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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Revista do escritor brasileiro (Batista de Lima)




Fundada em janeiro de 1992, persiste, sendo editada, ´Literatura: Revista do Escritor Brasileiro´. O editor é o escritor Nilto Maciel, até hoje. O local de nascimento dessa revista literária é Brasília.
Nilto Maciel é cearense mas residiu bastante tempo na Capital Federal por conta de sua profissão de advogado e funcionário público da união. Irrequieto, esse contista militou nos principais grupos literários cearenses dos últimos tempos, entre eles, ´O Saco´ e o ´Siriará´. É também autor de vários livros de narrativas, destacando-se a novela A guerra da donzela, o livro de contos As insolentes patas do cão e o romance Estaca Zero.
Apesar de sua humildade em achar que a revista é produto das pessoas publicadas, sabe-se que ele é o faz tudo da publicação. É ele que lidera os autores e que administra financeiramente a revista, a ponto de, muitas vezes, ter que utilizar recursos próprios para a sua não desativação. É bem verdade que ele acercou-se de escritores amigos e corretos nas ações. Basta ver o conselho editorial do número 01 que traz Emanuel Medeiros Vieira, Dimas Macedo, Uilcon Pereira e Enéas Athanázio. São nomes sérios, dentro do universo literário brasileiro, e que ainda hoje continuam participando da revista, com exceção de Uilcon Pereira, que faleceu prematuramente.
A proposta inicial da revista vem assim transcrita no primeiro número: ´Literatura se destina a divulgar livros, autores e idéias. Sobretudo aqueles editados por pequenas e médias editoras, ou por conta do autor. Para tanto, publicará, em primeiro lugar, artigos, resenhas, comentários, pequenos ensaios, bem como depoimentos, entrevistas, etc. Secundariamente publicará poemas, contos, crônicas, etc´.
Pulando do número 01 para o 33, o último a sair, em 2007, verifica-se que o estilo é o mesmo, mas a revista está mais personalizada. Já vem com código de barra, ISSN, e com um corpo de colaboradores composto de nomes reconhecidos nacionalmente. É só comprovar ali, a presença de escritores como Fábio Lucas, Francisco Carvalho, Glauco Mattoso, do próprio Nilto, de Jorge Tufic e de Ana Miranda. Depois, há o fato das matérias passarem atualmente por exigente peneirada, tendo em vista o volume de colaborações que chegam às mãos do editor.
A vitalidade dessa revista é atribuída à persistência do escritor Nilto Maciel e à qualidade do material publicado. Ultimamente ela vem sendo editada em Fortaleza pela RDS Gráfica e Editora e tem como endereço para correspondência, a rua Haroldo Torres, 1111, ap.101, no Monte Castelo, com o CEP 60357-100. Se o colaborador preferir correio eletrônico é só utilizar o E-mail: niltomaciel@uol.com.br. Se o material for de qualidade, com certeza aparecerá estampado na revista. A distribuição alcança o Brasil inteiro e algumas localidades do exterior.
A resistência de ´Literatura´ nos leva a algumas conclusões. A primeira é de que a facilidade, hoje, de se editarem revistas eletrônicas não restringiu o número de publicações de periódicos impressos. Parece que o encantamento de se ter em mãos uma coletânea de textos dos mais variados autores não se acaba nunca, além do fato de se poder transportar no nosso aconchego para os mais inusitados espaços. Depois, há a questão da distribuição. Cada autor é um distribuidor. Como a revista traz autores de quase todos os estados brasileiros, não é de se admirar que a mesma circule nacionalmente sem ter a respaldá-la uma grande distribuidora. E tem mais, o leitor ainda guarda o mito de que a revista chegada pelo correio traz uma sensação de gentileza muito maior do remetente, do que aquela enviada por meio eletrônico.
Há, no entanto, uma dificuldade que surge, que fica por conta dos custos das taxas dos correios. Sabe-se que Nilto Maciel nunca aceitou numerários para essas taxas. Sempre foi parcimonioso com relação a finanças. O que prova isso é um fato que aconteceu com a publicação nessa sua longa trajetória. É que do número 15 ao 32 o editor passou a fazer sempre uma entrevista longa com determinados escritores de valor, e colocando, como capa inteira, uma foto do homenageado. Começou com José Saramago e terminou com Nelson Hoffmann. Foi então que excelentes escritores foram homenageados, entre os quais, Caio Porfírio Carneiro, Astrid Cabral, Eduardo Campos, Alcides Pinto, Francisco Carvalho e Flávio Kothe.
Ficou sendo muito honroso aparecer como capa da revista. Daí que candidatos a escritor, desses endinheirados que publicam péssimas obras em edições luxuosas, começaram a assediar Nilto Maciel com quantias apreciáveis para aparecerem homenageados. No entanto, fiel ao seu compromisso com a qualidade, ele negou-se a atender a esses pseudo-escritores exibicionistas, arranjando algumas inimizades. Foi então que pensou inclusive em desativar a revista. Aconselhado então pelos amigos autores colaboradores ele saiu com o número 33 sem colocar retrato de autor nenhum na capa. Assim sendo a revista inicia uma nova fase. Vai continuar sendo editada graças ao empenho desse batalhador que é Nilto Maciel. Agora traz na abertura uma nota: ´Literatura tem o compromisso de publicar apenas aquelas colaborações que foram encomendadas, o que não exclui o exame e avaliação de outros originais recebidos. Os conceitos emitidos em matéria assinada não representam, necessariamente, a opinião da Revista. Não se devolvem originais´.

(Diário do Nordeste – Fortaleza, Ceará Terça-Feira 26 de Fevereiro de 2008)

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terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Lideranças do Contestado (Enéas Athanázio)




Por circunstâncias da vida, nasci e cresci dentro do território do Contestado. Nos meus tempos de criança, no entanto, não se tocava no assunto, nem mesmo nos colégios onde estudei. Só o saudoso Prof. Estevão Juk, destoante da média em virtude de sua independência, aludia vez ou outra à insurreição cabocla. Era uma espécie de tema tabu, escondendo talvez secreto pudor ou vergonha de lembrar episódios sangrentos provocados por “bandidos e fanáticos atrasados.” Mesmo nessas raras referências, no entanto, falava-se na “revolta dos jagunços” e não em Contestado, designação que só ouvi muitos anos mais tarde, o que me leva a crer que foi invenção dos historiadores ou militares e não nasceu da boca do povo. Por outro lado, havia uma demonização do movimento no inconsciente popular, generalizando o terror implantado por Adeodato, mais conhecido por Leodato, que imperou apenas na última fase. Em relação a essa figura, mesclavam-se sentimentos de admiração e temor. Seu nome “fazia criança dormir.” Confirmando o que observei na minha região, sabe-se hoje que a imprensa em geral deu reduzido espaço à guerra que se estendeu por quatro anos (1912/1916), fazendo uma cobertura precária.
Existe hoje grande interesse pelo Contestado e, em conseqüência, vem se formando extensa bibliografia sobre o assunto, tanto na história como na ficção e até na poesia. Soma-se a ela agora um novo e importante título: “Lideranças do Contestado”, de autoria do historiador e professor da UFSC Paulo Pinheiro Machado (Editora da UNICAMP – Campinas – 2004). Baseado em ampla e minuciosa pesquisa, incluindo incansáveis excursões aos locais e entrevistas com numerosas pessoas, o conteúdo da obra vai muito além do título, constituindo-se em autêntica história do movimento, desde o início até o fim, penetrando na análise de suas causas e circunstâncias que o rodearam. Creio que é um dos mais completos ensaios existentes, se não o mais completo de todos, além de refletir a isenção de um autor que não tem laços pessoais com a região. Tal como o leitor há de estar se indagando, eu também indaguei por que foi o livro publicado pela UNICAMP e não pelas editoras locais. Creio que o próprio livro contém a resposta: em várias passagens ele põe em dúvida a palavra de consagrados autores sobre o assunto, quando não desmente, de forma frontal e com o peso de argumentos irrespondíveis, algumas de suas afirmações. E isso acontece em diversas oportunidades.
A primeira observação que se impõe com a leitura diz respeito ao desinteresse e ao alheamento da Capital em face do que acontecia no Planalto. Só mais tarde, quando as hostilidades explodiram de forma incontrolável, foram tomadas as providências necessárias e o governo estadual se fez mais presente. E, como sempre, a política miúda intervinha e atrapalhava, contribuindo para a situação caótica que se implantou em grande área da região. Cansados do jugo dos padres e dos coronéis que tudo dominavam com mão de ferro, buscavam os caboclos, desde o início, maior liberdade de ação e a possibilidade de viverem a seu modo, criando um novo estilo de vida. “Seria a construção de algo realmente novo, onde não vigoraria o poder das antigas autoridades. (...) O sentimento de irmandade cimentava estas práticas comunitárias (...) do que um comia, tudo tinha que comer; do que um bebia, tudo tinha que beber; todos eram irmãos” (pp. 209/210). Esse sentimento de irmandade era algo real, palpável e forte no interior dos redutos que se formaram com as bandeiras compostas de crentes que para eles se transferiram com suas famílias, teres e haveres. Surgiu um comunismo primitivo que nada tinha de marxista ou doutrinário. O ambiente ainda impregnado das pregações dos dois monges João Maria reforçava a fé dos caboclos. Contrariando o que tantas vezes se afirmou, o movimento foi composto de caboclos pobres, inclusive aqueles considerados ricos eram, de fato, pobres, e quase não havia pessoas oriundas de outras regiões do país. O grosso dos revoltosos se constituía de gente da região, incluindo as lideranças. Eram os “crioulos”(1) ou “pelos duros”(2), que depois passaram a se dizer “pelados”, em contraposição aos “peludos”, - os inimigos -, porque passaram a raspar as cabeças. Mesmo os “arigós”(3) demitidos da ferrovia, depois de sua conclusão, e que aderiram ao movimento, eram oriundos da região.
Como em outros movimentos semelhantes – Canudos, Caldeirão, Pau de Colher – os revoltosos eram monarquistas. Acreditavam que a monarquia fôra instituída por Deus, sendo, portanto, mais justa e honesta, o que revela como esse regime penetrou fundo na alma popular que enxergava no imperador uma espécie de pai de todos. Imaginavam estabelecer nos redutos um regime monárquico, mas como o “rei”, - o monge José Maria, - havia falecido e estava ausente, formou-se uma curiosa monarquia sem rei. O rei, acreditavam eles, ressuscitaria e voltaria para combater os peludos à frente do exército encantado de São Sebastião. Esse culto a São Sebastião, ao contrário do que muitos pensam, nada tem com o “sebastianismo”, inspirado no rei português que morreu nas Cruzadas, na batalha de Alcácer-Quibir, em 1578. O santo venerado é o São Sebastião soldado do exército romano e guerreiro, que foi amarrado e vítima de flechadas, mas não morreu, sendo mais tarde morto a bastonadas e lançado na Cloaca Máxima, de onde foi resgatado por cristãos e sepultado nas Catacumbas. Sua memória é celebrada em 20 de janeiro e as imagens sacras o figuram sempre amarrado ao poste e crivado de setas. A crença no retorno, porém, parece indicar a existência de certa confusão entre as histórias do rei e do santo.(4) Os chamados “12 Pares de França”, objeto de tantos comentários, na verdade nunca existiram. Segundo o autor, os sertanejos se referiam apenas aos pares de França, sem fixar o número de doze e sem referir-se a Carlos Magno, mais um detalhe que teria sido criado pelos intérpretes ou por lendas. No caso, a gesta carolíngia teria sido deturpada ou interpretada de forma errônea.
A rígida disciplina imposta nos redutos acabou gerando autêntica ditadura dos chefes e qualquer desvio merecia enérgica punição. Ao tempo de Adeodato, o último chefe, a partir de 1914, essas punições foram numerosas e de grande violência. Muitas delas são relatadas pelo autor.
Como se sabe, dois foram (pelo menos) os monges de nome João Maria que palmilharam o Planalto em pregações e previsões apocalípticas. No imaginário popular, porém, ambos se unificam e confundem num só, como concluiu o pesquisador Nilson Thomé em minucioso estudo. O autor do livro aqui comentado estabelece nítida distinção entre um e outro e, mais tarde, com a figura do monge José Maria, esclarecendo muitas confusões. O primeiro João Maria seria italiano, surgiu em Sorocaba em 1844 e desapareceu de circulação por volta de 1870. Seu nome era João Maria Agostini ou D’Agostini, e ficou conhecido como João Maria de Agostinho. Além de Sorocaba, perambulou pelo Rio Grande do Sul e pelo Paraná, onde existe uma gruta na qual teria morado, nas redondezas da cidade da Lapa, e, certamente, pelo nosso Planalto. Expulso do Rio Grande, veio para Santa Catarina, onde permaneceu “por alguns meses de 1849, vivendo voluntariamente isolado na Ilha do Arvoredo, a quinze quilômetros do litoral de Porto Belo, e depois seguiu para o Rio de Janeiro e retornou a Sorocaba” (p. 229). A permanência do monge nessa ilha é evocada num conto de José Boiteux, publicado no livro “Águas Passadas” (1932). Pregava o uso de águas curativas, a abstenção de carne aos sábados, guardar uma vida de respeito e penitência e levantar cruzes em locais indicados, em número de 14, conforme as estações da via sacra. Como conclui o autor,“tinha uma relação bastante próxima com a estrutura oficial da Igreja católica” (p. 164). Oswaldo Rodrigues Cabral foi o mais minucioso investigador dessa figura itinerante, sempre coberta pelo gorro de pele de jaguatirica e apoiado em seu cajado.
O segundo João Maria seria sírio de nascimento e tinha sotaque acastelhanado, tendo vindo de Buenos Aires, onde, com certeza, viveu por algum tempo. Chamava-se Anastas Marcaf e peregrinou longamente pelo Planalto entre 1890 e 1908 ou 1910. Ficou conhecido como João Maria de Jesus e dizia que vivia peregrinando para cumprir uma penitência. Entre sua entrada em cena e o desaparecimento do primeiro mediou um tempo de pelo menos dez anos. Tinha certa semelhança física com o primeiro, também falava em águas santas e pregava a necessidade de erigir cruzes. Evitava aglomerações de povo e não permanecia muito tempo no mesmo lugar – “anoitecia e não amanhecia”, diziam. Era monarquista, tinha simpatia pelos federalistas e “teve uma relação hostil com o clero católico: fazia batizados; propalava um discurso apocalíptico com grande receptividade no Planalto”(p. 168). Tinha fama de milagroso, realizando muitas curas, e punha extrema atenção nos sinais da natureza. “Quem não sabe ler a natureza é analfabeto de Deus” – afirmava. Esteve nos campos de Palmas, no vale do rio do Peixe, no interior e nas vilas de Campos Novos, Curitibanos, Rio Negro, Canoinhas e Porto União. Nas cercanias desta cidade, no pico do Morro da Cruz, existia um cruzeiro que teria sido erigido por ele. Dizia-se que quando essa cruz caísse haveria uma enchente catastrófica no rio Iguaçu. Segundo os padres franciscanos, foi ele o grande responsável pelo fanatismo religioso na região, mesmo tendo desaparecido muito antes dos embates guerreiros. A crença popular afirma que João Maria se retirou para o alto do Morro do Taió, onde vive até hoje, “encantado”, com quase duzentos anos (pp. 168/169). Foi um líder nato, com intenso poder de convencimento, e sua atitude independente em relação ao clero fechava com o sentimento dos insurgentes que se consideravam vítimas de padres e coronéis.
Decorridos de dois a quatro anos, aparece no cenário o monge José Maria, aquele que alguns autores consideram o “monge de guerra”, fato que o autor põe em dúvida ao mostrar que ele tudo fez para não guerrear e só iniciou as hostilidades para não recuar diante de um desafio peremptório. Por volta de 1912, vivia no povoado do Espinilho, no município de Campos Novos, onde se fizera “erveiro” competente, receitando mezinhas e garrafadas, realizando suas curas, além de rezas e benzimentos. Numa época de escassos médicos e farmacêuticos, ele supria a ausência desses profissionais da saúde, dando assistência aos doentes que o procuravam. Foi ali que uma grada comitiva de revoltosos foi buscá-lo para comandar o movimento e, assim, iniciar sua caminhada para ingressar na História. Homem de passado obscuro, chamava-se Miguel Lucena de Boaventura e proclamava ser irmão de João Maria. Morreu em 22 de dezembro de 1912, no combate do Irani, fato que marcou o início real da guerra. Nessa contenda também morreu o coronel João Gualberto, comandante das forças legais, e que alardeara que em poucos dias faria os fanáticos desfilarem, amarrados com cordas, pela rua XV de Novembro, em Curitiba. A morte do monge espalhou um rastro de ódio nos corações caboclos do Planalto, deu margem a inúmeras versões e lendas, e passou a alimentar a esperança de sua ressurreição, voltando à frente do exército encantado de São Sebastião para impor a suprema derrota aos peludos. Em sonhos ou visões, José Maria conversava com as “virgens santas”, os chefes e outras figuras dos redutos, transmitindo ordens e estratégias guerreiras. Ficou “encantado” e passou a ser visto em toda parte.
Daí em diante a guerra se estende até 1916 e os insurgentes chegam a dominar imenso território. Conhecedores do terreno e donos de uma coragem sobre-humana, praticavam uma guerra de guerrilhas que desnorteava as forças legais, atacando e recuando, usando da surpresa e da audácia. Invadiram a vila de Curitibanos, reduto do coronel Albuquerque, queimaram os povoados de Calmon, uma das sedes da Cia. Lumber, São João de Cima e São João dos Pobres, hoje Matos Costa. Em 5 e 6 de setembro de 1914 foram incendiados Calmon, sob o comando de Chiquinho Alonso, e São João dos Pobres, sob o comando de Venuto Baiano. A violência dos ataques não teve limites. Todos os homens adultos foram mortos, as instalações ferroviárias incendiadas. Em Calmon, a serraria da Lumber, símbolo do poder estrangeiro, foi reduzida a cinzas, e as labaredas, segundo testemunhas, iluminaram o sertão durante noites seguidas. O capitão Matos Costa foi morto no dia 6, num equívoco lamentável porque foi uma pacifista e entendia os reclamos dos caboclos (pp. 263/264).
São algumas observações sobre um livro que aborda tema dos mais complexos de nossa história, ao qual trouxe grande contribuição, embora muito ainda haja a desvendar, como adverte o próprio autor. É uma obra que daqui em diante será indispensável em qualquer pesquisa sobre o Contestado, cuja ausência a inquinará de grave falha. Anoto, por fim, a surpresa que me causaram os muitos erros de redação existentes no texto, em especial no mau uso da crase, fato que recomenda rigorosa revisão na hipótese de nova edição. No conjunto, é obra isenta, minuciosa e bem fundamentada.
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Notas:
(1) Crioulo, no Planalto, é a pessoa originária do local. Nada tem a ver com descendência afro e nenhum sentido pejorativo.
(2) Pelo duro é o caboclo puro, sem mistura de outras raças.
(3) Arigós eram os trabalhadores braçais da ferrovia. A maioria foi demitida com o término da construção da estrada de ferro.
(4) “Enciclopédia Brasileira Globo”, P. Alegre, Editora Globo, 1971, 12a. ed., Tomo X.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

O caminho de casa (Leonardo Vieira)



No mesmo dia da morte de Edgar, um homem alugou a casa vizinha. A viúva não deu importância ao fato, pois a dor da perda ocupava-lhe todas as horas. Os vizinhos, do mesmo modo atingidos pela morte daquele homem que se mostrara sempre tão amável e próximo, acharam estranho que, após tantos anos, a casa fosse ocupada.
Chegou um caminhão. Dois funcionários de uniforme levaram para dentro da casa uns poucos móveis: a cama de casal, mesas de cabeceira, armário, sofá, poltronas, escrivaninha, e tudo o mais que compõe o lar de pessoa solteira. Quando os carregadores terminaram o serviço, receberam a gorjeta do homem, e o caminhão partiu logo depois.
Os dias foram passando. A viúva, aos poucos, foi voltando à “rotina”. Já não permanecia trancada em casa, mas podia ser vista saindo, principalmente à tarde, para passear com o gato que havia comprado após a morte do esposo. Fazia-lhe companhia; e os vizinhos, sempre gostavam de dar-lhe boa tarde. Os pêlos de seu corpo pareciam arrepiar-se quando se aproximavam dele, e um guizo, pendurado no pescoço, brilhava com mais intensidade, se passavam os dedos em sua cabecinha, fazendo-lhe carinho.
À medida que a sombra da morte foi se dissipando do lugar – a casa da viúva estava sendo decorada com animais de topiaria, anões de jardim, a fonte artificial com o anjo segurando um jarro, de onde brotava água; de vez em quando, o jardineiro aparecia para modelar os arbustos; homens da loja de gesso traziam as peças ornamentais – os vizinhos perceberam que o homem da casa vizinha nunca havia saído dali, desde o dia em que a alugara. Viam-no surgir atravessando a janela da sala. À noite, numa seteira do segundo andar, divisavam seu rosto. Se perguntassem a cada um deles como seria o homem, não conseguiriam descrevê-lo, apesar de que a distância que separava as casas não passava de poucos metros. O estranho é que todos, quando se deparavam com sua figura, não podiam deter-se. Se tentavam olhar o rosto, algo mais forte, o medo, talvez, os repelia. Só a senhora Joana, a dona da loja de roupas, dissera que ele parecia ser muito velho, os cabelos compridos chegavam até a cintura. Fumava algo como um cigarro, soprando longas baforadas. As faces, finas, aparentavam cansaço. No mais, qual o desenho dos olhos, da boca, do nariz, não, isso não se poderia discernir. Joana tremia se a mais leve insinuação de que ela havia contemplado o rosto era jogada ao vento. E assim, passaram-se meses, um ano, e o jardim da viúva tornou-se um alegre parque de brinquedos: mandara trazer um carrossel, cujos cavalos tinham o tamanho real. Os filhos dos vizinhos vinham brincar nele. Batiam na porta da casa; a viúva saía sorridente, devido às crianças ansiosas por se divertirem. Não chegara a ter filhos, quando via um menino, também se lembrava de Edgar. Mas com um sentimento de carinho tão intenso, como se ele fosse alguma daquelas crianças, como se, depois de morto, houvessem lhe dado o direito de regressar à vida. Mas não, as idéias se dissipavam. A viúva corria a ligar o carrossel, enquanto os garotos montavam nos cavalos. Então, o carrossel girava, ouviam-se gritos, gargalhadas, a felicidade das crianças. O gato concentrava um olhar congelado no carrossel, totalmente hirto, e o guizo refletia as inúmeras cores do brinquedo.
Então, a viúva passou a prestar atenção à casa vizinha. Após ligar o carrossel, e sentar-se num balanço, cujas correntes estavam atadas ao galho de um pinheiro, olhava para a fachada enviesada do vizinho. Se sua casa, após a morte do marido, tingira-se de coloridos, de verde, do rumorejar da água escorrendo do jarro do anjinho, no outro terreno não se ouvia nada. Não possuía árvores o pequeno pedaço de terra que ficava em frente. Da grade até a fachada, uma grama mal cuidada, ressecada, era tudo que havia. A fachada precisava de reparos urgentes, uma das janelas tinha o vidro quebrado, talvez alguma pedra atirada por crianças, não se saberia dizer a quantos anos.
Quando saía para o passeio com o gato, ou, quando precisava fazer alguma compra, a viúva, quase todas as vezes, colocava-se diante da grade da casa, apertava o rosto entre os vãos, e, se o homem lá dentro, de fato, reparasse nela, veria a face como que retalhada, olhos saltados, boca contraída, o pescoço, sobressaindo dos ferros, com o pomo-de-adão quase do tamanho de uma maçã. E ria, sim, ela ria, um riso esfatiado. Poderia se dizer que pusesse a língua para fora. Só a cabeça do gato seria vista por inteiro, atravessando os espaços entre as grades.
Os vizinhos estranhavam quando viam a viúva nessa situação. Pois não se mantinha naquele estado, o corpo espetado nas grades, espiando lá dentro, por pouco tempo. Mas como, de que forma, alguém conseguiria medir o tempo que se passava? Não foi uma hora que ficara ali, sem mover um músculo? No dia em que choveu, mesmo assim, não continuou lá, quase fazendo parte da arquitetura da casa, molhada, podia ser que pegasse uma pneumonia, fixa, no trabalho infatigável, imóvel, de olhar para dentro? E como poderia ser aquilo, quando todos, evidentemente todos, não conseguiriam nem mesmo ousar atravessar a rua, para ver a edificação mais de perto? Não, ninguém passava pela calçada do homem. Mas ela permanecia ali, hipnotizada. Porém, talvez ela nunca tivesse estado, na mesma posição, espiando. Talvez fosse isso o que pensassem.
Um dia, um desses dias muito radiosos de dezembro, na antevéspera do Natal, a viúva saiu com o gato, preso numa coleira. Não foi na direção do Jardim Botânico, onde, diariamente, passeava entre as aléias, admirava o jardim japonês, o orquidário, ficava algum tempo sentada numa das mesas do café, acariciando o gato, cujos olhos permaneciam sem brilho, quase apagados; e ronronando. O trajeto não mudava: do jardim japonês ao orquidário, deste ao café, todos os dias, como se obedecesse à lei de um relógio. A menina que lhe servia algum refrigerante ou refresco, se dirigia, de qualquer modo, apenas a uma senhora com seu gato, mas se lhe perguntassem sobre o que poderia achar dessa mulher, a boca iria se calar, ou, começaria a falar de outra coisa qualquer, olhos salientes, o queixo trêmulo. Como uma simples senhora poderia causar tanto espanto àquela moça, bela, de cujo corpo sorria uma vida intensa, com toda certeza a mesma mocinha que, nos horários de folga, era vista de mãos dadas com o namorado, que a amava, enlaçava-a nos braços, e desejava casar com ela? “Não é nessa mesa que ela se senta, todos os dias, na mesma hora?” “Quem?” “A viúva, com um gato?!” “Mas essa mesa, não, ninguém pode se sentar aqui, a essa hora, além de mim. Tenho plena certeza. Pois, também, todos os dias, nesse mesmo espaço de tempo de que você está me dizendo sobre a tal senhora, sou eu mesmo que estou sentado aqui, exatamente nessa mesa. E sabe por quê? Porque estou escrevendo um livro, e esse é o melhor lugar para se escrever. Essa é a mesa que eu escolhi para escrever!”
A viúva, como se disse, desviou-se do trajeto para o Jardim Botânico. Ao invés dele, pegou a rua do canal. E não se deteve, nesse dia, diante da grade da casa vizinha. Pegou o caminho inverso, o gato é que parecia levá-la, os olhos e o guizo brilhando devido ao sol intenso. Usava um chapéu de palha com bordado azul, o vestido da mesma cor. Depois do canal, chegou ao fim da rua pavimentada. Atravessou o solo coberto de folhas amarelas. Algumas folhas se juntavam às do chão, caindo das copas das árvores. O gatinho então fez com que ela passasse pelos portões do cemitério.
A grama verde. Debaixo do sol a pino, a viúva andou pelo terreno. Não havia lápide ou mausoléu. Nem mesmo uma cruz. O solo encontrava-se atapetado pela grama verde, fulgindo sob o céu inteiramente azul, sem nuvens. A grama perdia-se ao longe. Também não existiam árvores. O gato arrastava a viúva pelo tapete verde, macio, por um vento que soprava agora de lugar nenhum, mas que beijava-lhe o corpo em longas lufadas. No que podia ser o centro do cemitério, erguia-se um carrossel, igual ao que a viúva mandara colocar no jardim. Só que, à medida que chegava perto dele, as dimensões foram aumentando, de tal forma, que a viúva teve a impressão de que fosse uma criança. Com dificuldade, escalou um dos cavalos, o gato equilibrado num dos braços. Quando conseguiu postar-se na sela, tomada de alegria, percebeu que o carrossel não poderia começar a girar, porque não tinha ninguém para ligá-lo. Mas aquela criança não podia fazer isso? Não, não era a de uma criança aquela silhueta, muito longe, ao lado do que parecia ser uma cabana, pintada de branco. A figura, de cabelos longos e brancos, com fumo evolando do rosto, acenava para a viúva. Ela sentiu que o sangue fervia em seu corpo, que as bochechas afogueavam, apertou demais o gatinho, enquanto o carrossel começava a girar, o cavalo abaixava e levantava, o gato soltou um miado doce. E sabia que tinha sido ele que ligara o carrossel para ela, e isso a fez se sentir quase feliz.

Mas, alguns dias depois, a senhora Joana, dona da loja de roupas, recebeu uma carta. Nela, a viúva pedia que lhe fizesse um vestido, indicava todas as medidas do corpo, de modo que não fosse preciso tirar as suas. Joana achou tudo estranho. Estava no cômodo que transformara em sala de costura. Não conseguiu espiar da janela para a casa da viúva. O medo era incontrolável. Agora a casa vizinha e a da viúva pareciam ter se tornado uma só, uma construção geminada, que unia um único medo. Joana observou que o dia era de sol. As árvores, que ladeavam a rua que levava ao Jardim Botânico, mostravam-se carregadas de flores, abertas em grandes cachos. Alguns passarinhos vinham pousar nos galhos. As crianças agora se distraíam andando de bicicleta ou velocípede. Na casa ao lado da loja de roupas, o pai de uma menina acabara de montar a piscina. A garotinha, provavelmente, fazia brincadeiras na água, pois Joana escutava um chapinhar, as risadinhas, o barulho dos pés: Platch! Platch! Quase sorriu. Mas não, havia aquela carta. Observando melhor, Joana reparou que as letras haviam sido escritas com muita precisão. Sim, não eram letras normais: as vogais, consoantes, a pontuação, era quase como se houvessem sido impressas no papel por algum tipo de carimbo. Só que Joana sabia que as letras tinham sido escritas à caneta. Uma perfeição quase... Devia ter levado horas escrevendo. Talvez escrevendo e escrevendo, jogando fora cartas inteiras, se algum erro deformava, por mais leve que fosse, a arquitetura das letras. Ela pedia que lhe fizesse um vestido branco. Um vestido com mangas godê, sem decote. Para quê, aquilo? E por que não viera pessoalmente pedir? Era só atravessar a rua. Joana soube que, como eles, ela também tinha medo. Desde o Natal, as crianças não iam mais ao jardim, andar de carrossel. Pois a viúva não saía mais de casa. Igual a el... Não era mais possível vê-lo. Joana sabia que não conseguiria. Para tentar capturá-lo, seria preciso apenas virar um pouco mais o rosto, pois sua janela não era ao lado da viúva? Qual a última vez que o vira? Talvez sentado numa cadeira, na janela do andar térreo, o rosto retalhado pelas grades. Fumaça saía de algo na boca. Os cabelos ainda maiores, as madeixas se enroscavam, caíam pela janela e se emaranhavam no chão, chegavam até as grades. Joana teve um sobressalto, levantou-se da cadeira, dobrou a carta e a colocou sobre um cesto ao lado da máquina de costura. Apesar de tudo, era necessário trabalhar. Para o Ano Novo, o vestido tinha que estar pronto no Ano Novo. Precisava encomendar a fazenda. Mas, não era necessário, tinha ainda uma boa peça de tecido branco, no depósito. Se fosse por si própria, de modo algum, de nenhuma maneira daria prosseguimento à tarefa. Por que não rasgava a carta, esquecia de tudo, afinal ela, ela não estava...? Alguma coisa a guiava para pegar o tecido branco, dispor as agulhas sobre a máquina, pegar a tesoura e cortar o pano, depois abrir a carta e verificar as medidas, medir com a fita métrica, desenhar as partes do vestido, passar o desenho para a fazenda através do papel carbono, sentindo, por meio do lápis, o perfil do corpo da viúva, corpo que ia se desenhando em suas mãos. Apesar do medo, do medo que crescia, devido às formas que iam invadindo-a, Joana continuava. Dois dias antes do Ano Novo, o vestido estava pronto. De pé, cobrindo uma armação de arame, a viúva se postava no centro da sala de costura. A viúva sem pernas, braços e a cabeça.

Poucos minutos antes do Ano Novo, a viúva se olhava no espelho ogival do quarto. O vestido caía-lhe perfeitamente. A mulher apalpava a cintura. Ainda o corpo mantinha o antigo desenho. Os seios despontavam sob a fazenda branca. E o rosto? Como seria? Ninguém mais saberia dizer. Aquelas faces, vivas, sorridentes, só existiam agora para o espelho. A viúva se recortava diante do armário de roupas, das mesinhas de cabeceira, da cama de casal coberta com uma colcha de renda. A cama de casal! Calor tingiu-lhe as faces. Tirou o excesso de batom do lábio inferior com a ponta da unha. Para si mesma, nunca estivera tão jovem. O gato, as duas patas dianteiras salientes, parado na borda da cama. Os olhos e o guizo brilhavam como estrelas. Mas não escutava sua respiração. Como se houvesse parado de funcionar. Os relógios, também, há muito não funcionavam. Tic-tacs congelados. Na sala de estar, sobre a cômoda, uma moldura vazia, a tela totalmente branca, ladeada por dois jarros com água.
O que existia dentro da casa? Móveis, como em todas as casas, quadros, portas, janelas, cadeiras. Não se poderia dizer que houvesse algo a mais que isso. A casa de uma mulher, um tanto sóbria, de mulher de meia-idade. Alguns bordados, esculturas, porta-retratos. Só que parecia não haver mais desenho. As esculturas amorfas. Os porta-retratos guardavam entes invisíveis. Até os móveis, tudo se emaranhava, como novelos de teias-de-aranha, fios brancos, finos, engalfinhando-se, fios que chegavam até as grades. Dos tetos pendiam lustres de teias-de-aranha, em cujos casulos algo brilhava. Nos relógios, uma superfície de água mantinha os ponteiros soluçando; a madeira, o ferro, os parafusos encontravam-se virados ao avesso, como que retorcidos, em espiral; as portas não conseguiam dormir. Por mais cansada que estivesse a casa, não conseguia dormir. Refletido no espelho, um corpo, totalmente coberto por teias, tentava se libertar. A única coisa que se movia, que tentava gritar dentro da imobilidade. Podia-se ver o desenho da boca projetando-se na camada sedosa do tecido: um buraco no centro da espiral. Os braços alcançavam uma determinada altura, e voltavam ao mesmo ponto, ao mesmo eixo de sua inércia. Alguém brincava com a água da banheira, alguém que não era uma menina, algo que se aproximava de uma menina, uma menina ao avesso, vermelha. E um grito, um grito ecoou por todas as coisas, estourando os ovos congelados nas teias, rebentando os copos, estalando a madeira. A viúva sorriu, ajeitou uma mecha do cabelo, pegou o gato, aninhado num dos braços e desceu as escadas. Faltavam pouquíssimos minutos para o Ano Novo. Ela dirigiu-se à porta da sala. Nunca estivera tão feliz.
Ela o viu, ou, melhor, viu o que era possível, parado na entrada da casa. Onde estariam os olhos? Não dava para distingui-los, porque estavam em vários lugares, se deslocavam, levados por riscos, por pinceladas, deslocados, piscando tortos, ora azuis, verdes, negros, brilhando, refletindo o guizo e os olhos do gato, os olhos da viúva, seu corpo fragmentado nas pupilas. E o nariz? Só existia pele, algo como borracha, por sob a qual o nariz e a boca eram apenas protuberâncias, desenhos falsos do que pudesse se fazer humano. A boca tentava falar, mas a pele abafava o sentido. Algo, muito remotamente, como, talvez: Venha comigo! E os cabelos, seriam cobras de seda, ou línguas de teias-de-aranha? Caíam em grandes ramadas, iam até lá fora, pela rua, cobriam as grades, o carrossel abandonado, engrossavam as barbas dos anões de jardim, se empapavam da água do jarro segurado pelo anjinho de pedra, gotejavam dos animais de topiaria, escondiam os balanços, parecia neve nos galhos do pinheiro. A viúva sentiu a mão, apertando a sua. Uma mão quente, macia, viva! O cigarro saía da boca de borracha, e fumo se dispersava pelo ar.
Ninguém viu quando a viúva saiu de casa com o gato, e dirigiu-se como autômato para a casa vizinha. Por trás das cortinas cerradas, garrafas de champanhe espocavam. Famílias se abraçavam, casais se beijavam, beijavam-se as crianças, recebiam o Ano Novo como uma bebida sagrada. Até Joana, segurando um cálice de vinho, mesmo olhando para as cortinas cerradas, só prestava atenção à música que, ainda há pouco, botara para tocar. Uma musiquinha infantil. Ninguém viu quando o homem abriu a porta de casa, e a viúva, no seu vestido branco, com o gato, entrou. Ninguém mais reparou, a partir daí, que da casa, emanava um calor. Que se ousassem atravessar a rua, e espremessem o rosto entre as grades, veriam lá dentro os três, as três figuras de olhos brilhantes: a mulher, o marido, o filho.


Leonardo Vieira de Almeida é escritor e cursa o mestrado em Literatura Brasileira na UERJ. Autor do livro de contos Os que estão aí, Ibis Libris, 2002, e de contos publicados no suplemento literário Rascunho, do jornal do estado do Paraná, no jornal Panorama e no sites literários Paralelos e Bestiário. É também tradutor e mora no Rio de Janeiro.


* Este conto faz parte do próximo livro a ser publicado pelo autor, A caixa de ostras.
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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Vládia Mourão e a escritura do tempo (Dimas Macedo)




A questão do tempo, umas das mais controvertidas da filosofia, tem desafiado a argúcia e a inteligência de muitos escritores de talento. Santo Agostinho o considerou um problema de impossível conceituação e de formulação teórica quase enigmática. Platão nunca elucidou os argumentos que foram levantados em torno do assunto. E da física quântica à especulação teorética, em torno da sua extensão ou durabilidade, muito mais dúvidas foram acumuladas do que possíveis soluções acerca da sua pertinência.
Jorge Luís Borges, um dos maiores gênios da literatura, via o tempo e o espaço como se fossem um binômio de compreensão inacessível. Afirmou que ambos constituem uma realidade indissociável, configurando uma diversidade de sentidos que se unifica em torno de um mesmo dilema ontológico. E de forma que o tempo e o espaço são categorias eternas que transcendem a todas as especulações que, em torno da matéria, se possam tecer ou formular.
Fala-se comumente na existência de um tempo objetivo e de um tempo subjetivo e de uma medida de valor para cada nível da abordagem pretendida pelo intérprete. Mas é certo que isto representa apenas um ponto de partida, pois é indiscutível que existe um tempo circular, de natureza cósmica e mundializada, que abrange a permanência de ambos e que tanto fascinou o universo da cultura grega.
Existe um tempo histórico objetivado que se mede pela cronologia ou pelo calendário que cada civilização convencionou e que adota como parâmetro de suas exigências. Essa medida do tempo interessa muito de perto aos historiadores e tem sido de grande utilidade para o estabelecimento das agendas no âmbito do processo social e político.
Bem diverso do tempo objetivo, que a todos interessa de forma plural e indiscriminada, existe o tempo subjetivo que se aloja na base do espírito e que fascina, essencialmente, a todos os artistas e especialmente aos escritores de maior expressão e tirocínio. Se tomarmos o tempo do delírio imaginativo dos dois principais personagens do conto “Missa do Galo”, de Machado de Assis, ou se apelarmos para o tempo circular que movimenta o fluxo da consciência (e da linguagem) de Leopoldo Blom, o célebre personagem de Ulisses, monumento supremo da literatura de Joyce, podemos observar o quanto o tempo, em sua dimensão subjetiva, é um aliado forte de todos os escritores engenhosos.
Se invocarmos aqui a lição das Escrituras Sagradas, veremos que elas se referem a um tempo da anunciação e a um tempo da revelação, mostrando-nos que são atemporais, infinitos, complementares, simétricos e opostos o tempo do Antigo e o tempo do Novo Testamento. E assim como podemos falar de um tempo da semeadura e da colheita, podemos também nos reportar a um tempo da Graça e a um tempo da condenação ou do exílio da alma.
Entre a excitação e a satisfação, entre as grandes expectativas do homem e o instante da cura interior a que todos nós somos conduzidos, interpõe-se um lapso temporal ou um espaço de tempo que é infinitamente diferente em relação aos valores que cada ser humano professa. Rousseau, em Devaneios do Caminhante Solitário, e bem assim em As Confissões e no Emílio, mostra-nos que existem várias idades na perspectiva da idade cronológica. E que o lapso de tempo da existência proveitosa ou das misérias humanas de cada uma das pessoas não é medido pela quantidade do tempo objetivo que nos é destinado, mas pela intensidade com que vivenciamos a nossa experiência.
Torna-se, portanto, de grande utilidade, a abordagem da escritura do tempo na obra de um contista de fôlego e tão genial e abrangente quanto Samuel Rawet. Intelectual de origem judia, que vivenciou a herança da cultura judaica e que a renegou, posteriormente, com a verberação dos hereges, Samuel Rawet, indiscutivelmente, configura um dos marcos da curta ficção brasileira durante o século precedente.
A sua estréia na literatura, com os Contos do Imigrante (1956), mexeu com a inteligência da crítica. A sua obra, porém, toda ela plural e multifacetada, ainda não alcançou, no Brasil, a popularidade que todos os escritores do seu porte merecem e estão a reclamar. Isto, no entanto, não invalida os acertos da sua produção, pois toda obra de arte literária, para ser grandiosa, não depende tão-só da sua fruição ou da sua recepção por parte de leitores ou consumidores.
A sua hermenêutica e as suas possíveis releituras, a decifração da sua substância lingüística, a partir de elementos da semiologia e da semântica, e a redescoberta da sua unidade morfológica e dos arquétipos culturais que ela aloja nas suas entrelinhas, no seu enunciado filosófico e na polifonia da sua densidade significante são elementos que se prestam a remarcar toda a sua amplitude e abrangência.
Este livro de Vládia Mourão: Escritura do Tempo no Conto de Samuel Rawet, que arrebatou, em 2006, o Prêmio Osmundo Pontes de Literatura – o que constitui, de forma induvidosa, o reconhecimento das suas qualidades – é um atestado inequívoco de como a rendição ao ensaio literário e à reflexão filosófica pode resultar numa obra de larga importância para a hermenêutica.
Em toda a extensão do seu texto, de forma soberana, Vládia coordena e unifica os laços de intercessão e de afastamento entre filosofia, cosmologia e literatura, com passagens pela mística de percepção augustiniana e pelos aportes da psicologia e da crítica literária de formação erudita, que encara as várias possibilidades do texto e a sua inserção no chamado sistema literário.
A erudição e o refinamento da linguagem que perpassam a elaboração deste trabalho de reflexão e de pesquisa atestam muito bem o lugar a que chegou Vládia Mourão como ensaísta do campo literário. Autora de Três Dimensões da Poética de Francisco Carvalho (1996), sua tese de mestrado em literatura brasileira, e do instigante livro de ensaios intitulado Contextos (Des)conexos (2006), Vládia se firma agora na literatura cearense como uma das suas escritoras de estatura maior, que assume o seu oficio de pesquisadora e de esteta decididamente como destino e vocação.
Não me vou, neste texto, explicar o conteúdo didático que mapeia e ordena a construção de todos os capítulos desta belíssima tese literária ou que recorta a sua dinâmica e a sua concepção investigativa. Digo tão-somente que a pesquisa de Vládia Mourão é um marco e um aporte da filosofia especulativa direcionada para a compreensão das muitas interfaces da literatura.
O tempo e as suas concepções, a escritura e as suas transformações no curso da história, a subjetividade e a objetividade que governam a imaginação dos escritores, a posição de Samuel Rawet na literatura brasileira e o significado da sua obra literária, mormente tendo-se em vista a elaboração da sua curta ficção e a destilação dos elementos da cultura judaica e da cultura da imigração e do exílio, que interferem na sua construção estilística, estão neste livro de Vládia Mourão a desafiar a curiosidade do leitor.
Colocando-se um pouco à margem do circuito da literatura que hoje se faz no Ceará, isto é, à margem das igrejas e do sistema da moda que transita pelos restaurantes, clubes sociais e academias, às vezes infestadas de veleidades e de gostos que nada dizem a respeito das grandes essências literárias, Vládia Mourão, desta forma, enobrece a sua militância e os espaços da sua atuação.
A disciplina, a paciência, a metodologia, a austeridade e o cuidadoso artesanato da linguagem e da precisão terminológica, empregados pela autora na confecção do texto deste livro, fazem do seu nome e da sua escritura literária um contributo de fôlego ao universo intelectual e à cultura da sua geração.
Poucas vezes vi no Ceará um livro tão inesperadamente maduro, tão pacientemente tecido e tão desveladamente lúcido quanto este – Escritura do Tempo no Conto de Samuel Rawet. E é por isto que eu o recomendo com tanto vigor e com o entusiasmo que sempre dediquei à leitura dos grandes escritores.
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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

O assovio (Chico Lopes)



















(Para Gil Perini, em Goiânia)

Antes de tudo, era necessário não escutá-lo. Ou, escutando-o com cuidado, com a reverência de quem precisasse reter cada nota de uma dessas músicas cuja raridade faz com que se suspeite que não será ouvida novamente, negá-lo depois. Nisso, ela se esmerava – não, não estava perturbada, não, não sabia nada de nada. Havia um homem vagando pelos quarteirões principais do bairro tranqüilo tarde da noite, e não teria chamado a atenção de ninguém se não assoviasse daquele jeito. De um mavioso que ia para a afronta, para a vergonha, e ao mesmo tempo de um desarme, de uma delicadeza, como que convidando, intimando - mas a golpes de brisa - para Deus sabia o quê.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

sábado, 16 de fevereiro de 2008

A noite tece a cidade (Benilson Toniolo)



Com seus cabelos de gelo
A noite tece a cidade
E a lava com a água-saliva
Que extrai da boca dos homens.
Por sobre as casas e as ruas
Escorre a líquida noite,
Cresce o volume dos rios,
As fontes, os chafarizes,
Faz com que aumente o tamanho
Das crianças e das vilas.
Faxina quintais e muros,
Lambe calçadas e becos,
Com sua língua esverdeada
Trabalha noites inteiras.
Por isso ao nascer o dia
A luz que bate no mundo
Dá novos tons de beleza
À cidade iluminada.
E como ainda a grande parte
Dos homens está dormindo,
A vida, nua e banhada,
Pode então tranqüilamente
Com as mãos do recém-nascido
Rearrumar os cabelos,
Penteá-los e secá-los,
E descansar o seu dia.
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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Exílios (Ronaldo Cagiano)



A cidade se perde em seus próprios labirintos: pelas serpentes de pedra e asfalto corre pressuroso um rio de animais metálicos.
Não há mais lugar para os homens.
Anônimos, como areia na ampulheta,
vamos em busca da utópica Pasargada,
enquanto a história nos atravessa como um raio.
A metrópole oriental,
como um ventre, espera o desconhecido e na sua intangível solidão geométrica
exilo-me nos labirintos dos bazares onde florescem catedrais de ausências.
O tempo, enxame de bactéria a nos roer, me leva a mundos que eu sonhei um dia:
De Cataguases a Isfahan
de Brasilia a Teerã,
quanto de mim vai ficando nesses caminhos
com sua orfandade de margens.

Quando contemplo
os picos nevados das montanhas Alborz
ou busco os longes caminhos de Shiraz e Burujerd
os barcos da infância
que lancei no rio Pomba rumo ao desconhecido
ressuscitam nas águas do Zuyandé
prisioneiros do vento, cativos da geografia.

(Teerã, 1/6/07)

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Quarteto (Nilto Maciel)



























Impressa tenho n'alma larga história
deste passado bem que nunca fora;
ou fora, e não passara; mas já agora
em mim não pode haver mais que a memória.

Camões

- I -
Jacira morreu numa sexta-feira à tarde. Um tiro no coração. Segundo Diana, o assaltante ou estuprador atirou e fugiu. E nunca o encontraram. Fizeram-se retratos falados e nenhum deles se parecia com os detidos.
Quando Isaque chegou, a rua semelhava uma feira-livre. Carros da polícia diante da casa. Os parentes de Jacira choravam, gritavam, revoltados. Telefonaram para Daniel. Pegasse um avião. Lamentava muito a morte da cunhada, contudo não via necessidade da viagem. Nada podia fazer. Além do mais, andava sem dinheiro. Não falaram isso a Isaque. Seria uma segunda morte para Jacira. Insistiram, e Daniel chegou no dia seguinte, após o sepultamento. Regressou a São Paulo, às pressas. Não queria ver a ex-mulher.
A todos Diana contava a tragédia: as duas conversavam na cozinha. Preparavam café. Nunca trancavam a porta da rua. Só quando saíam ou iam dormir. Um rapaz entrou na casa e, pé ante pé, chegou à cozinha. O susto das duas. Até derramaram café. A polícia encontrou xícaras quebradas no chão. O sangue de Jacira se misturava ao café.
Não havia pegadas, indícios da presença do assassino. O que havia levado? Dinheiro e o revólver. Pegara a arma no quarto de Diana. Deixava-o sempre sobre o armário. Numa caixa, junto à bolsa, aos documentos, ao dinheiro. E chegara a molestá-las sexualmente? Disse algumas obscenidades. Apontou a arma e mandou as duas para o quarto. Tirassem as roupas. Aos gritos de ambas, atirou e fugiu. Desesperada, Diana só pensou em socorrer a amiga. E não viu mais nada.
A polícia convocou os vizinhos. Ninguém vira nada. Só ouviram o disparo.
Diana chorava o tempo todo. Prometia vingança. Daria a mesma morte ao homicida. Não sossegaria enquanto não o pegassem.

- II -
Ao separarem-se, Daniel saiu de casa, ficando Diana só. E todo dia ia ela à casa de Isaque e Jacira. Como antes. Ele fugia à presença da cunhada. Ia para a rua, a casa dos pais. Incomodava-o ver Diana. Sobretudo porque sabia da dor do irmão. E ficava confuso com isso – ora, Daniel nunca fora namorado e marido apaixonado.
A atitude de Isaque fez com que Diana também o evitasse. Ia à casa dele somente quando se convencia de que Jacira se achava só. E o tempo todo dedicava a queixar-se de solidão... Não quisera a separação. Aliás, não sabia o verdadeiro motivo dela. Por que não voltava para junto dos pais e irmãos? Não, jamais faria isso. Eles provavelmente não a aceitariam de volta. Separação significava para eles, sobretudo para o pai, um erro gravíssimo. Quase um crime.
De tanto insistir, convenceu a amiga a aceitá-la em casa. No entanto Isaque não daria o sim. Insistisse, chorasse. Precisavam uma da outra. Por que romper uma amizade de tantos anos?
Por dias e dias Isaque se manteve insensível ao pedido de Jacira. Temia a própria desunião com ela. Diana acabaria contaminando-os de intrigas.
Ao saber do propósito da ex-mulher, Daniel se irritou. Isaque não devia curvar-se aos assédios “daquela maluca”. Resistisse, mesmo à custa do pior.
Passado um mês da separação, Isaque cedeu aos rogos de Jacira. E Daniel viajou para São Paulo, sem um adeus ao irmão. Traidor!

- III -
Os vizinhos não viram o assassino. Ninguém viu o assassino. Exceto Diana e Jacira. Logo, o crime podia ter sido cometido por Diana – concluiu o delegado.
Convocados a depor, vizinhos de ambos os lados da casa de Isaque disseram que as duas discutiam sempre. E gritavam, ofendiam-se com palavras.
O depoimento de Isaque incriminou Diana ainda mais. A cunhada estudava tiro numa academia e até comprara um revólver. O mesmo utilizado para matar Jacira. A acusação falou em crime premeditado. E os motivos? Ora, por recusar Jacira o amor da amiga. Ou por não aceitá-la mais em casa. Ou por não querer separar-se de Isaque e viver com ela.
Isaque não admitia tais hipóteses. A amizade das duas não chegava a tanto. Jacira lhe teria falado isso. Nunca guardava segredos para ele. Se Diana a matara mesmo, o motivo teria sido outro. Talvez estivesse apaixonada por ele. Daí a separação. Se amasse Jacira, não premeditaria matá-la. Por que não?

- IV -
Após três dias de investigações, Diana passou a indiciada no inquérito. Sobretudo ao chegar de São Paulo uma longa carta de Daniel. Incontinenti, Isaque a levou ao delegado.
Tinha certeza de que Diana matara Jacira. Não as unia a simples amizade. Talvez mantivessem uma relação homossexual desde os tempos de colégio. Espécie de amor platônico de Diana por Jacira. Casadas, teria acreditado a segunda na “cura” da amiga. Coisas de adolescentes. Entretanto só se agravara a “doença”. Teria feito propostas mais objetivas, nada platônicas, após o casamento.
A carta deixou todos estarrecidos. E se Jacira tivesse se deitado com Diana? Isaque transtornou-se ainda mais. Sua ex-mulher teria sido apenas vítima das perseguições? Ou teria cedido aos desejos de Diana? E se, em vez de perseguida, também tivesse desejado a outra?
Segundo a carta, a assassina vivia aos pés de Jacira. Nunca a deixava em paz. Até se dar a separação de Daniel e Diana. Não suportou ele ver sua mulher deitada com outra. Não pediu explicações. Todavia Diana disse, nervosa, estarem com sono e calor, e terminaram dormindo.
Formado o processo, tudo levava à condenação. Antes disso, porém, Diana se matou.

- V -
Daniel sempre escreveu aos pais e, especialmente, a Isaque. Nunca, ainda assim, havia feito nenhuma referência à sua separação. A não ser por meias-palavras. Não suportava mais Diana. Nunca mais queria revê-la. Esquecessem de vez aquele passado repugnante. Tinha até nojo da ex-mulher.
Isaque pedia maiores explicações. Não atinava com a causa da separação. Chegavam outras cartas, e nada de clareza.
Ao separar-se, Daniel asilou-se numa pequena pensão, e raramente ia à casa dos pais. Nunca visitava o irmão. Só se viam quando este o procurava na pensão ou no escritório onde trabalhava.
Por insistência dos pais e de Isaque, um mês após a separação voltou para a casa paterna. Entretanto logo arranjou jeito de ir embora. E partiu para São Paulo, sem emprego, quase sem dinheiro.
Diana permaneceu na casa alugada por Daniel. E negava ter sido a causadora da separação. Inventava motivos: ciúmes de Daniel, a falta de filhos. E quem causava ciúmes? Os amigos. Qualquer um. Tudo sem nenhuma razão. E por que não planejavam um filho? Sim, podiam pensar nisso. Porém já era tarde. Daniel não voltaria jamais.
Jacira não dava opinião. Fugia às perguntas, mudava de assunto, escorregava pelos cantos. Não sabia de nada.

- VI -
Ao anunciar sua ida para São Paulo, apresentou Daniel um só motivo: queria melhorar de vida. Fortaleza não lhe dava oportunidades para progredir. O empreguinho no escritório já ia para dois anos, e o salário não passava daquela ninharia. E nenhuma promessa de melhoria.
Os pais tentaram convencê-lo a ficar. São Paulo ficava muito longe. Além do mais, fazia um frio dos diabos e a violência andava solta.
Para anular os argumentos paternos, escrevia cartas cheias de otimismo. Arranjara emprego em menos de uma semana. Salário bom, três vezes maior do que o do escritório de Fortaleza. Frio, nem tanto. Já se acostumara à garoa. Gostosa até. Enfim se livrara daquele calor insuportável do Ceará. E já arranjara amigos. Muitos cearenses, trabalhadores, honestos, camaradas. E até já andava namorando uma baianinha.
Perguntava sempre por Daniel e os outros irmãos. Jamais mencionava o nome de Diana. Nem o de Jacira. Como se não existissem, ou nunca tivessem existido. Mesmo nas cartas a Isaque. Este, no entanto, contava tudo: a presença constante de Diana em sua casa, o apego dela a Jacira, a insistência para aceitarem-na como hóspede.
Não, não aceitasse aquilo. A “maluca”, a “sem-vergonha”, a “maldita” não merecia a acolhida de ninguém. Sobretudo dele, Isaque. Melhor acolher uma cobra venenosa, uma cascavel medonha. Não cometesse a loucura de tê-la debaixo do mesmo teto. Nunca, nunca, nunca! Se o fizesse, iria se arrepender amargamente. Para o resto da vida.

- VII -
Os desentendimentos entre Daniel e Diana tiveram início logo nos primeiros dias do casamento. Ele nada contava ao irmão, muito menos a outras pessoas. Nem saberia dizer o que acontecia ou não acontecia. Ausência de amor, paixão? Frigidez? Talvez não. Sentia simplesmente angústia, insatisfação, ansiedade. Para que se casara com Diana? Podia continuar solteiro, a namorar uma e outra. Como sentia saudades daqueles bons tempos! Os dois, ele e Isaque, amigões, companheiros. Sempre juntos nas praias, nos bares, nos clubes noturnos. Garotas à vontade. Sem compromissos. Até conhecerem as duas amigas.
Muitas vezes saía só. E Diana corria atrás do outro casal. Isaque e Jacira riam. Deixassem de tolices, parassem de brigar. Infantilidades. Não, não, o casamento ia mal, muito mal. Isaque deixava de rir. Por quê? Ciúme, só podia ser ciúme, muito ciúme. E quem provocava tais ciúmes? Diana se confundia. Ora falava de ex-namoradas do marido, ora de ex-namorados seus. Daniel negava tudo. Não havia nada daquilo. Invencionices de Diana. Na verdade, dera um grande passo em falso. Não devia ter casado com Diana. Não havia amor, quase nada. Isaque levava na brincadeira. Amor surgia na cama. Com Diana talvez nunca. Havia algo mais. Não sabia explicar. Como se houvesse uma barreira a separar um do outro. Um bichinho a roer os mínimos laços que pudessem uni-los. Deixasse de loucuras. Que bichinho podia ser aquele?

- VIII -
Diana e Jacira sempre juntas. Nos ônibus, a caminho do colégio. Nas praias, uma deitada ao lado da outra. Nas festinhas do bairro. E sempre sós, sem namorados ou amigos. Isaque e Daniel, também sempre juntos, brincavam. Quem seria capaz de separar uma da outra? Pelo menos por uns dias. Fácil. Bastava um deles namorar uma delas. E apostaram uma dúzia de cervejas. Quem preferia quem? Daniel riu. Se era de brincadeira, qualquer uma servia. E saíram a campo – caçadores. A princípio se mostraram esquivas. Fugiam, medrosas. Nem respondiam aos gracejos dos rapazes. Porém após dias e noites de caçadas infrutíferas, já quase descrentes da conquista, encontraram-se os quatro a sós. Numa pracinha do bairro. Elas comiam pipoca, eles fumavam. Pararam diante delas. Não fugiram mais e, cinco minutos depois, conversavam como velhos amigos. Ou novos namorados.
Ao se despedirem, já os dois casais haviam combinado novo encontro. E Isaque e Daniel foram comemorar a dupla conquista. A cervejada ficava por conta de ambos. Criara-se, assim, um problema. Quando dariam por encerrada a brincadeira? E quem tomaria a dianteira? Só nova aposta.
Um ano depois, casados, reconheceram as derrotas. E nada beberam.

- IX -
Durante o namoro os quatro sempre saíam juntos. Aos domingos iam à praia, quando não faziam pequenas viagens ao interior. Em Juazeiro do Norte participaram da romaria do padre Cícero. Visitaram o antigo Colégio dos Jesuítas, na Serra de Baturité. Banharam-se nas praias de Jericoacoara e Canoa Quebrada. Conheceram a Gruta de Ubajara e as dunas de Almofala. E não deixaram de ir aos cinemas e às festas dançantes. Pareciam ainda namorados. Contudo Isaque e Daniel esqueceram o costume de beberem nos bares. Os amigos zombavam deles. Amarrados, não podiam mais jogar sinuca e ouvir Waldik Soriano.
O dinheiro era minguado e mal dava para o aluguel das casas, a alimentação, o transporte. No entanto não deixavam de se divertir. Como ao tempo de solteiros.
Além do mais, elas nada ganhavam. De estudantes passaram a donas-de-casa.
A união deles e delas também nada sofreu. Isaque e Daniel tornaram-se até mais amigos. Assim como Diana e Jacira. Às vezes um dos casais dormia na casa do outro, quando voltavam tarde da noite. Não dormiam na mesma cama, todavia no mesmo quarto. E conversavam até altas horas.
De manhã, os irmãos saíam para trabalhar, enquanto as amigas dormiam.
Até que um dia Daniel voltou para casa mais cedo. E encontrou despidas na cama Diana e Jacira.

- X -
Numa das cartas Daniel relatou episódios de sua vida com Diana. Desde os primeiros dias de casamento ela recusava manter relações sexuais com ele. Alegava indisposição. Sono, cansaço. Parecia sentir asco ao contato com ele.
A princípio não suspeitara homossexualismo. Porém ao vê-la deitada com Jacira, uma chispa de dúvida o deixou atormentado por dias e dias. Quis conversar com Isaque. Não teve coragem. Com certeza o outro não ouviria com tranqüilidade suas palavras. E se estivesse enganado? Afinal, as mulheres são sempre mais amáveis umas com as outras, sobretudo se amigas.
Melhor conversar com Jacira. Como começar? E onde? Não, não saberia o que dizer. Não dispunha de outros dados para chegar ao assunto, a não ser o da cena na cama. Aquilo seria suficiente para caracterizar lesbianismo?
Conversou com um amigo. Contou a historinha da cama, sem dar nome às personagens. O amigo não teve dúvida – tratava-se mesmo de homossexualismo.
E aqueles olhos apaixonados queimando o corpo de Jacira? Quem não via aquilo? Isaque nada via. Parecia hipnotizado.
Depois o crime. O amor não correspondido armara a mão de Diana. Só um idiota não entendia assim.

- XI -
A notícia da morte de Daniel soou perto da meia-noite. Telefonema de sua segunda mulher. Isaque desesperou-se e viajou na manhã seguinte. Para o sepultamento. E só então conheceu Maria Helena e os dois filhinhos do casal: Daniel e Isaque. Como se dera o acidente? Dirigia em alta velocidade. Havia bebido muita cerveja. Perdeu o controle e o carro capotou. Morte dolorosa. O corpo todo esfacelado. Fraturas generalizadas.
O segundo casamento de Daniel aconteceu poucos meses após chegar a São Paulo. Um ano depois nasceu Isaque. No seguinte, Daniel. Dissera várias vezes: nunca mais voltaria a Fortaleza. Talvez na velhice. Queria esquecer o passado. Sobretudo o mais recente. Nem lhe falassem dele. Seus pais e Isaque insistiam para que passasse umas férias em Fortaleza. Queriam conhecer os garotos. Mandou diversas fotografias. Os meninos lembravam-no pequeno. Ele, no entanto, parecia outro. Alguns quilos a mais e um semblante triste. Até quando aparecia sorrindo ou gargalhando, a tristeza inundava seus olhos.
Maria Helena disse ter feito tudo para que parasse de beber. Ainda assim cada vez bebia mais.
Isaque tentou levar os sobrinhos e a viúva para Fortaleza. Porém os pais dela se mostraram inflexíveis. Só admitiam um passeio. Cuidariam dela e deles.
A partir de então Isaque se voltou também para o álcool. Não se conformava com a morte de Daniel. Chorava sempre. A culpada de toda aquela desgraça chamava-se Diana.
Entretanto ela já não existia também.

- XII -
Sempre amigos, Isaque e Daniel. Desde adolescentes. Quando meninos brigavam todo dia. Nos jogos de futebol trocavam caneladas. Nos jogos de botão nenhum aceitava a derrota de seu time. Em conseqüência, acabavam surrados pela mãe. Queria-os unidos, bem unidos. E os atava um ao outro, como castigo.
Estudaram nas mesmas escolas. Iniciaram-se nos movimentos político-estudantis na mesma época. Engajaram-se na mesma agremiação política. Nas manifestações de rua um protegia o outro. Corriam juntos da polícia.
Ao concluir o curso científico, Isaque se afastou das lutas estudantis. Desiludiu-se dos estudos e arranjou emprego no comércio. E dedicou-se mais e mais às farras. Daniel continuou os estudos por mais um ano. Insistia para que Isaque voltasse a estudar e participar do movimento estudantil. Logo, no entanto, seguiu o mesmo caminho do irmão. O período mais ativo de suas vidas. Viviam em festinhas, bares, praias. E nunca mais voltaram a falar de política. A polícia caçava os estudantes mais ativistas. E muitos até freqüentavam a casa de Daniel e Isaque. Davam notícias horríveis: fulano preso e torturado, sicrano desaparecido, beltrano fuzilado no meio da rua.
Aterrorizados, Daniel e Isaque afastaram-se definitivamente dos velhos amigos.

- XIII -
Após a separação, Daniel saiu de casa e hospedou-se numa pensão. A muito custo voltou à casa dos pais. Isaque, todavia, no mesmo dia da morte de Jacira fechou sua casa e só deixou a de Seu Francisco e Dona Luisa para casar-se de novo. Nem sequer cuidou da mudança dos poucos móveis para a casa dos pais. Seus irmãos trataram da entrega das chaves da casa. E, posteriormente, da venda dos móveis.
De São Paulo chegavam-lhe convites para deixar Fortaleza. Daniel não cansava de escrever cartas tentadoras. Isaque precisava mudar de ares. Esquecer tudo. Iniciar nova vida. E todos em casa concordavam com isso. Ele, entretanto, relutava. Não queria abandonar os pais. Necessitavam dele, de sua presença. Caminhavam para a velhice. E não iria casar outra vez? Tão novo, não devia permanecer só. Até para esquecer Jacira. Se casasse pela segunda vez, a mulher iria morar com os sogros. Seu Francisco e Dona Luisa riam. Coitado do filho!

- XIV -
Isaque conheceu Violeta num clube. Dançavam e bebiam. Todos alegres. Sentado, só, sentia-se um estranho. Não conhecia mais ninguém. Nenhum amigo ao lado. Nenhuma daquelas garotas bonitas de anos atrás. E, sobretudo, a ausência de Daniel.
Cotovelos grudados à mesa, bebia, fumava, sem coragem de convidar alguma garota para dançar. Como se sentia mudado! Quase um velho solitário. Distante do salão de danças.
Já desiludido, pronto a pagar a conta, Violeta passou, olhou para ele e sorriu. Convidou-a para dançar. Também sentia-se só. O namorado andava com outra. Aliás, o ex-namorado.
Nas noites seguintes falou mais dela e de um tal Genésio. Abandonou-a, após mil promessas de amor. Um aproveitador!
Durante dias e meses Isaque e Violeta se divertiram a valer. Festas, praias, camas. Até dizer-se grávida. Ele se assustou, se aborreceu, ameaçou acabar com o namoro. Porém, antes de o filho nascer, casaram-se. O menino recebeu o nome Carlos. Um ano depois nasceu outro: Frederico. Homenagens a Marx e Engels. Violeta gostou dos nomes, embora não soubesse nada daqueles “revolucionários”.
Apesar do novo casamento, Isaque não deixou de beber. Reencontrou alguns ex-amigos, e todas as noites os encontrava nos bares.

- XV -
Vez por outra, Isaque acordava além da hora de chegar ao escritório. Não conseguia sequer sair da cama. Até ser demitido.
Aluguel atrasado, obrigou-se a entregar a casa alugada ao proprietário. Violeta queria voltar para seus pais, levando os meninos. Para evitar a separação, Isaque conseguiu um quarto na casa de Seu Francisco e Dona Luisa. Além do quarto, refeições.
Sem beber por uns dias, pôs-se a escrever versos. Violeta não dizia nada. Se Isaque não procurava emprego, também não bebia.
Dos versos passou às cartas. As do irmão morto. Lia e relia todo o pacote. Mudo, no quarto, feito um prisioneiro. Nem sequer brincava com Frederico e Carlos.
Violeta, contudo, não sossegava. Visitava os pais, levava os filhos a passeio. E procurava emprego para o marido.
Passado mais de um mês recluso e abstêmio, Isaque saiu de casa para apresentar-se ao futuro patrão. Emprego certo. Por obra de Violeta.
No entanto Isaque só voltou para casa perto da meia-noite. Bêbado como nunca. E voltou transtornado: queimou todas as cartas de Daniel, discutiu com os pais, os irmãos, Violeta. E falou pela primeira vez em suicídio.
Adormeceu pela madrugada. E não acordou para ir trabalhar. No mesmo dia Violeta o abandonou, levando os filhos.

- XVI -
Após a fuga de Violeta, tudo piorou para Isaque. Ameaçava trazê-la de volta à força. Dona Luisa chorava, desesperava-se. Seu Francisco convocava os filhos a tomarem atitudes mais enérgicas – se possível, a internação de Isaque num asilo de loucos.
Tudo indicava loucura em Isaque. Passava quase o tempo todo nos bares. Em casa brigava com todos. Se parava de beber, sofria alucinações, não conseguia dormir. Noites inteiras falando só. Dizia conversar com Daniel. E parecia estar mesmo diante do irmão. Ria, contava casos, relembrava fatos de suas meninices, as brincadeiras, as brigas, tudo em minúcias. Ia recordando, recordando, e parava exatamente nos dias de namoro – dele e Jacira, de Daniel e Diana. Como se daí em diante nada tivesse existido, acontecido.
Bastava, porém, beber, e todo o passado recente – do casamento ao presente – ressurgia. Feito vulcão. E ele se transtornava, o ódio, a fúria, o desespero em erupção. Daniel morto, Jacira assassinada, a diabólica Diana viva. Não a acreditava sem vida. Mentira de todos.
E, assim, um dia rapazes musculosos vestiram-lhe uma camisa-de-força, alojaram-no numa camioneta e o conduziram a um sanatório.
Concluído em 4.8.1993.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Taciba vai ao céu (Nilto Maciel)



















- I -
Desde o passado mais remoto, viviam os Himenos exclusivamente de colher frutos silvestres. Se não semeavam, se desconheciam a agricultura, de maneira nenhuma poderiam ser chamados de preguiçosos. Apesar disso, vez por outra se metiam em acaloradas discussões a respeito de trabalho.
– Não vivemos melhor porque só sabemos fazer isso – dizia um mais exigente.
– Nada disso – gritava outro. – Cada um faz o que sabe e todos vivem. Vejam: as abelhas apenas fabricam mel – e dele nem se servem – e, no entanto, estão aí no mundo.
– Em compensação, nunca vão passar de fabricantes de mel – arrematava com ironia o exigente himeno.
Apesar de simples apanhadores, de todo o atraso, essas contendas verbais não passavam de entretenimento, brincadeira, exercício intelectual, e os Himenos viviam em paz, felizes na sua eterna luta pela colheita do pão de cada dia. Porque, mesmo trabalhando tanto, o faziam para si mesmos e, por isso, nunca faltava nem comida nem água. E, por serem os campos vastos, quase sem fim, não lhes faltava sobretudo liberdade. Sim, podiam andar, correr, viver livremente.
Como seus irmãos, a pequena Taciba vivia sua vidinha simples, quando ouviu o zunzunzum de que sua amiga Tacibura havia desaparecido. Procurada pelos arredores, dela não se teve mais notícia. Diziam uns ter sido devorada pelas feras, provavelmente pelo monstro Batará.
– Que malvadeza!
Os mais otimistas achavam ter a pobre Tacibura simplesmente saído à procura de terras desconhecidas, enredando-se nos fios da aventura de bater pernas. E nisso não havia novidade nenhuma.
– Desde que o mundo é mundo – sentenciava um ancião – sempre se ouviu falar de cabeças ocas que, de repente, abandonam suas terras, seus lares e se vão por aí afora, feito barquinhos de papel nas águas turbulentas das chuvas.
O desaparecimento da amiga deixou Taciba triste. Perguntava-se pelo fim da outra e bastava imaginar o monstro Batará para cair no choro.
– Não fique assim, minha filhinha – tentava acalentá-la a mãe. – Sua amiga foi apenas dar um passeio e logo estará de volta. Vocês ainda vão brincar muito juntas.
– Mas se for verdade o que andam dizendo?
– Sobre Batará?
– Sim. Ele é muito malvado e já deve...
Dona Taçuira beijava-lhe o rosto, enxugava-lhes as lágrimas e, para não chorar também, mudava de assunto:
– Onde andam suas irmãzinhas, hem?

- II -
Aos poucos, a imagem de Batará foi se apagando das preocupações de Taciba. Talvez porque a maioria dos Himenos não gostasse de falar no monstro e visse no desaparecimento de Tacibura apenas uma aventura infantil. Por outro lado, Dona Taçuira bastava ver a filha triste, pelos cantos, chorosa, para inventar esperanças:
– Qualquer dia desses sua amiguinha aparece.
– Será mesmo, mamãe?
– Tenho certeza. Ela anda por aí, pela casa de alguma tia.
O tempo passava e nada de Tacibura voltar. Alguns nem se lembravam mais dela. Seus pais e irmãos até já viviam conformados com a idéia de sua morte.
Dentro de Taciba, porém, a amiga continuava não só muito viva mas havia adquirido feições de heroína. Nada de devorada por Batará, nada de morta, nenhuma tragédia. Também não acreditava na conversa boba da mãe. Casa de tia, coisa nenhuma! Tacibura andava era no mundo. Ah! se pudesse seguir as pegadas da feliz companheira! Sim, feliz, porque não haveria maior felicidade do que buscar o ignorado, o vasto mundo além do chão que se pisa. Não pensava, porém, acompanhar a antecessora. Sonhava com imitá-la somente, se possível buscando outros rumos, caminhos opostos até. Queria descobrir o eldorado por conta dos próprios pés, alheia a todo rastro. Quem sabe, aportaria nalguma nova América, na terra prometida ou sempre ansiada.
Dona Taçuira pegou por diversas vezes a filha a sonhar, olhos voltados para a estrada, completamente absorta.
– Venha cá, filhinha. Você tem estado tão esquisita ultimamente. Conte para mim o que se passa nessa cabecinha.
– Não é nada, não, mamãe.

- III -
Um dia, antes de os seus despertarem para a labuta habitual, saiu Taciba, pé ante pé, pela vereda que ia dar nos campos de colheita, entre pedras e montes, e seguia, mais tortuosa e íngreme, para o ignorado, as terras dos perigos, onde viviam, em constantes tropelias, os mais variados bichos – terrores sempre lembrados pelos mais velhos.
– O monstro Batará devora dezenas de Himenos de uma só vez. Tem o tamanho de mil Himenos. Uma só unha sua vale por dez de nós. E, não bastassem seus enormes pés, que nos esmagam, seu bico é capaz de causar verdadeiras mortandades.
– E a gente não pode se esconder dele?
– Pode e deve. Mas, afora os Batarás, que são muitos e andam à solta, o mundo lá fora é repleto de animais gigantescos, perigosos, malvados.
Taciba perdia o sono de tanto medo, só de ouvir essas histórias.
Decidida a imitar Tacibura, afastava do pensamento as lendas dos Himenos. Ora, tudo isso é mentira, dizia de si para si, conversa fiada dos pais para manter os filhos em casa, frear os ímpetos da juventude. Sim, os pais só sabiam falar de prudência. Ora, prudência! Quem já descobriu ou inventou alguma coisa com prudência?

- IV -
Disposta a levar adiante seu plano – o descobrimento de seu próprio mundo – Taciba apressou o passo, andou, andou, saltou pedras, transpôs montes, perdeu de vista as terras conhecidas. No peito o coração pôs-se a batucar de medo. Pensou em voltar, antes que fosse tarde demais. Diria em casa e às companheiras: “Tive uma crise de sonambulismo e saí ao léu. Quando despertei, assustada, só então senti o quanto havia caminhado, dormindo.” As outras ficariam horrorizadas, fariam mil perguntas e ela não saberia respondê-las. Melhor pensar logo o que dizer, inventar qualquer desculpa. Podia falar de sensações esquisitas e, com isso, até fazer-se mais inteligente, sabida, quem sabe, poética. “Vocês já sonharam voando, sendo carregadas pelo vento? Pois eu me sentia mais ou menos uma borboleta. Era como se estivesse passeando sobre nuvens mansas, esquecida de tudo, um frescor percorrendo o corpo, acariciando-o.” Florearia, saberia engabelar as curiosas. Ficaria até mais vista e respeitada. Afinal, nunca se ouvira falar de tal coisa. Dar-lhe-iam crédito, certamente, e tudo estaria normalizado. Voltaria ao trabalho, ao agasalho do lar, à tranqüilidade do mato, às boas palestras nas noites de lua clara. Ouviria dos pais e avós histórias terríveis de monstros como Batará e dormiria em meio a sonhos fantasiosos. De novo, a vidinha de sempre, a monotonia de trabalhar, comer, dormir. O mesmo dia-a-dia sem aventuras, sem novidades. E mais uma vez teria vontade de arribar no mundo, bater pernas, arriscar-se a morrer devorada pelos bichos soltos no mato ou ser esmigalhada por alguma pata desastrada de gigante. Feito Tacibura. Coitadinha!

- V -
Prosseguiu, propensa a não dar ouvidos ao medo, à covardia, ao sentimento de insegurança, ao repuxo insistente das raízes da carne, que tentavam prendê-la ao chão antigo e grudá-la, por hipnose, aos olhos dos Himenos.
Mais com pouco, o outro mundo principiou a dar sinais de existência real, de proximidade e o apelo para seguir foi mais forte. Correu, quase voava, como se realmente descobrisse um país fantástico, diferente de tudo o que até então vira. Ouvia barulho de máquinas e mais se agitava, na tentativa de captar, pelos sentidos, a aproximação do porvir. Corria, o coração aos pulos, os olhos muito arregalados, o corpo todo num frenesi, a alma um infinito adiante do corpo.
Havia de sair vitoriosa dessa primeira e significativa batalha. Como não? Ia mostrar à mãe, ao pai, aos irmãos, a todos os Himenos sua imensa capacidade. Até desejava encontrar pela frente Batará, enfrentá-lo, derrotá-lo. Provaria que nem sempre a força física vence. Seria o novo Davi, o vencedor do gigante Golias. Quem sabe, mudaria até os destinos do mundo. Ou pelo menos dos Himenos.
Pena não descobrir o destino de Tacibura. Ah! se se encontrassem pelo caminho! Seguiriam juntas, irmanadas pelo mesmo objetivo, invencíveis. Uma ajudando a outra. Se Tacibura fracassasse, estaria ela pronta a soerguer a amiga. E se ela mesma, Taciba, sentisse o peso da caminhada, cansasse, se ferisse, Tacibura estaria presente para curá-la, ampará-la, confortá-la. Não, não, isso nunca. Preferia vencer só.

- VI -
Chegou à margem de uma estrada muito larga, centenas de vezes mais larga que as veredas de sua terra. Autos para lá e para cá, em velocidades espantosas, levantando poeira, açoitando árvores. Em seu interior, gigantes iguais a outros já vistos a andar pelos campos, com suas botas muito pesadas, capazes de arrasar de uma só pisada centenas de Himenos. Quer dizer, ouvia falar dos tais seres sem tamanho. Ver mesmo, nunca vira. E até desconfiara de sua existência. Conversa para fazer boi dormir. Agora se arrependia de ter chamado os pais de mentirosos. E relembrava as descrições feitas por eles das tais criaturas.
– E eles são monstros?
– Não, não são irracionais, como os Batarás, não andam à cata de seres menores, não perseguem Himenos, até porque não nos vêem.
– Então são cegos?
– De jeito nenhum. É que, sendo muito grandes e andando eretos, feito macacos, passam por nós e nem se dão conta de nossa existência.
– Orgulhosos, pedantes, hem?
– Talvez não, porque se tivessem tais defeitos, próprios de monstros, fariam como os Batarás: farejariam o mundo à procura de Himenos e outras criaturas indefesas.
– Então são nossos amigos e inimigos dos Batarás?
As opiniões se confrontavam aí. Para uns, essas criaturas não ofendiam a ninguém, apesar de seu tamanho quase descomunal, e, se chegavam a esmigalhar os seres pequenos com suas botas, o faziam sem querer. Outros os pintavam com tintas de sangue:
– Esses gigantes são mais terríveis do que os próprios Batarás. Primeiro porque medem dez vezes mais do que os Batarás. Aliás, estes coitados são constantemente aprisionados por eles e, enquanto servem de entretenimento, não são levados à panela.
– Entretenimento?!
– Vou explicar. Os terríveis gigantes costumam se divertir, botando para brigar um batará contra outro. Geralmente morre um, quando não sai cego e aleijado.
– Que barbaridade!
– Pois é assim mesmo. Além do mais, uma das comidas preferidas desses monstros é batará ou fêmea de batará.
Taciba se horrorizava diante de tão fantásticas informações, mas não sabia em quem acreditar: se nos que consideravam os comedores de batarás simples gigantes inofensivos ou nos outros.
– Ninguém me respondeu ainda: eles são nossos amigos ou inimigos?
– Escute bem, Taciba: eles não nos bicam, não nos devoram, não nos comem, porque gostam de muita carne, como a dos batarás, mas, em compensação, cometem verdadeiros morticínios contra nós. Sabe como? Despejando substâncias venenosas na terra e nas árvores. Com isso, conseguem exterminar num só dia milhões de nós.
Tudo isso Taciba rememorava à beira do caminho. E prosseguia em sua andança.
Por temor dos autos, decidiu não atravessar a grande vereda negra. Seguiria paralelamente a ela. Para a direita ou para a esquerda? De que lado estaria a terra maravilhosa do nunca visto? Provavelmente dos dois, uma vez que aquela estrada só poderia ser sua própria extensão. Nunca fora dela, pois tudo o mais era mato, covil de feras e maldades.
Para a direita sucedia um maior afluxo de autos e gigantes a pé. Viriam de um centro menos desenvolvido em demanda da capital, do eixo da civilização superior. Bem poderia dar início à nova vida pela parte inferior, para não sentir um impacto mortal diante das coisas grandemente nunca vistas. Não, seria bobagem. Não haveria tanta diferença entre uma e outra parte, assim como no campo tudo parecia igual – aqui mais matos, ali mais pedras, além mais feras. Mas sempre matos, pedras e feras. Invariavelmente. Um inferno! O paraíso então seria um só, com ligeiras diferenças setoriais.

- VII -
Tomou o rumo da direita, afinal, muito cuidadosa de não ser despedaçada por um daqueles autos. E admirava-se da velocidade com que corriam. Assim, chegariam ao mesmo lugar num só dia de viagem. Ah! se pudesse andar tão depressa! Logo logo estaria no miolo do novo mundo. E se conseguisse uma carona! Impossível, ninguém a via, ninguém notava sua presença à beira da estrada, acenando uma folhinha verde no meio de tanto verde, gritando e agitando-se, em tempo de rasgar a goela e espatifar-se ao vento. Tudo como diziam os velhos Himenos. Esses gigantes não tinham olhos para as pequenas criaturas, pareciam muito orgulhosos, cheios de si, como se tivessem o rei na barriga.
O negócio era andar mesmo, utilizar os próprios pés. Afinal, tinha o costume de percorrer quilômetros a fio. Até mais difícil, porque escalando montes e pedras de todos os tamanhos, quase sempre com um fardo às costas. Ali a estrada seguia reta, embora não pisasse o asfalto. Iria a pé, sim. Não cansaria facilmente. E se sentisse fome e sede, o mato se erguia ao alcance da boca, à margem do caminho. Fazia uma paradinha e pronto. Fartava-se. Como na sua terra. Como no passado. Ah! saudade danada da mãe, do pai, dos irmãos! Daquela vidinha sossegada, apesar do eterno medo dos Batarás, das histórias de horror dos mais velhos. Deveria voltar, correr para os braços da mãe Taçuira, pedir-lhe perdão pela traquinagem?
– Por onde você andou, Taciba?
– Fui dar uma voltinha.
– E não teve medo de se perder, de ter o destino daquela infeliz Tacibura, de ser devorada pelo monstro Batará?
– Qual nada, mãe. Eu não tenho medo de nada, já sou grande, sei me defender. Além do mais, Tacibura não é infeliz. Deve andar conhecendo o mundo, as maravilhas da vida. Qualquer dia desses vai voltar coberta de glórias, cheia de novidades, falando outras línguas, talvez até arrastando o corpo de algum Batará.
– Deixe de dizer besteiras e vá já ajudar seus irmãos. E nunca mais faça isso.
– Sim, nunca mais.
– Se seu pai souber que você cometeu semelhante doidice é capaz de perder a cabeça.
– Não diga nada a ele, não, mãezinha.
– Só se você prometer ser boazinha e não der mais tanta preocupação.
– Prometo.
Acordou desse passeio mental ao ouvir a própria voz dizendo “prometo” e tratou de esquecer o passado, a mãe, a família, sua terra. Nada de rendição a sentimentalismos.
– Adiante, Taciba – gritou para si mesma.

- VIII -
De repente, ao levantar a vista, divisou o que deveria ser a tal civilização superior, o centro do tal mundo desconhecido. Sentia-se cansada, como se tivesse trabalhado dias e dias sem parar. Doíam-lhe os pés, as pernas, a cabeça, todo o corpo. E como havia caminhado! De sua terrinha, nem mais sinal. Deveria estar muito longe dos seus. Coitados, preocupados! O que estariam dizendo a estas horas? Todos a correr para um lado e outro, onde se meteu Taciba, que diabos fez essa criaturinha? E uma só acusação – mais uma vítima de Batará.
Porém as distâncias são muito relativas – começava a compreender Taciba. Ora, só fazia um dia de sua fuga. Não devia estar tão longe assim de sua terra. Com pezinhos tão pequenos, passadas tão curtas, não podia ter andado tanto assim. Os gigantes percorriam aquela distância numa hora. Muito menos disso. Havia uma explicação: lá no meio da mataria não poderia enxergar aquelas construções quase sem fim, tocando o azul do céu.
Saiu a tropeçar nas pedras, às carreiras, estonteada, maravilhada. A um passo do fantástico. Das pessoas muito civilizadas, educadas, poderosas, mas nunca monstruosas, assassinas, como Batará. Deixava para trás o mato, o atraso, a terra das maldades, dos perseguidores dos pequenos viventes, dos caçadores vorazes de Tacibas e Taciburas. Finalmente alcançava o respeito mútuo, o amor, a paz. Ninguém devoraria ninguém. Um mundo onde coabitavam gigantes pré-históricos e microscópicos insetos, mamíferos, reptis, batráquios, ovíparos, toda a sorte de criaturas.
Como se apresentar a uns e outros? Dirigir-se primeiro a quem?
– Eu sou Taciba, mensageira dos Himenos. Venho em missão de paz.
Restava saber também se a ouviriam. E se nem sequer olhassem para ela? Não, andar tanto, arriscar-se a tantos perigos, para sofrer decepção?
– Ouçam todos minha mensagem, abaixem-se, por favor. Não tenho voz como vocês, sou um simples e ignorado Himeno, habitante do mato, trabalhadora da terra. Não possuo os conhecimentos de vocês, sou um pequenino e insignificante ser. Por outro lado, venho carregada de heroísmos. Enfrentei monstros e venci-os. Inclusive alguns Batarás.
Não, vangloriar-se podia irritar os ouvintes, torná-los antipáticos à sua bela causa. Melhor seria dar rumo inverso ao discurso de apresentação.
– Chego de braços abertos, disposta a dissipar todos os mal-entendidos. Claro que eu nunca acreditei nas maledicências dos eternos inimigos da comunhão universal, dessa aproximação entre civilizações tão diferentes entre si. Do contrário, não estaria aqui.
Taciba inventava discursos, arranjava palavras, frases feitas, vasculhava a memória à cata de informações para enriquecer sua oração. Que tal principiá-la pela lenda da origem dos Himenos? Achariam engraçado isso, bateriam palmas, dariam vivas, em meio a risos incontrolados? Ou se aborreceriam, sentir-se-iam melindrados?
Melhor preparar dois ou três tipos de discursos e, conforme a recepção, optar por este ou aquele. O diabo seria na hora misturar um a outro e terminar fazendo aquela salada de frases. Por exemplo:
– Como vocês podem ver, se é que podem me ver, meu mundo não é deste reino. Desculpem o trocadilho, a brincadeira. Perdão. Mas, em verdade, eu vos nego: cada macaco em seu galho. Explico-me: a terra é de todos e tanto faz estar lá como aqui.
Isso poderia representar o fim de tudo, o fracasso da missão, seu linchamento e morte.

- IX -
Nessa ruminação, não percebeu Taciba o quanto havia caminhado. Quando deu por si, viu-se ao pé de uma parede verticalíssima, que ia em linha reta dar ao céu, tocar as nuvens. Sim, senhor, acabava de encontrar a chave da civilização. As pessoas aspiravam ao céu, ao azul infinito, ao lugar das delícias. Eis por que vinham todas do lado do mato, perseguidas pela vontade de mudar radicalmente, de trocar o verde e outras cores pelo azul encantatório, o cheiro de terra pela amplidão dos ares, a vida mortal e perigosa por outra deliciosamente eterna. Por aquelas paredes subiam todos para a civilização das civilizações, alegres, redimidos, sabedores de que deixavam alguns pequenos deleites efêmeros por um sem tamanho êxtase. Mas por que não subiam as paredes? Estranho! Em volta, seres gigantescos iam e vinham, apressados, sem sequer olhar para o alto, mais preocupados com o chão rasteiro. Por certo não precisavam das paredes. Quem sabe, eram informantes, orientadores, enviados do céu à terra, encarregados de explicar aqui embaixo as regras do bom subir. Os construtores de paredes, simples mercadores que preferiam a vida rasa do chão à vida elevada do céu, onde o poder se exercia coletivamente. Seriam benfeitores, de qualquer forma, pois sem eles impossível se tornaria subir. Sem eles não existiriam as paredes, as escadas necessárias à grande escalada. “Deixa-te de especulações bestas, Taciba, e trata de subir o quanto antes.”

- X -
Iniciou a subida. Logo encontrou-se à altura dos gigantes. Via-lhes os olhos, a boca, o nariz. Passeavam para lá e para cá, como se a vida fosse um simples passeio.
Súbito os planos se inverteram. Achou-se numa superfície horizontal. Diante dos olhos, claridade ofuscante, objetos nunca vistos e gigantes atarefados. Que faziam? Seriam escavadores da terra infinita? Ocariam o sagrado muro dos céus, no afã de se resguardarem da competição dos de fora? Ou simplesmente nada disso intentavam, apenas se preparavam para subir mais um andar? E por que assim não procediam logo? Com certeza utilizavam-se de escadas interiores ou de outro meio que os elevava.
Deixando de lado a sala, Taciba voltou à parede externa e continuou viagem. Um dia alcançaria o fim e estaria no céu. De lá olharia para baixo e mais se admiraria de os outros continuarem naquele vai-e-vem sem termo. No chão, os gigantes cada vez menores, achatados, pequeninas criaturas deslizando como bolinhas. Teria enlouquecido? Só ela com aquela febre de subir? O melhor seria averiguar direito as coisas, conversar, informar-se. Mas com quem? Com aqueles gigantes? O que diziam? Que língua falavam? Se ao menos encontrasse Tacibura ou outra de sua raça!

- XI -
Alcançada a segunda janela, olhou em volta: gigantes sentados, móveis, luzes, tapetes, decorações. Tudo muito limpo, bonito e vasto. Seria aquilo um pedacinho do céu? Por acaso não se enganara, sonhando demasiadamente, o céu já sendo o próprio edifício? Por que não? Quem disse que o céu são as nuvens, o espaço mais inacessível? Sim, ali não se viam matos, monstros, a eterna briga entre os seres, tudo transcorria em paz. Aquilo era outro país, o mundo fantástico sempre sonhado. Só podia ser. O céu mesmo era inatingível. Apenas para ser olhado, adorado. Regozijou-se com a grande descoberta. Agora iria viver uns tempos ali, desfrutando a paz, o bem, a vida. Um dia regressaria à terra natal e contaria tudo aos seus, tintim por tintim. Causaria inveja até. Sentir-se-ia orgulhosa. E se tornaria muito respeitada. Fora a descobridora da civilização. Seria chamada de heroína dos Himenos. Teria um pedestal, quem sabe. Levaria todos eles para um passeio turístico pela terra encantada dos gigantes. Lá seriam recebidos com honras e foguetes e convidados para construírem juntos o futuro do futuro, unidos pelo mesmo afã celestial.
– Então você é a célebre Taciba, a humilde filha dos Himenos que ousou um dia deixar o mato e descobrir a civilização?
– Sim, sou eu. Mas tudo devo a minha amiga Tacibura.
– Não estamos entendendo. Quem é essa Tacibura?
– Já que estamos todos juntos, numa festa de confraternização, vou reconhecer publicamente que tive uma antecessora, embora todos neguem tenha ela chegado aqui – começaria Taciba seu grande discurso.
– Não temos nenhum interesse em mentir, falsear a História, embora alguns de vocês, os Himenos, possam desconfiar de que aprisionamos ou assassinamos essa tal Tacibura – diria o Chefe dos Civilizados.
– De jeito nenhum. Longe de nós tamanha ingratidão. Ora, quem recebe tão bem estrangeiros, como vocês o fazem agora, não pode ser uma Nação de Assassinos. Nenhum de nós desconfia de nada. Não é, meus companheiros? Tacibura deve andar por outra civilização. Porque não acredito tenha sido ela devorada pelo monstro Batará. Na verdade, ela foi nosso primeiro navegante, se assim posso me referir, nosso primeiro aventureiro. Se não teve a sorte de encontrar povo tão pacífico e bondoso como o de vocês, resta-nos acreditar na sua inteligência. Estará bem, não digo melhor do que nós, porque seria impossível.
E Taciba sonhava com o glorioso dia em que todos os Himenos seriam recebidos no centro da Grande Civilização. Uma nova era. Sim, adeus mataria, sol de fogo, trabalho pesado, caminhadas sem fim, perigos de vida, monstros, adeus, Batará. Livres de todo o mal e felizes para todo o sempre. Amém.

- XII -
Cuidou, passeava sobre um plano azul, muito mais azul do que o céu, de um cheiro nunca sentido e mais delicioso do que o de todas as seivas já provadas. O paraíso em miniatura. Decerto postava-se diante do manjar dos deuses ou mesmo dos escolhidos para a ceia do divino. Caiu de quatro sobre o prato. Com sofreguidão de retirante, lambia o azul em que pisava. Com pouco, sentiu tontura, vontade de dormir, enjôo. Desconfiou da esmola. Talvez tudo não passasse de um ardil. A provação, tal como na história da maçã. Necessário conter-se, retirar-se o mais rápido possível, fugir ao canto da sereia.

- XIII -
Deu uma passeada pelo salão. Quase esmagada por um enorme pé. Certamente não fora de propósito. Não a viam. Deveria esconder-se então, sair do chão, procurar os cantos das paredes. Ou conversar com os gigantes? Explicar tudo. Falar da fuga, da viagem, dos encantamentos. Contar toda a sua história.
Refugiada num cantinho da enorme sala, pôs-se Taciba a ouvir as vozes de trovão daqueles estranhos seres.
Como fizesse grande esforço para ouvir e entender as vozes, Taciba tapou os ouvidos e voltou a admirar o ambiente e a matutar. Precisava descobrir a forma de entrar em entendimento com aqueles seres esquisitos, falar-lhes. Mas como, se não seria entendida? Na certa o céu era assim mesmo, um lugar onde ninguém se entendia, mas todos viviam em paz. Cada um no seu lugar. Gigantes aqui, Tacibas ali. O prédio se dividiria em vários compartimentos. Até os Batarás teriam seu lugarzinho. Porém seriam pacíficos. Regenerados, sem aquela fúria, aquele ódio na ponta do bico, aquela vontade de devorar Tacibas e Taciburas.

- XIV -
Nessas conjecturas, viu Taciba os gigantes se retirando por uma porta. Iriam para um salão mais próximo do céu? Talvez a escalada fosse lenta, regrada. Um dia aqui, outro ali. Até alcançarem o azul infinito. Uma hipótese para civilizados. De qualquer forma, não se arriscaria a ser pisada. Não deixaria os cantos enquanto os gigantes estivessem na sala.
Olhou, olhou, não viu ninguém. Podia muito bem andar pelo salão. Ir e vir, sossegadamente. Pôs-se a passear de lá para cá. Esquadrinhou tudo, subiu paredes, vagou pelo teto. Aproximou-se das luzes, escorregou nos vidros, pisou nos papéis.

- XV -
Passada a tontura, voltou a lembrar-se do azul gostoso. Correu, rebolando-se toda para o prazer. Deu gritinhos, brincou nas pontas dos pés, feito uma menina travessa que descobre docinhos. Passeou primeiro sobre o fruto escondido, escorregou e lambuzou-se toda de azul. Teria uma noite de muito gozo. Não precisava pressa. Uma vida inteira de prazer. Tudo tal qual imaginara. Ora, só podia ser assim mesmo. E como agradecia à amiga Tacibura. Não fosse ela, e não estaria ali, naquele éden. Tivesse ido na conversa dos pais, dos mais velhos, acreditando na potoca de que o mundo era dominado por monstros, assassinos, e jamais teria conhecido civilização tão cheia de bondade.
Deu uma lambida na iguaria. Deslizou como se dançasse balé, saltitou, cantarolou, festejou. Sentiu-se tonta de novo, numa embriaguez prazerosa. Deveria retirar-se antes que fosse tarde? Mas não podia perder tempo, os gigantes voltariam de uma hora para outra e adeus prazer de lamber aquela coisinha cheirosa, maravilhosa, fogosa. O ápice do gozo. Por que não aproveitar a oportunidade? Lambeu, cheirou, apalpou novamente aquele azul celestial. Sentiu-se mais tonta, sonolenta. Cambaleou, as forças lhe fugiam. De repente imaginou que não só poderia aquilo representar o convite à desobediência a alguma norma secreta, como, sobretudo, ao suicídio pela superexcitação do gozo material. Repensou, num segundo, toda sua vida, a terra onde havia nascido e sempre vivido, seus pais e irmãos, as companheiras, Tacibura, o trabalho, o mato, o medo, os monstros, Batará. Teve um arrepio. Contorceu-se. Estaria apenas delirando de prazer? Não se contorcia, não sentia dor alguma, a morte não viria. Extasiava-se tão somente. Contorcia-se, mas nunca de dor. Continuou contorcendo-se, vendo tudo mover-se lentamente, como num sonho.

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