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sexta-feira, 7 de março de 2008

A ventura de um morto (Raymundo Netto)


Vinha batendo às paredes, puxando o nó da gravata com agonia. A boca seca deixava transparecer, num canto, uma espécie de baba branca. Suava demais a procurar algo nos bolsos. Havia largado a pasta a poucos metros. Tombou, ao fim, no chão.
As pessoas em torno estranhavam e apressaram os passos. Uns moleques aproximaram metendo as mãos nos bolsos de seu paletó, na camisa, na calça. Outro deles, já ia longe correndo com a pasta enfiada debaixo da camisa.
O movimento naquela calçada era grande, mas ninguém podia parar a não ser quem tinha seus interesses...
Dois rapazes beiraram o homem caído. Enquanto um chutava-lhe a costela com a ponta do sapato, outro lhe batia na face com um jornal. Ele não sinalizava coisa alguma, nem gemido nem ofensa. Nada. Eles deram com os ombros, tiraram-lhe os sapatos, os óculos escuros, a calça e o paletó. Foram.
As pessoas passavam por cima, tão atrasadas, não o percebiam.
O gari que varria a calçada reclamou do que rebolavam por ali. Com a vassoura, empurrou o homem até deixá-lo na coxia. Outro gari, que limpava a coxia, protestou de imediato “Aqui não, violão!” e empurrou o corpanzil, de bruços, para o meio da rua.
Os carros, que também não podiam parar; passavam-lhe por cima, macerando-o contra a pista. Trânsito caótico. Compromissos demais.
Alguém parou, desceu do carro, olhou indignado para o prostrado:
— E a prefeitura não faz nada? A gente paga impostos para quê? Poderia estragar o meu carro, ora! — voltou e ligou, do celular, para a Ouvidoria.
Uma senhora passando na calçada o viu estirado, empastado, sujo e, aproveitando o sinal, o arrastou até uma viela próxima. Chegando lá, examinou à sua volta, não viu ninguém e arrancou um olho, correndo com um sorriso maroto nos lábios: uma córnea! Com pouco mais, alguém viria buscar a outra.
Finalmente, a polícia chegou. Avistou o corpo seminu na rua e o recolheu: atentado ao pudor!
Na cadeia, os outros presos o viam com desconfiança, ofereciam-lhe bagulhos, contavam piadas, mas ele permanecia indiferente. Perceberam que ele não era um deles, se amotinaram e usaram-no como refém. A cena foi ao ar para todo o país: um jovem apontava-lhe o cano do revólver à testa, órbitas negras arregaladas, as veias do pescoço intumescidas e estranguladas pelo braço potente, a ameaça de jogá-lo pela janela. A equipe de socorro pedia-lhe calma, calmacalmacalma. O suor frio escorria na face exangue. Do ouvido, escorria outra coisa...
Logo a polícia contornou a situação. Rebelião desfeita. Os bandidos, porém, decidiram vingar-se do traidor. Espancaram-no, quebraram-lhe os dentes e o enforcaram com a própria cueca. No outro dia, a manchete: Refém de rebelião suicida-se!
A comoção foi geral. Algumas entidades se juntaram em vigília àquele homem — velas e faixas às portas da cadeia pública —, mais uma vítima da opressão e da violência. Choraram, rezaram por ele, abraçaram o prédio em nome da PAZ.
Um fato causou, então, maravilhamento: um aleijado, presente na multidão, soltou as muletas e se pôs a caminhar. As pessoas se horrorizaram: um milagre! O homem era santo, minha gente, era santo!
Os populares invadiram a cadeia e, quando trouxeram o corpo à rua, feito um cristo crucificado, a multidão o disputou. Todos queriam uma lembrança do corpo santo. O olhar vazio, a mandíbula deslocada para esquerda, a venta para a direita e, mesmo assim, alguém lhe decepou o braço, outro rasgou-lhe a perna, torceu-lhe os pés... Humildes, os malogrados se satisfaziam em banhar-se do sangue alaranjado vertido dos cotos dilacerados.
Diante do clamor público, os órgãos do governo decidiram enterrá-lo com honras de herói.
Cerimônia concorrida sob olhares marejados. Sobre o caixão, em momento solene, a bandeira, a chave da cidade, a comenda maior e o título de cidadão.
O esquife solitário parecia repousar à cova. As coroas de flores amofinavam a despedida. A terra, porém, apropriou-se dele, se arraigou e passou a extrair-lhe os tecidos frágeis, cada célula, cada fleuma arterial, não lhe poupando, desta vez, nem os cabelos, numa guerra silenciosa que se passa despercebida debaixo da grama verde que viceja. Diante da quietude, um estertor ralo, quase como um pensamento, emergiu:— Meus remédios, onde estarão os meus remédios?
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