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segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Femínea fronteira (Calista Serpe)



ÊXTASE ÁUREO


Espero-te: que a minha fonte aguarda. O meu segredo

oculto numa concha. Há nela o mar:

mais áureo mar. Em mim todo o oceano

contido. Pode ali caber inteiro?

Guardado. Numa concha úmida e rósea

que em si fabula o ouro. E freme. E pura

emerge: áurea torrente. E o corpo treme:

eis meu dourado avesso a saciar

a sede que se abriga no teu peito.
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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Ledapoesia (Clauder Arcanjo)

Para Leda Maciel (in memoriam)




Ao nascer, um choro em decassílabo. “Bela como um cisne!” — pensou a mãe; sempre afeita às coisas da arte. Dito isto, de forma natural, brotou o nome sobre os lençóis do parto: Leda.

Com o tempo, o engatinhar e a melopéia infante. “— Lê, Lê, Lê...”. Nas primeiras letras, a descoberta: Lê, do verbo ler. Por entre as páginas dos livros, o chamego dos poemas clássicos, a paixão pela poesia. E, um certo dia, o amor de Lê se fez carne, recitando uma saudação em rimas toantes. O céu banhou-se de mais azul, e uma revoada de pássaros saudou a primavera nos lábios da pequena. Veio a juventude e, com ela, o primeiro soneto. A gaiola dos quatorze versos não era prisão para tanto canto. Seguiram-se os haicais, as quadras, os tercetos, os cordéis, além de um cordão gracioso de versos livres.

A cidade se acostumou com o ritmo, o engenho e o gracejo rimático de Leda.

“— O melhor remédio para a alma”; professoravam todos.

Mas, um dia, Leda viu-se enferma, a doença a minar-lhe as forças, a calar-lhe a voz. A medicina nada poderia fazer, os homens de branco deixaram bem claro. A ciência fazia-se letra morta. No entanto, os poetas da província resolveram prescrever uma injeção de poesia diariamente, direto na veia dos ouvidos de Leda. Desde então, passaram a varar dias e noites junto ao seu leito. E Leda resistia, até que... dormiram, exaustos. Ao acordarem só deram tempo de ver Leda subindo aos céus, a recitar um lindo poema para Cristo.

— Entra, poetisa, a casa é tua. — saudou o Senhor.

E uma legião de anjos e arcanjos anunciou, em versos, a chegada de um novo querubim: a divina Ledapoesia.


clauder@pedagogiadagestao.com.br
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terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Os sinos da depressão (Ronaldo Monte)



Todo ano é a mesma coisa. Começa dezembro, os sinos bimbalham e eu me deprimo. É automático, inevitável. Vocês sabem muito bem de que sinos estou falando. Não é o sino da torre da velha igreja que todos trazemos da infância. Nem os carrilhões das grandes catedrais que conhecemos de passagem ou pelos filmes. Os sinos que me deprimem bimbalham nas musiquinhas cabulosas que tocam nas lojas, nos carros de propaganda e nos anúncios de televisão. Eles querem reproduzir em nossa memória uma lembrança que não temos. Querem nos lembrar os guizos de um trenó que desliza sobre a neve puxado por renas carregando um bom velhinho com um saco enorme cheio de presentes. E talvez seja isto o que me deprime.

Vejam que não estou falando de nostalgia, pois esta sempre nos lembra alguma coisa que perdemos e não podemos mais recuperar. Os sinos que bimbalham em dezembro não me lembram nada que alguma vez tenha perdido. Eu nunca vi um trenó, não conheço uma rena e não me lembro de nenhum velhinho gordo e simpático que me tenha dado um presente.

O que perdi, e disto sinto falta, foram os dias de correria que antecediam a noite de festa, no natal e no ano novo. O que perdi foi as mãos fortes do meu pai abrindo a massa do pastel com uma garrafa cheia d’água. Perdi também o cheiro dos pastéis assando no forno e depois se derretendo na boca, misturando o doce do açúcar com o gosto salgado da azeitona. Perdi também o presente achado debaixo da cama na manhã seguinte. Perdi o pai, a mãe as tias e uma parte dos irmãos que construíam comigo essas festas. Isto me faz nostálgico. Mas não me deprime.

É por isso que faço tudo para me recolher em casa assim que começa dezembro. Não quero ouvir o bimbalhar dos sinos. Não quero fazer parte da correria insana que leva as pessoas de um canto para outro em busca de uma coisa que não vão encontrar. Nem dentro delas mesmas. Pois esta coisa chata que as simones e os robertos cantam, que até o pobre do John Lennon é obrigado a cantar, não existe em canto nenhum de nossa memória. Elas existem fora de nós, fabricadas por uma indústria de ilusões e bugigangas. Não me perguntem, pois, por quem os sinos bimbalham. Uma coisa eu garanto: não é por mim.
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sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

As galhofas de José Alcides Pinto (Nilto Maciel)



 
(José Alcides e eu)

Estive poucas vezes com Alcides Pinto. Antes de 1977, quando morava em Fortaleza, só o conhecia dos livros. E de ouvir falar. Não me aproximava dele, por retraimento. Talvez nem me ouvisse. Talvez nem me cumprimentasse. Ora, eu o sabia poeta muito conhecido, desde Concreto: estrutura visual-gráfica (1965) e Cantos de Lúcifer (1966), sem contar as antologias de que participara no início dos anos 1950. Além de poeta de renome, romancista, contista e autor da peça Equinócio (1973). E eu? Apenas um estudante, apenas um sonhador, apenas um quase-escritor. Mas um estudante, um leitor não podia se aproximar de um escritor, pelo menos para lhe pedir autógrafo? Podia e pode. Mas cadê coragem para tanto? Como eu me enganava! Alcides sempre se mostrou muito acessível. Nunca pareceu arrogante. Dava-se bem com jovens e velhos. Com “marginais” e “acadêmicos”.


terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Machado de Assis, segundo Jean-Michel Massa (Adelto Gonçalves*)


A dois anos do centenário de sua morte, nunca Machado de Assis (1839-1908) teve a sua obra tão estudada como agora. Uma das melhores coletâneas de estudos sobre a obra machadiana acaba de sair em volume duplo de 511 páginas referente aos nºs. 6-7 da Teresa — Revista de Literatura Brasileira, publicada pelo Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), em co-edição com a Editora 34 e a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.

Coordenado pelo professor Hélio Seixas de Guimarães, autor de Os leitores de Machado de Assis: o romance machadiano e o público de literatura no século 19 (São Paulo, Nankin/Edusp, 2004), este número especial de Teresa traz não só ensaios de estudiosos da própria USP como de universidades de fora, como Abel Barros Baptista, professor de Literatura Brasileira da Universidade Nova de Lisboa e autor de dois livros dedicados à obra machadiana, Paulo Dixon, da Pardue University, nos Estados Unidos, e Pablo Rocca, da Universidad de la República, no Uruguai, entre outros.

Na primeira parte, 13 ensaios discutem os contos de Machado de Assis, desde os mais conhecidos, como “O caso da vara” (1899) e “Missa do Galo” (1889) aos menos citados. Um dos melhores ensaios, sem dúvida, é de autoria do próprio coordenador, “Pobres-diabos num beco”, que trata da representação do artista e dos seus conflitos, concentrando-se na análise de “O machete” (1878), “Cantiga de esponsais” (1883) e “Habilidoso” (1885).

A partir desses contos e, especialmente, de “Habilidoso”, Seixas de Guimarães observa que muitas das questões introduzidas no romance machadiano a partir de Memórias póstumas de Brás Cubas (1881) já faziam parte do universo daquelas histórias. “São questões relativas à dificuldade de relação com o público não apenas por causa do gosto anacrônico deste, mas também pela sua exigüidade e pelas condições precárias da comunicação do escritor com esse público”, observa o ensaísta.

Como diz o ensaísta em Os leitores de Machado de Assis, o romancista, na segunda metade do século XIX, sabia muito bem que escrevia para bem pouca gente, se levarmos em conta que, ao redor de 1900, os alfabetizados correspondiam a apenas 18% da população brasileira, dos quais apenas 2% eram capazes de comprar e ler livros. Como artista, vivia, portanto, num beco sem saída, talvez às voltas com a inutilidade de seu ofício, pois não existe nada pior para um escritor do que não ser lido. Tal qual o personagem principal de “Habilidoso”.

Outro grande ensaio deste livro é “Que reino é esse?”, de Eugênio Vinci de Moraes, doutorando em Literatura Brasileira na USP, que aponta para os ainda escassos trabalhos sobre as fontes italianas na obra de Machado de Assis. O autor procura reparar um pouco essa escassez com uma análise do conto “As academias de Sião”, cuja fonte é O príncipe, de Maquiavel, embora não referido explicitamente pelo contista. Para Moraes, a história, a exemplo de outros contos machadianos como “A igreja do Diabo”, de Histórias sem Data (1884) e “Um apólogo”, também conhecido como “A agulha e a linha”, de Várias Histórias (1896), pode ser lida como uma fábula, neste caso a respeito da natureza do poder e da luta para alcançá-lo.

Sem menosprezar, porém, os ensaios e resenhas que traz a revista — todos de qualidade superior —, o melhor mesmo da edição é a entrevista que o professor francês Jean-Michel Massa concedeu a Maria Claudete de Souza Oliveira no dia 13 de janeiro de 2006, em Paris, a partir de perguntas formuladas pelo professor Gilberto Pinheiro Passos. Massa, professor da Faculdade de Letras de Rennes, na França, é um dos principais pesquisadores da vida e da obra do escritor brasileiro e autor de Dispersos de Machado de Assis e de A juventude de Machado de Assis 1839-1870: ensaio de biografia intelectual.

Este ensaio, que constitui a tese de doutoramento de Massa defendida em 1968 na França, foi publicado em 1971 pela Editora Civilização Brasileira, do Rio de Janeiro, mas nunca mais ganhou nova edição. É uma raridade só encontrada em grandes bibliotecas e constitui leitura obrigatória para a compreensão dos anos de formação de Machado de Assis. Tal é a procura por este livro em cursos de Letras das faculdades brasileiras que não há explicação para o fato de que nenhuma editora tenha tido, até agora, a perspicácia de reeditá-lo.

Na entrevista, o professor lamenta que Machado de Assis, o maior escritor brasileiro, não tenha uma edição de sua obra completa até hoje. A melhor edição é a da editora Jackson dos anos 30, mas não reúne tudo do autor. A de Afrânio Coutinho, publicada pela editora Aguilar, diz Massa, tem centenas de erros e limita-se a três volumes, quando a edição completa deveria reunir de sete a oito.

Depois de provar que Machado de Assis não pertencia a um meio tão humilde como sempre pretendeu a crítica brasileira nem tampouco era gago ou epilético quando jovem, Massa descobriu, em Portugal, que sua mulher Carolina pertencia a uma família burguesa do Porto e foi namorada e cortejada por três poetas portuenses — Augusto Morais, Nogueira Lima e J. Cândido Furtado, que lhe dedicaram versos —, antes de mudar-se para o Rio de Janeiro. Era irmã de Faustino Xavier de Novais, igualmente poeta, muito amigo de Machado de Assis, por intermédio de quem o escritor a conheceu.

Machado de Assis era filho de uma açoriana, que morreu quando ele tinha dez anos de idade, e de um pintor de paredes, que sabia ler e assinava o Almanaque Laemmert, mas vivia na casa de uma família rica, de fazendeiros cujas terras iam do Morro do Livramento até bem depois da atual Avenida Presidente Vargas, no Rio de Janeiro. Teve a proteção da proprietária, sua “madrinha”, que, provavelmente, financiou seus estudos, pois, com menos de 20 anos, escreveu um poema em francês, republicado por Massa em Dispersos de Machado de Assis (Rio de Janeiro, Ministério da Educação/Instituto Nacional do Livro, 1965).

Recentemente, saíram pela Editora Crisálida, de Belo Horizonte, dois livros de Massa. O primeiro, Três traduções por Machado de Assis, reúne textos inéditos de três peças francesas do teatro realista que nunca foram apresentadas no Brasil. O segundo, Machado de Assis tradutor, é um ensaio em que o professor retoma estudos nunca traduzidos no Brasil e produzidos há mais de dez anos. Segundo ele, Machado de Assis fez cerca de 50 traduções, das quais 15 estavam perdidas.

Massa contesta também um crítico brasileiro, Eugênio Gomes, segundo o qual Machado de Assis conhecia o idioma inglês ainda muito jovem. Para ele, essa afirmação precisa ser examinada. Machado de Assis conhecia bem o francês, como seria natural num intelectual do século XIX. Segundo Massa, o crítico, para afirmar isso, baseou-se numa tradução que o romancista fez de Oliver Twist, de Dickens, em 1870. Mas o professor francês provou que o tradutor utilizou totalmente uma das quatro traduções em francês de Oliver Twist que àquela altura estavam disponíveis no mercado. Como se vê, a entrevista de Jean-Michel Massa é imperdível para quem admira a obra de Machado de Assis.

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TERESA, REVISTA DE LITERATURA BRASILEIRA. São Paulo: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo/Editora 34/Imprensa Oficial do Estado de S.Paulo, nºs. 6-7, 2006, 511 págs. E-mail: teresalb@usp.br

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* Doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br
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