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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Taciba vai ao céu (Nilto Maciel)



















- I -
Desde o passado mais remoto, viviam os Himenos exclusivamente de colher frutos silvestres. Se não semeavam, se desconheciam a agricultura, de maneira nenhuma poderiam ser chamados de preguiçosos. Apesar disso, vez por outra se metiam em acaloradas discussões a respeito de trabalho.
– Não vivemos melhor porque só sabemos fazer isso – dizia um mais exigente.
– Nada disso – gritava outro. – Cada um faz o que sabe e todos vivem. Vejam: as abelhas apenas fabricam mel – e dele nem se servem – e, no entanto, estão aí no mundo.
– Em compensação, nunca vão passar de fabricantes de mel – arrematava com ironia o exigente himeno.
Apesar de simples apanhadores, de todo o atraso, essas contendas verbais não passavam de entretenimento, brincadeira, exercício intelectual, e os Himenos viviam em paz, felizes na sua eterna luta pela colheita do pão de cada dia. Porque, mesmo trabalhando tanto, o faziam para si mesmos e, por isso, nunca faltava nem comida nem água. E, por serem os campos vastos, quase sem fim, não lhes faltava sobretudo liberdade. Sim, podiam andar, correr, viver livremente.
Como seus irmãos, a pequena Taciba vivia sua vidinha simples, quando ouviu o zunzunzum de que sua amiga Tacibura havia desaparecido. Procurada pelos arredores, dela não se teve mais notícia. Diziam uns ter sido devorada pelas feras, provavelmente pelo monstro Batará.
– Que malvadeza!
Os mais otimistas achavam ter a pobre Tacibura simplesmente saído à procura de terras desconhecidas, enredando-se nos fios da aventura de bater pernas. E nisso não havia novidade nenhuma.
– Desde que o mundo é mundo – sentenciava um ancião – sempre se ouviu falar de cabeças ocas que, de repente, abandonam suas terras, seus lares e se vão por aí afora, feito barquinhos de papel nas águas turbulentas das chuvas.
O desaparecimento da amiga deixou Taciba triste. Perguntava-se pelo fim da outra e bastava imaginar o monstro Batará para cair no choro.
– Não fique assim, minha filhinha – tentava acalentá-la a mãe. – Sua amiga foi apenas dar um passeio e logo estará de volta. Vocês ainda vão brincar muito juntas.
– Mas se for verdade o que andam dizendo?
– Sobre Batará?
– Sim. Ele é muito malvado e já deve...
Dona Taçuira beijava-lhe o rosto, enxugava-lhes as lágrimas e, para não chorar também, mudava de assunto:
– Onde andam suas irmãzinhas, hem?

- II -
Aos poucos, a imagem de Batará foi se apagando das preocupações de Taciba. Talvez porque a maioria dos Himenos não gostasse de falar no monstro e visse no desaparecimento de Tacibura apenas uma aventura infantil. Por outro lado, Dona Taçuira bastava ver a filha triste, pelos cantos, chorosa, para inventar esperanças:
– Qualquer dia desses sua amiguinha aparece.
– Será mesmo, mamãe?
– Tenho certeza. Ela anda por aí, pela casa de alguma tia.
O tempo passava e nada de Tacibura voltar. Alguns nem se lembravam mais dela. Seus pais e irmãos até já viviam conformados com a idéia de sua morte.
Dentro de Taciba, porém, a amiga continuava não só muito viva mas havia adquirido feições de heroína. Nada de devorada por Batará, nada de morta, nenhuma tragédia. Também não acreditava na conversa boba da mãe. Casa de tia, coisa nenhuma! Tacibura andava era no mundo. Ah! se pudesse seguir as pegadas da feliz companheira! Sim, feliz, porque não haveria maior felicidade do que buscar o ignorado, o vasto mundo além do chão que se pisa. Não pensava, porém, acompanhar a antecessora. Sonhava com imitá-la somente, se possível buscando outros rumos, caminhos opostos até. Queria descobrir o eldorado por conta dos próprios pés, alheia a todo rastro. Quem sabe, aportaria nalguma nova América, na terra prometida ou sempre ansiada.
Dona Taçuira pegou por diversas vezes a filha a sonhar, olhos voltados para a estrada, completamente absorta.
– Venha cá, filhinha. Você tem estado tão esquisita ultimamente. Conte para mim o que se passa nessa cabecinha.
– Não é nada, não, mamãe.

- III -
Um dia, antes de os seus despertarem para a labuta habitual, saiu Taciba, pé ante pé, pela vereda que ia dar nos campos de colheita, entre pedras e montes, e seguia, mais tortuosa e íngreme, para o ignorado, as terras dos perigos, onde viviam, em constantes tropelias, os mais variados bichos – terrores sempre lembrados pelos mais velhos.
– O monstro Batará devora dezenas de Himenos de uma só vez. Tem o tamanho de mil Himenos. Uma só unha sua vale por dez de nós. E, não bastassem seus enormes pés, que nos esmagam, seu bico é capaz de causar verdadeiras mortandades.
– E a gente não pode se esconder dele?
– Pode e deve. Mas, afora os Batarás, que são muitos e andam à solta, o mundo lá fora é repleto de animais gigantescos, perigosos, malvados.
Taciba perdia o sono de tanto medo, só de ouvir essas histórias.
Decidida a imitar Tacibura, afastava do pensamento as lendas dos Himenos. Ora, tudo isso é mentira, dizia de si para si, conversa fiada dos pais para manter os filhos em casa, frear os ímpetos da juventude. Sim, os pais só sabiam falar de prudência. Ora, prudência! Quem já descobriu ou inventou alguma coisa com prudência?

- IV -
Disposta a levar adiante seu plano – o descobrimento de seu próprio mundo – Taciba apressou o passo, andou, andou, saltou pedras, transpôs montes, perdeu de vista as terras conhecidas. No peito o coração pôs-se a batucar de medo. Pensou em voltar, antes que fosse tarde demais. Diria em casa e às companheiras: “Tive uma crise de sonambulismo e saí ao léu. Quando despertei, assustada, só então senti o quanto havia caminhado, dormindo.” As outras ficariam horrorizadas, fariam mil perguntas e ela não saberia respondê-las. Melhor pensar logo o que dizer, inventar qualquer desculpa. Podia falar de sensações esquisitas e, com isso, até fazer-se mais inteligente, sabida, quem sabe, poética. “Vocês já sonharam voando, sendo carregadas pelo vento? Pois eu me sentia mais ou menos uma borboleta. Era como se estivesse passeando sobre nuvens mansas, esquecida de tudo, um frescor percorrendo o corpo, acariciando-o.” Florearia, saberia engabelar as curiosas. Ficaria até mais vista e respeitada. Afinal, nunca se ouvira falar de tal coisa. Dar-lhe-iam crédito, certamente, e tudo estaria normalizado. Voltaria ao trabalho, ao agasalho do lar, à tranqüilidade do mato, às boas palestras nas noites de lua clara. Ouviria dos pais e avós histórias terríveis de monstros como Batará e dormiria em meio a sonhos fantasiosos. De novo, a vidinha de sempre, a monotonia de trabalhar, comer, dormir. O mesmo dia-a-dia sem aventuras, sem novidades. E mais uma vez teria vontade de arribar no mundo, bater pernas, arriscar-se a morrer devorada pelos bichos soltos no mato ou ser esmigalhada por alguma pata desastrada de gigante. Feito Tacibura. Coitadinha!

- V -
Prosseguiu, propensa a não dar ouvidos ao medo, à covardia, ao sentimento de insegurança, ao repuxo insistente das raízes da carne, que tentavam prendê-la ao chão antigo e grudá-la, por hipnose, aos olhos dos Himenos.
Mais com pouco, o outro mundo principiou a dar sinais de existência real, de proximidade e o apelo para seguir foi mais forte. Correu, quase voava, como se realmente descobrisse um país fantástico, diferente de tudo o que até então vira. Ouvia barulho de máquinas e mais se agitava, na tentativa de captar, pelos sentidos, a aproximação do porvir. Corria, o coração aos pulos, os olhos muito arregalados, o corpo todo num frenesi, a alma um infinito adiante do corpo.
Havia de sair vitoriosa dessa primeira e significativa batalha. Como não? Ia mostrar à mãe, ao pai, aos irmãos, a todos os Himenos sua imensa capacidade. Até desejava encontrar pela frente Batará, enfrentá-lo, derrotá-lo. Provaria que nem sempre a força física vence. Seria o novo Davi, o vencedor do gigante Golias. Quem sabe, mudaria até os destinos do mundo. Ou pelo menos dos Himenos.
Pena não descobrir o destino de Tacibura. Ah! se se encontrassem pelo caminho! Seguiriam juntas, irmanadas pelo mesmo objetivo, invencíveis. Uma ajudando a outra. Se Tacibura fracassasse, estaria ela pronta a soerguer a amiga. E se ela mesma, Taciba, sentisse o peso da caminhada, cansasse, se ferisse, Tacibura estaria presente para curá-la, ampará-la, confortá-la. Não, não, isso nunca. Preferia vencer só.

- VI -
Chegou à margem de uma estrada muito larga, centenas de vezes mais larga que as veredas de sua terra. Autos para lá e para cá, em velocidades espantosas, levantando poeira, açoitando árvores. Em seu interior, gigantes iguais a outros já vistos a andar pelos campos, com suas botas muito pesadas, capazes de arrasar de uma só pisada centenas de Himenos. Quer dizer, ouvia falar dos tais seres sem tamanho. Ver mesmo, nunca vira. E até desconfiara de sua existência. Conversa para fazer boi dormir. Agora se arrependia de ter chamado os pais de mentirosos. E relembrava as descrições feitas por eles das tais criaturas.
– E eles são monstros?
– Não, não são irracionais, como os Batarás, não andam à cata de seres menores, não perseguem Himenos, até porque não nos vêem.
– Então são cegos?
– De jeito nenhum. É que, sendo muito grandes e andando eretos, feito macacos, passam por nós e nem se dão conta de nossa existência.
– Orgulhosos, pedantes, hem?
– Talvez não, porque se tivessem tais defeitos, próprios de monstros, fariam como os Batarás: farejariam o mundo à procura de Himenos e outras criaturas indefesas.
– Então são nossos amigos e inimigos dos Batarás?
As opiniões se confrontavam aí. Para uns, essas criaturas não ofendiam a ninguém, apesar de seu tamanho quase descomunal, e, se chegavam a esmigalhar os seres pequenos com suas botas, o faziam sem querer. Outros os pintavam com tintas de sangue:
– Esses gigantes são mais terríveis do que os próprios Batarás. Primeiro porque medem dez vezes mais do que os Batarás. Aliás, estes coitados são constantemente aprisionados por eles e, enquanto servem de entretenimento, não são levados à panela.
– Entretenimento?!
– Vou explicar. Os terríveis gigantes costumam se divertir, botando para brigar um batará contra outro. Geralmente morre um, quando não sai cego e aleijado.
– Que barbaridade!
– Pois é assim mesmo. Além do mais, uma das comidas preferidas desses monstros é batará ou fêmea de batará.
Taciba se horrorizava diante de tão fantásticas informações, mas não sabia em quem acreditar: se nos que consideravam os comedores de batarás simples gigantes inofensivos ou nos outros.
– Ninguém me respondeu ainda: eles são nossos amigos ou inimigos?
– Escute bem, Taciba: eles não nos bicam, não nos devoram, não nos comem, porque gostam de muita carne, como a dos batarás, mas, em compensação, cometem verdadeiros morticínios contra nós. Sabe como? Despejando substâncias venenosas na terra e nas árvores. Com isso, conseguem exterminar num só dia milhões de nós.
Tudo isso Taciba rememorava à beira do caminho. E prosseguia em sua andança.
Por temor dos autos, decidiu não atravessar a grande vereda negra. Seguiria paralelamente a ela. Para a direita ou para a esquerda? De que lado estaria a terra maravilhosa do nunca visto? Provavelmente dos dois, uma vez que aquela estrada só poderia ser sua própria extensão. Nunca fora dela, pois tudo o mais era mato, covil de feras e maldades.
Para a direita sucedia um maior afluxo de autos e gigantes a pé. Viriam de um centro menos desenvolvido em demanda da capital, do eixo da civilização superior. Bem poderia dar início à nova vida pela parte inferior, para não sentir um impacto mortal diante das coisas grandemente nunca vistas. Não, seria bobagem. Não haveria tanta diferença entre uma e outra parte, assim como no campo tudo parecia igual – aqui mais matos, ali mais pedras, além mais feras. Mas sempre matos, pedras e feras. Invariavelmente. Um inferno! O paraíso então seria um só, com ligeiras diferenças setoriais.

- VII -
Tomou o rumo da direita, afinal, muito cuidadosa de não ser despedaçada por um daqueles autos. E admirava-se da velocidade com que corriam. Assim, chegariam ao mesmo lugar num só dia de viagem. Ah! se pudesse andar tão depressa! Logo logo estaria no miolo do novo mundo. E se conseguisse uma carona! Impossível, ninguém a via, ninguém notava sua presença à beira da estrada, acenando uma folhinha verde no meio de tanto verde, gritando e agitando-se, em tempo de rasgar a goela e espatifar-se ao vento. Tudo como diziam os velhos Himenos. Esses gigantes não tinham olhos para as pequenas criaturas, pareciam muito orgulhosos, cheios de si, como se tivessem o rei na barriga.
O negócio era andar mesmo, utilizar os próprios pés. Afinal, tinha o costume de percorrer quilômetros a fio. Até mais difícil, porque escalando montes e pedras de todos os tamanhos, quase sempre com um fardo às costas. Ali a estrada seguia reta, embora não pisasse o asfalto. Iria a pé, sim. Não cansaria facilmente. E se sentisse fome e sede, o mato se erguia ao alcance da boca, à margem do caminho. Fazia uma paradinha e pronto. Fartava-se. Como na sua terra. Como no passado. Ah! saudade danada da mãe, do pai, dos irmãos! Daquela vidinha sossegada, apesar do eterno medo dos Batarás, das histórias de horror dos mais velhos. Deveria voltar, correr para os braços da mãe Taçuira, pedir-lhe perdão pela traquinagem?
– Por onde você andou, Taciba?
– Fui dar uma voltinha.
– E não teve medo de se perder, de ter o destino daquela infeliz Tacibura, de ser devorada pelo monstro Batará?
– Qual nada, mãe. Eu não tenho medo de nada, já sou grande, sei me defender. Além do mais, Tacibura não é infeliz. Deve andar conhecendo o mundo, as maravilhas da vida. Qualquer dia desses vai voltar coberta de glórias, cheia de novidades, falando outras línguas, talvez até arrastando o corpo de algum Batará.
– Deixe de dizer besteiras e vá já ajudar seus irmãos. E nunca mais faça isso.
– Sim, nunca mais.
– Se seu pai souber que você cometeu semelhante doidice é capaz de perder a cabeça.
– Não diga nada a ele, não, mãezinha.
– Só se você prometer ser boazinha e não der mais tanta preocupação.
– Prometo.
Acordou desse passeio mental ao ouvir a própria voz dizendo “prometo” e tratou de esquecer o passado, a mãe, a família, sua terra. Nada de rendição a sentimentalismos.
– Adiante, Taciba – gritou para si mesma.

- VIII -
De repente, ao levantar a vista, divisou o que deveria ser a tal civilização superior, o centro do tal mundo desconhecido. Sentia-se cansada, como se tivesse trabalhado dias e dias sem parar. Doíam-lhe os pés, as pernas, a cabeça, todo o corpo. E como havia caminhado! De sua terrinha, nem mais sinal. Deveria estar muito longe dos seus. Coitados, preocupados! O que estariam dizendo a estas horas? Todos a correr para um lado e outro, onde se meteu Taciba, que diabos fez essa criaturinha? E uma só acusação – mais uma vítima de Batará.
Porém as distâncias são muito relativas – começava a compreender Taciba. Ora, só fazia um dia de sua fuga. Não devia estar tão longe assim de sua terra. Com pezinhos tão pequenos, passadas tão curtas, não podia ter andado tanto assim. Os gigantes percorriam aquela distância numa hora. Muito menos disso. Havia uma explicação: lá no meio da mataria não poderia enxergar aquelas construções quase sem fim, tocando o azul do céu.
Saiu a tropeçar nas pedras, às carreiras, estonteada, maravilhada. A um passo do fantástico. Das pessoas muito civilizadas, educadas, poderosas, mas nunca monstruosas, assassinas, como Batará. Deixava para trás o mato, o atraso, a terra das maldades, dos perseguidores dos pequenos viventes, dos caçadores vorazes de Tacibas e Taciburas. Finalmente alcançava o respeito mútuo, o amor, a paz. Ninguém devoraria ninguém. Um mundo onde coabitavam gigantes pré-históricos e microscópicos insetos, mamíferos, reptis, batráquios, ovíparos, toda a sorte de criaturas.
Como se apresentar a uns e outros? Dirigir-se primeiro a quem?
– Eu sou Taciba, mensageira dos Himenos. Venho em missão de paz.
Restava saber também se a ouviriam. E se nem sequer olhassem para ela? Não, andar tanto, arriscar-se a tantos perigos, para sofrer decepção?
– Ouçam todos minha mensagem, abaixem-se, por favor. Não tenho voz como vocês, sou um simples e ignorado Himeno, habitante do mato, trabalhadora da terra. Não possuo os conhecimentos de vocês, sou um pequenino e insignificante ser. Por outro lado, venho carregada de heroísmos. Enfrentei monstros e venci-os. Inclusive alguns Batarás.
Não, vangloriar-se podia irritar os ouvintes, torná-los antipáticos à sua bela causa. Melhor seria dar rumo inverso ao discurso de apresentação.
– Chego de braços abertos, disposta a dissipar todos os mal-entendidos. Claro que eu nunca acreditei nas maledicências dos eternos inimigos da comunhão universal, dessa aproximação entre civilizações tão diferentes entre si. Do contrário, não estaria aqui.
Taciba inventava discursos, arranjava palavras, frases feitas, vasculhava a memória à cata de informações para enriquecer sua oração. Que tal principiá-la pela lenda da origem dos Himenos? Achariam engraçado isso, bateriam palmas, dariam vivas, em meio a risos incontrolados? Ou se aborreceriam, sentir-se-iam melindrados?
Melhor preparar dois ou três tipos de discursos e, conforme a recepção, optar por este ou aquele. O diabo seria na hora misturar um a outro e terminar fazendo aquela salada de frases. Por exemplo:
– Como vocês podem ver, se é que podem me ver, meu mundo não é deste reino. Desculpem o trocadilho, a brincadeira. Perdão. Mas, em verdade, eu vos nego: cada macaco em seu galho. Explico-me: a terra é de todos e tanto faz estar lá como aqui.
Isso poderia representar o fim de tudo, o fracasso da missão, seu linchamento e morte.

- IX -
Nessa ruminação, não percebeu Taciba o quanto havia caminhado. Quando deu por si, viu-se ao pé de uma parede verticalíssima, que ia em linha reta dar ao céu, tocar as nuvens. Sim, senhor, acabava de encontrar a chave da civilização. As pessoas aspiravam ao céu, ao azul infinito, ao lugar das delícias. Eis por que vinham todas do lado do mato, perseguidas pela vontade de mudar radicalmente, de trocar o verde e outras cores pelo azul encantatório, o cheiro de terra pela amplidão dos ares, a vida mortal e perigosa por outra deliciosamente eterna. Por aquelas paredes subiam todos para a civilização das civilizações, alegres, redimidos, sabedores de que deixavam alguns pequenos deleites efêmeros por um sem tamanho êxtase. Mas por que não subiam as paredes? Estranho! Em volta, seres gigantescos iam e vinham, apressados, sem sequer olhar para o alto, mais preocupados com o chão rasteiro. Por certo não precisavam das paredes. Quem sabe, eram informantes, orientadores, enviados do céu à terra, encarregados de explicar aqui embaixo as regras do bom subir. Os construtores de paredes, simples mercadores que preferiam a vida rasa do chão à vida elevada do céu, onde o poder se exercia coletivamente. Seriam benfeitores, de qualquer forma, pois sem eles impossível se tornaria subir. Sem eles não existiriam as paredes, as escadas necessárias à grande escalada. “Deixa-te de especulações bestas, Taciba, e trata de subir o quanto antes.”

- X -
Iniciou a subida. Logo encontrou-se à altura dos gigantes. Via-lhes os olhos, a boca, o nariz. Passeavam para lá e para cá, como se a vida fosse um simples passeio.
Súbito os planos se inverteram. Achou-se numa superfície horizontal. Diante dos olhos, claridade ofuscante, objetos nunca vistos e gigantes atarefados. Que faziam? Seriam escavadores da terra infinita? Ocariam o sagrado muro dos céus, no afã de se resguardarem da competição dos de fora? Ou simplesmente nada disso intentavam, apenas se preparavam para subir mais um andar? E por que assim não procediam logo? Com certeza utilizavam-se de escadas interiores ou de outro meio que os elevava.
Deixando de lado a sala, Taciba voltou à parede externa e continuou viagem. Um dia alcançaria o fim e estaria no céu. De lá olharia para baixo e mais se admiraria de os outros continuarem naquele vai-e-vem sem termo. No chão, os gigantes cada vez menores, achatados, pequeninas criaturas deslizando como bolinhas. Teria enlouquecido? Só ela com aquela febre de subir? O melhor seria averiguar direito as coisas, conversar, informar-se. Mas com quem? Com aqueles gigantes? O que diziam? Que língua falavam? Se ao menos encontrasse Tacibura ou outra de sua raça!

- XI -
Alcançada a segunda janela, olhou em volta: gigantes sentados, móveis, luzes, tapetes, decorações. Tudo muito limpo, bonito e vasto. Seria aquilo um pedacinho do céu? Por acaso não se enganara, sonhando demasiadamente, o céu já sendo o próprio edifício? Por que não? Quem disse que o céu são as nuvens, o espaço mais inacessível? Sim, ali não se viam matos, monstros, a eterna briga entre os seres, tudo transcorria em paz. Aquilo era outro país, o mundo fantástico sempre sonhado. Só podia ser. O céu mesmo era inatingível. Apenas para ser olhado, adorado. Regozijou-se com a grande descoberta. Agora iria viver uns tempos ali, desfrutando a paz, o bem, a vida. Um dia regressaria à terra natal e contaria tudo aos seus, tintim por tintim. Causaria inveja até. Sentir-se-ia orgulhosa. E se tornaria muito respeitada. Fora a descobridora da civilização. Seria chamada de heroína dos Himenos. Teria um pedestal, quem sabe. Levaria todos eles para um passeio turístico pela terra encantada dos gigantes. Lá seriam recebidos com honras e foguetes e convidados para construírem juntos o futuro do futuro, unidos pelo mesmo afã celestial.
– Então você é a célebre Taciba, a humilde filha dos Himenos que ousou um dia deixar o mato e descobrir a civilização?
– Sim, sou eu. Mas tudo devo a minha amiga Tacibura.
– Não estamos entendendo. Quem é essa Tacibura?
– Já que estamos todos juntos, numa festa de confraternização, vou reconhecer publicamente que tive uma antecessora, embora todos neguem tenha ela chegado aqui – começaria Taciba seu grande discurso.
– Não temos nenhum interesse em mentir, falsear a História, embora alguns de vocês, os Himenos, possam desconfiar de que aprisionamos ou assassinamos essa tal Tacibura – diria o Chefe dos Civilizados.
– De jeito nenhum. Longe de nós tamanha ingratidão. Ora, quem recebe tão bem estrangeiros, como vocês o fazem agora, não pode ser uma Nação de Assassinos. Nenhum de nós desconfia de nada. Não é, meus companheiros? Tacibura deve andar por outra civilização. Porque não acredito tenha sido ela devorada pelo monstro Batará. Na verdade, ela foi nosso primeiro navegante, se assim posso me referir, nosso primeiro aventureiro. Se não teve a sorte de encontrar povo tão pacífico e bondoso como o de vocês, resta-nos acreditar na sua inteligência. Estará bem, não digo melhor do que nós, porque seria impossível.
E Taciba sonhava com o glorioso dia em que todos os Himenos seriam recebidos no centro da Grande Civilização. Uma nova era. Sim, adeus mataria, sol de fogo, trabalho pesado, caminhadas sem fim, perigos de vida, monstros, adeus, Batará. Livres de todo o mal e felizes para todo o sempre. Amém.

- XII -
Cuidou, passeava sobre um plano azul, muito mais azul do que o céu, de um cheiro nunca sentido e mais delicioso do que o de todas as seivas já provadas. O paraíso em miniatura. Decerto postava-se diante do manjar dos deuses ou mesmo dos escolhidos para a ceia do divino. Caiu de quatro sobre o prato. Com sofreguidão de retirante, lambia o azul em que pisava. Com pouco, sentiu tontura, vontade de dormir, enjôo. Desconfiou da esmola. Talvez tudo não passasse de um ardil. A provação, tal como na história da maçã. Necessário conter-se, retirar-se o mais rápido possível, fugir ao canto da sereia.

- XIII -
Deu uma passeada pelo salão. Quase esmagada por um enorme pé. Certamente não fora de propósito. Não a viam. Deveria esconder-se então, sair do chão, procurar os cantos das paredes. Ou conversar com os gigantes? Explicar tudo. Falar da fuga, da viagem, dos encantamentos. Contar toda a sua história.
Refugiada num cantinho da enorme sala, pôs-se Taciba a ouvir as vozes de trovão daqueles estranhos seres.
Como fizesse grande esforço para ouvir e entender as vozes, Taciba tapou os ouvidos e voltou a admirar o ambiente e a matutar. Precisava descobrir a forma de entrar em entendimento com aqueles seres esquisitos, falar-lhes. Mas como, se não seria entendida? Na certa o céu era assim mesmo, um lugar onde ninguém se entendia, mas todos viviam em paz. Cada um no seu lugar. Gigantes aqui, Tacibas ali. O prédio se dividiria em vários compartimentos. Até os Batarás teriam seu lugarzinho. Porém seriam pacíficos. Regenerados, sem aquela fúria, aquele ódio na ponta do bico, aquela vontade de devorar Tacibas e Taciburas.

- XIV -
Nessas conjecturas, viu Taciba os gigantes se retirando por uma porta. Iriam para um salão mais próximo do céu? Talvez a escalada fosse lenta, regrada. Um dia aqui, outro ali. Até alcançarem o azul infinito. Uma hipótese para civilizados. De qualquer forma, não se arriscaria a ser pisada. Não deixaria os cantos enquanto os gigantes estivessem na sala.
Olhou, olhou, não viu ninguém. Podia muito bem andar pelo salão. Ir e vir, sossegadamente. Pôs-se a passear de lá para cá. Esquadrinhou tudo, subiu paredes, vagou pelo teto. Aproximou-se das luzes, escorregou nos vidros, pisou nos papéis.

- XV -
Passada a tontura, voltou a lembrar-se do azul gostoso. Correu, rebolando-se toda para o prazer. Deu gritinhos, brincou nas pontas dos pés, feito uma menina travessa que descobre docinhos. Passeou primeiro sobre o fruto escondido, escorregou e lambuzou-se toda de azul. Teria uma noite de muito gozo. Não precisava pressa. Uma vida inteira de prazer. Tudo tal qual imaginara. Ora, só podia ser assim mesmo. E como agradecia à amiga Tacibura. Não fosse ela, e não estaria ali, naquele éden. Tivesse ido na conversa dos pais, dos mais velhos, acreditando na potoca de que o mundo era dominado por monstros, assassinos, e jamais teria conhecido civilização tão cheia de bondade.
Deu uma lambida na iguaria. Deslizou como se dançasse balé, saltitou, cantarolou, festejou. Sentiu-se tonta de novo, numa embriaguez prazerosa. Deveria retirar-se antes que fosse tarde? Mas não podia perder tempo, os gigantes voltariam de uma hora para outra e adeus prazer de lamber aquela coisinha cheirosa, maravilhosa, fogosa. O ápice do gozo. Por que não aproveitar a oportunidade? Lambeu, cheirou, apalpou novamente aquele azul celestial. Sentiu-se mais tonta, sonolenta. Cambaleou, as forças lhe fugiam. De repente imaginou que não só poderia aquilo representar o convite à desobediência a alguma norma secreta, como, sobretudo, ao suicídio pela superexcitação do gozo material. Repensou, num segundo, toda sua vida, a terra onde havia nascido e sempre vivido, seus pais e irmãos, as companheiras, Tacibura, o trabalho, o mato, o medo, os monstros, Batará. Teve um arrepio. Contorceu-se. Estaria apenas delirando de prazer? Não se contorcia, não sentia dor alguma, a morte não viria. Extasiava-se tão somente. Contorcia-se, mas nunca de dor. Continuou contorcendo-se, vendo tudo mover-se lentamente, como num sonho.

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