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sábado, 29 de maio de 2010

É preciso ser contido, às vezes (Nilto Maciel)


(O cronista e a falta de tempo para ler tudo)

Mesmo depois da extinção da revista Literatura, os escritores não deixaram de me mandar livros. Não os leio todos, por falta de tempo. Que me desculpem os amigos e os colegas.

Os mais recentes vieram de São Paulo (Daniel Lopes), Itapema, SC (Pedro Du Bois), Crato, CE (Emerson Monteiro), Brasília (Alaor Barbosa e Lustosa da Costa), Goiânia (Valdivino Braz), Mangaratiba, RJ (Emil de Castro), e Madri, Espanha (Manuel Garcia Centeno).

Conheço Alaor, Valdivino, Lustosa e Emil, de longas datas. Convivi com o primeiro por muitos anos, em Brasília. O segundo é de frequentar minha casa e de me receber na sua. O terceiro é meu conterrâneo e habita também a capital federal, sem deixar de visitar a cearense de vez em quando. O quarto nunca vi, mas com ele me correspondo há cerca de 30 anos.

Comecemos, pelo final da relação. Ou pelo mais longe de mim. Manuel Garcia “vive entre Madrid e Zalamea”. Nesta nasceu, em 1947. O livro que me mandou se intitula ¡Chachó! Contos curtos ou relatos (como está abaixo do título). Apenas 60 páginas. Impresso na Itália: Capri Leone, Messina, 2010. O primeiro parágrafo do primeiro relato é este: “Observé unos ojos ansiosos y sorprendidos que me miraban con fijeza tras la puerta entreabierta”. Infelizmente, não terei tempo de ler mais. Outros livros me esperam. Meus olhos estão ansiosos.

Daniel Lopes achou meus blogs e me mandou uns contos. Gostei do seu modo despojado de narrar, o desapego à norma culta. Agora me mandou exemplar de seu É preciso ter um caos dentro de si para criar estrela que dança. Reunião de contos. Edição do autor, 2008. Ou do site WWW.osviralata.com.br Assim o povo brasileiro fala: não usa o substantivo no plural. Daniel também emprega palavrões, gosta de narrar (contar) e de dar voz aos personagens (não deixa para trás os travessões). Escreve como se fala.

Também o gaúcho Pedro Du Bois me achou na Internet. E passou a me mandar poemas todo dia. Como é bom poeta, não deixo de publicar os poemas dele nos meus blogs. Agradecido, presenteou-me dois volumes de versos: Desnecessidades reentrâncias & alguns reingressos e Concretude da casa, ambos de 2009. Não transcreverei aqui versos dos livros. O leitor os encontrará em pedrodubois.blogspot.com

O outro que não conheço é Emerson Monteiro, cearense de Lavras da Mangabeira, terra dos poetas Filgueiras Lima, Linhares Filho, Batista de Lima e Dimas Macedo. O livro recebido por mim intitula-se É domingo (João Pessoa: Edições Fabulação, 2006). Nada de versos; são crônicas e contos ou “narrativas de proveito”, como está sob o título.

Agora chego aos livros dos amigos. O de Lustosa da Costa é Sobral que não esqueço (Fortaleza: Expressão Gráfica, 2010). Dito de memórias. Como quase todas as obras do jornalista. Lustosa é incansável escritor. Sempre apegado ao Ceará. Vive em Brasília desde 1974, mas não esquece Sobral nunca: “Este é mais um livro tendo Sobral, capital da civilização do couro no Ceará, que elegi como minha e como principal tema de meus escritos”. Falta algum vocábulo na frase, mas o leitor entenderá. O título da introdução do livro é “Não sou universal, sou apenas municipal”.

A obra recebida de Alaor Barbosa é o romance Memórias do nego-dado Bertolino d’Abadia (Goiânia: AB Editora, 1999). Epígrafes de Camões e Shakespeare. Cerca de 300 páginas. Tem início assim: “Este texto das memórias do singularmente aventuroso e desventurado goiano de Imbaúbas Bertolino d’Abadia, anotadas pelo ilustre advogado Rafael Santoro Noronha, está guardado comigo faz muitos anos.” Lembra Cervantes? Nas abas se lê o anúncio: “Poderosa criação literária, a um tempo rica em imaginação e em verdade documental, densa narrativa,escrita em linguagem apurada, base firmíssima da sua previsível perenidade. Há muito tempo não se vê aparecer,no Brasil, um livro tão bem escrito.” É ler para conferir.

Do também goiano Valdivino Braz é outro romance: O gado de Deus – Livro do Ressentimento (Goiânia: UCG/Kelps, 2009). Há semelhanças entre um e outro. Num “esclarecimento e advertência” o escritor adverte: “Fruto azedo do advento 64, este romance, sazonado entre os anos 80 e 90, inicialmente intitulado como As dores da terra antiga – agora O Gado de Deus, com outras dimensões, mantido o fulcro original –, seria o primeiro livro de uma espessa obra, desenvolvida há décadas, a espaços esporádicos, anunciada e sempre protelada, ainda por terminar, estacionada em estado caótico. Ambicioso, pretensioso, megalômano projeto”. Valdivino apareceu há alguns anos como contista (dois volumes) e poeta (dez). Como Alaor, meu amigo Braz sabe escrever.

Estou perdendo o fôlego. Mas ainda posso falar do livro de Emil de Castro: Vozes do mar (Rio de Janeiro: Edições Galo Branco, 2009). São poemas. Poucos e curtos. A primeira parte tem o mesmo título do volume. Poemas sem título. A segunda é “Exercício de marujo demente”, com 17 poemas titulados. Emil tem diversos livros: poesia, ensaio, história, infantil. O primeiro, em 1969: O relógio e o sono, de versos. Se se entusiasma com o mar (a vida), consegue se conter no dizê-lo: “Vão lentos / soprados / pura paina / espuma sobre o mar. / Se perdem no longe”.

Também consigo me conter ao escrever.

Fortaleza, 28 de maio de 2010.
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