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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

À esquerda das horas: o tempo (Belvedere Bruno)

























Com passos rápidos, agitados, Marcos caminha pelo calçadão da praia de Icaraí. Todos os dias, às dez horas da manhã, embora o sol quente já incomode, Marcos anda no calçadão pelo menos até o meio-dia. Não precisa de tanto exercício, mas faz quinze dias que cruzou ali com Luíza e quer encontrá-la novamente.
Marcos caminha irritado, nervoso. A caminhada, que antes fazia com prazer, é feita, agora, apenas pela ânsia de encontrar Luíza. E a consciência de que aquele tempo gasto no calçadão é apenas um pretexto, ainda o deixa mais irritado. Se fosse há duzentos anos, vá lá, não havia como, mas agora, porque é que não lhe tinha pedido o endereço ou número do celular? E o pior é que sabia quem ela era. Tinham sido colegas, colegas e namorados no colégio. Era um idiota. Um perfeito idiota. Tão idiota que... Tão idiota que até o grito do vendedor de mate o irrita.
– Ó o mate geladinho! Moça bonita não paga, mas também não leva!
Marcos pára e olha o vendedor, que sorri e olha para ele.
– Vai mate, doutor?
Marcos não responde. Se abrisse a boca, o palavrão seria escutado até no Rio, do outro lado da baía. O vendedor ri, ajeita a correia da caixa de isopor no ombro e continua o pregão.
– Ó o mate geladinho! Moça bonita não paga, mas também não leva!
Marcos fecha os olhos, respira fundo e aperta as mãos com força. Não. Vexame, não. Solta o ar devagar, pelo nariz e pela boca, e abre os olhos. Na sua frente, parada, sorrindo, está Luíza.
– Oi.
Marcos treme, a garganta apertada, doendo, e apenas consegue gaguejar.
– Eu... Eu...
Luíza ajeita a canga, colada no corpo molhado de suor.
– Mas que coisa boa te encontrar. Pensei que tivesse sumido. Eu tenho vindo aqui...
Marcos olha Luíza, espantado.
– Tem vindo aqui? Mas quem tem vin...
Luíza ri.
– Aqui, como quem diz. Mais ali pelas Flechas. Todo dia dou lá a minha caminhada.
Marcos pigarreia e esfrega as mãos na bermuda de jeans.
– Mas foi aqui que a gente se...
– Tem hora que eu venho até aqui, sim. Mas muito raro. Tô morando ali no Ingá e vou direto às Flechas.
Faz uma pausa, ajeita outra vez a canga e olha Marcos.
– Mas me diga. E você?
– Eu?
– Faz o quê?
Marcos encolhe os ombros.
– Vou levando.
Luíza ri.
– Só levando? Formou-se? Medicina?
– Hum, hum.
– Você sempre dizia que ia ser médico, lembra?
Marcos olha-a, o coração descompassado.
– Você lembra disso?
Luíza acena com a cabeça.
– Quem esquece os tempos do colégio? Os beijos, as paixões, as juras de amor eterno, as brigas? Você esqueceu? Eu não.
Marcos olha Luíza durante alguns instantes e acena com a cabeça.
– Também acho que seria um crime esquecer.
A gargalhada de Luíza atropelou até as buzinas dos automóveis.
– Não me diga que você...
Marcos olha-a e abana a cabeça devagar.
– O problema é que a gente nunca aprende.
– Arrependido?
– Quem não se arrepende?
– Casou?
– Não. E você?
– Estou divorciada.
Calam-se durante algum tempo, Marcos olhando o rosto de Luíza e Luíza olhando os olhos de Marcos. O vendedor de mate passa por eles.
– Ó o mate geladinho! Moça bonita não paga, mas também não leva!
Marcos aponta-o.
– Quer?
– Você quer?
– Quero, sim.
Chama o vendedor.
– Dois. Grandes. Bem gelados.
Bebem devagar, calados. De repente, Luíza ri e olha Marcos.
– Sabe o quê que eu tava lembrando agora?
– Não.
– Que você nunca foi às reuniões dos ex-alunos do Salesiano.
– Realmente, eu...
– Vai ter uma agora, na sexta.
– Onde?
– Lá no colégio.
– Nessa eu vou.
– Vai mesmo?
– Combinado.
– Não vai esquecer?
– Mas de jeito maneira.
– Olha que vou ficar esperando.
– Posso passar na sua casa e...
– Taí. Ótima idéia. Passa, sim, que vamos juntos.
Luíza bebe o último gole do mate e olha Marcos.
– Tem caneta? Então anota o endereço.
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