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sexta-feira, 2 de abril de 2010

Ao poeta (Pedro Du Bois)

















Talvez ao poeta baste o ritmo das palavras

em desafios murmurantes e os gritos explosivos;

o desafio do andor carregado e a luz introduzida

sob o manto; ser o ocorrido e a versão descontrolada

do início: indícios não bastam ao poeta

que continua e termina e recomeça.


Talvez ao poeta baste a incompreensão

dos ares satisfeitos dos bonecos alçados

à condição de estetas; profetas

em voz alta ensaiam temas preferidos

aos tontos espíritos desnecessários.


Talvez baste ao poeta a sensação de antes

de a matéria ser solidificada e flutue em asas

descobertas aos ventos de solidário espaço.


Talvez ao poeta baste o atentar sereno

das noites antagônicas e os dizeres gravados

nos panfletos que são entregues anônimos.


Talvez baste ao poeta o fruir da fruta ao gosto

menos azedo das notícias participando mortes

antes do tempo (todo o tempo é antes) previsto

na antecipação frígida das esperas.


Talvez ao poeta baste levantar a mão e pedir

ao garçom a bebida de sempre, a comida

deixada sobre o prato, o distrato entre amigos

após a ceia: cada um em seus afazeres.


Talvez ao poeta baste saber-se nu diante da hora

acertada para a volta; ser da revolta o ânimo

e da crueldade explicitada em nomes o anônimo

revoar das aves; sobre as aves ao poeta cabe

recriminar a mão que oferece o pouco.


Talvez baste ao poeta ser poeta. Adivinhar no texto

a descoloração do átimo, o pátio de desertadas árvores

infrutíferas; o desfolhar do outono, o renascer

primaveril das flores em pétalas abertas.


Talvez ao poeta baste discorrer em mãos agitadas

ao vazio sobre a perdição, a contrição, a educação

adulterada em números e cientificamente expor

ao todo o menos; ao menos cabe o protesto.


Talvez ao poeta baste a consecução do plano

invertido em sonhos de descidas aos infernos

particularizados no extrato do infortúnio;

ser seu próprio oposto de reescritas notas

no esforço desconcentrado ao nada.


Talvez baste ao poeta o anúncio do amor distanciado

em dias, meses, anos e décadas: o reencontro

no aperto sentido – o grafite quebrando a ponta –

como lâmpada queimada: a tortura acompanhada

à porta pelo degredo do segredo sendo revelado.


Talvez ao poeta baste o reconhecimento da presença

e a indiferença rente ao caminho não percorrido;

o banco da praça ocupado pelo corpo despreparado

em ocorrências e a decorrente história mal contada.


Talvez ao poeta baste olhar o perto e retirar o longe

desconhecido em físicos acidentes: a geografia

estanque do planeta; o lento deslocar das placas.


Talvez baste ao poeta a necessidade da urgência

intercalada ao langor do isolamento. Saber ficar

estático e revolver as cinzas em busca do acidente.


Talvez ao poeta baste alisar o pelo do animal

sobre o colo deslocado, descobrir ensinamentos

simiescos ensimesmados aos ensinamentos.


Talvez ao poeta baste possuir a chave enferrujada

da porta secundária por onde entram minotauros

instalados nas peças lendárias dos amantes.


Talvez ao poeta baste realizar o sonho da criança

perdida em crescimento: recuar ao tempo anímico

das paredes sendo preenchidas em riscos

produzindo imagens do dia acondicionado.


Talvez baste ao poeta se desvencilhar da hora

categórica dos negócios, perder o prumo, o rumo,

desviar das pedras rolantes dos embustes; salvar

a pele do desconsolo e o tédio dos amantes.


Talvez ao poeta baste se dizer distante o tanto

permitido, perto o quanto possuir de forças

para se entranhar nas notícias repetidas.


Talvez ao poeta não baste o descobrimento

de novas terras, exija reconhecer a profundeza

espacial dos mares e o executar da sinfonia

dos cometas: em suas caudas, sabe o poeta,

trafegam poeiras estelares.


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