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domingo, 24 de maio de 2009

Beata Maria de Araújo (Nilze Costa e Silva)




Na minha loucura, desesperava-me por Deus me ter feito nascer num corpo feminino.
(Cristine de Pisan – 1364/1430)
Maria de Araújo, a Beata dos Milagres de Juazeiro, se lhe fosse permitido viver tanto tempo, estaria hoje, neste 24 de maio, completanto 146 anos.

Encontra-se no prelo o meu romance A Mulher sem Túmulo, tendo como foco a beata Maria Magdalena do Espirito Santo de Araújo, que sofreu tanto quanto as vitimas da Inquisição, as penas de reclusão, espancamento, calúnia, tendo morte social decretada pela Igreja Católica, a ponto de não ter direito nem mesmo a um túmulo, simplesmente por ser pobre costureira, negra, nordestina e analfabeta.
Foi difícil reconstituir a vida de uma mulher que não tem batistério, não tem certidão de nascimento (na época Juazeiro não tinha cartório), histórico escolar, nem atestado de óbito. Também não tem restos mortais, pois no dia 22 de outubro de 1930 seu túmulo foi aberto clandestinamente por ordem do Bispo do Crato. Seu corpo, mandado sepultar por Padre Cícero em 1914 no interior da Capela do Socorro, tomou um sumiço até hoje ignorado.
As pessoas que se interessam na sua reabilitação têm apenas duas fontes fidedignas: os dois inquéritos, nos quais constam os depoimentos de Maria, padre Cícero, e testemunhas oculares dos fatos miraculosos e algumas poucas cartas em que o padre a menciona.
Dos tantos livros que li sobre a questão religiosa de Juazeiro, poucos são os autores e autoras que se referem à beata com mais humanidade, no sentido de mostrar seu sofrimento e sua dor diante do descrédito da alta cúpula do poder eclesiástico. Falam da questão religiosa de Juazeiro, ocorrida em torno de 1889, sem colocá-la como protagonista dos milagres que mudaram visceralmente a vida do povoado.
Fecho os olhos e viajo no tempo. Na segunda metade do século XIX (1863) nascia Maria de Araújo, época em que os homens ainda detinham todo o poder no planeta: governavam as nações, dominavam o conhecimento, escreviam a história do mundo e determinavam o modo de viver de metade da humanidade - as mulheres. Diante do perfil de Maira de Araújo envolvendo gênero, classe, raça e religiosidade e diante da rigorosa hierarquia clerical masculina da época, convido o leitor e leitora para avaliar junto comigo o estupendo isolamento da sua existência.
Maria de Araújo foi o que fizeram dela. Mandaram que ela praticasse votos de castidade e pobreza. Obedeceu. De pobreza nem precisava, pois nasceu pobre e morreu mais miserável ainda. Nunca fez ouvir sua vontade e sua vocação. Foi vítima do trabalho infantil, da submissão feminina, preconceito racial, descrédito, calúnias, autoritarismo, truculência, proibição de manifestar sua fé, tortura, clausura, banimento social, doença seguida morte precoce e sumiço dos seus restos mortais. Aos 27 anos calaram-lhe a boca e ela foi proibida de falar sobre o que tinha certeza.
“A Mulher sem Túmulo” é um romance que traz como principal missão, subverter e mudar a perspectiva da história oficial sobre a chamada questão religiosa de Juazeiro, introduzindo outros pontos de vista a partir de uma história real. Procurei compor o perfil psicológico de Maria de Araújo com a intenção de reafirmar que a jovem de Juazeiro, responsável pelos milagres da hóstia e tantos outros, não é uma ficção. Existiu como uma mulher do século XIX, teve infância, sofreu com os tabus da primeira menstruação, os desejos impostos pela explosão de hormônios na juventude (que na sua fé seriam as tentações do demônio). Sua única opção de vida foi ter aceitado realizar um casamento divino com Jesus Cristo, acordo feito com o Próprio. E as duas únicas ousadias foram dar comunhão aos padres que a interrogaram no primeiro inquérito, e afrontar os que a fizeram comungar à força, com o fito de desmascará-la. Disse-lhe, por ordem de Deus, que eles não estavam em estado de graça e, portanto, a hóstia não podia sangrar (estes fatos integram os dois inquéritos instaurados pela Igreja Católica, na época).
De resto, só viveu para amar a Deus e a humanidade, ajudar os pobres famintos e flagelados de duas das mais perversas secas do Nordeste, transformando toda a sua vida numa rotina de jejuns, orações, penitências e dedicação aos pobres. Uma vida de martírio. Portanto, segundo os próprios cânones da igreja Católica Apostólica Romana, uma vida de santa.
E por que não operar milagres, se era tão íntima de Jesus? Por que não acreditar nela, nessa grande alma feminina santificada pela fé do povo do Juazeiro?

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quinta-feira, 21 de maio de 2009

Assuntos (Pedro Du Bois)

(joaomak.net)


Referendado, assunto
a platéia


(pais e mães
em holocausto
pela palavra dita)


modificado, o cânone
irrompe em paradigma
além do acontecido


(o dia anterior encerra
a necessidade).


A desventura da virtude
no virtuosismo do avançar
constante ao desabrigo.

(Pedro Du Bois, inédito)

meus poemas:
http://pedrodubois.blogspot.com/
http://www.worldartfriends.com/modules/publisher/userstats.php
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quinta-feira, 14 de maio de 2009

Cinzas (Ailton Maciel)



Que é feito do viver daqueles tempos?
Onde estão da casinha os habitantes?
A primavera, que arrebata as asas...
Levou-lhes os passarinhos e os amantes!...
Castro Alves


Aparece, ó visão de minha vida!
Vem decantar comigo o amor luzente...
Não vês, menina, a chaga dolorida
Que fervilha em meu peito penitente?...

O vem, ó vem, eu, louco, desespero!
Vem sentir desta vida os seus sabores...
Vem, açucena, eu todo dia espero
Os momentos ditosos dos amores!

Não te lembras, então, dos belos dias,
Que passamos felizes, lado a lado,
Só sentindo prazeres e alegrias
Sob o tempo, feliz, enluarado?!

Ainda recordo a nossa feliz vida:
Eu beijava a sorrir os teus cabelos.
Hoje o meu ser é chaga dolorida,
Hoje os sonhos são frios pesadelos!

Quão ditosos nos foram os momentos
Quando em tempo atrás juntos passamos...
Hoje restam visões e mil tormentos
Dos tempos auros em que nos amamos!

Hoje só restam cinzas... devaneios...
Recordações fatais pras nossas vidas:
Tu tens o corpo de carícias cheio,
E eu de chagas e fatais feridas!

Fortaleza, 7/10/64.
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domingo, 10 de maio de 2009

Petrarca em Minas Gerais (Adelto Gonçalves)



I
O petrarquismo como fenômeno literário sempre esteve atrelado à existência de uma corte. Sua importação pela América portuguesa, no século XVIII, foi uma contradição à própria origem e razão da existência do fenômeno, pois nunca houve corte no Brasil até o começo de 1808, quando desembarcou no Rio de Janeiro a família real, em fuga das tropas napoleônicas que invadiram Portugal em novembro de 1807.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Açúcar (Sarah Forte*)













Chocolate. Barras de chocolate ao leite, com flocos de arroz. Brigadeiro. Leite condensado escorrendo. Bananas caramelizadas. Bombons. Trufas. Cerejas ao licor. Chocolate derretido. Churrasco. Carne gorda, mal passada, o sangue pingando. Mesmo que comer um boi todo. O grosso do sal. A coca cola estupidamente gelada com rum. Cerveja. Vinho. Tantas comidas para tão curta vida. O mundo oprime de tanta vontade de comer. Escorre pela boca o sangue do porco. Tão imponente o porco dourado com a derradeira maçã a distingui-lo dos suínos comuns. A maçã era o que menos interessava. Tenro, o porco oferecia-se, pleno. Enigmático, sussurrava casualmente: Decifra-me ou te devoro. Restava devorá-lo. Sem remorsos. Comê-lo como se fosse o último porco da terra. Depois, abandoná-lo. E comer arroz, feijão, grossas lingüiças vermelhas. A gema do ovo sobre o queijo derretido incitava loucuras. O macarrão encarnado e rico em cebolas atraia irresistivelmente. E os bolos. Os brigadeiros. Os infinitos salgadinhos sobre brancas bandejas. E o desmanchar-se das comidas por entre os dentes. A sutileza do peixe frito e suas espinhas. Lutaria com todas as forças para destrinchá-lo. Guerrearia com aquele robalo, até que um dos dois vencesse!
Em cada esquina, um pastel de frango, de queijo, de carne. Em cada rua, um pouco de caldo com pão de ontem. Na geladeira, muito doce, que é o que salva. Torta de leite condensado, coco ralado e chocolate. Durante o trabalho, bombons variados. Não importava a marca, deveria ser doce, extremamente doce. Então descobrira o incurável problema. Deveria usar expressa e eternamente aspartame.
Mas como é que pode... logo ele? Ele que vivia para os doces, e também para os salgados? Que passara dois quartos de século mais todos os dedos de uma mão a comer? A viver os alimentos intensamente, como que procurando o melhor sabor? Não... isso era um pesadelo. Ainda não achara o sabor dos sabores. A vida tem um cerne crocante, ele ainda não conquistara o que havia de mais delicioso.
E continuou a comer. Agora, escondido. Um marginal das comidas. As pessoas vigiavam-no. E os tempos áureos dos churrascos haviam acabado. Somente alimentos pálidos e sem gosto. Alimentos tristes. Chuchus antipáticos. Pepinos depressivos. Ele reclamava. Dizia que preferia a morte. Que sonhava com uma existência entre doces. As pessoas lembravam que no mundo há quem passe fome e que ele deveria dar graças a Deus. Deus? Que Deus é esse que nega ao seu filho o açúcar? Oh, como sofria aquele homem.
Então, numa chuvosa noite, ele saiu. Todos dormiam. Metodicamente, abriu a porta. Tomou as ruas. Livre, enfim livre. Num mercado 24 horas, comprou doces, o que de mais doce havia. Doces crocantes. Salgados de toda a espécie. Bebidas adocicadas. Sentou-se na calçada. E devorou tudo. Depois, saiu correndo no meio do temporal. Estava no ápice da felicidade. Tão feliz. E tonto. Terrivelmente tonto. Desmaiou no meio fio.
Pastosamente, acordou. Sentia-se como argila despedaçada, massa de pão sem fermento. Cometera um grande crime. O terrível pecado. Comera. Mas não estava arrependido. Faria tudo outra vez. E que não o vigiassem mais. A vida não pode ser insossa. A vida é doce. É caramelizada. É crocante. Por favor, parassem de chateá-lo! Arranjassem logo uma bandejinha de brigadeiros ou ao menos um saco de pipocas. Não tinha tempo a perder. Não tinha doces a perder. As pessoas, sempre as pessoas, olhavam-no incrédulas. Aquele homem queria morrer. Oh, sim, ele morreria por uma causa justa, por um ideal honrado. Se morresse, morreria sem fome. Satisfeito.
Certo dia, para a surpresa de poucos, não mais acordara. Para o velório, a esposa encomendou dois centos de docinhos e salgados sortidos. Quentinhos, fumegantes, no ponto em que gritam: Devore-nos, porém, antes, mergulhe-nos no molho.
Secretamente, todos sorriram, íntimos, irmãos, numa volúpia de sabores. O morto, reflexivo, concentrado, encontrara o cerne crocante da vida.
 

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* Sarah Forte possui Graduação em Letras (Português-Literatura) pela Universidade Federal do Ceará - UFC, com experiência em produção e revisão de textos diversos. Mestranda em Literatura Brasileira pela UFC, com o projeto: “Homens do sertão - Representações Culturais em "Buriti" - Noites do Sertão - de João Guimarães Rosa”.

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terça-feira, 5 de maio de 2009

domingo, 3 de maio de 2009

A parceria (Belvedere Bruno)

















De todos os lados, as opiniões convergiam: - "É o casal perfeito. Cúmplice e amoroso!", diziam. Por décadas, mantiveram-se em aparente estado de felicidade e realização.
Ela imaginava-se de cabelos brancos e bengala, ao lado daquele homem maravilhoso. Não tinha dúvida de que a relação seria a mesma, na alegria e na dor, até que a morte, a ceifadora, desfizesse aquela parceria. Temia tal momento e rogava aos céus para que ele fosse o primeiro a ser escolhido, pois tinha consciência da falta de estrutura emocional dele para absorver-lhe a partida. Ela, ao contrário, estaria preparada, devido aos anos de psicoterapia, sua religiosidade, seus amigos. Ele sempre fora um cético. Tinha pouquíssimos afetos, abominava religião e dizia não ser louco para entregar sua cabeça a psicoterapeutas. Ali residia o mérito daquela relação. Eram diferentes, mas se adaptaram para que vivessem pacificamente.
Eis que um dia, em plena avenida, ela tem um infarto agudo, e morre, sem ao menos ter tempo de ser socorrida. Ele manteve-se calmo e assim ficou até que o corpo fosse sepultado.
O padre, os amigos e vizinhos comentaram a força dele no momento, mas, depois de um mês, como ele continuasse aparentemente imune à dor da partida, pensaram na possibilidade de um "estado de choque", e chamaram um profissional para vê-lo, conversar com ele e saber o que realmente sentia.
- Livre das amarras! Por vinte e cinco anos, convivi com tudo o que não gostava: terços, bíblias, terapeutas, livros de Freud, Jung, teorias aos montes, que me enchiam a paciência, sempre tentando explicar o inexplicável. Tudo o que eu desejava era aproveitar a vida, longe dos amigos medíocres que ela trazia aqui pra casa. O que posso sentir agora, a não ser uma sensação de leveza e felicidade?-
E tirou a cor azul da fachada da casa, colocando um tom terra; pintou de vermelho o quarto que fora do casal, para que a cor quente reacendesse as paixões. Aquele tom gelo, segundo ele, sempre fora um banho de água fria na vida sexual deles.
Da antiga decoração da casa, nada restara. Não tinha afinidade com nenhum dos objetos, mobiliário, biblioteca. Sobre a nova mesinha de cabeceira, o Kama-Sutra.
Todas as manhãs, cantarolando, regava seu canteiro, antes ocupado por plantinhas de temperos que ela utilizava nas refeições do dia-a-dia. Ali, agora, havia as mais lindas flores, com diversos matizes, parecendo acompanhar o estado de alma daquele homem que, a partir de sua liberdade, se tornara cada dia mais feliz...
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sexta-feira, 1 de maio de 2009

Rosas vermelhas (Valéria Nogueira Eik)
















A rosa vermelha e o sorriso cativante foram entregues ao final do dia.
Amélia, olhos baixos, fez um muxoxo de menina e tentou alongar a mágoa.
Encarou o riso inocente e esqueceu as palavras rudes da noite anterior.
A rosa era tão linda!

Duas rosas vermelhas foram entregues no início da noite por um sorriso suplicante.
Amélia exibia um pequeno corte na boca. Derramou soluços incontidos e mais algumas lágrimas.
Olhou as rosas. Sorriu tristemente. Desculpou a ressaca matinal.

Três rosas vermelhas foram entregues, quando duas ou três estrelas salpicavam o pedaço de céu que se condensava diante da janela.
Amélia, deitada na cama, invadida por todas as dores, relutava em perdoar.
O sorriso dele, quase paternal, delineava motivos e a absolvição das culpas.

Quatro rosas vermelhas foram entregues quando a madrugada cobria a cidade.
Amélia, amontoada no chão, ainda recolhia os cacos do próprio corpo.
O riso infantil implorava por perdão e afagos.

Cinco rosas vermelhas foram entregues, quatro ou cinco dias depois, por um par de olhos desesperados.
Amélia, de malas prontas, queria ir, queria ficar.
As marcas arroxeadas e a pele costurada começavam a ganhar tons suaves.
E suaves ficaram as dúvidas.

Seis rosas vermelhas foram entregues por um sorriso impessoal.
Amélia, agasalhada por outras tantas flores e pelo brilho das velas, não pôde ver nem perdoar.
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