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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Ledapoesia (Clauder Arcanjo)

Para Leda Maciel (in memoriam)




Ao nascer, um choro em decassílabo. “Bela como um cisne!” — pensou a mãe; sempre afeita às coisas da arte. Dito isto, de forma natural, brotou o nome sobre os lençóis do parto: Leda.

Com o tempo, o engatinhar e a melopéia infante. “— Lê, Lê, Lê...”. Nas primeiras letras, a descoberta: Lê, do verbo ler. Por entre as páginas dos livros, o chamego dos poemas clássicos, a paixão pela poesia. E, um certo dia, o amor de Lê se fez carne, recitando uma saudação em rimas toantes. O céu banhou-se de mais azul, e uma revoada de pássaros saudou a primavera nos lábios da pequena. Veio a juventude e, com ela, o primeiro soneto. A gaiola dos quatorze versos não era prisão para tanto canto. Seguiram-se os haicais, as quadras, os tercetos, os cordéis, além de um cordão gracioso de versos livres.

A cidade se acostumou com o ritmo, o engenho e o gracejo rimático de Leda.

“— O melhor remédio para a alma”; professoravam todos.

Mas, um dia, Leda viu-se enferma, a doença a minar-lhe as forças, a calar-lhe a voz. A medicina nada poderia fazer, os homens de branco deixaram bem claro. A ciência fazia-se letra morta. No entanto, os poetas da província resolveram prescrever uma injeção de poesia diariamente, direto na veia dos ouvidos de Leda. Desde então, passaram a varar dias e noites junto ao seu leito. E Leda resistia, até que... dormiram, exaustos. Ao acordarem só deram tempo de ver Leda subindo aos céus, a recitar um lindo poema para Cristo.

— Entra, poetisa, a casa é tua. — saudou o Senhor.

E uma legião de anjos e arcanjos anunciou, em versos, a chegada de um novo querubim: a divina Ledapoesia.


clauder@pedagogiadagestao.com.br
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