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sábado, 17 de outubro de 2009

Primeira carta (1976) de Airton Monte a Nilto Maciel

 – Nilto, o primeiro sentado (à esquerda); Airton, o primeiro de pé (à direita) –

Amigo Nilto, como você já devia saber, nunca fui nem pretendo ser crítico literário, sou antes um criador e um sensitivo fruidor de literatura ou de outra qualquer forma de expressão artística. Portanto, as opiniões que aqui exponho sobre seu trabalho nada mais são que frágeis e sinceras sensações que seu trabalho há me despertado. Espero que me perdoes a superficialidade e a falta de originalidade dos meus comentários, mas que são, isso eu asseguro, profundamente francos.

1) As fantásticas narrações das meninas do São Francisco

Parábola maravilhosa que tem como cenário o rio mitológico e arquetípico de cujo bojo as meninas narradoras arrancam suas histórias singulares. O que mais me impressiona no conto é a figurado pai, no seu entender parco, a representação feliz da figura do escritor, do criador imaginoso transfigurando a realidade que o circunda: “pois havia grande diferença entre o que contávamos e o que lia”. A libertação dos monstros, a mãe desaparecida, os acontecimentos misteriosos ocorridos entre as pedras e águas do rio mágico, tudo isto começa a despertar na mente das meninas, também frutos do mesmo criador, o pai, a perda dos limites entre a realidade habitual, massacrante, e a fantasia desesperadamente criadora. Mas tudo isto é necessário para o processo lento da conscientização do criador que evolui, finalmente, para a perda do medo atávico da natureza, do desconhecido, morcego gigantesco, sugador de vida, a atividade literária atuando como numa catarse purificadora e definitiva. Não considero este texto como literatura fantástica, mas, sim, como uma espécie de parábola, ou melhor, ainda, uma fábula onde a palavra fabulação encontra seu sentido mais imediato.

2) Detalhes interessantes da vida de Umzim

Sinceramente, eis o conto de que mais gosto em todo o livro. Para apreendê-lo melhor e senti-lo em toda a plenitude, imaginei-me por trás de uma câmera a seguir os subtítulos como se fossem um roteiro cinematográfico. A linguagem está muito bem construída e o ritmo dado às palavras me fez sentir como se estivesse montado a cavalo galopando galopando galopando. Comparando-o ao “Contagem regressiva”, cuja arquitetura se lhe assemelha, acho que houve um salto qualitativo extremo.

3) A tragestória de Getúlio

Carlos Fuentes, em seu livro A morte de Artemio Cruz, usou uma técnica semelhante, contando a vida de um homem misturando passado e presente e terminando unindo sua morte ao seu nascimento. Não vá me entender mal, pois eu não estou fazendo uma acusação. O conto me pareceu caótico demais, sem timing, de difícil entendimento para o leitor comum. Eu prometi-lhe sinceridade, daí eu estar falando isto, mas acho que nossa amizade pode suportar tais franquezas. A minha franqueza crítica não se propõe atingir a linguagem do conto que é ótima, incisiva, gostosa de ler. Mas, acho que as ligações entre as falas merecem um pouco mais de cuidado, pois podem dar a impressão ao leitor comum, de que se trata de um enorme quebra-cabeça e não a exposição fragmentária de vida de um homem. Mas, deve-se levar em conta que a proposição do conto é dificílima de se realizar, mormente em se tratando de história curta, do restrito espaço onde o autor há de se movimentar.

4 ) Contagem regressiva

O interessante é que os dois melhores contos do livro tenham método de construção semelhante. Sinceramente, não gosto do título, o conto é forte demais para merecer tal artifício simbólico que nada de novo lhe acrescenta. O conto, como Umzim, está perfeito. Nada a criticar do tema ou de seu desenvolvimento. A precisão dos detalhes, que para mim é imprescindível num conto, me sensibilizou em demasia. O final do conto, como rezam os antigos, é aquele final inesperado que me chocou profundamente, pois eu fui levado aos poucos, vamos dizer assim, ao clímax como se a gente estivesse ouvindo uma melodia que vai subindo de tom até tornar-se in suportável (no bom sentido) e de repente dá-se o corte brusco e mergulha-se no total silêncio entre pai e filho. Não sei dizer de qual gosto mais: Umzim ou a Contagem, a escolha terá de ser feita com os olhos fechados.

5) A incrível razão de um suicídio

Permita-me chamar a este texto de parábola política e vou explicar por que: sem a conotação política no seu sentido mais estrito e claro dado ao conto por detalhes como partido, exílio, repressão, torturas, ilegalidade, talvez o sentido que se desse ao texto fosse apenas o de um simples delírio imaginativo ou delírio alienado. No entanto, a simples alusão partidária, a formação de um grupo de pessoas como mesmo pensamento, a formação de vários meadas, a tudo modifica e investe de um significado novo, enriquecido e fértil. Acho que este conto é uma prova de que se pode fazer uma literatura de denúncia sem ser-se panfletário, sem se cair na vulgaridade ou na clareza demasiado exposta. Uma denúncia de uma época não perde sua força nem sua vitalidade por ser sutil, maliciosa, insinuante, deliciosa de ser lida. Como já lhe tinha falado antes, também gosto muito deste conto.

6) Legenda

Muito bom este conto, eivado de uma ironia cruel, de um sarcasmo violento que se alternam propiciamente com momentos de lirismo e até mesmo de boba ingenuidade. Gostei também, do diálogo travado entre mãe e filho/marido e mulher? Outro detalhe interessante: a grafia das palavras silaque, estaline. Sou inteiramente a favor do abrasileiramento destas palavras estrangeiras que por nós já foram absorvidas e fazem parte constante do nosso linguajar coloquial. Outro detalhe: aparecimento de locais de Fortaleza na composição do cenário como a Igreja do Coração de Jesus, acidente muito difícil de se achar nos textos dos autores da nova geração mais preocupados em localizar a ação dos seus contos em lugares maravilhosos, de nomes complicados, talvez resultado do infeliz complexo de provincianismo.

7) As contas de Setidon

Quem será Setidon? Um louco? Uma criança? Algum símbolo de assustadora realidade? Tudo se passa num clima sufocante onde os limites entre realidade e irrealidade ou a-realidade versus supra-realidade se confundem, colocando o leitor num estado de angustiante expectativa. Os personagens não se definem, permanecem mergulhados numa névoa aterrorizante em que as contas de Setidon ou serão um réptil coleante ou será o medo ancestral do homem diante de sua própria realidade ou o medo diante das coisas que ele não consegue explicar ou manipular? O principal personagem do conto não é gente humana, mas uma coisa misteriosa, mutante, sempre em transformação, variando da inércia de objeto para o movimento de ser coleante, assustador por seu mimetismo, que por si mesmo nenhum mal pode fazer, pois é coisa, masque aos olhos de seres assustados por sua solidão, transfigura-se e muda deforma como se fosse um amontoado de sombras na parede manejadas por uma criança raivosa.

8) Babel

O título ajusta-se como uma luva ao texto. Duas histórias contadas paralelas em frases alternadas, criando um bom efeito fruitivo. O contraste entre as duas histórias me pareceu bastante significativo: uma, uma história banal de um homem e seu peru; a outra narra a angustiante viagem de um homem que leva sua mulher à maternidade. Os pensamentos dos dois se misturam, se entrelaçam, traçam os pequenos problemas quotidianos que afligem os habitantes das cidades já sem nenhum travo de humanidade. A morte é o grande personagem deste texto, eliminando as diferenças entre a morte de um ser pensante e a morte de um animal inferior, pelo menos teoricamente. Mas que realmente no grande plano do movimento da matéria e da energia nada significam ou muito significam. Acho que se as duas histórias fossem contadas uma depois da outra, de forma bem comportada e tradicional, o texto perderia muito, tornar-se-ia banal, desprovido de mistério ou de encanto.

9) As cobaias

Do conto só não gostei do no medo psiquiatra. Porque um nome estrangeiro, se os outros personagens têm nomes brasileiros? A não ser que o nome tenha algum significado mais sutil, o qual não consegui apreender. Posso olhar o texto sob dois prismas: 1) crítica acerba sobre os métodos médicos de experimentação e terapêutica; 2) profecia amarga sobre o futuro da medicina numa sociedade cada vez mais tecnológica, onde a ciência médica passa a ser uma nova religião, onde o antigo estado religioso transformou-se no estado científico, em que até mesmo o ato sexual, gesto natural por excelência, passou a ser uma experiência treinada, condicionada, que distancia mais do que aproxima dois seres humanos através do contato puramente carnal. Vale salientar que este conto realmente possui uma qualidade fundamental, para classificar-se dentro do estilo tradicional do conto: o diálogo. Talvez você seja um dos poucos contistas desta nossa geração que se arrisca a construir um texto cujo eixo principal é o diálogo entre as personagens, coisa dificílima de se fazer. Interessante é que apesar de basear-se no ato sexual, o conto nada tem de erótico, deixando-me, ao contrário, a impressão amarga de um simulacro de contato sexual, onde uma barreira terrível se ergue entre os dois.

10) XXª lição

Alguma influência de George Orwell – 1984. Moisés lembra muito afigura do Big Brother. Não gostei do conto. Se você o publicar, verá que a maior parte da crítica irá referir-se a esta semelhança e à influência de Orwell. Mas, no entanto, o texto não está mal escrito nem mal conduzido, apenas o tema já foi por demais explorado, mas ainda acho que ele vale a pena por ser um grito de denúncia, um sinal dos tempos em que vivemos. O texto está muitos furos abaixo do que realmente você pode fazer, está destoando dos outros que compõem seu livro.

11) Ícaro

O conto mais lírico do livro, de uma beleza escorreita, clara, cristalina. Sensibilizou-me profundamente o drama de Ícaro, o homem comum debatendo-se na sujeira de um mundo nojento, cruel, preso à sua condição de homem ligado indissoluvelmente às tragédias quotidianas que, se súbito, se transfigura pela fantasia criadora, começa a usar a imaginação como meio de transcender a si mesmo, reconhecer-se como pessoa viva, atuante, capaz de possuir um objetivo, mesmo que ele não passe para os outros, de um sonho bobo de criança. Quem sabe Ícaro não simbolizará o artista bipartido como um esquizofrênico, dividido entre o mundo da poesia, etéreo, alado, gratificante, pleno de imagens fantásticas e belas ou debatendo-se como um peixe na lama, entre a bosta dos animais e o odor das frutas que caem podres no chão.

12) As pernas do marechal de pau

Taí, mais uma vez você envereda pelo conto satírico com muita propriedade e talento histriônico. Sinceramente, este conto, como eu já lhe havia falado antes, é digno de figurar em qualquer antologia que se faça. O seu marechal pode ter nascido em qualquer lugar da América Latina, tu tudo perfeito, a gente lê uma vez e não se cansa e lê outra vez e mais outra e a gente ri e depois se torna amargurado porque tudo é a mais lídima verdade. Digo-lhe de todo o coração, se este conto estivesse assinado por um destes figurões de nossas letras, tava todo mundo aí se babando e se derretendo em mil elogios.

13) O grande jantar

Este conto faz-me lembrar o filme de Buñuel – O charme discreto da burguesia – se bem que a temática seja totalmente diferente quanto ao seu desenvolvimento e ao seu final. O texto me atraiu, sobretudo pelo insólito, pela ironia sofisticada, pela distribuição segura dos personagens, dos quais se sobressaiu para mim a figura do padre Giordano, sempre falando e abusando do seu latinório (língua morta, inútil símbolo de erudição, porque estático) como certos intelectuais que conheço que acumulam cultura e orgulham-se em mantê-la presa numa coleira como um cão de luxo. O diálogo entre os personagens é interessante, faz-me rir. A súbita aparição e desaparição do espectro do antigo e devorado cavaleiro é estupenda e mantém o ritmo da narrativa. Os preceitos lançados pelo barão Food, sobre uma antropofagia reacionária e repressiva, são deu ma terrível semelhança com nossa cruel realidade.

14) O manuscrito de Yellah

Noto a influência de Borges, influência muito boa, por sinal, não indo aqui nenhum desdouro ao autor. O conto realmente atinge o objetivo a se propõe: o autor criando a figura de um autor (seu alter ego?) misterioso, de profecias misteriosas. O enredo desenrola-se em torno de um possível manuscrito de um possível autor cujo nome ao inverso é o de Halley. Para mim, vale pelo artifício criativo do autor, a fertilidade de sua imaginação, pela segurança com que armou os menores detalhes para poder dar ao texto um tom de seriedade e de verossimilhança.

15) O mundo estaliano

Mais uma fábula sobre a mecanização, a superpopulação, o banimento estúpido do amor físico entre sexos opostos, a tomada do poder pelos ex-marginalizados, no caso os homossexuais, a destruição de toda a tecnologia. Não me lembro de nenhum outro texto que use a homossexualidade da forma como você usou, super-original. Quase todos os temas que preocupam o homem deste século insípido são tocados, colocados de uma maneira que prende a nossa atenção e nos faz pensar. O conto é muito bom, a linguagem é simples, destituída de floreios ou frescuras estéticas. Gostei bastante do término do conto, inesperado, bem ao seu modo.

16) Os sobreviventes

Mais uma vez você preocupado com os temas universais, isso é ótimo, é tal preocupação com a destruição do homem pelo homem, o conflito atômico, a sobrevivência da espécie. Neste texto, sob um cenário caótico de destruição e violência, surge o estudo inesperado, mas profundamente lógico dentro do enredo de como os sobreviventes enfrentariam o problema da reprodução e consequentemente como membros da mesma família, o do incesto, tabu maior da humanidade. A transformação psicológica do pai, que perde todo o respeito filial, passando a ver nas filhas e nas futuras netas, como o homem pré-histórico, apenas carne para seu harém, pois como patriarca da futura tribo a ele e somente a ele, todas as fêmeas, isso desperta seu cinismo, a sua luxúria despertada. A sua visão materialista da história, dentro dos preceitos dialéticos de que apesar de tudo a história sempre se repete, até que não haja mais homens para fazê-la. O desenvolvimento do conto me atraiu pelos estranhos acontecimentos, pelo desenlace súbito, inesperado e cínico, após a pergunta angustiada da filha e a resposta silenciosa do velho pai, despido de toda a dignidade humana.

Fortaleza, 27 de dezembro de 1976.
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