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sexta-feira, 17 de julho de 2009

Sá Bia do Sabiá (Eduardo Lara Resende)



Silêncios, ausências e duas bonequinhas de pano – eis o que foi dado a Beatriz receber quando veio ao mundo. As águas de uma enchente levaram logo as bonequinhas, enquanto silêncios e ausências cresceram com ela. E respostas eram raras como o pão. Beatriz virou Bia. Amava como intuía um amor que se entrega. Cultivou promessas, colheu desencantos. Insistiu nos sonhos, mas viu águas de outra enchente levarem o barraco e, dentro dele, Romeu, vulgo Sabiá. Bia então ganhou a rua. Foi morar sob o viaduto, na beira do rio. Uma confraria de iguais amenizou-lhe as dores de ausências e silêncios. Bia até sorriu quando virou Sá Bia do Sabiá. Numa tarde de inverno – e quase feliz – Sá Bia foi surpreendida pelo carro em sua direção. Atirada no rio e levada pela imundície, a mulher se debatia. De novo seus silêncios ganharam força e, com eles, a dor de uma espécie de saudade. Agarrada à tora de madeira plantada no leito do rio, Sá Bia resistiu até sentir faltarem-lhe as forças. Foi quando um soldado passou em sua cintura uma corda, puxada por seis lanternas que brilhavam na noite. Luzes que não existiam mais quando Sá Bia acordou, na enfermaria de um hospital. Dos pares de olhos à sua volta, um quase não se via, encoberto por farto buquê de rosas coloridas. A dona de olhos úmidos de tristeza colocou as flores sobre o peito de Sá Bia. Era a mulher do soldado que a havia salvo das águas do rio. E que, numa fatalidade, desaparecera arrastado pela correnteza. Os velhos silêncios de Beatriz então viraram lágrimas. Silêncios menores salpicaram pares de olhos suplicantes pelo ato seguinte. Repleta de dores, Beatriz pediu desculpas.
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terça-feira, 7 de julho de 2009

A canção da Ibero-América (Adelto Gonçalves)



Dois anos depois de o poeta cearense Floriano Martins ter lançado Un Nuevo Continente: Antología del Surrealismo en la poesia de nuestra América (San José, Costa Rica, Ediciones Andrómeda, 2004), sai à luz outra antologia de produções de poetas ibero-americanos, desta vez sob a organização de Gustavo Pavel Égüez, com tradução de Anderson Braga Horta, Fernando Mendes Viana e José Jeronymo Rivera, todos membros da Academia de Letras do Brasil, de Brasília.
Trata-se da Antologia Poética Ibero-americana, lançada em Cuiabá, Mato Grosso, em edição limitada, com venda proibida, pela Asociación de Agregados Culturales Iberoamericanos (Associação de Adidos Culturais Ibero-Americanos), com o apoio do Ministério da Cultura do Brasil, da Organización de Estados Iberoamericanos (OEI), Organización del Tratado de Cooperación Amazônica (OTCA) e da Consejería de Educación de la Embajada de España.
Ao contrário da obra preparada por Floriano Martins, que teve por objetivo reunir as principais vozes do Surrealismo na América Latina, a nova Antologia Poética Ibero-americana não se limitou a extrair as melhores produções de poetas ligados a um determinado movimento, mas a traçar um panorama do que de melhor a poesia produziu nos países ligados à velha Península Ibérica, dentro do espírito que norteia a Asociación de Agregados Culturales Iberoamericanos de dar a conhecer as culturas oriundas do idioma de Miguel de Cervantes. Para tanto, cada embaixada ibero-americana acreditada em Brasília se encarregou de selecionar três poemas e três autores representativos de cada país.
O projeto só se tornou possível com o apoio do Governo do Estado de Mato Grosso, que elegeu a obra como edição comemorativa da segunda Feira do Livro Literamérica 2006, realizada em Cuiabá. Por isso mesmo, essa é uma edição bilíngüe que pretende servir de instrumento de integração para o conhecimento e divulgação dos idiomas castelhano e português, como diz na apresentação Pedro Alfonso Almario Rojas, presidente da Asociación de Agregados Culturales Iberoamericanos.
Da Argentina, que por uma questão de ordem alfabética abre a antologia, por exemplo, estão três dois maiores escritores do Rio da Prata: Jorge Luís Borges, Julio Cortazar e Alfonsina Storni. Já o Brasil está representado por Cruz e Sousa, Alphonsus de Guimaraens e Augustos dos Anjos. Em nome de Portugal, aparecem Sophia de Mello Breyner Andresen, Eugénio de Andrade e Al Berto, enquanto Rafael Alberti, Francisco de Quevedo e Antonio Machado representam a poesia de Espanha.
Também estão representados Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Equador, El Salvador, Guatemala, Haiti, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Uruguai e Venezuela. E, por fim, há uma homenagem à poesia produzida no Estado de Mato Grosso, com poemas de Francisco de Aquino Corrêa, José de Mesquita e Silva Freire.
De assinalar é a qualidade dos tradutores. Anderson Braga Horta (1934), poeta nascido em Carangola, Minas Gerais, encarregou-se dos poemas de El Salvador, Haiti, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Uruguai e Venezuela. José Jeronymo Rivera (1933), nascido no Rio de Janeiro, ficou com os poemas da Argentina, Bolívia, Chile, Equador (exceto o de Jorge Enrique Adoum, traduzido por Fernando Mendes Viana) e Paraguai. E Fernando Mendes Viana (1933), nascido no Rio de Janeiro, ficou responsável pelos poemas da Colômbia, Costa Rica, Cuba, Espanha, Guatemala, Peru e República Dominicana. Esse foi um de seus últimos trabalhos, já que faleceu a 10 de setembro de 2006.
Como cada embaixada apontou seus eleitos e encarregou-se das notas biobibliográficas, não houve um critério de época ou de filiação poética. Assim, a antologia reúne autores do século 19 e contemporâneos. Ou ainda do século 17, no caso do espanhol Francisco de Quevedo. Não se sabe por que critério, há também poetas do Haiti, embora este país não esteja ligado à zona de influência ibérica: Rodney Saint-Éloi, Emmelie Prophète e Georges Castera, que escrevem em francês e em crioulo.
Na impossibilidade de reproduzir aqui alguns dos poemas, vamo-nos contentar com “A bala”, de um poeta nicaragüense, não o famoso Rubén Darío (1867-1916), mas Salomón de la Selva (1893-1958) na tradução de Anderson Braga Horta:
A bala que me fira
será bala com alma.
A alma dessa bala
será como seria
a canção de uma rosa
se cantassem as flores
ou o olor de um topázio
se cheirassem as pedras
ou a pele de uma música
se nos fosse possível
as cantigas tocar
desnudas com as mãos.
Se o cérebro me fere
me dirá: Eu buscava
sondar teu pensamento.
E se me fere o peito
me dirá: Eu queria
dizer-te que te quero!

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ANTOLOGIA POÉTICA IBERO-AMERICANA, de Gustavo Pavel Égüez (org.); tradução de Anderson Braga Horta, Fernando Mendes Viana e José Jerônimo Rivera. Cuiabá-Mato Grosso: Asociación de Agregados Culturales Iberoamericanos, 2006, 278 págs.
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br
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quinta-feira, 2 de julho de 2009

Espera (Clauder Arcanjo)




Assim que o tempo clarear,
entrarei nas águas das lembranças.
Visitarei os remansos da mente,
desenterrarei incautos fantasmas,
e porei tudo sobre a mesa da sala.
Depois de um café fresquinho,
um catar de reminiscências fundas:
bisonhos pecados infantis;
namoradas, musas impossíveis,
endeusadas e inatingíveis.
Com os anos, tão sensaboronas.
Isso sem me esquecer:
dos remansos do Acaraú,
do pavor dos becos escuros,
dos quebrantos das ciganas,
e do mau-olhado dos invejosos.
— Cruz-credo! Cruz-credo!...
Assim que tudo clarear.
No entanto, caso permaneça o mau tempo,
fundearei nas correntezas do esquecimento,
e o passado submergirá, por enquanto,
dentro de mim. Bem junto a mim.

Macaé-RJ, 11/06/2009
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