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segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Os trilhos cruzados de Silvério da Costa (Nilto Maciel)

(De boné, Silvério da Costa)


Conheço (nunca o vi) Silvério da Costa há muitos anos. Talvez desde 1989, ano de publicação de seu primeiro livro, Retalhos da existência. Escreve e publica sem parar. Mas sem pressa. Escreve poemas e artigos, resenhas, notas de leituras. Que publica em jornais. Envio-lhe meus livros; ele os lê e comenta. Com muita atenção e sabedoria.

Estive em Florianópolis, Balneário Camboriú, Bombinhas, Porto Belo, Mariscal, Porto Alegre, a passeio, para receber prêmio, participar de feira de livro, visitar minha filha Fernanda, mas não me aproximei de Chapecó, que é uma metrópole. E não vi Silvério da Costa. Em Floripa (assim chamam a belíssima capital catarinense) estive com Alcides Buss e Iaponan Soares. Visitei Enéas Athanázio em Balneário. Na capital gaúcha conheci Roberto Schmitt-Prym. Mas não estive com Silvério, que veio de longe, Portugal, a pequena aldeia de Valbom, cercanias da cidade do Porto, e aqui, no Brasil, se fixou. Virou brasileiro.

Trilhos cruzados (Arcus Indústria Gráfica Ltda, Chapecó, SC) é de 2010. Uma antologia poética. Com longo e profundo prefácio de Lauro Junkes: “Tenho acompanhado, durante duas décadas, a manifestação dura e implacável da criação literária do português-brasileiro Silvério Ribeiro da Costa que, sem dependência de metrópoles culturais ou de igrejinhas badaladoras, vem projetando seu grito poético desde a Chapecó do oeste catarinense. Em ritmo ponderado, sucederam-se os títulos dos volumes de poemas que publicou, numa linha constante, revelando segura consciência do que é a poesia e de que funções pode exercer na sociedade humana. Nunca se preocupou com malabarismos linguísticos, com sofisticações estruturalistas, com melindres românticos. Ao contrário, desmistifica a concepção de que poesia é expressão de sentimentalidades.”

O poema que dá título à coleção é assim:

A vida é uma jogada

Feita de trilhos cruzados.

Pobre jogada!

Fora dos trilhos da vida,

não há vida,

não há nada.

Há o jogo da incerteza,

os trilhos e a encruzilhada

por onde passa o trem fantasma

da falsa vida...

a vida airada!

O livro é um primor gráfico: capa, versos bem distribuídos, as ilustrações da artista plástica Juliana Gisi, fotografias, fortuna crítica (Salim Miguel, Ronaldo Cagiano, Nelly Novaes Coelho, Celestino Sachet e outros amigos meus e de Silvério).

A poesia é assim, como em “Cosmogonia”:

Era uma vez

o que não era:

a escuridão,

a solidão,

o nada!...

Depois, alguém,

riscou um fósforo

e iluminou o Universo.

Aí vieram os poetas

e cantaram-no

em prosa e verso!

Parabéns ao poeta que veio de Valbom para o nosso bom vale catarinense!

Fortaleza, 2 de agosto de 2010.
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