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domingo, 10 de fevereiro de 2008

Ítalo (Viegas Fernandes da Costa*)





Quando ultrapassou aqueles portões, Ítalo caminhava sem pressa. Estava acostumado àqueles corredores extensos, de antigas e sóbrias arcadas, ainda que o templo anunciasse sempre sua contemporaneidade.
Subiu as escadas e passou pelo saguão recém reformado, o enorme pé-direito abrigando os biombos que anunciavam os eventos da semana: o filme da véspera, o concerto de cordas, seminários, palestras e bancas, um Hamlet nova e exaustivamente relido. Ítalo não deu muita importância àqueles tantos cartazes e eventos. Ítalo não deu importância alguma àqueles tantos cartazes e eventos. Apenas cumprimentou a recepcionista com um leve meneio de cabeça e seguiu em frente. Ainda caminhava sóbrio, racional. Distraidamente lia as plaquetas anunciando departamentos e salas. Tomou o corredor à esquerda, mais iluminado, o das clarabóias. Depois desceu os três degraus e seguiu à direita. Percebia que o templo crescera desde a última vez, havia muito mais salas, mais algazarra, e mais e mais departamentos anunciados às portas. Havia muito mais portas também. Chegou ao átrio, alguns serviam-se de sanduíches, outros de cafés. A conversa era intensa. Falavam todos. Na medida em que seus pés o levavam para o centro do átrio, desviando das mesas, cadeiras, dos jovens que se reuniam em pequenos grupos, o volume das falas ia aumentando, aumentando, aumentando. Ítalo já não conseguia mais distinguir tantas palavras misturadas, todo aquele torvelinho de fonemas. Seguiu em frente e a algazarra começou a abandoná-lo. Entrou à direita, subiu para o primeiro andar. Seus passos ecoavam no piso o som de borracha prensada, não o som clássico de duros saltos no mármore, mas do sintético moderno em velho assoalho. Prosseguia cruzando com um e outro, alguns desavisados, outros atentos aos olhos que se cruzavam e se liam, ainda que no tempo de um cruzar, apenas. Saiu para o gramado externo, no campo alto, atravessou o pequeno bosque, a brita indicando o caminho permitido. Chegou ao prédio antigo, entrou. Tão logo atravessou o hall, tomou o corredor da direita e desceu a pequena rampa. Caminhava com um pouco mais de ansiedade. Não se lembrava de como era afastada aquela sala. Começava a cansar da caminhada. Chegou à escada, abrupta como a decisão sua de retornar. Tocou a palma da mão ao corrimão de pedra e sentiu frio. Por alguns segundos, Ítalo parou. Olhou o teto, ainda havia fluorescentes iluminando o caminho. Decidiu descer, e assim o fez. Estava sozinho agora, e as paredes estavam nuas. A escada descia em seus quatro lances. Depois novo corredor, extenso corredor, e algumas salas. Mais um declive e a luz era baça. Ainda podia voltar, mas este era um pensamento que apenas alimentava como possibilidade de diversão, um passatempo, a decisão estava tomada. Quando chegou ao último corredor, Ítalo parou e encheu os pulmões daquele ar de decisão. As pedras do chão já gastas pelos anos, pelos muitos anos. Caminhava depressa agora, muito depressa, até chegar à pequena porta. Tinha apenas um metro de altura aquela porta, e no seu lado externo ostentava ainda aquela antiquada aldrava. Não bateu, não precisava bater, era esperado. De joelhos, empurrou a porta e entrou. A luz era fraca e o teto baixo, muito baixo, não se ficava de pé ali, e não havia aldravas do lado interno da porta, que fechou. “Não há volta” – pensou Ítalo, apenas por pensar, porque já o sabia. Para não se cansar muito, resolveu seguir engatinhando até a outra porta, aquela que dava para o imenso salão anunciado pelas antigas e enferrujadas letras de ferro que diziam TODOS OS NOMES. Ítalo nunca estivera naquele salão, mas o conhecia, já soubera dele, já o experimentara de alguma forma. Entrou. Não era estreito o salão TODOS OS NOMES. Era largo, muito largo, porém tão baixo quanto o corredor anterior, e o ar muito pesado. A luz ainda mais baça projetada pelas indecisas lamparinas anunciava ao fundo um pequeno agrupamento humano. Falavam baixo e o que chegava aos ouvidos de Ítalo era apenas um sibilo sufocado. Ítalo sentou por longo momento, e mesmo sentado sua cabeça tocava o teto. Esperou. Depois de muitas horas, uma voz se elevou do meio do agrupamento. Não era muito grave aquela voz, em realidade, não havia gravidade alguma naquela voz. Soava quase como um grito agudo: “Adentraste o castelo, Ítalo, e então?” – e seguiu-se o silêncio. Reconheceu na frase a voz de Franz, o processado por si mesmo. Nada aconteceu por longo tempo, e Ítalo pôde sentir seu corpo vivo: o latejar do sangue nas veias, o ar se revolvendo em seus pulmões. “Estamos todos aqui, e então?” – era Jorge Luis agora, a voz sufocada e pesarosa. “Toma o caminho que quiseres, mas para chegares aqui, tens que te arrastar para os lados” – falou alguma mulher, mas a esta não conseguiu dar nome, fosse talvez Virgínia, afinal, ao falar, sacudiu seu vestido e Ítalo pode ouvir também o som de pedras se tocando. Para os lados o teto caía ainda mais. Pôs-se de bruços, e com os cotovelos começou a se arrastar. “Não há horizontes aqui” – pensou, “o teto sempre há de baixar até o ínfimo espaço que o separará do chão, e então não poderei continuar”. Mas as pedras do teto apoiavam-se sobre aquela estante. Agora podia ver as estantes, eram muitas, infinitas e compridas estantes abarrotadas de livros, milhares de livros, milhões de livros, e quando seus cotovelos já se esfolavam, Ítalo percebeu que o teto já se ia afastando da sua cabeça de forma muito sutil, sempre escorado nas estantes. De cócoras, parou para descansar. Ficou admirando aquele cheiro de papel impresso. Esticou o braço e puxou um volume, impresso em desusados tipos, mas não leu as palavras. Apenas sentiu o livro em seus dedos, acariciou as páginas, cheirou, tocou-lhe a capa ao rosto e sentiu-lhe o calor das palavras que se querem anunciar. Sempre fora bibliogâmico. “Estão todos aqui!” – gritou TODOS OS NOMES de algum lugar. Ítalo estudou as possibilidades, eram muitas estantes, estas se cruzavam, e se encontrava, e se separavam. Ítalo avançou até quando pôde se pôr sobre os pés, sempre gostou de se pôr sobre os pés. Girou sobre si mesmo olhando ao seu redor. As estantes cresciam cada vez mais como calibãs que o convidavam para um banquete: o seu banquete. Estava indeciso. “Não importa o caminho, é sempre um caminho” – sussurrou sensualmente TODOS OS NOMES. Ítalo então decidiu continuar. “Toma o caminho que quiseres, mas para chegares aqui, tens que te arrastar para os lados”, e se seguiu o baque do corpo à água. “Eu sei” – pensou Ítalo, “Não é por acaso que se escuta duas vezes o mesmo aviso” – e se deitou ao chão e viu então aquela pequena passagem entre os in-fólios. “Não há como ficar de pé quando se está aqui; aqui, arrastamo-nos todos” – TODOS OS NOMES dizia o que parecia ser um discurso repetido já muitas vezes. Ítalo espremeu-se na passagem que dava naquele duto ainda mais estreito e completamente escuro, e restava-lhe apenas se arrastar e seguir esperando chegar a algum lugar. Chegou em lugar algum. Lugar algum eram pouco pior iluminado que o salão TODOS OS NOMES, e ali estava só. No entanto, a cena era a mesma, as ainda maiores estantes se perdiam em algum lugar indefinido lá no alto de lugar algum. No entanto cheiravam a off-set os livros desta nova sala, e eram muitos mais. Ítalo levantou-se novamente, e por alguns minutos ficou estudando suas possibilidades: “Como chegar? Qual o caminho” – perguntou-se. TODOS OS NOMES permaneceu silencioso. ECO! Como chegar... chegar... chegar... Qual o caminho... minho... minho... “Não há saída para este labirinto” – pesarosamente anunciou Jorge Luis. Em não havendo saída, Ítalo pensou que poderia permanecer ali parado, definhando até não ser mais, tampouco porém seria esta solução melhor. Nauseado, debruçou-se sobre o estômago e vomitou. Lembrou-se do amigo Roquentin, a quem negligenciara, e pensou que talvez pudesse encontrá-lo também neste labirinto, mas desistiu logo de tal pensamento: de nada adiantaria Roquentin por perto, provavelmente diria que labirinto por labirinto melhor este, que os olhos vêem. Ítalo entendeu que poderia caminhar, arrastar ou simplesmente ficar. “Adentraste o Castelo, Ítalo, e então?” – repetiu o processado, agora irônico. Não há muitos entãos. Amparando-se nas estantes, para não cair, Ítalo pegou o corredor da esquerda sem pensar no sentido daquele caminho, e bêbedo, deixou-se conduzir pela vontade de seguir, apenas. Os corredores faziam voltas, terminavam abruptamente, revelavam fossos profundos e enormes penhascos de livros. Ítalo já não conseguia mais se amparar nas estantes. O corredor pouco a pouco foi se alargando como se fosse um funil ao contrário, e o teto voltou a baixar, baixar, obrigando Ítalo a curvar a cabeça, as costas, dobrar os joelhos e voltar a se arrastar. Percebeu-se nu, e sentiu o frio do piso sobre si. A pedra, ainda que lisa, esfolando sua pele, macerando suas juntas. O salão cada vez mais largo, e cada vez mais distantes as estantes. Lá no fundo uma luz baça projetava nas paredes a sombra de um pequeno agrupamento humano. Falavam baixo e o que chegava aos ouvidos de Ítalo era apenas um sibilo sufocado. Ítalo sentou por longo momento, e mesmo sentado sua cabeça tocava o teto. Esperou. Quando se movesse, Virgínia anunciaria novamente sua sentença e Ítalo apenas seguiria, como os bois que movem o engenho, seguiria, como a máquina infinita do relógio, seguiria, como o texto que se desfia sozinho.

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*Viegas Fernandes da Costa: historiador e escritor. Autor de "Sob a Luz do Farol" (Crônicas, 2005) e "De Espantalhos e Pedras Também se Faz um Poema" (Poemas, no prelo). Permitida a reprodução, desde que citado o autor e o texto mantido na íntegra.
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