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quarta-feira, 7 de julho de 2010

Esse mato baixo (Nilto Maciel)




Recebo visitas de jovens escritores com muita frequência. Às vezes vem somente um, que chega manso, quase medroso, como se eu fosse um monstro. As jovens, mesmo as mais audazes, não ousam aparecer sós; chegam acompanhadas do pai ou de amigo. Na maioria das vezes chegam aos grupos, liderados pelo gorducho Pedro Salgueiro. Em algumas noites, minha ampla sala se mostrou pequena para tanta gente: Raymundo Netto, Poeta de Meia-Tigela, Manuel Soares Bulcão, Carlos Nóbrega, Carlos Vazconcelos, Mário Sawatani, Frederico Régis, Silas Falcão, Tércia Montenegro, Urik Paiva, Carmélia Aragão, Felipe Barroso, Mardônio França e outros.

Lembro muito de todas essas noites. Sobretudo de uma em que me achava muito deprimido. Para me transformar, comprei dúzias de vinho, uísque e cerveja, além de haxixe e outras plantas medicinais. Iniciada a degustação, pedi licença para ler umas frases. E assim aquela noite de esperadas delícias se foi tornando o nosso inferno. Pus-me a falar, pausadamente: “Qual de vocês cruzou os mares em busca da ilha perdida? Do tesouro, do paraíso, do novo, das Índias? Quem encontrou os seres fabulosos de que falavam os viajantes? Quem viu sereias? Você já foi ao Monte Everest? Conseguiu voltar ou ficou por lá? Sentiu-se muito só, a um passo da eternidade? Já foi ao espaço sideral? Sabe o nome da nave? E de quem o acompanhava? Chegou a passear, preso a um fio, pela parte externa da espaçonave? Pensou em se desprender dela e se perder na noite infinita? Não teve coragem de deixar a cápsula, ficou encolhidinho dentro dela, a olhar para as estrelas pelas janelas?”

Um dos convivas engoliu meio copo de bebida e quis saber de que eu falava. Aspirei, com sofreguidão, meu cachimbo: “Estou falando de viagens singulares. De viajantes como Ulisses e Robinson Crusoe. De aventureiros e astronautas. De viajantes aos abismos do ser humano, como Kafka. E também daqueles que jamais ousariam escalar montanhas ou montes como o Everest. Para eles, a Serra de Maranguape ou o Morro do Urubu são o píncaro do mundo. E ainda se perdem cedo em suas pequenas matas. Preferem se aventurar pelas ruelas de Fortaleza ou do Rio de Janeiro. Outros vão mais além, até viajaram pelo espaço. Mas se desprenderam da nave e se perderam no espaço celeste. Ou na cachoeira das eras”.

Alguém se moveu na cadeira e, irritado, se pôs a gritar: “Não, não cruzei os mares, mas conheço, como poucos, a gramática. Com facilidade, encontro erros e mais erros em sua prosa de escritor preguiçoso. Sei usar o verbo aqui, o substantivo ali, a vírgula acolá. Sou escritor correto, culto. Mais do que muitos supostos gênios”. Ri-me do ingênuo. Por acaso há ou houve algum gramático que escreveu poemas como Os Lusíadas, contos como “A cartomante” ou romances como Angústia?

Outro nervoso poeta pulou ao centro da sala: “Pois saiba, senhor Nilto, que conheço todas as rimas, todas as métricas, todas as manhas da boa poesia. Sou um poeta federal. Ou universal”. Sorvi mais um gole de veneno: “E você acha que Fernando Pessoa é grande poeta porque conhecia rimas, métricas e manhas?”

Um prosador acanhado pediu licença para se pronunciar: “Minha imaginação é tão prodigiosa que consigo escrever, mentalmente, um romance a cada noite. Entretanto, não tenho capacidade de copiar, de transpor para o papel nem a milésima parte do que imagino. Se eu fosse uma máquina sobre-humana, um computador de alta tecnologia, certamente estaria muito à frente de Cervantes, Balzac e Joyce”. Bateram palmas. O jovem enrubesceu, como as donzelas dos romances de Alencar. Folheei seu livro. O título me chamou a atenção: Prodígios de um bebedor de vinho numa noite fria ao pé do Monte Sião. Quase mil páginas. Técnicas de narração variadas: frases longas e curtas, quase cem narradores, diálogos interiores em cinco ou seis dialetos, episódios entrelaçados. Causaria inveja aos mais ousados narradores. Um leitor, porém, viu no livro apenas um amontoado de frases: romance feito em liquidificador.

O quinto a se manifestar riu de mim e fez perguntas indelicadas: “Você já leu William Butler Yeats? Pois eu li toda a melhor literatura irlandesa, assim como a inglesa, a francesa, a russa, a antiga e a moderna, a conhecida e a desconhecida, quase tudo no original, pois estudei as principais línguas ocidentais”. Pedi desculpas de minha ignorância. Ora, da Irlanda, por exemplo, mal conheço Joyce, Swift e Wilde. Tudo traduzido.

Um sujeito com cara de sábio deu um pulo da cadeira: “Sem muita inteligência não é possível escrever boa literatura”. Perguntaram-lhe o que é inteligência. Ele buscou quadro e giz. Encontrou papel e lápis. Fez uns rabiscos, desenhou a fórmula da vida e a flâmula da morte.

Como se explica isso? Por que uns poucos vão além da soleira da porta e se perdem nos infernos e paraísos, enquanto a maioria nasce, vive e morre no canto da sala, a ler sofregamente, a escrever em desvario, a inventar receitas, a rasgar papiros? Certamente o que diferencia uns de outros não são as leituras, não são as viagens, não é a imaginação, não é a ousadia, não é a dedicação à literatura, não é o corpo, não é a alma, não é a origem de cada um, não é a educação, não foi o leite materno, não foi o berro do boi. A explicação deve estar lá no fundo do cérebro.

Amadeu Amaral, em “Elogio da mediocridade”, escreveu algumas frases que podem nos ajudar a aceitar os abismos e os céus: “Toda literatura pressupõe uma multidão de medíocres, e não só de medíocres, senão também de inferiores, de rudimentares, de falhados e de decadentes. Tanto mais pujante e luminosa ela é, tanto mais grossa a multidão rasteira. Esse mato baixo sustenta a indispensável camada de humus, resguarda e entretém a vida incipiente das árvores destinadas à máxima expansão. Foi esse mato que permitiu, na Inglaterra, o crescimento fabuloso de Shakespeare, a cuja volta trabalhava e produzia uma plêiade de dramaturgos fortes e uma turba-multa obscura de escribas irrequietos”.

Fortaleza, junho de 2010.
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