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sábado, 7 de fevereiro de 2009

Madrugada (Clauder Arcanjo)





















O sol, ao beijar os lábios da alvorada, lhe açoitava as carnes, a rasgar sua coragem, a matar-lhe o ânimo. E José Madrugada, oprimido e sem forças, recolhia-se no fundão dos seus despojos. O dia custava a passar. Se José se arvorasse dono de si, pondo os pés fora de casa, por sobre o mosaico de calor e luz, o látego zunia forte sobre as suas costas magras, uma dor habitava o seu corpo, e um grito pungente ganhava os ares da pequena vila. E a noite, então, era ansiosamente esperada. De olhos fechados, um rosário de prece a quebrar o silêncio dos seus lábios, antes exclusiva morada do rito da dor. Mas quando o ocaso chegava, Madrugada ganhava ares de ressurrecto, e um sorriso trigueiro assoviava dentro do seu peito.
— Salve, bendita noite. Salve, salve! — espalhava aos quatro ventos.
Quando a escuridão reinava, toda a pequena Licânia dormia, ao tempo em que ruas e vielas eram palco de ganidos lascivos, de luxúrias inomináveis. No adro da Matriz, uma jovem senhora era vista a rasgar as vestes, queimada pela insana vontade de ser possuída por José, carinhosamente saudado como Lobo da Madrugada. As mães oravam por suas filhas, tampando-lhes os ouvidos para que elas não ouvissem os uivos licenciosos na noite. E toda a madrugada era invadida pelo odor de um coito louco, fragrância que deixava os jovens entregues aos próprios desejos, e os velhos a rememorar libertinagens de outrora. Quando o sol beijava as nuvens da manhã seguinte, e o campanário convocava os fiéis para a missa das seis, os casais voltavam às ruas com ares sérios e circunspectos. Era chegada a hora de José Madrugada voltar para a sua sina, recolhido a um infecto quartinho escuro, até o império da nova madrugada.
clauder@pedagogiadagestao.com.br
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