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sábado, 26 de junho de 2010

Fugit (Aníbal Beça)


Mas então era isso?
Melhor que não fosse.

Mas como fugir dele
que voa sem asas, mas voa,
enquanto fico fincado
sem ao menos saber
se parto ou se fico
sem o arbítrio da deliberação?

Ah, mel do engano!
Por que me adoçaste
com a prepotência
veloz dos resignados?

Por que não me soltaste
junto à turba perdulária
dos que souberam
queimar etapas
na fogueira da intensidade
caldeirão
de tempero imediato?

Uma andorinha solitária
passa veloz no seu compasso de asas.

Será a mesma do último solstício?

Não importa.
senão o que ela empresta
do impulso viageiro tardio
levando não os meus pés
mas meus olhos
que se alçam sedentos
céleres
para conspurcar
lugares longínquos

O que não ousei com os pés
– caminhos que não pisei –
meus olhos alcançam por mim
deixando pegadas aladas
impressas no lençol do dia
no onírico leito do ócio indormido.

Ele
que descubro
Senhor das coisas
do nada e de tudo
do silêncio e do vazio
me diz sem muita cerimônia:
Passou.

E nada mais disse.
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