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segunda-feira, 14 de junho de 2010

Da injustiça (Pedro Du Bois)

Amaldiçoado em lágrimas
rasgo olhos ao horizonte


poente

inutilizo a noite

na chegada

em refúgio


(os cães ladram)


rememoro a hora

da notícia transmitida

palavra por palavra


revejo minha imagem

cristalizada

no congelamento

da lágrima depositada


(os cães farejam)


as dores se afastam
no distanciamento

necessário ao medo


o corpo estremece

ao se pertencer em dores


no horizonte hostil

da janela aberta

o futuro se depara

com a impertinência

do presente


(os cães comem)


afasto suas mãos das minhas:

o contato é lucidez

inoportuna na desesperança


a oração despercebida

rompe o silêncio

e se perpetua


afago o deslizar da hora

em horas subsequentes


(os cães se defendem)


murmuro o nada acontecido

e desacordo em sonhos


o retorno convive

com o fato

desproporcionado


revivo o outono em folhas

pelo chão


recupero a sanidade

e me faço cristal

de rocha esfacelado


(os cães se diferenciam)


sofro o instante

e gesto

o silêncio


o emudecer transmite

a incerteza da pergunta


na vastidão ampliada

da insensibilidade


(os cães desfazem)


posso perguntar

o que bem entendo:

mas não entendo


posso exprimir

a minha raiva:

mas não pretendo


posso aproximar

os olhos à fotografia:

mas não enxergo


(os cães confundem)


calendários dizem que os anos passam


o exercício diuturno de recuperar

o inconsciente e o aguardar

refulgente: recomposto


o exército lancinante dos ataques

distribuí ossos que estalam


(os cães apavoram)


um dia destaco na pedra

o sinal: acordo


um dia acordo e na pedra

destaco o sinal


um sinal na pedra

é destaque quando acordo


(os cães se acovardam)


olho e enxergo

ouço e escuto

pego e sinto

levo à boca

e o sal amarga

o recesso de onde retirado


avaros dias de permanências

permanentes signos

aparentes esboços


o processo desarruma o fato

em procedimentos


(os cães arfam)


ouvidas as testemunhas

os peritos dizem

das especialidades


nada

nada


a improvável condenação

confundida em versos

na reversão da realidade


(os cães obedecem)


choro atravessar o espaço

desconsolado em fatuidades


remoço a fotografia

e me instalo diante

da orfandade


perder significa atos

ao despropósito

de continuar vivo


(os cães silenciam).


http://pedrodubois.blogspot.com/