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segunda-feira, 6 de abril de 2009

José Daniel, rival de Bocage (Adelto Gonçalves)



I
Ao contrário do que muitos imaginam, ao final do século 18, em Lisboa, não eram de Bocage os versos que mais se repetiam na boca dos cultores de poesia. Pelo menos entre aqueles que cultuavam uma espécie de poesia mais popular, senão chocarreira. Não é que Bocage não tenha pago o seu preço ao duvidoso gosto da época — e o fez com abundância, com versos que, mais tarde, lhe garantiriam um lugar de destaque entre autores fesceninos que seriam procurados com outros propósitos que não o de reverenciar a qualidade do poema —, mas é que a maioria de suas composições — digamos assim — mais sérias não atraía esse tipo de gente que freqüentava tascas e casas de pasto nos arredores do Rossio. 
Nesse ramo poético faziam mais sucesso, ao seu tempo, pelo menos, dois poetas cujas obras, hoje, colocadas na balança, não chegariam sequer aos pés da de Bocage: Domingos Caldas Barbosa e José Daniel Rodrigues da Costa, autores de versos que, até há pouco tempo, dormiam o sono dos esquecidos nas prateleiras da Biblioteca Nacional de Lisboa, da Torre do Tombo e de outros arquivos. Escreve-se aqui dormiam porque foi há pouco tempo que saiu à luz Domingos Caldas Barbosa: o poeta da viola, da modinha e do lundu 1740-1800 (Lisboa, Caminho, 2004; São Paulo, Editora 34, 2004), em que o pesquisador brasileiro José Ramos Tinhorão resgata a história desse clérigo secular nascido no Rio de Janeiro em 1740, filho de um funcionário régio português com uma escrava de Angola. Formado no Colégio dos Jesuítas do antigo morro do Castelo do Rio de Janeiro, serviu primeiro como soldado na fronteira Sul do Brasil para depois ingressar na Universidade de Coimbra. Em Lisboa, ao cair nas graças de D.José Luís de Vasconcelos e Sousa, o conde de Pombeiro, irmão do vice-rei do Brasil, ficou conhecido como animador dos salões da Corte e moveu amizades influentes a ponto de garantir uma sinecura religiosa e a inscrição na Arcádia de Roma, onde adotaria o nome de Lereno Selinuntino. Foi o primeiro menestrel brasileiro a obter êxito em Portugal e seus versos fáceis encontrariam tanta receptividade entre a gente do povo de lá e de cá do Atlântico que o crítico e historiador literário Sílvio Romero na segunda metade do século 19 os encontraria repetidos no Brasil como canções anônimas por cantores de feira analfabetos.
Como se sabe, o êxito mundano das modinhas brasileiras de Caldas Barbosa no começo da década de 1790 não deve ter agradado muito a Bocage. Sua Viola de Lereno trazia cantigas de versos pobres para serem acompanhadas com música, que não ofendiam a religião nem os bons costumes, o que o levou a tocar e escrever para D. José e sua filha D.Maria. Não é que Bocage fosse um revolucionário, ainda que os sucessos da Revolução Francesa lhe tenham mexido com os brios. Talvez o que incomodasse Bocage, além da má qualidade dos versos, fosse a maneira desenvolta com que o clérigo se movimentava pelos salões da aristocracia. Afinal, no século 18, o que mais um poeta queria era ser aceito pela nobreza e regalar-se com as sobras dos banquetes.
Já cinquentão, Caldas Barbosa, sempre simpático, cantava lundus e modinhas, acompanhado à viola. E presidia as sessões da Nova Arcádia, as chamadas quartas-feiras de Lereno, que se realizavam no palácio do conde de Pombeiro. Bocage freqüentou as sessões, mas, depois, irritado por ter sido chamado por José Agostinho de Macedo de sultão do Parnaso por querer impor aos demais suas concepções de poesia, escreveu o soneto que começa por “preside o neto da rainha Ginga/ à corja vil, aduladora, insana (...)”. Nesse e em outro soneto, não hesitou em recorrer ao preconceito racial — como era natural à época — para ofender Caldas Barbosa, ao chamá-lo de orangotango, mono, animal sem rabo, dizendo que a sua alta ciência não passava de mandinga.

II
Só que a essa época o poeta mais popular de Lisboa não era nem Bocage nem Caldas Barbosa. Era, sim, José Daniel Rodrigues da Costa, cuja linha de atuação não diferia muito da do clérigo brasileiro. Quem se der ao trabalho de na Biblioteca Nacional de Lisboa folhear a coleção da Gazeta de Lisboa daqueles anos vai logo descobrir que era quem mais publicava. Pois é este José Daniel Rodrigues da Costa quem acaba de ser exumado em edição limitada de 100 exemplares e fora do mercado, patrocinada pelo Departamento de Estudos Anglo-Americanos da Faculdade de Letras da Universidade do Porto dentro do Projeto Utopias Literárias e Pensamento Utópico: a Cultura Portuguesa e a Tradição Intelectual do Ocidente – II, integrado no Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, e pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Destinada a se tornar logo raridade entre os alfarrabistas, esta edição do poema O balão aos habitantes da Lua: uma epopéia portuguesa, de José Daniel Rodrigues da Costa, vem acompanhada por uma criativa introdução da professora Maria Luísa Malato Borralho, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, com ilustrações da jovem artista Délia Silva.
Nascido em 1757 em Leiria, José Daniel não tivera a sorte de Caldas Barbosa, cujo pai era endinheirado. Órfão, fora criado por mulheres caridosas, mas, já adulto, soube como se recolher à proteção do desembargador Antônio Joaquim de Pina Manique, administrador da Alfândega das Sete Casas, irmão e ajudante do todo-poderoso intendente de Polícia Diogo Inácio de Pina Manique. Por empenho do padrinho, seria nomeado administrador das Quatro Portas da Cidade e ramo de Belém, levando vida folgada em que encontrava muito tempo para exercitar sua veia poética.
Era poeta caudaloso, sem grande talento, mas bem-humorado e benquisto, bajulador e rigidamente a favor de quem detinha poder. Tinha o nome arcádico de Josino Leiriense e os folhetos que mandava imprimir por conta própria com seus versos satíricos eram tão disputados que fazia daquilo um rendoso negócio, vendendo-os à porta de sua morada na esquina da Travessa do Forno, aos Anjos, como se pode ver por uma nota da Gazeta de Lisboa de 15/1/1796.
Depois de lançar três volumes de sua Obra Poética entre 1795 e 1797, começou a publicar o Almocreve de Petas, obra em folhetos que saía sem periodicidade, mas em intervalos curtos, contando em versos casos que aconteciam em Lisboa e que se ouviam à porta das boticas e botequins. Como fazia cargas contra poetas que cultivavam a língua, Bocage aceitou o repto e o chamou de “machucho poetarrão”, que seria “pequeno em corpo, em alma pequenino”.
O José Daniel Rodrigues da Costa, agora ressuscitado, porém, já era um poeta de cabelos brancos, que de tanto limar a sua produção não seria mais tão tosco. Seu O balão aos habitantes da Lua: poema herói-cômico em um só canto foi impresso em 1819 e, a exemplo do que Bocage fizera em 1794 ao exaltar o aeronauta italiano Vicente Lunardi e seu balão aerostático, José Daniel entoa loas a Robertson e seu filho que, em março daquele ano, em Lisboa, fizeram demonstração sobre os grandes avanços dos balões.

III
Publicado à época em folheto, o poema faz de Robertson o protagonista de sua viagem à Lua. Deve ter feito muito sucesso, pois logo se mandaram imprimir, pelo menos, mais duas edições, em 1821, no Rio de Janeiro, e em 1822 em Lisboa, como assinala a professora Maria Luísa Malato Borralho na introdução, acrescentando que, desde então, a obra passaria por um silêncio de século e meio, que seria quebrado por uma edição de Alberto Pimenta em 1978.
É esta edição, portanto, a quinta, o que, convenhamos, não deixa de ser uma grande trajetória para alguém que morreu em 1832 e teve a má sorte de ficar ao lado de D.Miguel em sua guerra contra o irmão D.Pedro. E que, portanto, nos anos que se seguiram, acabou condenado a ocupar a sempre pouco visitada galeria dos vencidos.
Do longo poema de 80 estrofes de José Daniel Rodrigues da Costa não se pode dizer que seja obra de poucos méritos. É mais uma crônica rimada, que se não tem o vigor do elogio poético bocagiano ao capitão Vicente Lunardi, pelo menos em ironia e perspicácia para denunciar os (maus) costumes de seu tempo (e que são ainda os de hoje) não lhe fica muito a dever. Ao fazer de Robertson um gênio, que pretendendo alcançar o Sol, esbarra na Lua, José Daniel faz uma alegoria em que mostra os Lulanos, moradores da Lua, extremamente parecidos com os lisboetas.
Para a professora Maria Luísa Malato Borralho, esta curiosa utopia-paródia assemelha-se muito à Utopia de Thomas Morus, um mundo de sinais trocados, exatamente o inverso do que os lisboetas de então conheciam. E que, certamente, é o reverso do que se vive no Brasil de hoje em que a lei, como no século 18, continua a valer só para os que estão por baixo, os famosos três pês (pretos, pobres e prostitutas). Leiam, pois, esta estrofe, a 40ª do poema, que fica aqui a título de exemplo do gênio nem sempre reconhecido de José Daniel:

Aqui não há ladrões! Se um aparece
É logo e sem demora castigado;
Tenha empenhos ou não, ele padece,
Sofrendo o que na Lei lhe é destinado;
Sendo pronto o castigo, não esquece
O delito que fora perpetrado!
Anda-se aqui de noite a toda hora
Sem medo de que vão as tripas fora.

IV
P.S. Como autor de uma recente biografia de Bocage, o responsável por estas linhas, há poucos dias, tentou convencer um jovem e diligente tradutor espanhol, Àlex Tarradellas, de Barcelona, a verter o seu livro para a língua de Castela. Mas eis a surpresa: Bocage não é conhecido na Espanha, pois, com exceção de A Manteigui, tradução de Carlos Clementson (Almeria, Grafikás Ediblan, 2004), poucos versos seus foram traduzidos para livro em castelhano. E quem iria comprar a biografia de um poeta desconhecido? Não é esta uma notícia que possa dignificar o trabalho do Instituto Camões (e de outros organismos lusos) de divulgação dos grandes autores portugueses em outras línguas. Urge, portanto, reverter essa situação inadmissível. E que, antes de sua biografia, os versos de Bocage sejam traduzidos para o idioma cervantino. E publicados em livro, naturalmente.

______________________________O BALÃO AOS HABITANTES DA LUA: UMA UTOPIA PORTUGUESA, de José Daniel Rodrigues da Costa, introdução de M.Luísa Malato Borralho e ilustrações de Délia Silva. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2006, 58 págs.
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