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sexta-feira, 9 de julho de 2010

A cidade fria e o romance dos pés (Djalma Filho)


Em uma cidade, onde as mulheres usavam meias com um rigor quase militar, numa parada de ônibus, vi, impávida, uma mulher de sandálias – sem nada nos pés, apenas sandálias. E que pés devassos!... A única mulher sem meias da cidade? Olhei-a tornozelo abaixo. Mal percebi se casada ou solteira, se bela ou feia, se gorda ou magra... Apenas, sem meias. Talvez, a única mulher sem meias da cidade.

Solteiros, meus pés excitaram-se. Claustrofóbicos desde quando se viam em meias, a sonhar por liberdade aos chulés, pelos teus pés sem meias, eles se apaixonaram. Do ônibus, subiram um, dois, três degraus... Não mais os queriam perder de calcanhar. Sentaram em um banco, lado a lado aos teus, antes que, num cispar digno apenas de pés, teus pés saltassem em uma parada qualquer. Descobriram-se feitos uns para os outros, e que não nasceram para usar meias, e que nem a cidade dos Pés Juntos os separariam.

Assim, deram a dormir juntos - aquecendo-se.

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