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terça-feira, 5 de agosto de 2008

O retorno (Belvedere Bruno)


















Aguardava, mais uma vez, seu retorno. Sabia que, num dado momento, ouviria sua voz, a princípio, fingindo indignação para, aos poucos, amaciar, tocando de mansinho todo meu ser. Por meses, acalentei o desejo do reencontro, mas me afligia o passar dos dias. Seria um teste para meus limites? Nada havia ocorrido fora do normal, em se tratando de brigas de casais. As mesmíssimas discussões, por vezes tolas e sem sentido. Fato corriqueiro nesses quinze anos de relacionamento. Ela voltaria. Claro que sim! Estava cheio de certezas, mas, mesmo assim, decidi procurá-la. Sim, eu nunca tivera orgulho, pois meu amor ultrapassava quaisquer barreiras imaginárias.Tracei estratégias e, embora mantendo a esperança, sentia que alguma coisa estava fora dos eixos. Não sabia exatamente o que. Como era difícil viver sem sua presença! Era como se fosse parte de mim. Por onde ela andaria?
Sentado à mesa de um bar, cercado por amigos e alheio à conversa ao redor, eu olhava para o vazio, refletindo sobre os descaminhos da vida, quando, subitamente, alguém me tirou daquele estado. Era ela, sentada sozinha a uma das mesas. Aproximei-me, colocando as mãos sobre seus ombros e, com decisão, levantei meu rosto, como se perguntasse: "o que está havendo?" Poucos segundos bastaram para sentir que empreendia uma viagem que não me levaria a lugar nenhum. Um homem chegava, abraçando-a ternamente. Senti-me invisível. Ele parecia ocupar, de forma definitiva, aquele lugar, que hoje vejo, a despeito do tempo, nunca fora meu.Virei-me, sem que nenhum de nós pronunciasse palavra, mas seu semblante, ao lado daquele homem, resplandecia, como nunca havia visto no decorrer de nossos dias... Senti o baque e, com ele, a doída e nunca pressentida certeza do nunca mais.
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