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terça-feira, 27 de outubro de 2009

Homem não chora, não é, Airton Monte? (Nilto Maciel)



(À direita, em pé, Airton Monte)

Um dia eu conheceria Airton Monte. Num bar, numa livraria, num encontro de escritores, numa calçada, apresentado por amigo. Estava escrito. Porque escrevíamos e morávamos na mesma cidade, não tão grande ainda. No entanto, meu ingresso na Universidade (1970) propiciou, mais rapidamente, esse conhecimento. Pois na Faculdade de Direito conheci alguns escritores (principiantes, como eu) que falavam muito bem de um estudante de Medicina – certo Airton Monte. Tinha ele pouco mais de 20 anos e pertencia ao Clube dos Poetas Cearenses, do qual foi um dos fundadores. Grupo de jovens que escreviam versos. Reuniam-se, com frequência, na Casa de Juvenal Galeno, sob a liderança de Carneiro Portela. Liam seus poemas, elogiavam-se, faziam planos, publicavam coletâneas. Com o tempo, desapareceu e, com ele, quase todos os seus poetas. Poucos deles persistiram, como Airton Maranhão, Barros Pinho, Batista de Lima, Iranildo Sampaio, Márcio Catunda, Ricardo Guilherme.

Aqueles admiradores de Airton Monte também sumiram na poeira dos anos. Nem sei por onde andam. Sei-lhes os nomes e lembro muito bem suas fisionomias. De dois deles, pelo menos: Gerim Cavalcante e Resal (Renato Saldanha), também do Clube. Eles me afirmavam: Airton tem contos maravilhosos. E perguntavam, espantados, se eu não os conhecia.

Vieram as cervejas, os amores, as decepções, as leituras, as vaidades, os sonhos. Veio a revista O Saco. Vivíamos em constante reboliço, em eterna pândega. Raposo, o chefão da revista, convidava-nos a ir quase diariamente ao seu escritório. E lá íamos eu, Airton, Jackson Sampaio, Carlos Emílio, Mapurunga e outros ouvir os sonhos mirabolantes do velho (ainda seminovo) Raposo. Entre um cafezinho e um cigarro, vinha o convite irrecusável: à noite, umas cervejas no bar tal ou no cabaré qual. Raposo ligava o Maverick azul e saíamos no rumo da perdição. Frequentávamos os melhores (mais caros) cabarés da cidade. Bebíamos o melhor uísque, comíamos a melhor carne.

Li os primeiros contos de Airton, antes de publicados nos volumes O grande pânico e Homem não chora. Contos de mestre. Senti-me reduzido à estatura de anão ou aprendiz. E o era mesmo. Em razão disso, fiz-lhe um pedido: lesse meus continhos, desse opinião, fizesse sugestões. Dias depois, ele me devolveu a papelada. Junto dela, uma carta (27/12/76). Fez alguns elogios, mas também me puxou as orelhas: “Parábola maravilhosa”; “O conto me pareceu caótico demais, sem timing, de difícil entendimento para o leitor comum”; “A precisão dos detalhes, que para mim é imprescindível num conto, me sensibilizou em demasia”; “Alguma influência de George Orwell – 1984. Moisés lembra muito afigura do Big Brother. Não gostei do conto. Se você o publicar, verá que a maior parte da crítica irá referir-se a esta semelhança e à influência de Orwell”; “O grande jantar: Este conto faz-me lembrar o filme de Buñuel – O charme discreto da burguesia – se bem que a temática seja totalmente diferente quanto ao seu desenvolvimento e ao seu final. O texto me atraiu, sobretudo pelo insólito, pela ironia sofisticada, pela distribuição segura dos personagens”; “Ícaro: O conto mais lírico do livro, de uma beleza escorreita, clara, cristalina”; “As pernas do marechal de pau: Taí, mais uma vez você envereda pelo conto satírico com muita propriedade e talento histriônico. Sinceramente, este conto, como eu já lhe havia falado antes, é digno de figurar em qualquer antologia que se faça”.

Coitado de mim, que escrevia sem conhecimento. Os escritores e cineastas por Airton mencionados na carta eu mal sabia seus nomes: Buñuel, Fuentes, Orwell, Borges. Mas isso não explica nada, porque as literaturas se imbricam. Seja como for, o que eu lia mesmo eram escritores ultrapassados, de segunda categoria, lembrados talvez em seus países. Como Pedro de Alarcon. Livros antigos, sujos, cheios de mofo, expostos nas calçadas de Fortaleza, como mercadoria velha, sem valor.

Tornamo-nos amigos. Cúmplices nas noites de cerveja e mulheres, nos manuscritos, nos sonhos. Queríamos a glória literária. Fui-me embora pra Brasília, quase inédito (um livrinho, 1974). Ele ficou em Fortaleza, inédito. Lá não fui amigo do rei, lá não tive a mulher que eu quis. E voltava pelo menos uma vez por ano, de férias. Ele, médico, frequentador assíduo do Estoril, contista elogiado por todos os críticos. Apresentava-me belíssimas mulheres, todas dele (ufanava-se disso), num ciúme de Otelo. Cuidado, bigode (ainda me chama assim), com minha namorada. Eu metia a cara no copo, sem jeito. Como competir com aquele psiquiatra famoso, aquele boêmio respeitado, aquele palrador de prosa macia?

Por carta, me falaram da criação do Grupo Siriará. Remanescentes do Clube dos Poetas e de O Saco e outros jovens. Como Oswald Barroso, Adriano Espínola, Floriano Martins, Nirton Venâncio, Rosemberg Cariri (antes A. Rosemberg) e Rogaciano Leite Filho, o papa da noite fortalezense, o organizador de eventos, o divulgador dos novos, o boêmio. Na crônica “30 anos de Siriará”, Airton explica como nasceu o grupo: (...) “corriam os idos de março de 1979, quando o Rogaciano Leite Filho, numa madrugada do Estoril, me falou de sua idéia de formar um movimento literário que envolvesse todos os novos autores do Ceará, independente de estilos, crenças, ideologias.” (...) “Numa bela e risonha manhã de domingo, o Fiat branco parou-me à porta de casa e dele saltaram o Roga e Adriano Espínola. Daí rumamos para uma reunião secreta com Oswald Barroso num pequeno sítio onde morava. Ali, entre doses capitais de cachaça e tira-gosto de piaba assada, nascia o núcleo do Grupo Siriará de Literatura. Começávamos a fazer história e sequer desconfiávamos disso. Como tudo aquilo me parecia coisa de maluco, sugeri, muito apropriadamente, que as reuniões do Grupo fossem feitas no auditório do Hospital Mira y López.”

Passados quase 40 anos, continuo o mesmo leitor dele. E cada vez mais admirado de seus contos. Mudaram algumas coisas: não vejo mais as mulheres belíssimas ao lado dele, o Estoril não existe mais, nossos bigodes viraram tufos de algodão, nossas cervejas secaram nos copos. Mas homem não chora, não é, Airton Monte?

Fortaleza, 27 de agosto de 2009.
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