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terça-feira, 25 de novembro de 2008

Lobisomem (Clauder Arcanjo)



Sete nós na camisa, às avessas. Na noite de lua cheia, sem pressa. No breu da noite, na encruzilhada das veredas, o uivo da transformação. Espojando-se na terra ainda quente, descorado que nem flor de jerimum. Na casa-grande, sob os lençóis molhados, Francisquinha, com o corpo trêmulo de vontade, sonha com o corpanzil peludo e com aquelas garras a rasgar as suas carnes frescas e libidinosas. À meia-noite, a tramela da janela ringiu, e uma jovem de branco rasgou o véu da escuridão da madrugada. Sendo saudada pela canzoada enfurecida. Era junho, e, nas capoeiras, o estralado de cipó falava da farra-coito, libações sanguíneas, do lobisomem com a mula-sem-cabeça. Enquanto isso, no quarto principal da casa-grande, ao pé da Virgem Maria, os pais de Francisquinha, transidos de medo, agradeciam aos céus pela proteção da única, e recatada, filha.
Clauder Arcanjo — Professor clauder@pedagogiadagestao.com.br
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