotado do furor ingenii - de acordo com alguns mestres do barroquismo - pelo qual desenvolve o egocentrismo, que o leva à melancolia, à solidão e à falta de atrativos para continuar vivendo. Nessa perspectiva, pela linha narrativa, vê-se então um universo de temas opostos, que se confrontam entre o sublime e a realidade às vezes mais repulsiva do homem, como é do espírito barroco.
Não é de se estranhar, portanto, como advirto, que alguém, furtando-se à força do lirismo da narrativa e de seu propósito religioso, considere o livro grosseiro e de passagens asquerosas. Tem-se de estar preparado para tudo diante de uma obra desse porte, dessa envergadura, em que autor joga com a ambigüidade, admitindo influência do escritor inglês, Laurence Sterne (1713-1768), um dos criadores do romance moderno, que não só explorava o jogo de palavras, como também usava pontuação de ordem muito pessoal.
O autor revela, à guisa de prólogo, que a história da família Assunção lhe foi narrada por Jerome da Cangalha, filho bastardo, mas depois legitimado em cartório, de Prospério Coladino Assunção, de quem não só herdara semelhança física – o que se podia comprovar por um retrato que trazia no bolso – mas também as possessões de terras situadas às beiras do Arapuá, chamadas inicialmente de Fazenda Patativa, mudadas mais tarde para Maracangalha e, finalmente, para Cangalha, que passou a ser assim alcunha de Jerome.
E o que era a Cangalha? Pode-se dizer na maneira arrevesada do autor, que tirante os arredores muito juntos do Arapuá, era uma palma de mão, um estirão de planície muito comportado de declives, sendo preciso esclarecer-se, entretanto, que ia além dos dois mil hectares, quando inteira, nos tempos de Jerome, situada pelos lados de Abaeté, Patos e Paracatu, próxima, portanto, à atual Brasília. Era, na verdade, uma imitação de planície que podia ser chamado de brinco de terra. Gema. Por sua vez, os acidentes - morrotes e murundus, pirambeiras e esbarrancados, tabocais de brejo, lasca de cascabulho, corte de lajedo, faixas sem água, outras com sobra, as veredas vertenciais, os capões de mato e capoeira, os espigões espichados e pesados de capim gordura – eram todos muito sinceros de tamanho, como o autor descreve.
Confesso que, ao conhecer pela prosa vibrante e poética de José Humberto Henriques a belíssima Cangalha, com seus incríveis personagens, não tive como deixar de lembrar da Jacuba, fazenda entregue à decadência, ao marasmo, que eu costumava visitar a cavalo, ao final dos anos cinqüenta, pra lá do Capão da Onça, no Triângulo Mineiro. A sede era um casarão antigo, ao estilo colonial português, de alicerces de pedra tapiocanga, esteios de aroeira e adobe, com grandes portas e janelas, estas distribuídas tanto para o nascente como para o poente.
À entrada da fazenda, havia uma grande e secular gameleira, sob cuja sombra amarrávamos – eu e meu cunhado - os animais, ao lado dos carros de bois sempre encostados. No topo da escada de pedra do casarão, à soleira da porta de entrada, nos aguardava Zé Onofre, herdeiro das terras da Jacuba, homem de rompante, tipo viril, queimado do sol que, pela constituição física, magra, esguia, dava mostra de não ser um acomodado, mas afeito ao trabalho duro do campo.
Não se compreendia, portanto, pela compleição do proprietário, por que as terras da Jacuba, de massapé bruto, se mostravam tão abandonadas. Ante minha indagação, meio que fechando o olho esquerdo para espantar a fumaça do cigarro de palha, Zé Onofre se queixava da eterna falta de crédito para tocar a lavoura, de dívidas que se acumulavam, de ano para ano, junto ao Banco do Brasil e, com a lerdeza da prosa dos mineiros, debulhava uma série de outros reveses que o impediam de tornar as terras produtivas, como teriam sido no passado, segundo notícias trazidas ao presente pelas fotos colocadas nas paredes e sobre alguns móveis de seus bem situados antepassados.
A mulher de Zé Onofre, tímida, medrosa, acuada, raramente aparecia na sala para nos cumprimentar ou dar boas-vindas. A água e o café ralo, de sobra da borra adormecida no coador, como desconfio, eram servidos pela criada sobre a qual o proprietário parecia ter também completo domínio. Pois a prosa de José Humberto Henriques me traz de repente senão a reconstituição da arenga do Zé Onofre – destituída certamente dos ornamentos literários da do escritor – pelo menos o ambiente tradicionalista, reacionário, da Jacuba, que, ao que suponho, ao longo desses anos, em nada deve ter mudado.
Além disso, percebo que, como Zé Onofre, com quem eu costumava ficar horas conversando, o autor de CANGALHA, embora afirme que não deve um homem de pronto demonstrar um prazer, pois lhe fica a alma superficial, não consegue dissimular a nostalgia que também sente de seus tempos de infância, que guarda como se fora uma de suas mais secretas obsessões. Haverá por sinal, acredito, um dia, estudiosos da obra de José Humberto Henriques que se deterão especificamente na questão do relacionamento dele com os seus personagens. Pois, ao que se observa, existe um conflito latente entre eles, não se sabendo delimitar, com precisão, qual é o território de um e o dos outros, gente com seis dedos nas mãos, de pregas entre os dedos, um testículo, três testículos, duas cabeças no desavergonhado, papos, manchas nos rostos, mamas sob as axilas e outros aleijões de metafórico alcance, como observa Hélio Pólvora, na boa apresentação do livro.
É bem possível que neste caso específico as palavras do escritor alemão Hermann Hesse (1877-1962), em um de seus textos autobiográficos, encontrem algum sentido, quando o autor de “O Lobo da Estepe” diz: Quase todas as obras em prosa que escrevi são biografias da alma e nenhuma delas se ocupa de histórias, de complicações, nem de tensões. Pelo contrário, todas elas são basicamente um discurso no qual uma pessoa singular – aquela figura mítica – é observada em suas relações com o mundo e com o seu próprio eu.
De fato CANGALHA é basicamente um discurso em que o autor, essa pessoa singular, como diria Hesse, utiliza personagens fictícios - meras peças funcionais - para expor suas relações com o mundo e com o seu próprio eu, extremamente carente, a meu ver, de complementação, seguindo a linha existencialista, que acolho, do filósofo dinamarquês, Sören Kierkegaard (1813-1855).
Essa complementação - como é preciso observar - é de ordem metafísica, essencialmente mística, mas, na contemporaneidade, assume um tipo de inconformismo gerado pelo fato de o indivíduo se sentir como homem-fração, sem importância e sem propósito para si mesmo, senão como elemento constitutivo do corpo social. O que conta, como explica James Collins, em “El Pensamiento de Kierkegaard”, não é a qualidade do juízo e do caráter individual, mas da opinião pública, da pressão que ela exerce sobre cada um de nós.
Isso explica de algum modo, a meu ver, a opção de artistas contemporâneos, deístas e ateístas, pelo estilo barroco, tendo em vista o princípio de que as formas de expressão estão ligadas às formas de recepção. Esse poder da opinião pública atual fez ressurgir, portanto, o barroco, que já prevaleceu, na Península Ibérica, nos séculos XVII e XVIII, quando o poder despótico era exercido pela autoridade (Igreja, Estado, Sociedade). Como explica Ana Hatherly, em “A Experiência do Prodígio”, numa sociedade em que os desníveis de toda sorte eram enormes, e em que os detentores do poder eram praticamente onipotentes, seria preciso a todos (e proporcionalmente aos interesses em jogo) conquistar o favor dos poderosos, inclusive os do além, os do outro mundo.
As complicadas obras daquele período – como as de hoje, de leituras cifradas – se destinavam, portanto, a um público de “especialistas”, que se compraziam e se deleitavam ante suas formas originais, como atualmente o fazem alguns professores, mestres universitários, que se exercitam no esnobismo, isto é, em estéreis e prolixos comentários a fim de tentar explicar vazios simbolismos por eles sugeridos, inventados, extraídos dos mais corriqueiros procedimentos de inexpressivos personagens.
“CANGALHA”, de José Humberto Henriques, que tem registro das oberabas, é pois autêntico romance de estilo barroco, assim como o é “MEMORIAL DO CONVENTO”, de José Saramago, que, a propósito de narrar a história da construção de um convento em Mafra, no século XVIII, faz a crônica também da humilde e pobre família Mau-Tempo, lavradores do Alentejo, desde épocas muito distantes até a chamada “Revolução dos Cravos”, de 1974, sem esquecer a de outras duas famílias, a dos Sete Sóis e a das Sete-Luas.
Ambos os escritores não só retomam formas do passado - o barroco é pródigo em opções - como também inventam outras de cunho mais moderno, algumas abeberadas de cineastas que, no afã de épater les bourgeois – como dizem os franceses -, fragmentam histórias, personagens e subvertem por completo a linha cronológica das narrativas, que, de tanto uso, já se tornaram pouco originais. No caso do romance de José Humberto Henriques, por exemplo, há congelamento de seqüências, que são mais adiante retomadas, no desenrolar dos acontecimentos. É o que acontece, por exemplo, com a chegada do negrinho Miquilino, que tinha jeito especial de dizer o já dito, conduzindo um cego à fazenda do Major Fernão Zulião, pego defecando de cima de uma árvore, como é um quase costume dos mineiros do interior, insanos ou não.
Esse negrinho Miquilino é uma personagem especial, que atravessa três gerações dos Assunção, sofre as dores da família e por isso suporta de certa forma a estrutura da narrativa, muito bem arquitetada por sinal pelo autor. Foi testemunha do nascimento de Prospério em meio ao barro e à sujeira dos porcos, tendo prestado ajuda à mãe, Dona Oniça, a sair daquela imundície, levando-a, com a criança, para dentro de casa a fim de se lavarem, num episódio que, pela natureza do relato, lembra um pouco “SALÓ”, de Píer Paolo Pasolini (1922-1975). Miquilino se tornaria padrinho de batismo e de crisma de Prospério, que, por sua vez, se afeiçoaria muito a ele desde a infância. E com o padrinho, ao que se dizia, passaria a guardar semelhança, tanta, que os próprios pais, Joaquim Zodoaldo e Oniça, diziam, rindo a mais não poder, que parecia que o filho mamara em Miquilino. Foi ele, antenado nas novidades de fora, como assíduo ouvinte de rádio, quem escolheu o nome do caçula da família, Ueston Regildo, e acabou assumindo as rédeas da família depois da morte de Zodoaldo, primogênito do Major Fernão Zulião – figura dominadora do romance - cuja morte também ajudou a concluir.
É evidente que a impressão que causa uma obra, como CANGALHA, de característica muito própria – ao que ficou mais ou menos evidenciado, espero, neste breve comentário - é de ordem particular. É preciso reconhecer, porém, que se trata de amplo inventário dos costumes, das tradições, das crendices e superstições da gente do Triângulo Mineiro, desde os tempos da colonização portuguesa, como nunca, ao que me consta, se ousou fazer antes. Por isso é obra valiosa que coloca seu autor, José Humberto Henriques, entre os mais importantes escritores brasileiros da atualidade, embora, até o momento, pouco se saiba disso porque, neste país, pouco se lê. E menos ainda se divulgam obras desse nível, dessa qualidade. BELISSIMA CANGALHA!...
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sábado, 13 de dezembro de 2008

Carnavalha (Dias da Silva)



(...)
Carnavalha é recente romance. Romance bem original, diferente. Cheio de histórias de inúmeros personagens e sem história. É um romance em que o leitor depara personagens sem conta (sem protagonista), lineares, iguais no absurdo incompreensível da vida. São coisas tão ilógicas como a vida. Como num sonho. Os enredos – o romance não tem um enredo – estão no papel como saídos do inconsciente: sem um roteiro como é a própria vida, as pessoas e as coisas.
Francisco carvalho escreve na orelha do livro: “Seu discurso mistura ingredientes simbólicos como a realidade linear do cotidiano. O erudito e o popular se completam num paralelismo sintático onde até mesmo as reticências do narrador desempenham o papel de figuras de retórica”.
Ao longo do romance, prende a atenção da gente o predomínio, quase absoluto, da frase cortada, curta, fragmentada. Aliás, esse é o modo singular de escrever de Nilto Maciel. Sem frase de efeito e feita, o Autor, pelo súbito da expressão, deixa impacto dentro do leitor. Nilto Maciel é um artista na flexibilidade e manipulação da palavra.
(Publicado no jornal Binóculo nº 85, Fortaleza, agosto de 2008)
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quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

A Imortalidade pela Poesia (Henrique Marques-Samyn)


(Poeta Francisco Carvalho)

A morte é uma forte presença no mais recente livro de Francisco Carvalho, algo já evidenciado por seu título – “Mortos não jogam xadrez” (Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2008), aliás inspirado numa citação de Ibsen que serve como motivo para o poema homônimo, um dos mais belos do livro, onde lemos:

O amor é moeda falsa
não vale o pulo de um gato
mortos não jogam xadrez
no meio do quinto ato.

Esse cenário de desesperança, ao que tudo indica, tem raízes biográficas – afirmação em que parece haver algo redundante: sendo todos mortais, como seria possível para nós, demasiado humanos, não falar sobre a morte a partir de uma perspectiva biográfica? Não obstante, estamos aqui falando de um dos mais importantes poetas brasileiros, que ademais se debruça sobre um tema que, neste momento, lhe surge como urgente a partir de uma perspectiva existencial. Explicita-o o “Poema de aniversário”, obra em que o impecável domínio formal de Francisco Carvalho confere à dicção direta e franca uma rara riqueza estética, o que por outro lado torna a obra ainda mais contundente:

Estou numa faixa
etária em que as pessoas
costumam morrer.

Não se trata duma questão
de pessimismo. Velho otimista
não passa de uma fraude.
[...]

Um minúsculo trombo
nas artérias, e tudo desmorona.
Velho não tem pulso

nem o direito de ignorar
quando o bonde
chega ao fim da linha.

O que pode ser notado já por esses versos, e melhor constatado por uma leitura de todo o volume – onde encontramos verdadeiras obras-primas como “Explicação do corpo”, “Notícias de Canudos” e “Soneto para uma Rainha”, entre outras – é que o estro de Francisco Carvalho, longe de esmorecer, faz-se mais forte perante a angústia trazida pelo peso do tempo. E assim, de fato, deve ser: se todos estamos condenados à morte, e se diante dela chance nenhuma temos no xadrez da existência, um dos caminhos para a imortalidade é precisamente a arte – e não resta qualquer dúvida de que a poesia alçará para a História o nome deste vate cearense que, ao longo de oito décadas, vem erigindo uma catedral de versos destinada à eternidade.
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segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Jam (Aldemar Norek)


(Aldo Bonadei, Abstrato, 1962)


encerrado no corpo
encapsulado
também preso à carceragem do tempo
– a pele (limite úmido e quente com o mundo)
rasgada pelos grafitos do acaso
rasuras arabescos (e
toda subtração
que as provisões do que há por dentro possam suportar)
a pele percebe que você quer sair – e arma a estratégia
que lhe contém.

(tem a ver com a raiva do corpo:
só o corpo odeia com a impureza de um hormônio
e ama com a mesma impureza
– a alma contaminada nem gravita em torno
com uma vaga impressão
daquilo que se apreende
ao universo torto:
consciência é mera distorção)

foi nos becos sujos desta alma (ou corpo?)
que falanges de anjos excluídos de olhar vago
fortemente armados
sitiaram os desejos os projetos
num último bonde antes do apocalipse
entre projéteis
e um deles (o que sorria)
olho no olho
quando seu joelho tocou a terra
esculachou:
perdeu maluco
perdeu

encerrado no corpo
o mundo é o que lhe foi amputado
porque pulsa e é sempre
além
por mais que você
se jogue em qualquer
abismo
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sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Invenção do desenho: do público e do privado (Adelto Gonçalves)

(Alberto da Costa e Silva)


I
Foi o nova-iorquino filho de lituanos Karl Beckson (New York, A Reader´s Guide to Literaty Terms, The Noonday Press, 1960, p. 119) um dos primeiros críticos a dizer, com acerto, que as memórias, como gênero literário, têm como objetivo inserir o indivíduo em seu coletivo. Entre nós, Massaud Moisés (São Paulo, Dicionário de Termos Literários, Cultrix, 12ª ed., 2004, pp. 279-280) observou que as memórias distinguem-se por constituir um relato na primeira pessoa do singular que visa à reconstrução do passado, com base nas ocorrências e nos sentimentos gravados no cérebro de quem as registra.
Distorcido pela memória, diz Massaud, o passado transfigura-se como se parecesse inventado, uma vez que o intuito reside menos no pacto autobiográfico estrito do que na reconstituição das lembranças que restaram do fluxo e refluxo dos dias. Como Proust Em busca do tempo perdido, diz, o autor, “ao rememorar os dias vividos, sabe que a sua visão é subjetiva, por vezes idiossincrática, mesmo quando trata das outras pessoas com quem lhe foi dado conviver”.
É o que faz Alberto da Costa e Silva (1931) em Invenção do desenho: ficções da memória, ao reconstruir fragmentos de uma vida e uma época, demonstrando a importância do contexto histórico na formação da subjetividade. Trata-se de um relato em que o autor rememora, reinterpreta e mesmo exorciza alguns fantasmas da história recente de Brasil e Portugal, trazendo-nos de volta como gente de carne e osso figuras que já fazem parte da História canonizada destes países no século XX. Ao mesmo tempo, estabelece uma íntima conexão entre subjetividade e História, ao partilhar histórias cotidianas de toda uma geração, ou seja, daqueles que neste século começam a se aproximar das oito décadas de existência. Nada mais justificável, portanto, o subtítulo que deu ao livro: ficções da memória.
A exemplo do que já fizera em Espelho do príncipe (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1994), memórias da infância, Costa e Silva dramatiza em Invenção do desenho a inter-relação entre o público e o privado, dando continuidade a suas lembranças pessoais do período que vai de sua adolescência até os 30 anos de idade, ou seja, do afastamento imposto pelos militares ao ditador Getúlio Vargas em 1945 como condição sine qua non para a redemocratização do País até a inesperada renúncia de Jânio Quadros à presidência da República em 1961.

II
Não é à toa que uma dessas lembranças situa-se por volta de 1946, quando o rapaz de 15 anos, que vivia no Rio de Janeiro, filho do poeta Da Costa e Silva (1885-1950), a caminho do consultório de seu irmão Mário, viu descer de um bonde um senhor parecidíssimo com o presidente Dutra. Era mesmo o presidente, que vinha acompanhado por seu secretário, sem a companhia de um só agente de segurança. Viera do Palácio do Catete rumo ao Centro do Rio de Janeiro, atravessando a Avenida Rio Branco em direção a um barbeiro que havia na rua de Santa Luzia, sem que ninguém dele se aproximasse, ainda que com discreto aceno de cabeça respondesse a um e a outro cumprimento. A recordação breve fica ali a título de não só mostrar que esse era um outro tempo, em que presidentes da República podiam circular pelas ruas como qualquer mortal, mas também para registrar a memória coletiva dos anos pós-guerra em que o Brasil viveu uma larga experiência democrática que viria a ser brutalmente interrompida em 1964 por um golpe militar. E serve ainda para resgatar a memória literária daqueles anos 40, tempo de revistas literárias a que o grupo de amigos que Costa e Silva freqüentava não se mostrou infenso, lançando também a sua publicação.
Data dessa época a amizade de Costa e Silva por Antônio Carlos Villaça (1928-2005), seu colega de ginásio que, àquele tempo, já havia traçado para si um futuro recluso de monge beneditino e de outras ordens religiosas, o que, se lhe pouparia de viver as experiências ditas normais de todo jovem, dar-lhe-ia todo o tempo de que necessitava para entender a santidade e construir uma obra literária que inclui ao menos uma obra-prima, O nariz do morto, o que não é pouco.

III
De sua juventude, recorda-se Costa e Silva do Congresso Internacional de Escritores, realizado em 1954 dentro das comemorações do IV Centenário da cidade de São Paulo e de vários de seus participantes, como Miguel Torga, com seu estilo “carrancudo e quase intratável”, um montanhês perdido na urbe, ou o norte-americano William Faulkner, que ficou quase todo o tempo no hotel, entre o bar e o quarto, e só compareceu a uma sessão plenária de poesia, ou do professor M. Rodrigues Lapa, que fascinou a platéia ao falar sobre as origens da poesia lírica medieval portuguesa.Por essa época, o jovem Alberto da Costa e Silva começou a se preparar com o objetivo de enfrentar os exames para Instituo Rio Branco, pensando na carreira diplomática que haveria de seguir por quase meio século. A partir daí, suas memórias, em meio a algumas lembranças estritamente pessoais, como o seu casamento com Vera de Campos Queiroz e o nascimento de seus filhos, concentram-se nos primeiros tempos desse novo ofício atuando na divisão comercial do Itamaraty, o Ministério das Relações Exteriores. Logo então, encantou-se com a história da África, a partir da leitura de Casa grande & senzala, de Gilberto Freyre, até tornar-se o africanólogo respeitado dos dias de hoje, sempre convidado a participar de toda coletânea de ensaios que se prepara sobre as relações entre Brasil e África.
Lotado na Embaixada do Brasil em Lisboa, o jovem diplomata nos anos 50 e 60, viria a fazer um grande círculo de amigos entre os intelectuais portugueses da época, como Ferreira de Castro, Urbano Tavares Rodrigues, Alfredo Margarido, Alberto de Lacerda (que já morava em Londres e vinha a Portugal só para encontrá-lo), E.M. de Melo e Castro, João Gaspar Simões, Vergílio Ferreira, Alexandre O´Neill, Sophia de Mello Breyner e Ruben A., que, inclusive, era funcionário da representação brasileira e assessor especial do embaixador Negrão de Lima.
Dessa época, recorda a visita que o presidente Juscelino Kubitschek fez a Lisboa, quando, entre outras atividades, teve de homenagear o escritor Vitorino Nemésio, presidente do Centro de Estudos Brasileiros da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, de quem nunca ouvira falar.
Mas bastaram-lhe algumas palavras do diplomata Costa e Silva sobre o autor de Mau tempo no canal, durante o trajeto de carro do Palácio de Queluz, onde estava hospedado, até o Campo Grande para que a saudação e o elogio a sua obra feitos por Juscelino na Universidade encantassem e até arrancassem lágrimas do escritor. Desse tempo, o diplomata, acostumado a conviver no Brasil com amigos que tinham pensamentos políticos diametralmente opostos, lembra a dificuldade que tinha em Lisboa em aceitar a escassez de pontes num Portugal assolado pelo salazarismo. “Ali, ou se era favorável ao governo ou da oposição, e só se procuravam amigos entre os que pensavam da mesma forma”, escreve.

IV
Com uma prosa delicada e extremamente lírica, Costa e Silva, em meio a outros momentos de sua vida pessoal, resgata ainda as peripécias de suas primeiras viagens ao continente africano, como a que fez como integrante de uma missão especial do governo brasileiro. Na Nigéria, conta que se surpreendeu ao conhecer uma cidade chamada Porto Seguro, um vilarejo tipicamente brasileiro, com pequenas casas de alvenaria, pintadas de branco, azul ou amarelo, em que algumas casas comerciais se destacavam porque tinham no alto das fachadas ou em placas de madeira os nomes Lima, Barbosa, Da Rocha, Oliveira, Medeiros, Sousa e Da Silva. Eram casas de agudás, ou brasileiros, descendentes de ex-escravos que haviam retornado do Brasil para a África.Como se vê este é também um livro de viagens. E não só daquelas que se faz através dos livros, trajeto igualmente cumprido pelo autor, cujo percurso intelectual teve início ainda na adolescência, com a leitura de clássicos na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, onde também ainda muito jovem começou a trabalhar, por indicação de Josué Montello. E é também um livro de retratos, e não só daqueles que privaram da amizade com o autor, mas também de grandes figuras que marcaram o século luso-brasileiro para o bem ou para o mal.
VAfricanista que escreveu livros já clássicos na historiografia brasileira como A enxada e a lança: a África antes dos portugueses (1992), A manilha e o libambo: a África e a escravidão, de 1500 a 1700 (2002), vencedor do Prêmio Jabuti de 2003 da Câmara Brasileira do Livro, Um rio chamado Atlântico: a África no Brasil e o Brasil na África (2003), Francisco Félix de Souza, mercador de escravos (2004) e Das mãos do oleiro: aproximações (2005), todos publicados pela Nova Fronteira, do Rio de Janeiro, Costa e Silva aproveitou também sua experiência de diplomata de carreira que serviu durante largos anos na África para contar uma história que é um sinal da devoção que ex-escravos dedicaram ao poeta Castro Alves (1847-1871) em Castro Alves: um poeta sempre jovem (São Paulo, Companhia das Letras, 2006).
Poeta de igual brilho e incontáveis méritos, como sabe quem leu seus Poemas Reunidos (Rio de Janeiro, Nova Fronteira/Biblioteca Nacional, 2000), recolha de trabalhos de oito livros anteriores, Costa e Silva, embaixador do Brasil em Portugal de 1986 a 1990, na República de Benim e na Nigéria, serviu na África em várias oportunidades, o que, a par da sabedoria livresca, lhe deu o conhecimento da terra e dos costumes de um continente tão múltiplo, o que lhe valeu o título de doutor honoris causa pela Universidade Obafemi Awolowo, da Nigéria.
Em 2002, publicou pela Academia Brasileira de Letras uma coletânea de ensaios literários, O Pardal na Janela, que reúne textos que já haviam sido publicados em O vício da África e outros vícios (Lisboa, Edições Sá da Costa, 1989). Foi ainda presidente da Academia Brasileira de Letras de 2000 a 2004.

___________________INVENÇÃO DO DESENHO: FICÇÕES DA MEMÓRIA, de Alberto da Costa e Silva. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 239 págs., 2007.
E-mail: sac@novafronteira.com.br______________________
Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br
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terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Contos versáteis (Fernando Py)






















É de estranheza a primeira impressão que nos causam os contos de A Leste da Morte, do cearense Nilto Maciel (Porto Alegre: Editora Bestiário, 2006). Pois, além da grande versatilidade de temas e tramas e o virtuosismo do autor, com um excelente domínio de linguagem, todas as histórias apresentam um quê de insólito muito bem encaixado no desenvolvimento geral. São contos de feição quase sempre surrealista, expondo muitas vezes o que há de fantástico e absurdo nas situações vividas pelos personagens, bem como a reação destas. Vejamos uns poucos exemplos: o caráter surreal das histórias se observa em textos como “Os dez dias de Raimundo”, onde um menino, nascido de proveta, mostra um desenvolvimento intelectual bastante precoce e, em dez dias, vive uma existência inteira, indo da juventude à velhice e à morte. Alguns contos são pura fantasia de crianças, como “Trem-fantasma”; outros exibem a realidade fundida ao sonho (“Paisagem celeste”) ou a um pesadelo (“Menino insone”). Em “Sombra não identificada”, o mundo real e o virtual se interpenetram. Por sua vez, “A música” representa um caso de existência virtual que se torna real por algum tempo, antes de regressar ao mundo virtual; em “O menino e o lobo” há uma fusão de caracteres, como se o menino fosse o lobo, e este o menino; em “O livro infinito” tem-se um jogo de desencontros de personagens; em “A leste da morte”, o indivíduo capturado simboliza o sujeito “estranho” como seria tratado pelos que o desconheçam e temem, algo semelhante acontecendo com o comportamento irracional da autoridade em “O último troiano”. Em “O invisível Isaías”, o personagem que ninguém vê ou conhece é certamente criado pela imaginação das pessoas (como o de um conto de Anatole France, ‘Putois’). Parecido com este é “A fila”, de um nonsense que lembra Kafka; já “Mea culpa” é uma espécie de parábola sobre a agressividade íntima que todos carregam consigo. O volume se encerra com “Águas de Badu”, no qual Maciel cria o possível futuro de um personagem sobrevivente da grande tragédia (a enchente) do conto “O burrinho pedrês” de Guimarães Rosa (em Sagarana). Assim estas histórias, tão diversas, devem agradar justo pela variedade e versatilidade – ponto positivo para o autor.
(Tribuna de Petrópolis, 15/8/2008, caderno ‘Lazer’, p. 5)
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segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Soneto (Ailton Maciel)

A Altamir Xavier



Palerma, sem escrúpu1os, pedante,
trêfego, com trejeitos pueris;
metido a gente sábia e importante,
com acervo demais em seus quadris!


Doente de acoria, intolerante,
ao olhar-se no espelho tão feliz
parece até uma miss debutante
com traços de fútil meretriz.


Fala demais. Rebola sem cessar,
canta fino, e aos domingos vai orar
na capela. É doente de acrania


e de acédia. Há dez anos que estuda
mas da série primeira nunca muda.
É cheio de desgosto e hipocrisia!
Fortaleza. 9/2/65
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sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Amém (Belvedere Bruno)

















A cada filho que partia, ela dizia amém. O que pensaria acerca das mortes sucessivas? Nunca entendi o porquê de tanto amém. Nenhum pranto ou desespero. Só conformação. Rememoro a face de cada um que se foi, os túmulos, as flores, a perplexidade dos que ficaram.
Um véu negro sobre a cabeça, os améns sem lágrimas, o olhar impassível; e a entrega plena retratada tão-somente no desfiar de rosários.
O tempo passava e sua existência seguia numa sucessão de rotinas vazias. O único filho que lhe restara era o elo que a mantinha, mesmo que de forma frágil, ligada à vida.
Onde guardara a dor e as indagações reprimidas?
Quando o último filho partiu, tudo transcorreu da mesma forma. Apenas quis que a deixassem só após o sepultamento.
Naquele dia, foi como se o seu coração se partisse feito uma taça de cristal jogada ao chão, e cada estilhaço representasse as tristes e sempre represadas dores de sua vida.
Chegando em casa, sentou-se na cadeira da varanda e, olhando para o céu, esboçou um sorriso. Nas mãos, tinha o véu envolvendo cuidadosamente o rosário. O semblante parecia, enfim, pacificado.
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terça-feira, 25 de novembro de 2008

Lobisomem (Clauder Arcanjo)



Sete nós na camisa, às avessas. Na noite de lua cheia, sem pressa. No breu da noite, na encruzilhada das veredas, o uivo da transformação. Espojando-se na terra ainda quente, descorado que nem flor de jerimum. Na casa-grande, sob os lençóis molhados, Francisquinha, com o corpo trêmulo de vontade, sonha com o corpanzil peludo e com aquelas garras a rasgar as suas carnes frescas e libidinosas. À meia-noite, a tramela da janela ringiu, e uma jovem de branco rasgou o véu da escuridão da madrugada. Sendo saudada pela canzoada enfurecida. Era junho, e, nas capoeiras, o estralado de cipó falava da farra-coito, libações sanguíneas, do lobisomem com a mula-sem-cabeça. Enquanto isso, no quarto principal da casa-grande, ao pé da Virgem Maria, os pais de Francisquinha, transidos de medo, agradeciam aos céus pela proteção da única, e recatada, filha.
Clauder Arcanjo — Professor clauder@pedagogiadagestao.com.br
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sábado, 22 de novembro de 2008

O velho, a velha e o violino (Viegas Fernandes da Costa)



Hoje as lembranças estão confusas e as pernas se enroscam em um tango solitário. Escuto as notícias do dia ao longe, mantra de sangue onde mergulham meus olhos; as mãos, suspensas no ar, caçando suspiros perdidos no éter. Quero parir o poema dorido abortado nos lábios - poema suspiro! Encontro-o na placenta do mundo; ao fundo, as cordas desafinadas de um violino que um dia vi tocado numa praça em Curitiba: dedos rugosos esgravatando sons num tempo conhecidos por aqueles ouvidos setuagenários e que por hora reconhecem apenas o tilintar das pobres moedas ao prato. E a chuva lava meu dia.
Hoje procuro o verso urbano que aquela senhora pendura à sacada: o verbo grafado nos olhos que buscam ao cio. Quero subir as escadas, bater-lhe na porta; a estrada, no entanto, devolve-me à praça e ao violino desafinado e infestado de cupins: gargalha a boca de moles gengivas ao som dos gemidos do arco às cordas. Que toca, desejo saber? Inaudíveis sinfonias, reconhecidas apenas por si. E dança a velhinha a polca imaginária: rotas chinelas, gretados os pés. Carrega consigo tão alvos cabelos, tão pobre vestido, tão poucos desejos. Mira seu homem que toca contente, ternura e lembrança do amante de ontem. Para onde migrarão, depois, tão flácidos corpos? À cama de tábuas, ao estrado de palha?
Busco o alento nas pias batinas ou sob o hábito da freira que me sorri todas as manhãs: os olhos devassos, as mãos e o rosário. É tenra. Escuta minha pele, arranha minha alma; amor nervoso às sombras dos muros. Não é o caso, agora; é claro o dia e os muros, iluminados, refletem sombras passageiras e apressadas. A polca, meu deus! A polca, das pernas de canelas tão finas! Como dançam as pernas e os braços que abraçam o vazio! É praça, e há toda esta multidão de juízes que reconhece a loucura ao ritmo de palmas, balança a cabeça e abandona centavos. Pálida razão de multidão que pasta em nossas cidades.
Há sempre uma história e muitos destinos: violino encontrado na lata de lixo. Sim, e a lembrança das notas fluídas em som, por que não? Arco improvisado, cordas choradas; e a velhinha que chega curiosa, escuta e entende que o dia chegara: há amores tardios. Assim, três eram os destinos - o velho, a velha e o violino - estes que vejo em minhas lembranças confusas. Estão aqui, neste banco que buscam meus olhos, nestes pombos que ciscam o chão, ainda que praça vazia, ainda que mortos se vão. Estão aqui, as mesmas mãos carinhosas, de senhora, que domaram seu rosto magro, tomaram seu corpo ralo, ensinaram-lhe o amor. Por isso sorri o sorriso de velho maluco? Não, de velho feliz, suponho, que conheceu a quentura de dormir abraçado e do passado lembra apenas os muitos violinos que seus dedos já tocaram. Não o reconhecem os músicos da filarmônica por trás de toda aquela barba, por trás de todo aquele riso. Siso, esperam sempre os que de sério se supõem. Não o reconhecem, portanto, em toda aquela praça tão sua, naqueles trapos tão seus. Passam senis, com suas tubas e flautas, suas cordas e percussões, ensimesmados e murchos, olhos no palco buscando aplausos, no anonimato da razão e do conjunto da orquestra. “Quem vai lá - perguntam alguns - com os cabelos desgrenhados?” “O tocador de tuba” – respondem uns, “O que soa a flauta” – afirmam outros. “Quem está cá?” – indago. “O velho do violino e sua velha dançarina” – sabem todos. Estão identificados na identidade do desvario.
Este verso urbano que sempre vi dependurado à sacada, preso às esquinas, esparramado sob os semáforos, diluído nestas lembranças confusas; viu-o esta que ora dança, e soube tomá-lo. Não o velho que meus olhos enxergam, mas de antanho o músico, dos tempos da tez louçã da atraente mulher que era: primeira fileira, poltrona central, suspiros perdidos no palco, naqueles olhos que nunca a viram, nos nervos atentos à música, o corpo teso na cadeira. Como era bonito então! E bonito lhe parece agora, também, porém seu! Dança-lhe de dia, compartilham o pão, a pobreza e a cama, e o recebe, ela, em seu corpo, tais quais arco e violino seus dedos delicados.
Anseio este poema onde busco enternecer-me: choque no concreto. Anseio piegas de chorar baixinho e sentir o alento do sol. Procurava-no ela: o poema e o profeta que roubara seu futuro. Tomou-lhe neste presente que vejo passar, aleatório e espectral, pelas retinas da memória. É bonita esta história que nunca aprendi a contar, que nunca souberam entender: viam apenas a miséria das roupas, o encardido desta que deveria parecer respeitável barba, o desarranjo do som e a flacidez da sua senhora. Sua senhora, enfim! Era tudo que viam, porém - doença, demência e fome - , esta multidão apressada e aprisionada em sua significância de gado. No entanto, a honra do abandonar do dia quando se punham em marcha aos lares infaustas massas dispersadas nas calçadas – tão cansadas! Recolhia seu caixote e seu instrumento, ele; ela, recolhia seu homem ao peito, e caminhavam lentos para onde minhas vontades nunca me levaram: vaga alusão à tragicômica despedida chapliniana. Andar curvado e claudicante, o dele; de princesa altiva, o dela, que conduz um príncipe fatigado e seu violino sustentando sob o braço.
Hoje as lembranças estão confusas e as pernas se enroscam em um tango solitário! Fujo das notícias embebidas em linfa, dos versos de alcovas, dos prazeres em casta carne sob os muros. Tudo que procuro é o alento deste encontro na praça: o velho, a velha e o violino, que já não estão mais. Como também eu há tanto já não estava. Tantos rostos que passam por esta praça. A alguns pergunto para onde foram, mas ninguém nunca os vira. Àquela vendedora de bonés, sim, que também por aqui andava naqueles tempos, que tanto reclamava dos barulhos do violino que lhe afastavam a freguesia, pergunto sobre o casal e seu instrumento, mas apenas me olha com a surpresa e piedade com que se olha para um louco. Então nunca os houve? Nunca houve esta história daquela moça ainda jovem, tão bonita, que sozinha se sentava na platéia para o admirar amoroso do violinista já maduro? Nunca houve esta história do desencontro e do vazio por tantos anos, e da desrazão senil, o esquecimento, deste músico que certo dia mirou no lixo o velho instrumento carcomido, improvisou-lhe as cordas, e foi tocá-lo à praça, numa Curitiba que nunca conhecera? Nunca houve esta senhora de peles flácidas, vestido pobre, finas pernas, a encontrá-lo e reconhecer sob tanta barba e velhice o homem maduro que nunca deixara de amar? Nunca houve assim, tampouco, a polca ao som indefinível de uma sinfonia inteligível apenas aos ouvidos da sua imaginação? Então nunca sentiu nosso músico o calor da carne, as mãos e o prazer daquela sua bailarina? E o alento que este poema urbano – reescrito a cada novo dia, as mesmas roupas, o mesmo som, a mesma dança – me trazia? Também não houve este alento?
“Queria parir o poema dorido abortado nos lábios” – disse-o. Descobri-me este poema abandonado em meio à praça estranhamente vazia. Da sacada, aquela senhora me abana nudez e promessas. Quero subir as escadas, bater-lhe na porta; a estrada, no entanto, devolve-me à praça e ao violino desafinado e infestado de cupins, às moles gengivas, à polca imaginária da sua senhora. Toca para mim, dança para mim! E a chuva lava meu dia...

Blumenau, setembro de 2005.
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terça-feira, 18 de novembro de 2008

Praga à vista! (Nilze Costa e Silva)



Chegamos à deslumbrante cidade de Praga, conhecida como a Pérola do Oriente e terra natal do famoso escritor Franz Kafka, autor dos badalados livros que li ainda na adolescência: A Metamorfose, O Castelo, América, O Processo e tantos outros. Outra moeda, outra cultura, outra história, outros costumes e valores. 

domingo, 9 de novembro de 2008

Soneto do Eram (Jorge Tufic)



A moldura da infância eram pitangas
esquecidas das telas de Van Gogh.
As cercas eram poucas e distantes,
só meninos brincavam na paisagem.
Desses confins recortem-se os brinquedos
feitos a mão das sobras de meu tio,
construtor da cidade, mestre fino
cujas mãos eram bálsamo e verniz.
Manhãs e tardes vinham para o sono,
bichos falavam, bandolins ao longe
tinham letras, figuras, sentimento.
Deste passado há lendas e mistérios.
Guarda cada um de nós o que lhe cabe
saber das coisas que ninguém mais sabe.
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quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Bilac, um jornalista bom de briga (Adelto Gonçalves)



I
O poeta Olavo Bilac (1865-1918), a exemplo de outros parnasianos, foi condenado ao ostracismo depois que as idéias que redundaram na Semana de Arte Moderna de 1922, realizada no Teatro Municipal de São Paulo, insufladas pelos ventos que vinham da Europa, afirmaram-se na sociedade brasileira. Seu nome passou mesmo por sinônimo de passadismo, formalismo, oficialismo e alienação. E seus versos tornaram-se alvo de chacotas, tal como a produção de outros poetas que, ao seu tempo, o tiveram como paradigma. De fato, os versos bilaqueanos, hoje, são velharias que só atraem estudiosos e um ou outro leitor interessado em conhecer a história da Literatura Brasileira.
Mas o que, geralmente, não se sabe é que, além de autor de versos grandiloqüentes e enxundiosos, o “príncipe dos poetas brasileiros” foi cronista de excepcionais qualidades. Basta ver que, a partir de março de 1897, foi quem teve a responsabilidade de substituir o genial Machado de Assis (1839-1908) nas páginas da Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro. E o fez com igual brilho, a tal ponto que muitas de suas crônicas parecem mesmo saídas da pena do bruxo do Cosme Velho.
Quem tiver dúvidas já pode compará-las sem ter de remexer papéis velhos nos arquivos, pois o professor Antonio Dimas, da Universidade de São Paulo, acaba de lançar Bilac, o jornalista em que reuniu em dois extensos volumes a maior parte das crônicas bilaqueanas saídas em jornais e revistas do final do século 19 e início do 20. Num terceiro volume, o de menor extensão, com prefácio do professor Alfredo Bosi, o organizador reuniu dez excepcionais ensaios em que mostra que o Bilac cronista pouco tinha do poeta indiferente às necessidades cotidianas, imagem que ficou por conta da revisão histórica comandada pelos modernistas.
Ainda que seus versos possam dar a falsa impressão de que viveria romanticamente nas nuvens, Bilac sempre usou a tribuna de que dispôs na imprensa para expor suas idéias (às vezes, equivocadas) e combater o que entendia que poderia representar entraves ao desenvolvimento da cidade do Rio de Janeiro, então capital da República, e do Brasil.
II
Lembra Dimas que seu objetivo não foi o de atribuir a Bilac múltiplas personalidades profissionais ou versatilidade inesgotável, aumentando-lhe a importância, mas mostrar outras facetas hoje praticamente desconhecidas de quem a história estigmatizara como poeta oficial tão-somente.
De fato, depois de começar a carreira como poeta parnasiano, Bilac como homem público terminaria seus dias como baluarte de causas cívicas de interesse nacional, como a defesa do serviço militar obrigatório, e defensor da reurbanização do Rio de Janeiro e da renovação de hábitos sociais e comportamentos políticos.
Chegou ao ponto, como empreendedor, de criar em Paris uma agência para a divulgação de produtos brasileiros na Europa. Nessa tarefa, aliás, teve a colaboração do médico e também poeta parnasiano Martins Fontes (1884-1937). Depois, magoado com acusações de que se teria valido de recursos públicos para essa tarefa, fechou as portas da agência e retornou ao Rio de Janeiro.
Solidário com seus pares, Bilac nunca deixou de defender o escritor como categoria profissional. Se hoje ainda é comum a existência de pequenos editores que escamoteiam números e adiam o quanto podem a prestação de contas, imaginem o que seria há mais de um século.
A essa época, era famoso no Rio de Janeiro o editor Baptiste Louis Garnier (1823-1893), ou apenas B.L.Garnier, não só pela qualidade dos autores que publicava, mas também porque teria explorado descaradamente escritores como Gonçalves Dias (1823-1864), José de Alencar (1829-1877), Casimiro de Abreu (1839-1860), Álvares de Azevedo (1831-1852) e Aluísio Azevedo (1857-1913), entre outros, a tal ponto que era mais conhecido como o Bom Ladrão Garnier.
Bilac não deixaria de assinalar que a outra editora famosa da época, a Laemmert, não ficava atrás na arte de esbulhar escritores. Estabelecidos no Rio de Janeiro, esses editores europeus, supostamente, passavam-se por beneméritos do ainda incipiente mercado editorial brasileiro.
Numa crônica publicada na revista A Bruxa, em janeiro de 1897, exumada por Dimas, Bilac lembrava que, se outros profissionais, como o sapateiro, o advogado, o médico e o alfaiate, dispunham de leis que lhes asseguravam a plena posse dos seus direitos, não havia sentido em que o escritor continuasse à mercê da vontade ilimitada do capitalista que adquirira, geralmente, por uma ninharia, o direito de publicar em primeira mão a sua produção intelectual, fazendo-o depois indefinidamente à revelia do autor.
Bilac sabia cobrar por seu trabalho para a imprensa à base de colaborações, tornando aquilo uma atividade profissional por quase duas décadas, que se não o tornaria rico, pelo menos servia para cobrir despesas mais prementes, a exemplo do que fizera décadas antes Camilo Castelo Branco (1825-1890) no Porto.
III
Observa o professor Dimas que, das muitas crônicas que Bilac deixou sobre o teatro, a grande maioria incide sobre aspectos práticos e não estéticos, lembrando que o cronista ia quase todos os anos a Paris, de onde trazia como referência o que via nos teatros franceses, cujas companhias, vez por outra, aportavam no Rio de Janeiro.
Homem prático, porém, Bilac sabia que, antes de exibir um teatro de primeiro mundo, o Brasil precisava de obras de infra-estrutura que o colocasse nos trilhos do desenvolvimento. E não exigia do incipiente teatro carioca o que vira no teatro francês. Antes, fazia sugestões para que melhorasse de nível. “Dir-me-ão os regeneradores que o povo da América do Norte, tendo a nossa idade, já tem teatro e autores. Mas o povo da América do Norte, por circunstâncias que não vêm agora ao caso, desenvolveu-se prodigiosamente e fabulosamente e, antes de ter teatro, teve indústria, teve comércio, teve administração, teve estradas de ferro, teve navegação, teve autonomia”, escreveu em crônica publicada na revista A Bruxa em 21/2/1896. Nesse texto, lembrava que ninguém pode querer que “o nosso pobre povo tenha teatro, antes de ter as outras cousas que está muito longe de ter e que, valha a verdade, são infinitamente mais necessárias que teatro”.
E não deixava de ter razão porque o centro do Rio de Janeiro desse tempo, antes da abertura da Avenida Central (hoje Rio Branco) e da demolição do Morro do Castelo, era uma cidade suja, cheia de trapiches, estaleiros, depósitos, pardieiros e tavernas suspeitas em que formigava “uma população macilenta e triste”, como observou o próprio cronista num texto de 23/6/1901 publicado na Gazeta de Notícias.
IV
Diz Dimas que, a par de sua poesia ao gosto da época e de sua oratória impecável, a extraordinária popularidade de Bilac talvez se explique também pela sua capacidade de embaralhar, com delicadeza, detalhes de sua vida pessoal com sua atividade pública e externa de jornalista, estabelecendo uma intimidade implícita com o leitor. Como prova, o professor reproduz trecho de uma crônica publicada na Gazeta de Notícias, de 16/2/1908:
Já lá se vão vinte anos… Nesse tempo, Zola era o autor da moda. Todos nós, rapazolas que começávamos a escrever, poetas incipientes, que já nos julgávamos gênios e prosadores bisonhos, que já nos considerávamos glórias nacionais -- todos nós tínhamos a mania do “naturalismo”, do “documento humano”, da “tranche de vie”. E, alta noite, enquanto os “burgueses ignóbeis”, dormiam -- saíamos a correr estalagens, baiúcas, alforjas. Às vezes, chegávamos ao extremo do disfarce espetaculoso: saíamos de casa, sem gravata, vestindo blusas de zuarte desbotado e fumando cachimbos que nos davam náuseas. Quase todas essas excursões, que eram verdadeiramente de pândega, mas que nós solenemente afirmávamos serem de severa documentação psicológica, iam acabar no Mercado, à hora em que os botes e as catraias chegavam, trazendo os peixes, as frutas, os legumes… Apanhávamos ali, muitas vezes, furiosas indigestões de documentos humanos e de ostras cruas! Mas a ilusão era magnífica: estávamos realizando e estudando praticamente as cenas do Ventre de Paris…
V
Nem sempre Bilac soube se desprender de seus preconceitos de classe, olhando para o resto do Brasil com a soberba de quem vivia no aristocrático bairro de Botafogo com os olhos voltados para o Atlântico e para a Europa. Talvez por isso não teve a clarividência para perceber no massacre perpetrado pelo Exército brasileiro contra famélicos camponeses do arraial de Canudos “o conflito entre a cultura oficial dominante e o messianismo sertanejo encarnado pela figura de Antônio Conselheiro”, como observa o professor Alfredo Bosi no prefácio. E fez coro com os jornalistas mal informados da época que viam nos jagunços de Canudos uma ameaça monarquista (?) à jovem República nascida de uma quartelada.
Bilac, aliás, foi sempre um poeta oficial, privando do convívio com presidentes da República, ministros e magnatas. Em troca, foi indicado várias vezes para representar oficialmente o Brasil em visitas a outras nações. No auge de seu prestígio, foi recebido em Lisboa em 1916 pelo presidente Bernardino Machado (1851-1944) e homenageado pela Academia das Ciências de Lisboa, tendo pronunciado conferência no Teatro da República e dado longas entrevistas aos jornais A Capital, O Século e A Opinião.
A essa época, era um nome conhecido em todo o mundo lusófono que já nada lembrava o jovem de 25 anos que, em 1890, atravessara pela primeira vez o Atlântico só para, apresentado por Eduardo Prado (1860-1901) e Domício da Gama (1862-1925), apertar a mão do grande Eça de Queirós (1845-1900) em sua “pequena casa do bairro dos Campos Elísios“ em Paris.

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BILAC, O JORNALISTA, de Antonio Dimas, Ensaios, Editora da Universidade Estadual de Campínas (Unicamp)/Editora da Universidade de São Paulo (Edusp)/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2006, 198 págs.; Crônicas, vol. 1, 899 págs.; vol.2, 573 págs. E-mail: vendas@editora.unicamp.br
__________________(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br
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domingo, 2 de novembro de 2008

Ó meu Deus! (Ailton Maciel)




I
Ó meu Deus! Ó meu Deus! Destrói a noite.
Eu não suporto o seu cruel açoite
No vento a repicar!...
Eu quero a luz; a noite o ser destrói,
Sua algidez o corpo me corrói
De vício e de pesar!

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

O verdadeiro analfabeto... (Tânia Du Bois)



“O verdadeiro analfabeto é aquele que sabe ler e não lê.”
(Mário Quintana)


Quanto tempo você tem para ler no seu dia a dia?

ANA: arruma tempo no dia em que não trabalha para praticar esportes, ver os amigos, ir ao cinema, mas... ler?
JOANA: começou a praticar ioga quando sentiu que estava faltando alguma coisa na sua vida; mas... ler?
DÓRIS: leva a vida a caminhar, vai trabalhar e, depois volta para casa e pede comida; mas.. ler?
RUTH: se sai mais cedo do trabalho, faz massagens, senão vai direto jantar e dormir; mas ..ler?
JOÃO: nas horas vagas, primeiro assiste futebol na televisão e depois vai correr; mas... ler?
Sejam quais forem as razões para não se ter o gosto pela leitura, constato que todos reclamam não ter tempo para mais nada além das atividades cotidianas.
Como diz Manoel de Barros “Todo mundo se ocupava da tarefa de ver o dia atravessar. Pois afinal as coisas não eram iguais às cousas?”
Podemos dizer que cada um tem uma incrível vida dentro de “caixas”, porque, para sentir da vida mais do que ela nos oferece, seria bom caminharmos ao lado da literatura; um bom livro retribui a você todo o tempo que lhe foi dedicado (geralmente faz as vezes de uma bela companhia), principalmente, quando fala de poesia. E mesmo assim, sentimos sem perceber a sua influência nas novas expressões adquiridas.
A dedicação à leitura leva-nos a transformar as informações em conhecimentos úteis e apaixonantes. Helena Kolody diz, nos poemas:

SIGNIFICADO HOJE
“No poema “Momento a momento
e nas nuvens muda o mundo
cada qual descobre a vida acontece
o que deseja ver” germina o futuro”

Resumindo, resta-nos a esperança de mudar, de apreender e de aprender a temperar melhor o nosso tempo. O importante é permanecermos sempre com o sentimento de sonhar e acreditar que a leitura irá nos trazer sabedoria e prazer.
Permita-se desfrutar da deliciosa sensação da leitura, saboreando Nelson Ascher, em O Sonho da Razão, no poema Definição de Poesia:

“Poesia, ponte acima
de abismos não abertos
ainda ou flor que anima
a pedra no deserto

e a deixa logo prenha,
é régua que calcula a
linguagem e lhe engenha
modelos de medula”

Lembremos sempre de Mário Quintana, ao escrever “Que o verdadeiro analfabeto é aquele que sabe ler e não lê”.
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quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Soneto para Thiago de Mello (Jorge Tufic)


(Thiago de Mello)


Nossa época, Thiago, está no sempre.
Aumentam bocas, mas o verde cresta;
na quietude do azul faltam bandeiras
da paz que alegre a estrela da manhã.
Nosso tempo, Thiago, amplia os braços
que se estendem nas linhas do papel;
quer seja o tempo de empinar saudades,
quer seja o tempo armado da poesia.
Nossas vozes, Thiago, entram no espaço
das torres de babel como se fossem
peixes de águas secretas, duradouras.
Nosso estatuto, Thiago, são domingos
que iluminam teus versos, plantam minas
para explodir com todas as rotinas.
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domingo, 19 de outubro de 2008

Cidade (Emanuel Medeiros Vieira)

(Em memória do amigo Pingo, que nos deixou nesse outubro)



“A verdade é feia. Temos a arte a fim de que a verdade não nos mate.”
(Friedrich Nietzsche.)


Avisto a cidade – o dia surgido,
planalto seco.


Já não consigo contemplar a vida,
soberano exílio,
em busca de outro mar,
da penúltima gaivota,
da ilha do coração ausente.


Sim, avisto a cidade,
céu sem mediação (parece um teto),
azul pleno,
sol de outubro,
à espera do cheiro de terra molhada depois da seca
(mangueiras em flor),
sempre esperando, sempre.


Avisto a cidade,
os primeiros ruídos,
o cerrado e uma flor retorcida,
um cheiro de morte,
sim, aquele cheiro.


A morte ganha sempre.
(Tem mais tempo.)


Então: uma noite sucedendo-se à outra noite:
sempre.

(Brasília, outubro de 2008)
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quinta-feira, 16 de outubro de 2008

À minha mãe (Ailton Maciel)
















I
Minha mãe, quando contemplo
Teu santo vulto formoso
Brilhando no santo templo
Do coração meu queixoso!
II
Minha mãe, quando te sinto
Cheirando à rosa tão linda
Que viça no labirinto
Do meu viver que é rosa ainda;
III
Minha mãe, quando te vejo
No campo azul florestal
Entre um canto e um voejo
Do meu soluço lirial;
IV
Minha mãe, quando, afinal,
Te vejo escutando linda
Um pobre madrigal
Entre prole tão infinda...
V
Minha mãe, te quero tanto,
Te adoro com tanto amor,
Não posso dizer-te quanto
Te vejo no resplendor!
VI
Um desejo eu tenho insano
De te beijar de mansinho,
Sem te causar nenhum dano,
Cheio de amor e carinho!

13/7/59
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terça-feira, 14 de outubro de 2008

A flor (Teresinka Pereira)

















Esta manhã
tirei uma flor da jarra
e saí pelo mundo.

Na calçada da rua
a flor murchou
ao notar o assombro
dos meninos pobres
que jamais tiveram
a oportunidade de ver
um bosque florido
ou um pomar frutífero,
mas ajuntam papel de lixo
para reciclar.

No abismo de suas vidas
eles são criticados porque
andam sujos e sem consciência.

Joguei a flor no chapéu
de um velho mendigo
que me pediu "uma esmola
por amor de Deus."
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sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Dois sonetos de Jorge Tufic





PALÁCIO NEGRO (ALCÂNTARA-MA)


Para Luciano Maia


É um palacete e pesa neste chão
que afunda nas ruínas, sempre lerdas;
estas fazem pensar ganhos e perdas,
gemendo as telhas sobre o casarão.
O limo cresta e nada lhe diz não;
paredes e janelas, hoje esquerdas
ao fasto inútil delas restam cerdas
da escova a reluzir no jaquetão.
Pedras são de Lioz . O tempo rouco
nos quer tirar do solo provisório,
mas o sonho é maior do que ser pouco.
Uma foto de Alcântara: o olhar
que ainda nos vê de um ponto obrigatório...
tudo sabe que a culpa foi do mar.


SONETO DE ALCÂNTARA II

(os dedos do anjo)


Um anjo sorridente é ver-se além
da pedra e do barroco no detalhe
sobre ferro lavrado ou nesse entalhe
da madeira senhora de ninguém.
Ao modelar-se ao fogo o aço tem
quimeras e portais; que se trabalhe
a fé neste suplício talhe a talhe
que ao pó se deitam como ao pó se vem.
Condes, barões, ourives, comerciantes,
torres, fachadas, ícones, postigos,
são torvelinhos: dormem nos mirantes.
Anjos indicadores, estes, sim,
têm seus dedos na base dos perigos,
apontam sempre para o mesmo fim.
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segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Sanha (Clauder Arcanjo)

















Na rua,


dois postes irmanados,


um burrico abandonado.




Na casa,


dois seres separados,


um amor vilipendiado.




E eu com os versos sem rima,


em abandono,


desprezados.




Na sanha da métrica,


sumiu o arpejo,


faltou-me o soneto...




E me sobrou este vazio...


maior do que o mundo,


maior do que a poesia.



Mossoró-RN, 08/06/2007

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sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Um romance (?) da cidade-monstro (Adelto Gonçalves)



I

Lançado em 2001, Eles eram muitos cavalos (3ª ed. São Paulo: Boitempo Editorial, 2005), de Luiz Ruffato, é, hoje, unanimidade na crítica. Contemplado com os prêmios Machado de Assis de Narrativa da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), ambos de 2001, tem sido não só elogiado em recensões em jornais e revistas como suscitado estudos nos meios acadêmicos, inclusive fora do Brasil. Apontado em 2005 como a quarta obra mais importante da recente ficção brasileira, já foi lançado na Itália, França e Portugal, além de ter recebido uma adaptação para o teatro pela Companhia do Feijão, que também recebeu prêmios por essa encenação.
Exemplo desse reconhecimento é o livro Uma cidade em camadas: ensaios sobre o romance Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato, que reúne 15 ensaios de estudiosos do Brasil e do exterior, todos escritos a partir do livro mais conhecido do escritor para pensar uma “obra em processo“, como o define Regina Dalcastagné, professora de Universidade de Brasília, na apresentação que escreveu para a publicação. Organizado nos Estados Unidos pela professora Marguerite Itamar Harrison, doutora em Estudos Portugueses e Brasileiros pela Brown University e professora assistente no Smith College, em Northampton, Massachusetts, o volume constitui uma homenagem coletiva ao livro de Ruffato.
Como bem observa Marguerite Harrison na introdução, a cidade do título deste livro de ensaios corresponde à cidade de São Paulo, uma das cinco maiores do mundo, embora em algumas listas já apareça em terceiro, o que, convenhamos, não é mérito nenhum. É um livro que “dialoga com outras cidades celebradas por escritores modernistas como Cesário Verde (1855-1886), Baudelaire (1821-1867) e Oswald de Andrade (1890-1954), entre outros, ao mesmo tempo em que compartilha espaço com outras cidades em foco na literatura urbana atual”, diz a professora.
Enfim, uma megalópe caótica, uma cidade ilimitada, cidade-monstro, cidade contaminada, tal como foi definida por Marguerite Harrison, e, ao mesmo tempo, única no mundo, tal a sua feiúra, sua desumanidade, a desorganização de seu trânsito, a poluição massacrante de seus ares, as águas sujas de seus rios mortos, a violência desmedida que campeia em suas ruas, a miséria de suas favelas que se propagam com a rapidez da Aids nos anos 80, ao lado de grandes blocos de concreto, os “galinheiros de ricos”, com seus portões automáticos, grades e seus guardas privados e armados até os dentes.
II
Os ensaios enfocam o trabalho de Ruffato sob diversos ângulos, desde a sua filiação ao Modernismo da década de 1920, especialmente aproximando-o não só da experimentação da linguagem de Oswald de Andrade, guardados os devidos distanciamentos de época, passando por comparações ligeiras com a Paulicéia desvairada, de Mário de Andrade (1893-1945). Vera Lúcia de Oliveira, professora da Universidade de Salento, Itália, por exemplo, filia o ritmo vertiginoso do texto de Ruffato a livros de autores modernistas dos primeiros decênios do século XX: Memórias sentimentais de João Miramar (1924) e Pau Brasil (1925), de Oswald de Andrade, Brás, Bexiga e Barra Funda (1927), de Alcântara Machado (1901-1935) e até mesmo Macunaíma (1928), de Mário de Andrade, considerados pontas-de-lança da vanguarda brasileira.
Há ainda análises sobre a posição do narrador, a pluralidade de vozes, que remete à teoria do romance polifônico do linguista russo Mikhail Bakhtin (1896-1975), a temática da degradação urbana, a cidade-personagem e cidade-mítica, como a Dublin de James Joyce (1882-1941), a Santa Maria de Juan Carlos Onetti (1909-1994), a Macondo de Gabriel García Márquez (1928) e o condado de Yokapatawpha de William Faulkner (1887-1962).
O título, Uma cidade em camadas, vem de uma definição do próprio autor, que chamou Eles eram muitos cavalos de um romance-cebola, ou seja, um romance que revela diversas camadas da metrópole paulistana. “A cidade representada no romance de Ruffato é uma cidade ilimitada, caótica, uma cidade contaminada, logo cidade-monstro, uma cidade em ruínas, sem cidadania”, define Marguerite Harrison.
A professora Lúcia Sá, da Universidade de Manchester, Inglaterra, prefere ressaltar a ausência de descrição de massas no livro de Ruffato, lembrando que a idéia da enormidade da cidade é dada pela multiplicação de histórias individuais. E repete o que Fanny Abramovich já havia apontado na orelha do livro, dizendo que Eles eram muitos cavalos é de um gênero difícil de definir: “Não sei se li um romance, se contos, registros ou espantos… Sei que me joguei voraz pelos setenta flashs, takes, zoons, avançando sobre a sufocante paulicéia”.
Lúcia Sá destaca ainda que, praticamente, não há proletários na São Paulo de Ruffato e o leitor jamais tem a sensação de que os trabalhadores são uma massa de seres idênticos uns aos outros, peças de uma engrenagem. E reconhece que o livro, isso sim, é marcado pelo espectro do desemprego. “Longe de ser descrito como uma situação de exceção, o desemprego aparece no livro como um estado de quase normalidade, enquanto o sonho de conseguir um bom emprego adquire, inversamente, ares de quimera irrealizável”.

III

Já a professora Leila Lehnen, da Universidade do Novo México, EUA, destaca que a literatura de Ruffato problematiza a questão na medida em que “o seu foco são menos as cidades – as grandes ou pequenas – e muito mais o fracasso de um projeto de modernização de uma concepção de progresso que passa pelas agruras da urbanização, tomada em todas as suas variáveis semânticas”. Em outras palavras: o livro “narra a implosão da polis enquanto espaço de atuação do contrato social”, diz.
Giovanni Ricciardi, professor de Literaturas Portuguesa e Brasileira da Universidade dos Estudos de Nápoles-L´Orientale, Itália, ressalta a dificuldade que os críticos têm para enquadrar a obra de Ruffato nos moldes já consagrados, a partir de um título um tanto esquisito, cuja origem está em versos de Cecília Meireles (1901-1964) no poema O romanceiro da Inconfidência, que o autor lembra em epígrafe: Eles eram muitos cavalos / mas ninguém mais sabe os seus nomes / sua pelagem, sua origem… E que servem para que o autor faça um paralelo com a gente simples que compõe suas histórias, gente da qual ninguém sabe o nome, a pelagem, a origem, gente que vive e se perde e morre na cidade-monstro sem deixar rastro.
Também Hélder Macedo, poeta, romancista e ensaísta português, professor catedrático jubilado da Universidade de Londres e do King´s College, onde foi titular da Cátedra Camões de 1982 a 2004, diz que Eles eram muitos cavalos “nem mesmo é pós-modernista no sentido em que a crítica, sempre desejosa de colocar rótulos, gosta de dizer que é tudo que modernamente se escreve e não se consegue rotular de outra maneira. Mas é um livro que só depois do Modernismo teria podido ser escrito”.
Para Nelson H. Vieira, professor de Estudos Luso-Brasileiros da Brown University, EUA, o texto de Ruffato “é uma das primeiras obras da literatura contemporânea a dar voz a uma massa heterogênea de gente marginalizada pelo sistema espacial, político, econômico, social e cultural”, ao expor o leitor a múltiplas experiências durante um só dia na vida cotidiana na cidade imensa de São Paulo, “sobretudo, a cenas nítidas da vida do anônimo trabalhador urbano, do homem simples, da mulher gasta, do favelado etc., que normalmente não são percebidos pelo observador alheio a esta existência e certamente não imaginados pelos planejadores em poder que inicialmente conceberam o abstrato espaço urbano”.

IV

De 2007, é também De mim já nem se lembra, romance epistolar de Luiz Ruffato, que vem acompanhado por uma separata com propostas de atividades para os professores de Letras em sala de aula elaboradoras pelas professoras Tânia Centurión e Mirella L.Cleto. Ambas lembram que a publicação de cartas como estratégia narrativa foi amplamente empregada nos séculos XVIII e XVIII. Em 1721, Montesquieu (1689-1755) publicou As cartas persas, que muito sucesso fez entre os nossos autores árcades. De 1761 é A nova Heloísa, de Rousseau (1712-1778), um best seller da época, composto basicamente da correspondência de cinco personagens.
Outro romance epistolar famoso foi escrito por Choderlos de Laclos (1741-1803), As ligações perigosas, de 1782, que reúne a correspondência trocada por um grupo de aristocratas que, por meio de intrigas e jogos de sedução, dedicam-se a destruir reputações alheias. Além desses, destacam-se Cartas portuguesas, atribuídas a Mariana Alcoforado (1640-1723), de 1669, Pamela e Clarice Harlowe, de Richardson (1689-1761), de 1740 e 1748, e Werther, de Goethe (1749-1832), de 1774.
Seguindo essa linha tradicional, Ruffato constrói um romance que começa quando o narrador, ao abrir uma caixa onde a “mãe abrigara seu coração esfrangalhado”, depara-se com um maço de cartas enfeixadas por um barbante. Escritas pelo irmão, vítima de um acidente, e dirigidas apenas à mãe, essas 50 cartas reúnem um passado, convidando o leitor a espreitar a memória de uma família com “olhos derramando saudades”, observa Heloísa Prieto no posfácio.
Compostas com a doçura da fala suave da gente de Minas Gerais, como diz Heloísa Prieto, as cartas tecem comentários sobre a dura vida na metrópole para aqueles que ficaram no interior do Brasil, ao mesmo tempo em que recompõem aspectos da vida brasileira, como os tempos difíceis vividos sob a ditadura militar (1964-1985), entremeados pela euforia coletiva proporcionada pelas vitórias internacionais do futebol brasileiro.
São escritas por um jovem de 26 anos que, na Grande São Paulo, a cidade-monstro, vai parar em Diadema, na região do ABCD (Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul e Diadema), pólo industrial e berço do moderno sindicalismo brasileiro – moderno, aliás, só no sentido de contemporâneo porque continua marcado pela ação de carreiristas e oportunistas – a uma época em que operários e sindicalistas mobilizavam-se para reivindicar o que um poder espúrio e ditatorial lhes havia arrancado.
Numa das cartas à mãe, o narrador lembra que “a gente vive debaixo de uma ditadura que prende e mata trabalhadores, que a única coisa que querem é mudar a situação injusta do país, mas a senhora nem fale isso aí em Cataguases não senão eles ainda prendem a senhora e dizem que a senhora é comunista”.
Pela leitura daquelas cartas escritas entre 1971 e 1978, percebe-se o drama comum de toda família brasileira de origem humilde, a luta pela inserção na sociedade burguesa, a conquista de um salário melhor que possibilite a compra de um imóvel pequeno, mas suficiente para fugir da asfixia do aluguel, um lugar melhor para viver e, finalmente, a compra de um automóvel, símbolo de status e da sonhada ascensão social. No livro, porém, o veículo é também símbolo da destruição, já que o autor das cartas morre num acidente automobilístico, abatido pela fatalidade, quando se dirigia à noite a Cataguases exatamente para mostrar à família um “fuscão 72, motor de 1500 cilindradas, amarelo colônia, muito bem conservado, uma tetéia, comprado na bacia das almas”.

V

Nascido em Cataguases (Minas Gerais), em 1961, filho de um pipoqueiro e de uma lavadeira, Luiz Ruffato é formado em Comunicação pela Universidade Federal de Juiz de Fora (MG). Para sobreviver, exerceu várias atividades profissionais: já foi, nesta ordem, vendedor ambulante de pipocas como o pai, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, jornalista, sócio de uma empresa de assessoria de imprensa, gerente de lanchonete, vendedor autônomo de livros e, novamente, jornalista, profissão que exerceu até 2003 em São Paulo, onde mora desde 1990. Desde então, procura se afirmar como escritor profissional.
Publicou dois livros de contos, Histórias de remorsos e rancores, de 1998, e (os sobreviventes), de 2000, ambos pela Boitempo Editorial, de São Paulo. É ainda autor do projeto Inferno provisório, composto por cinco volumes, dos quais três já publicados: Mama, son tanto felice e O mundo inimigo, de 2005, e Vista parcial da noite, de 2006. Eles eram muitos cavalos está publicado também na Itália (Milano, Bevino Editore, 2003), na França (Paris, Métailié, 2005) e em Portugal (Espinho, Quadrante, 2006).
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UMA CIDADE EM CAMADAS: ENSAIOS SOBRE O ROMANCE ELES ERAM MUITOS CAVALOS, DE LUIZ RUFFATO, de Marguerite Itamar Harrison (org). Vinhedo-SP: Editora Horizonte, 2007, 192 págs., R$ 37. E-mail: editora@editorahorizonte.com.br
Site: http://www.blogger.com/

DE MIM JÁ NEM SE LEMBRA, de Luiz Ruffato. São Paulo: Editora Moderna, 2007, 104 págs., Site: www.moderna.com.br
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br
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quarta-feira, 1 de outubro de 2008

A Zulene (Ailton Maciel)



Tu tens o talhe da açucena agreste
e o perfume sem par da rosicler,
tua alma é seda que o viver reveste
de amor, carinho, no doce viver.

Tu tens nos olhos o riso celeste
Das estrelas no céu sempre a correr;
Os teus adornos são candente veste
De sonhos lindos a resplandecer!

Teus belos sonhos são doces desejos
que te acompanham pela vida além,
dos céus em doces e festos adejos!

Tua beleza é criação divina.
Teus dons são aves que de longe vêm,
De Deus p’ra ti por onde o sol se inclina!

Fortaleza, 4/9/61
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AILTON MACIEL deixou alguns inéditos. Ailton Alves Maciel (nome completo) nasceu em Baturité, Ceará, em 7 de março de 1943. Em vida nada publicou, embora tenha escrito inúmeros poemas, romances e contos. Sua obra mais importante desapareceu. Talvez no incêndio doméstico que quase o matou, em Brasília, onde foi viver (e morrer) no início dos anos 1970. Sua morte clínica se deu no dia 22 de outubro de 1974. Apenas quatro contos se salvaram: "Santa Caçada", "O Touro", "O Careca" e "O Presente da Professora", publicado na revista Literatura n.º 24, de 2003. Outros onze fragmentos encontrados podem ser de contos e romances.
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segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Rita no Pomar (Cláudia Fonseca)



Solitária, amargurada, misteriosa. O romance Rita no Pomar, à primeira vista, é apenas o desabafo do que poderia ser uma simples mulher, como tantas outras, com seu cachorro Pet, único a quem ela tem coragem de contar seus segredos mais obscuros. Quem tem a oportunidade de ler esse breve romance pode achar, no início, que só se trata de um texto coloquial divido em capítulos simples, observados a partir das embaralhadas anotações de Rita em seu diário, ou das revelações feitas ao seu companheiro e confidente. Frases longas dão ao leitor a sensação de confusão, o que, acredito, tenha sido o intuito do autor Rinaldo de Fernandes, ao criar uma personagem que foge da grande São Paulo para viver em algum lugar perdido no litoral paraibano. Durante os momentos em que Rita interage com Pet, o que percebemos é um texto que reflete de forma simples e precisa uma conversa do dia-a-dia. Para criar um ambiente mais próximo e verdadeiro do que acontece no exato momento da leitura, as narrações de suas vivências são intercaladas com observações feitas ao seu cachorro. Tudo, na mesma frase. Ao embarcar nessa viagem, temos a oportunidade de entrar no universo de uma mulher que, a cada página, revela não só o seu passado, mas a sua ambígua personalidade. Os acontecimentos, contados a Pet fora da ordem cronológica, dão a sensação de ir e vir da estória. Os recortes de sua realidade são desvendados aos poucos, deixando lacunas em alguns acontecimentos. Mas, ainda assim, acabam se encaixando, como se cada trecho de seu relato estivesse esperando sua continuidade mais à frente. A variação é entre o morno e envolvente, mas a grande sacada está nas últimas linhas do livro. Rita abre seu coração e vai se mostrando ao longo desse enredo. Porém, apenas no final é possível descobrir (quem sabe?) quem realmente é essa surpreendente jornalista, que larga a vida em uma metrópole para viver em um abandonado terreno com pomar, na beira de uma distante praia, trabalhando como atendente de um simples restaurante de estrada.

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Claúdia Fonseca é jornalista carioca. Rita no Pomar é uma publicação da Ed. 7 Letras (RJ): http://www.7letras.com.br/
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