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sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Vasto abismo - quarta parte (Nilto Maciel)

























QUARTA PARTE

Ana vivia ultimamente triste. Quase não via seu pai. Deixou de ser aluna estudiosa e até repetiu o último ano do primeiro grau. Talvez se sentisse só. Por que seus pais não lhe “fizeram” uma irmãzinha? Repetia a pergunta de muitos anos atrás, quando confundia bonecas de pano e plástico com criaturas de carne e osso.
Isaque ainda tentou arranhar desculpas para suas ausências. Andava lendo muito, pesquisando, preocupado com sua vida íntima de escritor. Precisava encontrar novo rumo. Sentia-se perdido, atônito, confuso. Teria valido a pena escrever aqueles seis livros? E se construísse um grande romance? Sim, de vez em quando imaginava-se autor de um livro como Ulisses. Talvez lendo os clássicos gregos e latinos encontrasse o fio da meada. Um herói do século XX inspirado na Grécia ou em Roma antigas.
E falava de poetas antigos para a menina. Lia em voz alta versos em latim:
Nec bibit inter aquas, nec poma petentia carpit
Tantalus infelix, quem sua fata premunt;...
Onde andava o velho dicionário de latim? Terminou comprando novo dicionário. Àquele faltavam a capa e várias folhas. Precisava traduzir Salústio. Se não tivesse voltado à biblioteca, tudo teria sido diferente? Talvez o destino explicasse aquela história. Vânia havia sido posta em seu caminho pelos deuses. Inútil querer a vida de outra forma. Nec bibit inter aquas...
Ana não sabia latim, não gostava de poesias e fugia dos livros. Uma vez até chorou, após ouvir uma sátira de Horácio. Choro sem explicação.
Isaque teve vontade de também chorar. Ou gritar, fugir, sumir. Aninha não merecia um pai como ele. Nem Fátima merecia aquela traição. Tão boa, tão dedicada ao lar. Não deveria ter rivais. Não, aquilo era apenas uma paixão passageira. Logo esqueceria Vânia. Aliás, talvez nem se tratasse de paixão. Apenas desejo.
Quando Fátima descobriu a ponta do fio, nada disse a Isaque. Talvez esperasse novas provas. Não lhe fez sequer uma pergunta. Ele negaria tudo.
Certo de que ninguém no mundo sabia de seus novos sentimentos, Isaque vivia aquela paixão em toda sua plenitude. Para ele, Fátima não imaginava um só átomo de seu tormentoso momento. E por que andava tão nervosa? E a menina, macambúzia, arreliada?
Fátima chegou a seguir os passos de Isaque. Sim, ele só podia ter outra mulher. E queria saber quem era ela. Esteve no banco onde ele trabalhava. Conversou com colegas dele. Sondou diversas pessoas. Não encontrou o menor indício da outra. Pensou em contratar um detetive.
Além do mais, Isaque se dedicava então aos versos. Dia e noite a rabiscá-los. Com certeza havia paixão ali. Ninguém escreveria “versos apaixonados”, se não vivesse uma paixão.
E o nome dela até aparecia em alguns poemas. Sim, chamava-se Vânia. E iria conhecê-la, encontrá-la. Talvez matá-la.
De tanto seguir os passos de Isaque, chegou à Câmara. Perdeu-o de vista logo à entrada. Voltaria noutro dia. Não, melhor esperar. E meia hora depois Isaque saía, acompanhado de uma mulher. Exultou. Enfim descobrira a amante de seu marido. Por que não matá-los logo? Não conduzia arma. Uma faquinha sequer.
Nervosa, Fátima os seguiu. Mais adiante ele se despediu da mulher. Nem um só beijo. Não, aquela não poderia ser a amante, a musa dele. Até porque parecia ter a idade dele, se não fosse mais velha. E nenhuma beleza.
Conseguiu aproximar-se da estranha. Chamava-se Joana e trabalhava na Biblioteca da Câmara. Conhecia, sim, Isaque. Porém há pouco tempo. Ele freqüentava a biblioteca, à cata de livros antigos. “E você quem é?”
Fátima passou a ler todos os manuscritos, rascunhos, anotações de Isaque. Queria a história completa da traição. Desde quando ele a traía e não mais a amava.
Leu até as memórias, as poucas folhas já escritas. Quem seria uma tal Alice? Talvez mais uma das namoradas de Isaque. Não, ele falava de um passado distante. A pobre Alice havia desaparecido em 1970. Provavelmente assassinada pelos militares.
Deixou de lado aquele caderno melancólico. Revirou outras gavetas e encontrou os versos traduzidos de Salústio Segundo. Talvez fosse o próprio Isaque. Um pseudônimo. E uma tal de Julia não seria outra senão Vânia.
Quando leu o “Soneto da paixão insana”, quase ensandeceu. Ali estava a prova mais concreta do crime. O nome da outra aparecia com todas as letras. Tudo às claras. Como se Isaque fizesse questão de revelar sua traição.
Quis rasgar, queimar tudo. Não deixaria um só registro daquela malfadada paixão. Tolice. Com certeza havia cópia.
Leu, com sofreguidão, o prefácio para a edição brasileira dos poemas de Marcus Sallustius Secundus. E só então se convenceu de que não eram de Isaque aqueles versos às vezes tão repletos de lubricidade.
Depois encontrou o velho exemplar do Gurgite vasto. Tudo latim. Isaque não teria escrito aquilo. E nunca lhe falara de tal livro. Tentou ler alguns versos. Inútil. Não entendia nada. "Vivamus, mea Julia, atque amemus..."
Sim, Julia vivera há 2.000 anos. Estava morta, virara fóssil. E sentiu um desmedido alívio, como se de sua alma todos os tormentos sumissem no Infinito.
Mesmo assim, nada mudou na vida dos dois. Continuaram distantes um do outro. Cada vez mais distantes. Como se caminhassem em sentidos opostos. Ela para leste, ele para oeste.
Aconteceu, então, o primeiro ato da tragédia. E Isaque por pouco não perdeu o juízo. Um acidente automobilístico deixou Vânia ferida. E o causador de tudo teria sido Humberto. Bebera em demasia. O carro chocou-se contra um poste de iluminação pública. Vânia foi lançada contra o painel.
Isaque só soube do fato no dia seguinte. Queria visitar Vânia. Precisava vê-la, ter certeza de que nada havia de grave. Não, Joana não tinha razões para mentir. “Você não deve ir à casa dela.” Então telefonaria.
Não, não deveria telefonar. Vânia talvez nem falasse nada. Ou dissesse alguma grosseria. Como naquela tarde muito quente em que a convidara para saírem juntos. O primeiro “não” dela. Um golpe fundo na carne. Para curar a ferida, só a bebida. E sentou-se numa cadeira de bar, bebeu cerveja e escreveu uns versos amargos. É desse dia o pequeno poema “Vasto abismo”:
A dor,
seja a de ficar,
seja a de partir.

O amor,
por mais negado,
por mais aceito.

Tudo é abismo,
o vasto abismo,
onde se afunda
o Ser.

Porém aquele “não” de Vânia já era passado. Agora precisava saber do estado dela. Mesmo por telefone.
Isaque não se identificou e Humberto não insistiu. Passo o fone a Vânia, que falou com tranqüilidade, segurança. Voltaria ao trabalho em quinze dias.
Foram quinze dias de ansiedade para Isaque. Como desejava rever Vânia! Aquilo só podia ter sido proposital. Humberto quisera matar a esposa. Ou matar-se com ela.
Não demorou muito, Humberto e Vânia se separaram. Decisão menos trágica que a morte. Conheceria outras mulheres. Talvez menos tontas que aquela.
Só às vésperas da separação Humberto contou a história a seus irmãos e amigos. Não a mesma que tentou narrar ao sargento Fernandes, no bar. Agora havia mais capítulos. Artur fez-se pasmo e em nenhum momento falou em reação violenta. Se o mano desejava aquilo, só restava cuidar da papelada.
E por que não matar o outro? A idéia veio à tona como uma purgação. Houve até risos e comemorações. E todos quiseram pagar a despesa. Artur quase chorou ao ombro do irmão. O sargento Fernandes dançou, deu vivas ao colega, despejou cerveja na mesa.
Muito antes dessa noite, porém, já Humberto andava no encalço de Isaque. Descobriu onde morava e trabalhava, assim como os lugares que mais freqüentava.
Por muitas noites estiveram no Beirute. Quase sempre próximos um do outro. Humberto ia só e sentia dificuldades em arranjar mesa. Pedia um cantinho, quase por caridade. Como precisava estar ali, sentir a presença de Isaque, o inimigo, a presa! Cada palavra dele soava-lhe como um insulto. Cada gesto uma bofetada. O copo levado aos lábios significava talvez a morte.
Humberto remoía ódio, embebedava-se de solidão e silêncio. Aquele homem a seu lado, cercado de amigos, a falar de livros, poesia e amor, parecia feliz.
Não, não devia atormentar-se tanto. E passou meses sem sequer passar diante do Beirute. Cambada de bêbados, veados, vagabundos!
Voltou com muito alarde. Como a retomada de uma praça de guerra. Humberto e um grupo de sargentos. Seguidas sextas- feiras. Bebiam à vontade e só se retiravam de madrugada.
O primeiro encontro não se repetiu. O grupo de Humberto chegou cedo e ocupou duas mesas. Ao perceber a chegada de Isaque, fez desocupar uma das mesas. E logo chegaram amigos do escritor.
Propositalmente, Humberto e seus amigos falavam alto. Iam de futebol a fórmula um, de mulher a política.
Isaque reconheceu logo Humberto. Porém nem sequer o cumprimentou. O sargento parecia transtornado. Como quando Isaque o viu pela primeira vez. “Um grande escritor”, brincou Vânia, o belo sorriso nos olhos, na face. Aquilo deve ter ferido ainda mais o militar. Para vingar-se, apertou com força a mão de Isaque. Poderia quebrar-lhe os dedos frágeis.
Isaque olhou várias vezes para Humberto. Não sentiu medo, ódio ou ciúme. Talvez um pouco de compaixão. Teve vontade de falar do rival aos amigos. Terminou nada dizendo. Nas vezes anteriores nunca o “vira”. E nem pudera, pois o militar usara disfarces.
Perto da meia-noite o sargento deu um viva à “Revolução de 64”. Houve vaias, algum tumulto. Isaque não se manifestou. Até sugeriu irem embora.
Em casa anotou o incidente num diário bissexto. E lembrou de retomar as memórias. Escreveu dez linhas sobre as passeatas estudantis de 67 e 68. Mais uma vez relembrou Alice, a colega de Faculdade desaparecida em 70. Enquanto escrevia, seus olhos se molharam. Sentiu-se muito deprimido. Tentou escrever uns versos. A indignação, porém, o sufocava. E nada mais escreveu naquele dia.
Depois disso esteve poucas vezes naquele local. Havia ultimado a tradução do livro de Salústio e procurava editor. Escreveu cartas a mais de trinta editoras. Duas ou três deram-lhe resposta: não tinham interesse em publicar poesia. Pensou em arcar com a despesa da edição. Venderia o carro, reduziria os gastos domésticos e pessoais. Não, não valia a pena nada disso. Bastava o malogro de sua própria literatura. Seis livrinhos medíocres, nenhum comentário nos jornais. E talvez nem meia dúzia de leitores. Apenas parentes, amigos e sobretudo “colegas de ofício”. Muita desilusão acumulada. A vida inteira dedicada a inutilidades. Sim, seus livros não passavam disso. Para que, então, gastar dinheiro editando outro livro?
A editora acabou sendo Vânia. Belíssima impressão, com uma homenagem comovente a Isaque, escrita por Nilto Maciel, a pedido de Vânia.
Na primeira folha a dedicatória há muito escrita: “À minha última paixão – Vânia Verbena.”
Isaque tencionava escrever um livro de poesia dedicado a Vânia. Dele fariam parte o “Soneto da paixão insana” e alguns outros dados como concluídos. Porém a maior parte dos poemas restaram inacabados ou simplesmente rascunhados.
E sua última paixão não teve o privilégio de ser musa em livro.
A última sexta-feira de Isaque, o epílogo de sua tragédia não teve sequer testemunhas. Havia bebido duas garrafas de cerveja e voltava para casa. Caminhava absorto para seu carro, após esperar duas horas por uma pessoa. Haviam se conhecido há dias, apresentados por Nilto. Marcaram encontro no Beirute. Trocariam livros. “Ao novo amigo Emanuel Medeiros este As sete patas do monstro, com grande admiração.”
Como o tempo corria! Há dois anos descobrira o secular Marcus Sallustius Secundus. E como sua vida havia mudado de lá até aquele dia! Aliás, dupla descoberta num só dia: o poeta romano e a bela Vânia. Nem sabia qual dos dois lhe trouxera mais prazer.
A dois passos de seu carro recebeu o primeiro tiro. O segundo varou o livro, levado instintivamente ao peito, como escudo. Tombou junto ao veículo e mais quatro balas se alojaram em seu corpo.
E assim findou o tempo de Isaque Paiva, seu vasto abismo.
Brasília, 1991.