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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

O assovio (Chico Lopes)



















(Para Gil Perini, em Goiânia)

Antes de tudo, era necessário não escutá-lo. Ou, escutando-o com cuidado, com a reverência de quem precisasse reter cada nota de uma dessas músicas cuja raridade faz com que se suspeite que não será ouvida novamente, negá-lo depois. Nisso, ela se esmerava – não, não estava perturbada, não, não sabia nada de nada. Havia um homem vagando pelos quarteirões principais do bairro tranqüilo tarde da noite, e não teria chamado a atenção de ninguém se não assoviasse daquele jeito. De um mavioso que ia para a afronta, para a vergonha, e ao mesmo tempo de um desarme, de uma delicadeza, como que convidando, intimando - mas a golpes de brisa - para Deus sabia o quê.
Ela calou-se sobre o que tinha ouvido desde o início. Deixou que sua vizinha falasse. E a elas juntaram-se mais duas vizinhas, das que trabalhavam em casa com a confecção terceirizada, na rua principal, as quatro em confabulações. Na verdade, ela sabia que as três estavam encantadas pelo que tinham ouvido, mas o empenho era – acima de tudo – o de se indignarem, de fazerem alguma coisa para que o invasor desaparecesse.
Não era novidade gente vagando na noite, apesar do silêncio do bairro – os ruídos, todos familiares. Um CD impertinente, um que outro grito, lá longe – nas casas mais desqualificadas – um começo de discussão, criança que chorasse, cão que latisse veemente, como que enlouquecido por não poder morder alguém que o ameaçasse. Os botijões de gás, as roupas de varal que sumiam – quem? Numa dada esquina, uns pretinhos se reuniam, levavam música, o rap era cantado e dançado, acendia-se e distribuía-se fumo, e, como só de raro viatura policial passava, isso era apenas lastimado – remediado, como? Certos gatos, que não apareciam mais para seus donos, que acontecera com eles? Ainda assim, satisfação – tão pouco com que se preocupar, tão raro que algo dali saísse nas páginas de polícia do jornal. Mas, então, o assovio.
Amolecia, era belo, era covarde, e obrigava cada uma delas a pensar no que o homem queria, em quem poderia ser, que forma afinal teria – na verdade, não se arriscavam a ir à janela para conferir, com objetividade, que o passante tinha um corpo, um rosto, e talvez fosse mesmo alguém dos novos moradores, que elas mal conheciam.
A curiosidade desse pedaço – cinco ou seis botecos, um supermercado mirrado, devorado aos poucos por lotes à venda de um bairro melhor, que crescia – era essa de, exíguo, ser tão pouco comunitário, um núcleo de vizinhos se opondo ao outro, nenhuma motivação para abaixo-assinados, para constituir associação, apesar de alguns daqueles moradores serem velhos do lugar – estabelecidos quando a Caixa facilitara o financiamento para as casas ínfimas, feias, estritamente utilitárias. Não se reagia aos novos moradores, apenas se olhava para as mudanças chegadas em caminhões e se conferia os móveis, os eletrodomésticos, constatando a pobreza com confortável desprezo ou alguns sinais de suposto refinamento com inveja doída. Tinha-se a impressão, na quietude de que todos compartilhavam, de que muita gente desconhecida vinha e se mudava sem deixar, por um momento só, de ser desconhecida. Aldeões, impessoais. O pouco que se cumprimentava, o pouco que se sabia um do outro, alimentava interrogações, ódios, desejos de lesões silenciosas, praticadas no melhor dos furtivos, e seria impossível acusar quem quer que fosse: todos podiam ser culpados; de uma ou outra coisa, sempre o eram. Comum que, a uma mudança profissional, um morador se mudasse rapidamente, querendo esquecer que fizera parte daquelas casas, daquelas ruas, suprimindo das conversas a mancha de ter morado ali. Faria por esquecer os cães soltos, a desolação, as conversas de um sorveteiro epiléptico que invadia cozinhas e fundos para saber o que se fazia e comia nas casas, obrigando os contrariados, os forçosamente sovinas, a lhe convidar para cafés e almoços, pagando com pormenores de tudo que se sabia de turvo, de agradavelmente secreto e horrível, da gente próxima, inapelavelmente próxima. Ninguém escapava de sua excelente visão. Era preciso torcer para que um daqueles ataques o calasse vez por todas.
Os ruídos, até às dez da noite, ficavam por conta das duas igrejas que tinham sido abertas em sua rua. Ela ouvia, enquanto se ocupava sem interesse de um bordado, o ulular dos infernizados de Jesus – vozes que se juntavam, atropelavam, algumas apontando veementes pelo meio, outras em franca agonia – e os gritos dos exorcizados. Isso era habitual, habitual o riso da vizinha com alguma piada na televisão, habitual que um vizinho moleque colocasse Whitney Houston esganiçando que para sempre amaria alguém alto, tão alto. Tinha que fazer hora para adiar o momento de deitar-se, de esperar pelo assovio. Porque, era preciso admitir: vivia, agora, para esperar o momento em que, mais ou menos pelas três da madrugada, as notas ficassem bem limpas, gloriosamente audíveis, no ar noturno, no quieto das casas, mal competindo com algum pouco de vento, algum ruflar de corujinha. Tremia. Aquilo a fazia torcer-se na cama, levantar-se, ter vontade desesperada de abrir a janela. Não. Não. Ouvia. Tapava os ouvidos. Ouvia. Como, como fazê-lo calar-se?
A vizinha, na manhã seguinte, pedira reunião e revelara: tivera coragem, abrira enfim a janela, esgueirara para o seu alpendre, cautelosa, e o vira. Quem? Não sabia o nome, mas era conhecido na rua de baixo. Como? Bonito? Não, não, comum, roupas escuras, um boné – nunca o notara bem, sabia de sua fama de calado, de enfiado em casa o mais do tempo, vindo recentemente de um bairro melhor, modos de orgulhoso. Lazarento, parando de assoviar, não mijou ali mesmo, no tronco da unha-de-vaca em frente da casa?
A partir daí, cada uma podia engendrar o seu assoviador: possível que o boné fosse, para ela, outra coisa; lembrava-se do vago homem de chapéu cinza-escuro que, ela menina, era tido como cinqüentão tarado em sua cidade natal; outra acrescentou um brinco: esses tipinhos de rua, piratas bambos, de camisa soltona, de olhos malvados, pretos, sempre pretos ou mulatos, musculosos e bélicos, que a deixavam furiosa; a última implicava que tinha de ser um certo pedreiro, de camisa sempre aberta, mostrando a mata meio grisalha do peito, coçando-se no essencial, olhando para ela sem a menor consideração, fosse migalha de alpiste para a goela da ave-do-paraíso. Confusos, esses muitos homens evocados, porque fundiam-se neles o dono do supermercado, o rapaz da Saúde que lhes entrara na casa para verificar focos de dengue, um pai de família, um padre, um lixeiro, um pintor de paredes.
Surgida depois dos suspiros, xingamentos, olhares distantes, a decisão era comunicar isso a irmãos, primos, tios: cada uma teria um homem que a defendesse. Sim. Ela se sentia inferiorizada – não tinha nenhum. Não importava: aderiria aos das três outras.
Não fora difícil: havia uma notória aversão ao tipo, na rua de baixo – sujeito que não entrava em bar e, perguntado sobre futebol, dizia não torcer por time nenhum. Sabia outras línguas, e um deles, que lhe resolvera perguntar o que significava dada inscrição em Inglês numa camiseta, merecera um olhar de desprezo, uma recusa de tradução. Viajava, aparecia muito pouco. De onde vinha? Palavra, nada. Que se juntasse, se explicasse. Não: arredio.
Tranqüilizou-se. O assovio, ainda por duas semanas, foi ouvido em algumas noites – a cada vez, que podia ser a última, ela sentira que tinha que prestar atenção mais completa àquelas notas; o tormento, estando pelo fim, a música podia ser fruída, ela toda, ondulação de uma integridade máscula, vulnerável, no miolo do escuro, sobrevoando telhados. Aprendera-a: assoviava junto, balançando a cabeça, “filho da puta, você não escapará”, rindo.
Empurrado, empurrado por cada uma delas para algum canto onde não pudesse assoviar – ele, pedreiro, ele, homem do chapéu cinza-escuro, ele, tipinho de rua, seguiram-no, em silêncio, cada qual em seu quarto, enquanto o cerco era feito no quarteirão. Os gritos, as ordens, e, depois, os muitos passos, os “pega, pega, por ali, por ali, olha, olha o veado ali”, e a descida de uma ladeira que elas sabiam qual, que elas viam, muito nítida, lá de suas camas, a imaginação diagramando a delícia. Os missionários se precipitavam enquanto lá adiante, só uma cabeça, ele era um vôo, uma aflição, uma desmesura, bem que pedia socorro, mas quem ouviria? Satisfeitas, satisfeitas, sentiram, souberam que a fuga tinha acabado lá embaixo, onde um buracão desenhado pela chuva se alargara, onde ele fora acuado pelos homens e por alguns cães. Depois, era saborear, sem darem um pio, sem moverem-se um milímetro de seus cobertores, cada uma das pauladas com que a cabeça, os cabelos, os olhos, os músculos, a boca – ah, boca musical imunda! – se desfazia de carne para sangue, para nada.
Tranqüilo, tranqüilo, o bairro é encoberto pelos dias que, embora cinzentos, são de uma nitidez melancólica, sonífera, que induz a ficar em casa, a ver mais televisão, a fritar mais bolinhos-de-chuva, a aumentar o chá de melissa e de alfavaca, a colher mamões para o doce com bicarbonato. Ninguém que se mova de seu lugar bem designado – confortador ouvir o epiléptico tagarelando com a vizinha, a voz de Whitney Houston por mais uma inumerável vez, os exorcizados e seus monótonos demônios, as tosses, as crianças, a música da caminhonete de gás na rua, estranhamente triste, mas familiar. Mas, ela se levanta, ela anda muito pela sala, não se contenta com o bordado, deixa a televisão, vai ao quarto, conta as horas, gostaria de adiantar ou parar o relógio, não sabe, nada sabe.
Sabe-se, no entanto – ah, os muitos olhares não vistos! – que, depois das dez da noite, sai, desce a ladeira e, tomando o rumo do limite do bairro, lá onde árvores já apontam para chácaras de gente mais abastada, pára diante do buracão e fica ali, pensativa, horas, horas, horas. Viram-na arranhar o chão, os bem atentos. Viram-na tentar assoviar, algumas vezes, como se espremesse a memória – e não sem aflição: arranhando-se também o rosto – uma música que lhe escapasse. A ida ao buraco, rotineira, passou a ser comentada com mais interesse por quantos a testemunhavam, ainda que pelas frestas das janelas.
A decisão das três foi segui-la, numa das noites mais escuras – absurdo que encontrasse conforto lá embaixo, que insistisse na partitura enterrada. Era preciso impedi-la de lembrar-se.

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