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domingo, 19 de setembro de 2010

Alaor Barbosa na Academia de Letras do Brasil

DISCURSO DE DANILO GOMES, RECEBENDO ALAOR BARBOSA NA ACADEMIA DE LETRAS DO BRASIL, EM BRASÍLIA, EM 9-9-2010.


Sr. Presidente da Academia de Letras do Brasil e da Associação Nacional de Escritores-ANE, Ministro Fontes de Alencar; escritor Eurico Barbosa, da Academia Goiana de Letras; poeta Anderson Braga Horta, representando a Academia Brasiliense de Letras.

Senhores acadêmicos, senhoras e senhores familiares, amigos e admiradores do escritor Alaor Barbosa, em especial sua esposa, filhos e irmãos.
Incumbiu-me o Sr. Presidente desta Academia, Ministro Fontes de Alencar, de saudar o novo confrade, que ora recebemos com fraternal abraço e intenso júbilo. Honrosa missão para este modesto cronista mineiro, em Brasília há 35 anos. A delegação, que recebi de S. Exa., me enche o coração de alegria e o espírito de uma transcendental comunhão. Porque Alaor Barbosa é um velho e querido amigo e companheiro. E porque Alaor Barbosa é um grande escritor brasileiro, goiano de Morrinhos e agora, desde há poucos dias, Cidadão Honorário de Goiânia – justo galardão!

Grande escritor goiano, que transcendeu os limites de seu Estado natal, não só pelas altas qualidades estilísticas de suas obras, como por abordar temas de envergadura nacional, de Monteiro Lobato e seus amigos de cenáculo na Paulicéia, a Guimarães Rosa, de quem foi amigo e de cuja vida e criação literária nos tem dado uma pinacular, majestosa obra, em dois tomos: “Sinfonia Minas Gerais: a vida e a literatura de João Guimarães Rosa”, o primeiro tomo já publicado.

Nascido há 70 anos em Morrinhos, Alaor Barbosa dos Santos morou também – e ainda tem lá residência – em Goiânia; morou ainda no Rio de Janeiro, em Petrópolis e Brasília, onde mantém residência até hoje. Veio para cá a serviço, por concurso, do Senado Federal.

Escritor por vocação, por gosto, o novo acadêmico tem percorrido os territórios do romance e do conto, da biografia, da ensaística, da pesquisa literária e historiográfica. Não para de trabalhar, de produzir, de tal forma a podermos assegurar que ele se dedica à literatura e à História como um missionário incansável e com o ardor de um legionário, um escoteiro, um militante.

A simples menção do elenco de suas obras revela o quanto ele tem produzido, sempre se superando em qualidades estilísticas, em lavor estético, em informações precisas e detalhadas, checadas. Não me refiro apenas ao escritor primoroso, ao ficcionista de prol e de proa; destaco também o jornalista, desde o Jornal do Brasil, Correio da Manhã e Tribuna da Imprensa, do Rio, até o Diário da Manhã, de Goiânia, onde não perco seus artigos e matérias de teor literário, jurídico, histórico e político, permeados de memorialismo. No Diário da Manhã também não perco os artigos e crônicas de nossa colega, a poeta Sônia Ferreira. Aliás, leio também “O Popular”, de Goiânia, onde colaboram notáveis cronistas. E mais: todos nós, que moramos aqui, moramos no generoso solo de Goiás, que elegeu senador o grande Juscelino Kubitschek, criador de Brasília e imortal ídolo nacional.

Bacharel em Direito, pela Universidade Católica de Goiás, Alaor Barbosa é também mestre em Literatura pela Universidade de Brasília-UnB. De sua vasta obra publicada, cumpre destacar alguns títulos. Ficaríamos aqui por horas, cavaqueando e discorrendo sobre o autor, sua obra e sua rica fortuna crítica, já que elogios vieram, em vibrantes palavras, de críticos literários, entre outros, do jaez de José Edson Gomes, Wilson Martins, José Leão Filho, Fernando Py, Gabriel Nascente, José Mendonça Telles, Gilberto Mendonça Telles, Assis Brasil, Manoel Hygino dos Santos, Modesto Gomes, Hélio Pólvora, Antônio Olinto, João Carlos Taveira, Bariani Ortêncio, Carmo Bernardes, Ronaldo Cagiano, Emanuel Medeiros Vieira e Anderson Braga Horta. Releva acentuar que, no dia 1º deste mês de setembro de 2010, o grande poeta, ensaísta e crítico literário Anderson Braga Horta recebeu Alaor Barbosa no Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal, em noite memeróral, em sessão solene presidida por Jarbas Marques, na ausência do Cel. Affonso Heliodoro, em viagem a Belo Horizonte, por questões de saúde.

Da bibliografia de Alaor Barbosa, destaquemos “Caminhos de Rafael” (contos, ficções, narrativas); “Um Cenáculo na Paulicéia” (um estudo sobre Monteiro Lobato, Godofredo Rangel e outros “irmãos de opa” [no caso, confrades de letras]; “Contos e Novelas Reunidos” (uma bela edição de capa dura, com 985 páginas); “Sinfonia Minas Gerais” (que já mencionei); “Eu, Peter Porfírio, o maioral” (romance, um dos finalistas do Prêmio Leya, com o selo Dom Quixote [Portugal, 2009].

Destaco, também, “Uma Lenda”, obra magnífica, de viés joyceano – a história se passa em dois dias-, em cujo personagem central, o menino interiorano Rafael Noronha, eu me revi na minha natal cidade de Mariana, Minas Gerais, na mesma época. Quando terminei de ler as 262 páginas dessa obra genial, veio-me à memória uma instigante frase de Fernando de Castro: “Mas esse é o problema dos bons livros: quando menos se espera eles acabam.” Observação que se aplica, sem dúvida alguma, aos demais livros do novo membro desta Casa, à qual o saudoso poeta e ensaísta José Geraldo Pires de Melo consagrou tantos anos de sua vida e que encontrou no atual Presidente, escritor Fontes de Alencar, um notável líder e um indormido administrador.

Outras obras do nosso novo acadêmico: “A morte de Cornélio Tabajara”, “Meu Diário da Constituinte”, “Memórias do nego-dado Bertolino d’Abadia”, “O exílio e a glória”, “Monteiro Lobato das crianças”, “Campo e noite”, “O romance regionalista brasileiro” e outras mais, algumas dedicadas ao público infantil, como “Saci e Romãozinho”.

Além de biógrafo, também ensaísta, em “Confissões de Goiás” e “Rui Barbosa: pensamento em ação”, Alaor Barbosa já recebeu vários prêmios, consta de várias antologias, é membro da Academia Goiana de Letras e consta, como bem lembrou Anderson Braga Horta, dos dicionários de Bariani Ortêncio, Luiz Carlos Guimarães da Costa, Raimundo de Menezes, Napoleão Valadares e, ainda, da enciclopédia da Oficina Literária Afrânio Coutinho.

Um dos mais importantes livros de Alaor Barbosa é esse “Sinfonia Minas Gerais”, da Editora LGE, de Brasília, livro todo centrado na vida e na obra de João Guimarães Rosa, de quem o autor goiano, jovem jornalista no Rio de Janeiro, se tornara amigo de muita estima recíproca. O livro (refiro-me ao 1º volume, pois o 2º ainda não saiu) é uma verdadeira ode em prosa ao grande escritor e diplomata, nascido em Cordisburgo, em l908. Coloca-o o autor nas alturas, no merecido Olimpo. Ora, não é que a obra é contestada, judicialmente, pelas duas filhas de Guimarães Rosa? Espantoso, inacreditável! Um absurdo, puro capricho, um despautério! A vida e a obra de Guimarães Rosa não pertencem apenas à sua família, pois se tornaram um patrimônio do Brasil e da literatura universal. As traduções de seus livros correm o mundo.

A Associação Nacional de Escritores (então presidida pelo saudoso poeta Joanyr de Oliveira), pelo seu jornal mensal, editado pelo mestre Afonso Ligório Pires de Carvalho, saiu em defesa de Alaor Barbosa, naquele começo de 2008. Ouçamos este trecho: “Confiscar obras literárias e punir escritores são ações que, pela intolerância e pelo anacronismo que as apequenam, configuram verdadeiros autos-de-fé medievais, inconcebíveis para mentes ciosas da liberdade, da justiça e da cidadania, a duras penas conquistadas.”

Na maré montante de indignação que tomou de assalto os intelectuais cultores do Estado de Direito, o Presidente da Academia Mineira de Letras, escritor, ex-Senador e ex- Ministro Murilo Badaró (falecido há dois meses), convidou o nosso autor para proferir palestra sobre o criador de “Grande Sertão: Veredas”, na sede da agremiação, no Auditório Vivaldi Moreira. Foi uma noite histórica. Tive o prazer e o privilégio de lá estar. Alaor Barbosa, ao final de sua conferência em torno do Mago de Cordisburgo, foi aplaudido de pé por um auditório cheio à cunha – bem se lembra a esposa do conferencista, Sra. Maria Gonçalves Ribeiro, lá presente. Era Minas, pela sua Academia hoje centenária, agradecendo a Alaor Barbosa por aquela sua magnífica “Sinfonia Minas Gerais”. Aliás, Alaor Barbosa tem sangue mineiro, pela vertente paterna, e paulista, pela vertente materna.

Vou concluir, meus caros amigos.

E quero concluir declarando que Alaor Barbosa, pelo seu trabalho, seu talento extraordinário, próprio dos gênios, seu engenho e arte, alçou-se à condição de um dos maiores escritores brasileiros contemporâneos. Pertence à sua bucólica Morrinhos, pertence a Goiânia, a Goiás, a Brasília, mas transcendeu até se firmar como grande escritor nacional.

Sua obra, de excepcionais qualidades de estilo e invenção, de criatividade, de tocante lirismo e forte dramaticidade, de pesquisa, de metalinguagem, sua obra – repito – engrandece uma nação.

É, pois, com grande alegria e sinceramente honrado, escritor Alaor Barbosa, que os veteranos confrades desta Academia de Letras do Brasil o recebemos nesta noite e nos sentimos altamente honrados, com sua presença entre nós, na cadeira nº XXX, tendo como Patrono Érico Veríssimo, glória de Cruz Alta, do Rio Grande do Sul e do Brasil.

Escreveu o inimitável Eça de Queiroz que “um bom livro regozija o espírito”. Frase singela e verdadeira. Eu direi agora, perante esta ilustre assembléia de cultores da literatura e admiradores do novo acadêmico, nesta tertúlia que ficará nos anais da Casa: a obra já publicada de Alaor Barbosa realmente regozija o espírito e nos transporta a mundos vários e encantados, desde a aurora de sua vida, na sua já mítica Morrinhos, onde nasceu e morou o menino Rafael Noronha, de “Uma Lenda”...

Seja muito bem-vindo, grande escritor brasileiro Alaor Barbosa!

Laus Deo!

Danilo Gomes

Brasília, 9/ 9/ 2010.
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