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domingo, 15 de agosto de 2010

Gonzaga, um poeta no desterro (*)

Adelto Gonçalves (**)

I

O poeta Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), autor de Marília de Dirceu, a coleção de poemas líricos mais popular da literatura de língua portuguesa, nasceu em Miragaia, no Porto, mas viveu parte da infância e da juventude no Recife, Bahia e Rio de Janeiro, antes de voltar a Portugal para estudar em Coimbra. Bacharel em Direito, montou banca em Lisboa e ainda candidatou-se, sem êxito, à cadeira de Direito Pátrio em Coimbra, antes de ingressar na magistratura em 1778. Foi juiz de fora em Beja, até que em fevereiro de 1782 saiu sua nomeação para ouvidor-geral de Vila Rica, em Minas Gerais.

Como ouvidor, não se pode dizer que Gonzaga tenha sido um magistrado reto, que não se tenha deixado levar pelas paixões e a cobiça de um tempo em que a atividade mineradora fizera a América portuguesa passar por muitas transformações. Se não existem provas cabais de que o ouvidor tenha favorecido a família de sua noiva, evidências não faltam.

Em 1788, por exemplo, o ouvidor se limitou a confirmar a reforma compulsória do capitão Baltasar João Mairinque, pai de sua noiva, Maria Dorotéia Joaquina de Seixas. Não lhe aplicou nenhuma sanção, embora o militar tivesse sido afastado do comando do destacamento da Serra Diamantina de Santo Antônio do Itacambiruçu por crime de tolerância ao contrabando.

Afastado Mairinque por imposição da Junta Diamantina, o governador e capitão-general Luís da Cunha Meneses, aquele que passaria para a História como o Fanfarrão Minésio das Cartas Chilenas, aproveitou para favorecer apaniguados: promoveu o tenente José de Sousa Lobo e Melo a capitão e sargento-mor “em breves meses” e o tenente Tomás Joaquim de Almeida Trant a capitão, entregando-lhe o comando da repartição de Paracatu.

Quem ardeu de raiva foi o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, que, com a vaga aberta, pretendia ascender a tenente. Era julho de 1788. A ira do ouvidor talvez nascesse da constatação de que, afastado Mairinque, seu substituto, sob o manto protetor do governador, agia de modo ainda pior, sem que nada lhe pudesse ocorrer. O ouvidor deu o troco como pôde, ao absolver, mais tarde, o cadete Joaquim José Vieira Couto, irmão do doutor José Vieira Couto, conhecido maçom. Joaquim José fora acusado de injuriar o comandante do Tijuco, José de Vasconcelos Parada e Sousa, homem do esquema do governador.

Talvez por isso o irmão de Parada, o tenente Fernando, tenha resolvido desrespeitar o ouvidor. Gonzaga, então, recorreu ao tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrade, comandante do regimento de cavalaria regular, que advertiu o subordinado. Todas essas questiúnculas o ouvidor contou disfarçadamente nas Cartas Chilenas, mas podem ser também comprovadas na documentação do Arquivo Público Mineiro e em vários depoimentos que constam dos Autos da Devassa da Inconfidência Mineira.

Depois que Cunha Meneses deixou Vila Rica em julho de 1788, Gonzaga teve menos de dois meses para trabalhar com o novo governador, o visconde de Barbacena. No dia 7 de setembro, passou o cargo para o novo ouvidor, Pedro José de Araújo Saldanha, que subira do Rio de Janeiro com o alferes Tiradentes à frente do comboio. A posse foi tumultuada porque, no dia anterior, 31 presos haviam fugido da cadeia pública.

II

Fora das funções, Gonzaga permaneceu em Vila Rica à espera de autorização real para o seu casamento com Maria Dorotéia. Por esse tempo intensificou suas relações com os poderosos do lugar: no começo de outubro, esteve por vários dias como hóspede do fazendeiro Alvarenga Peixoto em São João del-Rei. E batizou um filho do amigo. Um outro filho de Alvarenga recebeu batismo no mesmo dia, mas o padrinho foi o arrematante de contratos de entradas João Rodrigues de Macedo, dono do prédio em Vila Rica que, mais tarde confiscado pela Coroa, passaria a ser conhecido como Casa dos Contos.

A festa serviu para muitas manifestações de repúdio ao domínio português. O que preocupava o coração daqueles homens era a decisão da Corte, trazida pelo novo governador, de impor a derrama para se completar o pagamento das cem arrobas de ouro exigidas por lei.

Por aquela época, o jovem José Álvares Maciel, filho do capitão-mor das ordenanças, que estudara em Birmingham, estava de volta e fora nomeado assessor do governador. Maciel já havia conquistado para o levante a adesão de seu cunhado, o tenente-coronel Freire de Andrada, a maior autoridade militar da região depois do governador.

Freire de Andrada estava tão empenhado na conjura que cedeu sua residência na Rua Direita de Ouro Preto, em Vila Rica, para uma série de reuniões. A principal ocorreu a 26 de dezembro com a participação do ex-ouvidor Gonzaga.

A hesitação do visconde de Barbacena em decretar a derrama, porém, aparentemente, atrapalhou os planos e dispersou alguns conspiradores. A outra possibilidade é que tenha havido uma ruptura entre os revolucionários quanto ao sistema político que a nova república adotaria.

Em meados de janeiro, talvez por ter desistido da idéia da sublevação, Freire de Andrada decidiu pedir licença do comando por dois meses. Alvarenga resolveu deixar a casa de Gonzaga e voltar para a sua fazenda em Paraopeba. Quando o coronel dos auxiliares Joaquim Silvério dos Reis, ex-arrematante dos contratos de entradas e grosso devedor do Erário Régio, decidiu delatar seus companheiros de conjura, os planos de sublevação já haviam sido praticamente deixados de lado.

As autoridades, porém, nunca se deixaram enganar por Silvério e sempre o tiveram como o “motor” da sublevação, aquele que tivera a idéia inicial do levante. O outro seria Macedo, igualmente ex-arrematante e grosso devedor. Ambos haviam construído fortunas com os recursos que haviam arrecadado em nome da Coroa. E queriam se ver livres das dívidas.

Mesmo com a delação de Silvério, os inconfidentes só não derrubaram o visconde de Barbacena por causa da hesitação de Freire de Andrada, que se recusou a colocar a tropa na rua. Um gesto do militar e o poder régio teria ruído na capitania: Barbacena estava acuado no Palácio de Cachoeira do Campo, valendo-se apenas do “fraco socorro de seus ajudantes-de-ordens”, sem um barril de pólvora.

Denunciada a conjuração, Gonzaga tratou de tomar algumas providências que o colocassem acima de qualquer suspeita. No dia 20 de abril, procurou o governador a pretexto de obter uma autorização para casar a 30 de maio, um sábado. Alegou que precisava viajar para assumir o lugar para o qual estava nomeado na Relação da Bahia.

Detido, foi encaminhado ao Rio de Janeiro e recolhido à fortaleza da ilha das Cobras no dia 6 de junho. Escreveu liras, rompeu o noivado com Maria Dorotéia e compareceu a vários interrogatórios, sempre mantendo-se “numa tenaz negativa”. Da prisão, pediu a um amigo que levasse para Lisboa os originais de Marília de Dirceu, que sairia à luz pela Tipografia Nunesiana, quando ele já estava em seu exílio na ilha de Moçambique havia três meses.

III

Pouco tempo depois de desembarcar da nau Nossa Senhora da Conceição e Princesa de Portugal, a 31 de julho de 1792, para cumprir pena de degredo por dez anos na ilha, Gonzaga foi nomeado promotor de defuntos e ausentes pelo ouvidor Francisco Antônio Tavares de Siqueira.

Ao contrário do que afirmou o professor M. Rodrigues Lapa, em seu prefácio para Obras Completas de Tomás Antônio Gonzaga (São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1942), o poeta não casou com “a herdeira da casa mais opulenta de Moçambique em negócio de escravatura” nem consagrou “as horas vagas ao rendoso comércio de escravos”. Muito menos ajudou o sogro a aumentar sua fortuna. Até porque nem teve tempo para isso. O escrivão Alexandre Roberto Mascarenhas, seu subordinado, morreu aos 42 anos, em 1793, no mesmo ano de seu casamento com Juliana de Sousa Mascarenhas, uma jovem analfabeta de 19 anos

Mascarenhas nunca se envolveu no comércio negreiro. Era proprietário de uma casa na Rua do Largo da Saúde, na ilha de Moçambique, onde Gonzaga passou a morar com a mulher, e de uma machamba (plantação de mandioca) no continente fronteiro à ilha, que obtivera pelo casamento com Ana Maria de Sousa.

O casamento representou um desafogo nas finanças do degredado, mas não foi suficiente para torná-lo um potentado. Ana Maria, a sogra, com a morte do marido, transferiu para o casal a morada da Rua do Largo da Saúde e passou a morar sozinha na machamba, nas Terras Firmes. Com a concordância de sua mãe, Juliana França de Sousa, doou ao casal um palmar com suas casas contíguo a sua propriedade.

A vida nunca esteve mal para Gonzaga. Tanto que, com menos de 25 dias de chegado à terra, pôde comprar um escravo ladino por 20 mil-réis. Uma das raras pessoas cultas naquele fim de mundo, o ex-ouvidor não encontraria dificuldades.

No AHU, há um atestado que Gonzaga escreveu para João da Silva Guedes, a tempo ainda de o ouvidor que estava de saída assiná-lo e levá-lo para o Reino na mesma nau que deixara os inconfidentes. Guedes nunca mais esqueceria o favor e seria fiel a Gonzaga até o fim. Em troca, o ex-ouvidor faria outros favores a Guedes e fecharia os olhos para muitos negócios escusos do amigo.

Gonzaga nunca deixou de ser maçom, como mostra o seu bom relacionamento com Guedes, pai de Vicente Guedes da Silva e Sousa, que, de retorno do Reino onde fora estudar, seria preso no Rio de Janeiro em julho em 1799, acusado de ter embarcado ilegalmente livros “ímpios e blafesmos” e catecismos maçônicos.

Como advogado, Gonzaga trabalhou para outros traficantes negreiros e, mais tarde, ao final da vida, como juiz interino da alfândega, seria acusado pelo governo do príncipe regente D. João de ter favorecido os interesses da elite negreira da ilha, em detrimento da Coroa.

IV

Na África, comporia alguns versos e pelo menos “A Conceição”, poema épico inspirado no naufrágio da nau Marialva, em 1802, às costas de Moçambique, que hoje (incompleto) faz parte do acervo da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Como advogado, escreveu cartas e petições às autoridades no Reino.

Com Juliana, teve dois filhos: Ana e Alexandre Mascarenhas Gonzaga. Alexandre, que nasceu em 1809, morreu solteiro e não deixou descendentes. Ana casou, em segundas núpcias, com Adolfo João Pinto de Magalhães, que viveu até 1860 e foi um dos maiores traficantes negreiros de Moçambique. Gonzaga morreu entre 25 de janeiro e 1º de fevereiro de 1810 e foi sepultado na igreja do convento de São Domingos dedicada à Nossa Senhora do Rosário, na ilha de Moçambique. Em 1852, esse templo foi demolido por estarem suas paredes comprometidas e os ossos do poeta teriam se perdido. Não há indícios de que tenham sido trasladados para outra igreja.

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(*) Publicado na Revista Brasileira, da Academia Brasileira de Letras, abril-maio-junho 2010, nº 63, ano XVI, pp.175-180.

(**) Adelto Gonçalves, doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo, é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – O Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E- mail: marilizadelto@uol.com.br
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