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quinta-feira, 9 de abril de 2009

Os contistas cearenses (Batista de Lima)




O escritor Nilto Maciel, além de talentoso narrador, prova que é possuidor de raro destemor, ao resolver organizar uma antologia dos contistas do Ceará. Isso porque esta nossa terra é um celeiro de narradores respeitáveis e de contadores de histórias que se consideram gênios da narrativa, tão geniais que toda a literatura russa teria que se curvar para beijar-lhes as mãos. Mas o Nilto Maciel fez sua escolha e saiu-se bem, principalmente pelos comentários e pelos estudos bibliográficos de cada um dos escolhidos. Isso não vai impedir de receber desaforos e rabissacas ao longo de seus dias.Além disso tudo, surpreende o valor didático da obra. É tanto que se for feito o mesmo trabalho em torno da poesia, do romance e da crônica, nós passaremos a ter um panorama completo de nossa evolução literária alencarina. É preciso, no entanto, muita paciência para catalogar tantos autores e tantos textos, além de elaborar um parecer crítico sobre cada um. É exatamente através desses pareceres e da fortuna crítica de cada autor, levantada por Nilto Maciel, que fica patenteada sua performance como pesquisador e teórico da literatura.

Não se pode negar que o autor deve ter tido muito trabalho para, ao longo de 343 páginas, traçar um panorama da arte do conto entre nós. O apoio que recebeu da Secretaria de Cultura, para a edição do livro, através da Imprece, foi fundamental, tendo em vista que das tantas obras que apareceram no cenário cearense em 2008, essa se revela como uma das mais significativas. Não se detectam apadrinhamentos para a veiculação de nomes e textos, nem a presença de defeitos que mereçam ênfase.

A ordem com que os autores aparecem, segue uma via cronológica, o que traz à tona, em primeiro lugar, como representantes do século XIX, apenas Oliveira Paiva e Adolfo Caminha. Nilto Maciel não foi cativado pela infeliz idéia de Braga Montenegro de considerar José de Alencar como contista cearense, nem veiculou os racontos de Juvenal Galeno, de Cenas Populares, todos captados da tradição oral e pesquisados entre os nossos iletrados sertanejos da época. Mesmo assim ele não prescindiu, como fonte principal de suas pesquisas, os ensaios de Braga Montenegro, ´Evolução e natureza do conto cearense´, e de Sânzio de Azevedo, ´O conto cearense, de Galeno ao Grupo Clã´.

Ao longo de sua garimpagem, o pesquisador verificou que o manancial de contistas entre nós é tão vasto que necessária se faz a elaboração de um volume 2 para se contemplarem nomes que não foram destacados neste primeiro volume. Para nós leitores, será também interessante encontrarmos nesse próximo volume, contista do interior cearense, principalmente do Cariri e da Zona Norte, celeiros de narradores em torno do fantástico.

Outra sugestão para Nilto Maciel é de que seria mais profícua a elaboração de um trabalho similar em torno dos melhores poetas e poemas de nossa literatura cearense, nos mesmos moldes desse seu volume sobre contos. Em um momento posterior, o mesmo poderia ser feito em torno de nossa crônica, gênero injustiçado entre nós, mas produtor de valores incontestáveis para a nossa literatura.Mas voltando aos contos, como é bom o reencontro do leitor com narradores como Hermam Lima e Gustavo Barroso, Fran Martins e Moreira Campos, Juarez Barroso e Yehudi Bezerra, Paulo Veras e Natércia Campos, só para citar aqueles que já nos deixaram e foram contar histórias em outras dimensões. Depois, verificar a quantidade enorme de contistas jovens e talentosos surgidos nos últimos dez anos entre nós.

Com relação ao título da obra, Contistas do Ceará: d’A Quinzena ao Caos Portátil, fica clara a delimitação temporal em que se enquadra sua pesquisa. Afinal, antes do surgimento daquele periódico porta-voz do Clube Literário e após a novel publicação organizada por Pedro Salgueiro e Jorge Pieiro, pouquíssimo de contos pode ser constatado nesta nossa terra. Diferentemente do título de sua obra anterior, Panorama do Conto Cearense, de 2005, com essa abrangência indefinida, agora tem-se um trabalho com suas fronteiras bem definidas e de bem fácil compreensão.

Diante disso, bastava para Nilto Maciel, ao confeccionar sua Síntese Cronológica, ao final da publicação, iniciar exatamente em 1887, com o aparecimento de ´A Quinzena´ que ele chama de jornal, mas que na Introdução aparece como ´revista´, e terminar em 2005 com a criação de ´Caos Portátil´. É praticamente insignificante em termos de narrativas curtas, o que nos aconteceu antes e depois desses dois limites, respectivamente. Por isso que Nilto Maciel, diante desse seu criterioso inventário de nossa produção em contos, se inscreve como historiador de nossa literatura, nesse seletíssimo quarteto de pesquisadores, em companhia de Dolor Barreira, Barão de Studart e Sânzio de Azevedo.


(Diário do Nordeste, Caderno 3, Fortaleza, 31 de março de 2009)

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