Pesquisar este blog

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Carlos Vazconcelos: Próximo dos modelos (Nilto Maciel)



O début de Carlos Roberto Vazconcelos no universo dos livros se deu com Mundo dos vivos (Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2008), reunião de 32 peças curtas de ficção. O título é vulgar, o que não quer dizer quase nada, pois muitos títulos pomposos, esdrúxulos e mesmo poéticos escondem apenas lixo, rebotalho. Vulgar porque está até nos ditados: “o mundo é dos vivos”. Entretanto, como explica o autor em nota, “o mundo dos vivos é um assombro”. Seja como for, seria preferível o título de uma das narrativas, como “A inescrutável face da morte” e “Sem vento, à deriva”. Mas gosto não se discute, como diz outro ditado.

A divisão da coleção em quatro blocos de oito composições cada também não tem muito significado. Talvez o tenha para explicar o título geral. Esse método, se assim se pode dizer, vem grassando há algum tempo no Ceará. Ora, uma peça curta, como conto e poema, será sempre uma peça curta, mesmo que momentaneamente inserida num volume junto a outras. Quando se fala de “Cantiga de esponsais”, pouco importa se foi publicada nesta ou naquela coleção de Machado de Assis, embora só pudesse estar em Histórias sem data, porque assim o quis o autor. Mas isso não significa nada para o leitor (é de interesse do pesquisador, do estudioso, do historiador, etc). E as epígrafes? Para alguns críticos, servem para demonstrar erudição. São como roupas elegantes num corpo mirrado, feio. Meros adereços, arranjos florais à janela. Quem passa pela rua se deslumbra. O interior da casa poderá até estar mais sujo do que a sarjeta. Porém, muitos escritores eruditos utilizaram epígrafes. E isto também anda muito em voga no Ceará. Alguns preferem os autores mais conhecidos; outros se valem dos menos célebres. Carlos Vazconcelos quis Gorki, Lêdo Ivo, Borges, ítalo Calvino (duas vezes) e Vinícius. Todos muito íntimos dos leitores mais vorazes. Dois brasileiros, para não parecer tão estrangeirado.

A maioria das narrativas de Mundo dos vivos tem como cenário a urbe. Em “Sem vento, à deriva”, observam-se referências a localidades de Fortaleza: o Castelão e a Igreja de Fátima (“É lá que se enlaça a classe média”). Em “Epílogo” há alusão ao bairro Piedade. O narrador se refere a um hábito de subúrbio ainda em uso: o de colocarem as cadeiras na calçada, à noite. Em “O porteiro da noite” a cena principal se dá num ambiente de trabalho, em plena urbe, com a informação a respeito do elevador. São poucos os contos em que se vê o espaço rural ou do interior, do sertão. Um deles é “Em nome do Pai... e do Coronel”. Os personagens são figuras típicas de um tempo perdido: o negro Adaías e o matador Filomeno Raposo, ambos a serviço do coronel Timbó. Como se sabe, o título de coronel (da Guarda Nacional) passou a fazendeiros e mandões, no Nordeste. Alguns vocábulos usados na composição remetem o leitor ao espaço rural: vereda, cacundas, presepadas, matraca, embiocou, peste (homem sem préstimo). Vocábulos em desuso aparecem noutras peças: como “capiongo” (p. 43), cascaviar (p. 65), gaitadas (p. 66). Em “Um passo atrás”, a linguagem também é própria do sertão: “nesga de roça”, “meia légua de roçado”, “jirau de pedra”. Nela o narrador abandona a vida rural e vira citadino e escritor: “meu ofício de escritor”.

Algumas composições não contam uma história, como se não houvesse episódios ou episódio. Além disso, são personagens sem nome explícito. Em “Perdas e danos”, um marginal, um matador, um miserável narra sua epopéia como para justificar os seus crimes: “Surpreendia minha mãe chorando e não sabia se era de fome ou de medo”; (...) “louco para chegar ao barraco que me abriga” (...). Como se estivesse sendo interrogado, conta seus crimes de morte: “A primeira vez? Eu ainda era um frangote.” Em outra peça, homem mata mulher grávida, por ser ele estéril (“Um filho”). O jovem narrador de “Missiva segunda” se confessa (porque a carta é endereçada a ele mesmo): “Dileto amigo,” (...) “cansei de escrever a mim mesmo”, e se explica: “por isso quis morar sozinho”. O mesmo personagem está em “Missiva” e se mostra um leitor interessante: decorou a letra A do dicionário. Além disso, informa (em tom de queixa) não ter lido o Dom Quixote. Também se refere a Os Lusíadas. Em “Paisagens rarefeitas” são apresentados traços biográficos de um personagem. Ou informações históricas (“Foi por essa época que conheceu Giordano, italiano por acaso e socialista de nascença”), sem que haja uma história.

Em “Presença”, o narrador mora sozinho e convive com uma estátua na sala, até decidir atirá-la “no olho da rua”. Em “O avô de meu filho”, encontro do filho (narrador) com o pai e o neto deste. Obra terna, quase história infantil. Esse tema do pai e do filho (escritor) que se reencontram está também em “Um passo atrás”. Alguns narradores se escondem do leitor, outros se mostram logo e por inteiro. No caso de “Três pecados”, Eduardo não se mostra todo, apesar de alguns indícios no começo da narração: “A Igreja ocupava-lhe a mente”, “atravessaria feito um raio o pátio do convento”, “colheu da gaveta um esquecido exemplar do Imitação de Cristo”. Só se sabe ser padre lá pelo meio da narração: “Seus pais o introduziram na vida eclesiástica”, “oito anos de sacerdócio”.

A maioria dos contos se apresenta como narração, seja por personagem, seja por narrador onisciente, com raros diálogos. Em “Uma amante para um defunto” e “Missiva” veem-se breves falas. Onde mais aparece a conversação é em “Diálogo”, exatamente na obra mais sem atrativos do livro. Em algumas narrativas, porém, o que sobressai mesmo é a divagação, como em “Conversão”. Ou em “Dois iguaizinhos” (hipóteses sobre o irmão morto ao nascer): o narrador Tobias e o morto de mesmo nome. Dois Tobias. Há também o monólogo (monólogo com o outro), como em “Nocaute técnico”. Como não deixa de ser monólogo a história do homem que escrevia cartas para si mesmo (“Missiva”). Alguns contos não passam de instantâneos (“Eu. Ele”). Um ou outro se assemelha a crônica: “Epopeia” e “Sobreviventes”. Outros são mais anedóticos (“Os primos”) ou críticos e satíricos (“Os primos”, “Sexagenária” e “O veterano da estrada”). O sarcasmo de vê em “Frango abatido”, que também se assemelha a crônica: “Havia pretensos galos virando a casaca e pintinhos virando frangas antes do tempo”. O contista também gosta de brincar com as palavras: “O frango assado corria na frente, em frangalhos”(...) O mesmo se pode dizer de “Otílio da Guta”. Ou seria conto de costumes? Vê-se também a alegoria, como o próprio título indica, em “A história de Barata sob véu de alegoria”, a única composição localizada em tempo histórico passado. Há ainda o conto com rimas, muitas rimas, como se fosse um poema ou uma obra em versos (“O par da dança”).

Carlos não demonstra preferência por este ou aquele ponto de vista, pois tanto se vale da primeira como da terceira pessoa. Há uma narrativa de estrutura singular, em relação aos demais: “A inescrutável face da morte”. O narrador-testemunha só se manifesta no final da obra. Quase toda a história (entre aspas) vem na primeira pessoa (do protagonista). Concluída esta narração, o outro narrador se manifesta no desenlace: “E disse ainda:” (...) O personagem profere a última frase (entre aspas) e o narrador arremata: “E expirou. Eu nada pude dizer.” Semelhante a este é “Nocaute técnico”, iniciado por uma narração, seguido de uma fala (sem aspas e sem verbo de elocução), outra breve narração, outra fala e se encerra com uma narração. Na fala, um personagem se explica: “Era uma espécie de monólogo com o outro”.

Os contos de Mundo dos vivos não seguem um modelo e são de variados tipos quanto ao assunto, como o kafkiano “Tugúrio”. Em “Epílogo,” narra-se o último dia de um homem. A morte por encomenda está no emblemático “Em nome do Pai... e do Coronel”. A solidão pontifica em “Sem vento, à deriva”. O relacionamento amoroso aparece em “O encontro marcado”, em singela homenagem a Fernando Sabino. E assim Carlos Vazconcelos erigiu sua primeira casa ou seu primeiro mundo, sem se afastar dos modelos, mas sem se prender demais aos ensinamentos dos mestres.

Fortaleza, fevereiro de 2010.
/////