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quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Jogos (Pedro Du Bois)



Todos os sonhos
terminavam
no copo de cerveja
durante o intervalo

gratificado com o refrigerante
tentava entender por que os olhos
se modificavam em vermelho

paletó e gravata
chapéu

na volta
perdendo ou ganhando
não havia mais a graça da ida
nem conversas sobre sonhos
e futuros

só o bafo
e o cansaço do menino.

(Pedro DuBois, em O MOVIMENTO DAS PALAVRAS)
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domingo, 25 de janeiro de 2009

A construção poética de Napoleão Valadares (João Carlos Taveira*)

(Napoleão Valadares)


Nestes tempos de pós-modernidade, de poesia neobarroca, de poema verbivocovisual e outras designações que têm norteado certa poesia praticada entre nós, o surgimento de um livro de poesia que explora a linguagem dos signos e dos símbolos, concomitantemente palatáveis à compreensão geral, é motivo suficiente para a manifestação de uma resenha ou de um artigo em letra de imprensa.

Vamos, pois, ao livro. Trata-se de Delírio Lírico, poema longo, em trinta e quatro cantos, de Napoleão Valadares, editado por Edições Galo Branco, Rio de Janeiro, 2008, e lançado em Brasília em novembro desse ano. O poema é todo construído em decassílabos brancos, sem estrofes, cujos cantos têm 49 versos cada um, exceto os de números V, VI e VII que se estendem a 80, num total de 1.759 versos. O assunto é tratado em ordem cronológica e abrange mais de 30 séculos de história, que se inicia com a Guerra de Tróia (séc. XIII a.C.), passando por Sócrates, Platão, Aristóteles, até chegar praticamente aos nossos dias.

Napoleão Valadares, na sua construção poética, optou pela narrativa épica em que, com mestria e bom humor, funde a linguagem nobre, clássica, à linguagem popular, atual, numa tirada muito interessante e jamais vista em nenhum poeta brasileiro de qualquer escola. Mas o que salta aos olhos e aos sentidos é a correção gramatical, o domínio da língua, a clareza de expressão, a concisão. Além, é claro, do senso de humor nas “pilhérias” e “invenções” que o Autor derrama pelo texto afora. Sirva-se de exemplo o Canto XXVI, em que o narrador, em diálogo com Camões, ouve do mestre de Os Lusíadas a seguinte confissão: “Amor é fogo”, numa clara alusão ao célebre soneto “Amor é fogo que arde sem se ver”, do bardo português.

Por força da circunstância de leitura, há que se fazer agora uma referência enfática: ao longo do poema são praticados os mais variados tipos de verso decassilábico, que vão dos mais comuns (heróico e sáfico) aos de maior raridade. Por exemplo: a gaita galega (também chamada moinheira), decassílabo que apresenta sílabas tônicas nas posições 4, 7 e 10; e o que Anderson Braga Horta chama de “decassílabo átono”, aquele cuja décima sílaba abre mão da tônica para criar um novo tipo de enjambement — o que desafia a linguagem poética em benefício da fluência rítmica da prosa. Deve-se acrescentar que, de rara apresentação nos poemas latinos, esse tipo de verso aparece, no entanto, algumas vezes em letras de música. (Quem ama a poesia e conhece um pouco os seus mistérios, sabe que a figura da métrica no poema não é, como na música, uma regência implacável sobre o ritmo. Mas sabe, sobretudo, que é o ritmo que dá beleza à música, bem como ao poema. Fora disso, a poesia escrita sob os parâmetros do que foi mencionado no primeiro parágrafo deste texto corre sério risco: pode cair no vazio absoluto ou no descrédito normativo da língua. E aqui cabe um provérbio chinês: “O tolo corre onde o sábio não andaria.”)

A temática simples, porém inusitada de Napoleão Valadares, exposta por intermédio de um personagem delirante, vítima de febre intermitente, abrange o conhecimento universal da política, da filosofia, da cultura, das artes; enfim, da história da humanidade, em seus mais variados arcabouços lingüísticos e semânticos. E apresenta — et pour cause — um conhecimento profundo das coisas e das mazelas do mundo. A exemplo de Machado de Assis e Francisco Carvalho — para citar somente dois escritores que nunca saíram de sua terra natal e conhecem cada canto do mundo, cada rua e cada pedra de muitas cidades, sem ter viajado para nenhuma delas —, Napoleão Valadares vai descrevendo vilas, urbes, países, continentes inteiros, só pela leitura sistemática e pelo estudo regular. Seu texto é uma vitória sobre o turismo funcional e dirigido...

Outro registro que vale a pena ser consignado é com relação à simetria de alguns grupos de versos encontrados em três cantos do poema. A saber: no Canto XXV, que trata do Descobrimento da América, há, além da simetria, um reducionismo consciente do verso “Colombo olhando o azul” para, dez versos abaixo, “Olhando o azul” e, nos dez seguintes, simplesmente “O azul”. No Canto XXVIII — sobre Shakespeare — ocorre semelhante simetria do número oito entre os versos “Hamlet, o Príncipe da Dinamarca”, “Depois, Otelo, o Mouro de Veneza” e “rapazes muito diferentes delas”. Finalmente, no Canto XXXII — num encontro com Dostoievski e Tolstoi — pode ser facilmente encontrada a relação com o número sete entre os versos “porque o primeiro, condenado à morte”, “O outro, mundana mocidade, estróina” e, finalmente, “os meandros da alma humana conhecia”. Mas esta numerologia deverá ser tratada em outro estudo.

Napoleão Valadares, com este livro, apresenta um poema novo e singular, mas não pretende inventar ou reinventar estilo nem fundar escola. Quer tão-somente fazer partícipe o leitor dos delírios da febre, nesta grande viagem pelo mundo e pela história da humanidade, empreitada que realiza, com percuciente habilidade, por intermédio de uma linguagem poética fluente e agradável.

Delírio Lírico é leitura obrigatória para todos aqueles que amam a tradição e aceitam o novo, pois essa dicotomia geralmente possibilita maior compreensão e fruição da Arte, seja ela musical, pictórica ou literária.

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* João Carlos Taveira é poeta e crítico literário, autor de seis livros publicados, entre os quais Aceitação do Branco, A Flauta em Construção e Arquitetura do Homem.
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terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Dos amores (Pedro Du Bois)




Quando nos encontramos


além do agouro


dos pássaros


temos a certeza


da companhia




não é tardia


a nossa hora




o cansaço


relevado


no que os sentimentos


têm de sobra


e tempo.


(Pedro Du Bois, em DOS AMORES, poema 28)
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sábado, 17 de janeiro de 2009

Sobre Carnavalha (Marco Aqueiva)



Salue, caríssimo Nilto:

Temo enviar uma msg hiperbólica; mas se o faço, é porque fiquei literalmente possuído carnalmamente. Dei-me ao prazer de Carnavalha por duas semanas. Pena que não deu para protelar mais a leitura. Protelar só pelo Prazer, para não perdê-lo. Um amigo costuma dizer-me que, quando me apaixono por uma obra, leio como se fosse poesia. Carnavalha tomou-me na perspectiva ficcional e fez-me tremer amiúde como quando caio no terreno da Poesia. Li como poesia sim!
Sob pena de cair em esquematismos fáceis, permito-me dizer da poesia que se traça enquanto busca e revelação quando os habitantes de Palma, cada um deles em suas obsessões e volúpia inconfessável, adormecem e então entra a estrige, ave consagrada ao espírito de Hermes e seus mistérios, vindo libertar das personagens seus desejos inconfessáveis antropomorfizados e perseguidos porque só podem mesmo ser negados.
Carnavalha é, portanto, mistério que não se deve reduzir a esquematismo. Mas permita-me dizer um pouco mais. Carnavalha é rigorosamente a percepção de Zuza da canalha, carnalha, canaval, canavalha, carnavalha, carnavalma... carnavalização.
Carnavalha vale, ao que parece, como percepção carnavalesca numa perspectiva psicanalítica revelando o desencontro das personagens palmenses consigo mesmos (como dissemos), como o é também numa perspectiva sociológica revelando o desencontro de Brasil e Brasil. Brasília chega a Palma. A ordem inquieta-se com a desordem. Os belos jovens brasilienses desencontram-se dos feios velhos palmenses. Nessa perspectiva carnavalesca conjumina-se a grandeza/riqueza espiritual de Zuza posto à roda do sacrifício.
Tanto Zuza permanentemente embriagado quanto os palmenses adormecidos põem em funcionamento as engrenagens da poesia no moto-perpétuo de transformações, metáforas e desejos que são da própria natureza do Brasil e da poesia. Bingo!
Extrapolei? Diga-me lá...
Um forte abraço,
Marco Aqueiva
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quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Sonata de silêncio (Clauder Arcanjo)

Para Paulo Bomfim



Antônio Triste, esgotado, após viver três vidas, imensas e misteriosas, naquela fração de tempo que caminha para o repouso de toda hora extinta, encontrou-se com Maria Felicidade. Dama graciosa e bonita, que fora enganada e vendida com seu vestido de chita. “Água que passa” — pensou. “Água que canta em minha tarde” — versejou. 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Paris é uma festa! (Nilze Costa e Silva)


(Nilze Costa e Silva)

Este é o título de um livro do grande escritor Ernest Hemingway, que fez parte da comunidade de escritores e artistas expatriados em Paris, como Van Gogh, Paul Cézanne, Pissaro e Paul Gauguin, entre outros.
Paris é ontem, hoje e amanhã. Paris é maravilhosa pela alegria do seu povo. Sempre ouvira falar que os parisienses são mal humorados. Não são. Têm um aspecto risonho e feliz. As ruas e os prédios históricos são muito bem iluminados. Mas não olhe para o chão. Os turistas sujam muito, e o povo, principalmente os jovens parisienses fumam demais. Acho que eles não conhecem ainda um pequeno objeto chamado cinzeiro. O passeio de barco no Rio Sena é imperdível, bem como a visita à Torre Eiffel, símbolo romântico de Paris. Dizem dela que é forte como ferro, mas delicada como renda. A Rachel, nossa guia em Paris, nos falou que sua construção foi primeiramente ridicularizada pelos artistas e escritores da cidade, que consideravam a torre, erigida em 1889, um verdadeiro monstrengo. E que foi construída para comemorar o 100º aniversário da Revolução Francesa. Com o tempo foi se tornando símbolo de beleza, originalidade e magia da cidade de Paris.
Fui a Paris pela primeira vez e nada fugiu às minhas expectativas. Paris respira monumentos, pontes românticas, museus fabulosos, bistrôs e cafés. Ah, os famosos e românticos cafés de Paris... Com mais de 2 mil anos de história, a cidade fascina o imaginário humano, considerada a cidade mais famosa do planeta. Lá se dá um mergulho na história da civilização humana, ao entrar no Louvre, onde se encontram numerosas obras-primas dos grandes artistas da Europa, como Michelangelo, Ticiano, Rembrandt, Goya e Rubens. Telas famosas, como a coração de Napoleão Bonaparte, Santa Ceia, a famosa e enigmática Mona Lisa, esculturas como a Vênus de Milo, e mais enormes coleções de artefatos do Egito antigo, da civilização Greco-romana, artes etruscas, islâmicas, enfim, uma das maiores mostras do mundo da arte e cultura humanas.
É um privilégio quase divino poder passear no bosque de Luxemburgo. Mexe com o imaginário saber que ali vizinho está o túmulo dos filósofos Simone de Beauvoir e Jean Paul Sartre. Com toda a intimidade, sentei numa cadeira do Jardim, colo em frente ao castelo da rainha Catarina de Médici. A beleza de Paris é externa e muito mais interna. É uma cidade de iguais, onde as pessoas negras se vestem bem, estão empregadas em locais de destaque, lojas elegantes, bancos, gerências de hotel e, quando jovens e crianças, estão em boas escolas. Pelo que nos falou um motorista de táxi, os imigrantes são bem aceitos, apesar da invasão constante. Existem mendigos nas ruas, mas muito poucos em relação ao Brasil. Geralmente alcoólatras que portam um cartaz: "Estou com fome". Estão agasalhados e geralmente junto a eles está um saco de dormir. Crianças na rua não existem em nenhum lugar da Europa, só vi crianças felizes, risonhas, saindo ou entrando nas escolas ou dentro dos museus.
Fui a Montmartre Montmartre, o bairro boêmio da cidade de Paris, encontro importante de artistas e intelectuais, famoso pelo passado de sua animada vida noturna. Modelos, cantoras, bailarinas e pintores como Degas, Cézanne, Monet, Van Gogh, Renoir e Toulouse-Lautrec frequentavam o lugar. Hoje suas ruas ainda se animam com os artistas que pintam suas telas, cantam e escrevem poesias na praça principal. Turistas passeiam pelas ladeiras, seguidos por vendedores ambulantes. Os bares nas calçadas e os cafés refletem o romantismo de uma época.
Turistas, vendedores, ambulantes passeiam pelas ladeiras à procura de lugares famosos e bares bem abastecidos.
Montmartre foi imortalizado na musica de Charles Aznavour, assim traduzida:

"Eu falo de um tempo
em que os jovens de hoje não podem viver mais
Montmartre, ornamentada, coberta de lilás,
e sob janelas, humildes dormiam, em trapos de linho,
viviam nas ruas, ali nos conhecemos,
eu pintando a fome e tu posando nua.
Boemia, boemia, lazer, amor e distração".

Segundo a nossa guia, não se conhece Paris em 4 dias. Nem em 4 meses. E talvez não em 4 anos. Falou que as crianças estudam o dia todo de segunda a sexta em escolas públicas de boa qualidade. Mas as quartas elas não vão a escolas, pois é dia de ir aos museus, frequentar aula de dança, línguas, natação etc. Resultado, a violência é quase zero e não existem assaltos à mão armada, mas os descuidistas, chamados lá de "carteiristas", se aproveitam de um vacilo seu para surrupiar sua carteira.
Andar pela calçada da Île de la Cité (Ilha da cidade), primeira rua de Paris e entrar na Catedral Notre Dame, construída em 1163, nos faz ver que o Brasil é um feto diante da civilização.
Bom, em Paris seguimos o roteiro que todo o turista faz, mas não deu tempo para ver tudo em 3 dias. Claro que pretendo voltar lá para continuar meu passeio, mas morar mesmo, só aqui, na minha Fortaleza amada, onde se serve feijoada, baião de dois de feijão verde com queijo, etc.etc. Na França só presta o pão, embora seja conhecida com uma das melhores culinárias do mundo. Questão de gosto... Aliás uma amiga pediu escargot, num restaurante, e queria que eu provasse. Falei que se for pra comer caracol, pego aqui no mangue do rio Cocó, bem pertinho da minha casa, ora!
Mas se antes eu dizia "não morro sem ver Paris" hoje afirmo: não morro sem retornar a Paris, essa cidade emocionante, deslumbrante, mas que a gente precisa mais sentir do que ver.
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sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Três (Viegas Fernandes da Costa)



I - O cheiro do poema

Deixar assim correr o tempo em meus dedos. Que quer este pássaro em meu quarto? Como ancorar este navio? Tecer de rendas ao som da vida, em uma tarde de verão. Por onde andarão as camponesas que um dia vi em meus sonhos de adolescente? Planger de violões no alto do morro, as redes arrastando os peixes de amanhã. Não conheço, porém, o cheiro do leito nascido dos úberes para meus lábios... sei apenas da cidade, da pequena cidade onde nasci, e deste gosto pasteurizado. Meus pés nunca me levaram ao alto da serra, e aquela estrada de terra que se perdia na mata, e que sempre desejei conhecer por completo, já não encontro mais. Assim, tamborilo duras falanges sobre o peito, esperando aquilo que deixei escapar, e sinto em meu rosto o azul de um céu empurrado pelo vento. Quero tocar aquele velho piano esquecido no canto escuro do teatro, o corpo tangido pelo espírito, e nu sair à rua, rodopiar de braços abertos em meio ao asfalto. O mundo secou, afinal, e cactos brotam dos olhos. Ainda é possível chorar... Assim ressuscitar a criança que corria descalça sobre a orla do mar, os bolsos cheios de areia. Compor a sinfonia do desejo do eterno. O feto embrulhado em seu próprio abraço. Na praça, o velho que grita, o Livro sob os braços. E há tantos fatos neste espaço! Há de se amarrar o bode à trave ali postada, as luzes cintilando em nossos medos. Vou correr, mas as pernas amputadas não se moveram e assim vejo fugir meus órgãos por entre os lábios: vísceras, veias, pulmões. Sou apenas este saco vazio pendurado sobre o cabide de ossos. Ainda assim, reconheço o cheiro do poema.


II - “Años de soledad”

Há tanto o som que ecoa escapa aos meus sentidos. Piazzolla toca em qualquer lugar distante, e faz-se sangue em minhas veias, por hora. Deixo seguir meus passos, meus pés adormecidos, e falanges cansam sobre as letras de um teclado. Que dizer? Há tanto mundo em meus ouvidos, tantos desejos, e tão pouco meu tempo: como Carmosina que suspira sobre as páginas dos seus livros, em espera e prece a Jorge que lhe devolva seu Amado. Ouço assim um saxofone que se anuncia baixinho, e cresce, como crescem as vontades ou a tela nas paredes da cidade no Cinema Paradiso. Saudade dos filmes proibidos que preenchiam minhas adolescentes madrugadas. Sinto-os como doce agonia acalentando minha memória. Caminhar é isto. No fim somos aquele personagem de Tarkovsky, em Nostalgia, que atravessa o leito seco da piscina com a chama de uma vela em suas mãos, afrontando o vento que insiste em nos fazer retornar ao princípio, os mesmos passos, o mesmo caminho, a mesma chama frágil em nossas mãos. Quando chegarmos, é porque terminou, e caímos. O que sobra? Somos, assim, sempre este milagre! Deus? Deus é um caso à parte! O mundo que nasce sob a sombra de uma Lua na alvorada de um tonitruante bandoneon. Talvez um tango, um tango a me levar tantas mágoas, mas danço apenas com as mãos. Meus pés engessados há muito silenciaram passos; amarrados, sabem que as maiores viagens independem deles. Assim, insisto no eterno epílogo, sempre uma vírgula e o desfiar de nova frase, o par de olhos sobre a nudez amante, uma promessa, uma saudade. Simples assim, como crer no credo que se desfia no mosteiro, como saber o texto um templo.

III – Pietá

N’“O Carteiro e o Poeta”, de Michael Radford, faz-se verso o som do vento nos rochedos, “as tristes redes do meu pai”. Em “Powaqqatsi”, Godfrey Reggio nos mostra a Pietá de carne e lama escalando a mina, a cabeça rachada pela pedra. A vida corre assim, entre bestas e amantes, como entender? A mão que planta a terra verga a planta, ceifa o caule, suga o sumo: há uma bandeira no alto do Himalaia, tremula onde ninguém vê, por agora; amanhã tremula um farrapo. Ouço, no entanto, os sinos na torre, os gritos da feira, os uivos dos cães. 10.02.1960 – 23.03.2008: está resumida uma vida, e o rosto na fotografia me sorri a sentença de que fujo. Gravo a eternidade em papel, em placas de bronze, em suportes digitais, e descanso para reler a fábula de La Fontaine: a cigarra, as formigas, e a promessa da fome no inverno; com que direito traumatizam crianças com La Fontaine? Hás de ser formiga, e assim não passas fome! Mentira, porque a função da formiga é dar de comer à rainha, e morrer! Mas esta noite não é cáustica não: retorno à velha poltrona que reinava no sótão do meu avô, às mãos o livro de Lobato e sua Emília. Como seria uma vida de sítio? – matutava. Trepar em árvores, banhos de rio, um Barnabé habitando as margens. O doce torpor de rememorar as noites de livros no sótão do meu avô, o adulto que não chegava em mim. Era o tempo em que ainda havia pés dispostos a correr, a chutar uma bola, a embrenhar-se nos matos da vizinhança. Hoje não há mais pés, tampouco há muita mão, desta resta muito pouco: uma sombra de dedos, uma palma sem alma. Suspiro! O medo de ser abandonado criança à porta da escola, no morrer da tarde: tic tac tic tac tuntum tuntum, e de repente a figura do pai que despontava na curva, o sorriso no rosto. Assim faz-se verso o tempo no sótão, o passeio entre os mortos, as lápides, os epitáfios. Faz-se verso o medo dos tantos trovões que preenchiam os verões e suas tempestades nas férias escolares. E isto que agora se faz verso, era então emoção e idílio. Mas cresceram-me os olhos, e por isso sei da Pietá de carne e lama, sei também de outras Pietás: as de carne e chama, as de fome e ossos, as de pedra vulgar. Sei das Pietás que se arrastam nas sarjetas e pedem esmolas, das Pietás que preenchem de buracos seus peitos tão parcos, e de tantas Pietás que o cinzel e o formão não cansam de compor. Mas no mosteiro persistem as rezas, e nos terreiros e nas capelas. Melhor assim. Ao fim estamos todos parindo um grande poema, um grande e único poema que dirá do vento nos rochedos, do eclipse lunar. É só o que nos resta.
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* Viegas Fernandes da Costa é historiador e escritor, autor de Sob a Luz do Farol (2005) e De Espantalhos e Pedras Também se Faz Um Poema (2008). Escreve no blog http://viegasdacosta.blogspot.com/ . Permitida a reprodução desde que citado o autor e o texto mantido na íntegra.
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terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Viagem ao universo africano (Adelto Gonçalves)

Para quem quer conhecer as literaturas africanas de expressão portuguesa Angola e Moçambique: experiência colonial e territórios literários, de Rita Chaves, é um caminho seguro.




Reunindo textos que abrangem um esforço iniciado ao final da década de 1980, quando o interesse no Brasil pelas culturas africanas ganhou maior intensidade, e chegam até o começo do novo século, o volume é, porém, o resultado de um trabalho de três décadas de paixão pela literatura africana de Língua Portuguesa, pois foi em 1978, sob a orientação de Vilma Arêas, na Universidade Federal Fluminense, que a autora descobriu o seu caminho para o continente africano. Desde então, não se limitou apenas àquelas viagens interiores que se costuma fazer através dos livros, mas percorreu in loco a África do Atlântico ao Índico, tendo sido professora visitante na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, entre os anos de 1998 e 2000.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Soneto (Ailton Maciel)
















Et le voyant pleurer, je m'écriai:
Jeunne, homme,
Porquoi venir si triste en ce joyeux séjour?
Dis-moi pour te calmer le nom dont on te nomme!
Il me dit doucement: Je m’appelle l’amour.
Maurice Rostand
Numa noite calma de algidez cortante,
de tétricas visagens a vagar,
passava assobiando um viandante
entre insetos noctívolos a voar!

De repente... parou por um instante
e, tácito, ficou a meditar:
“Pra onde irei em passo ofegante,
“Se não tenho um casebre onde pousar!?

“Pra onde irei? Todos me querem um dia,
“depois me deixam assim sem pousadia,
“à procura de um lar sempre a errar?”

...E saiu a correr o viajor.
O seu nome reluzente era amor,
meu coração, coitado, era o seu lar.

Fortaleza, 14/2/65
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quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Eu sou aquele que come as flores do aniversário (Túlio Monteiro)


Refratário aos mistérios e enigmas do encantado, em atração constante pelo mito, pela magia, pelo difuso, pela penumbra da inconsciência, possui a grande ciência do texto lírico, belo, inovador e ousado. Travestido de compadre do diabo, é, entretanto, um romeiro devoto, capaz de fazer promessas e vestir o balandrau do Pobrezinho de Assis.
Finge regar os caminhos de Satã para vencê-lo de tocaia e ganhar as graças de Deus.
(Juarez Leitão)


I
Sábado Cedo!
Como de costume, levanta-se esticando músculos e ossos já utilizados, amiúde, por mais oito décadas. Passara a noite nu, porque o nu nunca lhe fora mais que beleza, liberdade corpórea, utilização da carne em prol da satisfação mútua dos corpos que, um dia, acolheram o seu em alcovas muito ou nada corretas - o que definitivamente não lhe importava - já que sexo nunca nada lhe mais fora que o prata emanado das estrelas e luas do caleidoscópio estridente de gozos bramidos noites adentro, pois todo homem que não presta e se preza faz sua mulher perder a vergonha, gemer e voltar sempre aos seus braços e beijos. Pois como a Lua excita a mente dos loucos, desperta o ciúme e a paixão dos poetas, levanta o nomadismo dos ciganos e faz com que o assassino vislumbre de longe a sua vítima, assim as mulheres e os homens livres de dogmas puritanos conduzem seus pares à sublimação e ao clímax... a Eros e Tanatos.
Não se queixava mais da vida, apesar de já ter perdido todos os “bicos” que fazia nos jornais, andando agora doente, os nervos escangalhados, o coração dando arrancos, muitas vezes infligindo-lhe noites em insônias rebeldes que o levavam a pensar em crimes, suicídios e outras coisas absurdas, satânicas até.
Sim! A velhice havia-lhe chegado qual grades intransponíveis. Olhos mirados nos espelhos da escrita, enxergava-se agora espectro, um velho sem família, sem parentes ou amigos. Um trapo, um bicho indefeso atirado aos abutres amontoados em colinas pontiagudas e labirínticas que certamente ocultam dragões, herdeiros, talvez, daquele que habitou - e por lá ainda durma pesado sono - as profundezas do Alto dos Angicos, pedaço do Ceará que o Coronel-garanhão Antônio José Nunes, em século já ido, arrebatou das mãos dos Tremembés.
Trinca-se o espelho da imagem envelhecida. Que se fossem, malditamente, para o mais abissal dos Infernos de Dante as lembranças de tempos, felicidades, sofrimentos e corpos passados. Valia-lhe mais o ali e o presente.
Oito décadas e meia pelo setembro que se aproximava, já tantas vezes havia sentido a morte roçar-lhe sobre os ombros com seu carrilhão de plumas eriçadas como a cauda de um réptil venenoso, que no mundo nada mais o assustava. Preferia repetir Fernando Pessoa e “exigir de si mesmo o que sabe que não poderia fazer. Pois não é outro o caminho da beleza”. Ou Byron, “onde todas as coisas que nasceram, só nasceram para morrer. E a carne é uma erva que a morte ceifará”.

II
A manhã daquele sábado já deslizava para a tarde quando decidiu sair, deixando de lado o passado remoto que sempre teimava em aborrecer-lhe com coisas que só lhes serviam de entrave na vida. O dia estava quase pelo meio e flanar pelas ruas com ou sem saída da velha Gentilândia seria o remédio maior para o tédio que o invadia. Era o revelho dragão que mais uma vez deixava a Vila Cordeiro para serpentear os ares da cidade que escolhera para servi-lhe de caverna.
Vôos tranqüilos rumo ao centro da cidade, quase nunca repetia percursos, algo assim sem querer deixar pistas, rastros aéreos de seu Norte Verdadeiro: a Literatura! E como escrevia furiosamente bem aquele sábio dragão, riscando os céus da prosa e da poesia com a maestria pertinente apenas aos guardiães da literariedade de primeira linha.
Entretanto, no final daquela manhã de sábado, o monstro fabuloso resolveu parar seu bater de asas e mergulhar em direção ao chão. Seguiria andando, podendo, assim, ver e rever velhos conhecidos que lhe cumprimentavam quase em reverência sempre que seus pés e braços alados tocavam o solo infértil e relegado aos desprovidos de almas poéticas. Nessas horas, transmutava-se em humano, disfarçando-se para não dar na vista, nem ser perseguido pela legião de admiradores que arrebatara desde seus primeiros anos de escrita.
Entretanto, desistir de seu vôo e descer ao solo tornou-se erro fatal. Ao tentar mudar de calçada, não percebeu que em sua direção um outro dragão se aproximava impiedoso, alta velocidade, urrando em vôo rasante e nefasto.
Foi pego com a guarda baixa o maior dos dragões brasileiros.
A pancada sofrida por seu frágil disfarce humano lançou-lhe longe, o asfalto como campo de batalha recebendo gotas de seu sangue real. Sem lhe dar chances de defesa, seu algoz o atingira em cheio no tórax e cabeça, incapacitando-o de ruflar asas e voltar à sua toca, onde certamente curaria as feridas como tantas vezes já ocorrera em combates passados.
Estava ferido de morte, o monstro áleo de Santana do Acaraú.
Ainda transmudado em corpo de homem, foi levado a hospitais onde bravamente agonizou por mais quase um dia, sob os cuidados dos sinceros amigos que sabiam de sua secreta identidade. Outros de sua estirpe? De uma casta linhagem que atravessou os séculos misturando-se entre homens comuns para acalmá-los nas horas de mais angústia e ânsia por poesias e um pouco de paz? Nunca saberemos!
Foi sepultado, como era de seu desejo, em solos da Fazenda do Dragão, encravada nas terras de São Francisco do Estreito, onde, segundo narra certa lenda, ele nascera em forma de gente.
Naquela mesma tarde, dizem os que por lá estavam presentes, um vento Aracati insistentemente soprava aos ouvidos dos iniciados um poema há muito escrito pelo Dragão que se fora:

O menino jaz atropelado:
Nossa Senhora salve o menino!
Deixe que eu morra em seu lugar.
Deixe que eu morra por ti, menino.
Deixe que eu morra atropelado.
Nossa Senhora Salve o menino!... *


* Desastre às 13h e 30 min. In: As Tágides, (2001), de José Alcides Pinto.
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