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quinta-feira, 1 de julho de 2010

Os rios e as montanhas (Nilto Maciel)

(Quadro de Chico Lopes)


O mundo todo está na África do Sul. Ninguém quer saber de Mandela ou dos pobres de lá. Iguais aos pobres da Namíbia, do Brasil e do resto da Terra. Todos só querem saber de futebol. A Copa do Mundo de Futebol. Um mundo de muito dinheiro. Uns poucos humanos pensam também em literatura. Cito quatro deles: Ronaldo Monte, Enéas Athanázio, Nelson de Oliveira e Audifax Rios. Pois estes quatro cavaleiros, em plena euforia futebolística, não me mandaram bolas, figurinhas, álbuns, notícias relacionados ao esporte. Mandaram jornais e revistas literários. Ronaldo mora em João Pessoa, Paraíba, e me deu de presente exemplar do número 4 da revista Ponto,; Enéas vive em Balneário Camboriú, Santa Catarina, e foi mais generoso: enviou o Jornal do Enéas, número 27, e O Nheçuano; Nelson de Oliveira transita por São Paulo, a megalópole brasileira, e me remeteu o número zero de Lettera Libris: Literatura & Afins; Audifax, meu concidadão (escondo-me no Parque Araxá da Fortaleza de Nossa Senhora da Assumpção), mandou-me o número 55 da revista Canto da Iracema.

Enquanto a seleção brasileira enfrentava a da Coréia do Norte (tão menosprezada pela mídia capitalista), eu folheava e lia a revistinha (meio palmo de papel apenas) vinda da Paraíba. Ponto, é do Clube do Conto. Não imaginem erro de pontuação na frase: o nome da revista é assim mesmo: Ponto,. Mas saibam que na terra de Augusto dos Anjos e Ariano Suassuna há um clube do conto. Entretanto, Ronaldo Monte nasceu em Maceió, Alagoas, e, como Graciliano Ramos, escreve que é uma peste.

O segundo jogo da equipe brasileira (européia?) me pegou de olhos grudados no jornal de Enéas (meu amigo há mais de 30 anos) e no jornal de Roque Gonzales, Rio Grande do Sul. O primeiro fala de livros, traz poemas, contos, crônicas. Voa de Sul a Norte do Brasil. Como o próprio editor. O segundo homenageia “Nheçu, líder indígena Guarani-Mbya, defensor de seu povo, sua cultura e sua terra, pioneiro na resistência aos conquistadores, no século XVII, na atual região das Missões, RS”. Tem entrevista com Athanázio, contos, poemas, artigos.

A disputa amistosa das equipes brasileira e lusitana – fiquei sabendo do placar sem golos – me fez ler Lettera Libris: conheci mais um pouco de João Silvério Trevisan (“Mesmo com sessenta e cinco anos e uma obra extensa, em várias áreas literárias e não literárias, talvez ainda dê pra esperar que eu não perca a esperança.”), ouvi a língua ferina de Nelson (“Em 1995 eu já estava prestes a desistir da literatura quando veio o resultado do Premio Casa de las Américas. Se não fosse esse prêmio, teria parado de escrever, tenho certeza.”) e me agitei frente a mais um conto de Marcelino Freire. Valeu a pena não ter visto o jogo.

Enquanto os onze brasileiros e onze chilenos corriam em campo, eu lambia as páginas do Canto da Iracema. A capa traz uma lembrança de Cláudio Pereira, jornalista e agitador cultural, falecido recentemente. E um artigo de Audifax: para lembrar o velho (66 anos) amante da Fortaleza do Estoril, das ruas calçadas com pedras, das ruas arborizadas, dos bares antigos e novos.

Amanhã o time de Dunga enfrentará a velha “laranja mecânica” (ninguém explica a origem do apelido). Estarei de olhos nas montanhas, enquanto as águas dos rios escorrem para o mar. Talvez diante de Alencar ou de Moreira Campos e Alcides Pinto. O jogo poderá ser zero a zero, um a um, dois a dois. No final, os batavos (ninguém escreve mais assim) terão mais sorte? Para desgosto dos donos da Rede Globo de Televisão. Mas rios são rios (águas que passam).

Fortaleza, 1º de julho de 2010.
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